Pornô feminista em pauta

É possível criar uma narrativa sexy sem recorrer aos padrões sexistas e heteronormativos

“Pornô feminista é sobre diversidade, consentimento e igualdade”. Foi com essa fala que a Sexóloga e Doutora em Comunicação, Laura Méritt, abriu a quinta edição da PorYes – Premiação para Pornôs Feministas na Europa. O evento, que acontece a cada dois anos em Berlim, trouxe diretores e atores de diferentes continentes para falar não só sobre pornografia mas também sobre diversidade e educação sexual.

As cenas de sexo que fizeram a plateia rir, calar e, é claro, se excitar (eu suponho pelo menos…) tinham uma missão clara: mostrar que é possível criar uma narrativa sexy sem recorrer aos padrões sexistas e heteronormativos. Enquanto cenas de atos bizarros em que atrizes são humilhadas em prol do prazer masculino circulam livremente pela internet, o pornô feminista luta para conseguir seu espaço com cenas de muito “amor próprio” (se é que vocês me entendem), de orgasmos e ejaculação feminina e de sexo como ele é – ou seja, com momentos sensuais, emocionais, desajeitados e até, e porque não, engraçados.

Além disso, o pornô feminista também quer questionar não só estereótipos de gênero, mas de raça e cultura, ao afirmar com sua linguagem visual que nem sempre vamos seguir o papel que nos foi designado. Bishop Black, um dos atores queer ganhadores da Ostra de 2017 (prêmio do evento), por exemplo, mostra que nem sempre o homem negro vai exercer o papel de macho dominante no sexo. O ator inglês trabalha há 9 anos com pornografia e já fez filmes vestido em drag, com homens gays, com pessoas não-binárias, com mulheres hetero e homossexuais. É uma variedade de filmes fora do padrão que ele nos apresenta! Em “Having my Cake” da diretora *Morgana Muses, por exemplo, Bishop aparece vestido de mulher – com uma peruca rosa, vestido perto e salto-alto – e embarca nos jogos de dominação de uma senhora de uns 50 anos (a própria Morgana, no caso) em quarto de hotel em Paris, tendo como acessórios (além dos sexuais) muito bolo e macarons.

[caption id="attachment_16393" align="aligncenter" width="672"] Bishop Black questiona em seus filmes padrões de raça e gênero[/caption]

A produtora musical e diretora, Sky Deep, também toca no assunto raça em seu filme, mas de outra maneira. Em seu primeiro filme erótico queer, Sky consegue incluir a história de escravidão nos Estados Unidos em uma narrativa fantástica e kinky. Ao receber sua Ostra, Sky disse que história é empoderamento e por isso foi importante inclui-la em sua produção.

Em “Enactone“, a diretora faz o papel de uma mulher que se tornou uma vampira depois de ser assassinada durante a escravidão. Quando chega à Europa, ela passa a viver em um cemitério e a sentir uma atração por sangue orgásmico.  Ou seja, ela mata suas presas enquanto lhes dá prazer.

Assim como Enactone, outros filmes exibidos na noite da premiação também passaram longe dos padrões conhecidos da indústria pornográfica. Ao invés de mostrar mulheres como ferramentas do prazer masculino mostrado em filmes mainstream, Dorrie Lane revela em seus documentários mulheres que não são nada passivas ou submissas, até porque são elas as donas do próprio prazer.

A educadora sexual de São Francisco, nos Estados Unidos, e criadora das vulva puppets (vaginas de pelúcia usadas na educação sexual) começou a filmar no início dos anos 90 apenas porque queria descobrir se a experiência de outras mulheres com masturbação se assemelhava à sua. Em uma séria documental chamada “Memoirs”, ela entrevista mulheres de diferentes idades, classes e raças que contam como elas começaram a se masturbar e quais são as suas fantasias nesse momento consigo mesmas. Depois da conversa, as mulheres se masturbam em um cenário que condiz com essas suas fantasias. Durante as filmagens, enquanto as entrevistadas se divertiam, Dorrie segurava a câmera entre as pernas delas, de frente para suas vaginas, revelando toda a reação durante o orgasmo. “Eu queria dizer com isso que nós somos diferentes e que nossas vulvas também são diferentes. Todo o trabalho era sobre amor próprio e respeito consigo mesma, porque não importava a aparência daquelas mulheres, elas estavam se dando prazer”, afirma Dorrie.

[caption id="attachment_16394" align="aligncenter" width="751"] Dorrie Lane criou as vulva puppets nos anos 90 para falar de sexo com sua filha[/caption]

Mulheres tendo prazer, sejam como atrizes ou espectadoras, também é o principal elemento das produções da diretora australiana Ms. Naughty, que assim como Dorrie Lane e Bishop Black também recebeu uma Ostra no PorYes 2017. Quando começou no ano 2000, ela e uma amiga faziam apenas uma curadoria de filmes que podiam ser atraentes para mulheres heterossexuais e publicavam no site ForTheGirls. Percebendo que ainda faltava na indústria filmes feitos com uma perspectiva feminina – e feminista –, Ms. Naughty começou a fazer filmes por conta própria. Hoje, ela e seu marido produzem filmes com atores profissionais e casais reais para o público feminino e heterossexual e os publicam no site BrightDesire.

[caption id="attachment_16395" align="aligncenter" width="750"] Cena do filme Trinity de Ms. Naughty, conhecida como a “rainha da diversidade”[/caption]

Na noite da premiação, Ms. Naughty foi apresentada ao público como “rainha da diversidade”, já que inclui pessoas diferentes de raças e orientações sexuais em seus filmes. Ela diz que ela nunca procurou encontrar um tipo determinado de ator ou atriz para trabalhar e que a diversidade em seus filmes é um resultado da variedade de pessoas que a procura interessados em trabalhar com a BrightDesire.

Apesar de as gravações serem feitas apenas em um quarto de hotel ou num apartamento, eles não passam a ideia de serem low budget. E nem parecem encenados. A diretora faz questão de deixar as pessoas que trabalham com ela à vontade para fazer o que eles querem durante o sexo, sem script ou interrupções, só, é claro, com o consentimento mútuo. “Na última gravação com um casal real que fizemos, eu só fiz uma entrevista com eles antes e depois deixei eles transarem como se eu não estivesse ali”, conta.

Além de Dorrie Lane, Ms. Naughty, Bishop Black e Sky Deep também receberam Ostras no PorYes 2017 a ativista e autora espanhola Maria Llopis e a canadense Chanelle Gallant por seu trabalho como ativista pelos direitos de mulheres que trabalham na indústria do sexo e por ter criado o Festival de Pornô Feminista de Toronto.

Pornografia como forma de educação

Encontrar filmes pornôs hoje em dia é muito fácil. Basta uma adolescente buscar por palavras chaves no Google que ali está. As coisas mais bizarras podem aparecer e ser vistas de graça na internet graças à era da digitalização. E são com essas imagens bizarras – e outras mais normaizinhas – que muitas vezes jovens têm seu primeiro contato com o mundo do sexo. Imagens que perpetuam ideias erradas de como o corpo feminino deve ser e de como ele deve se comportar e ser tratado durante o sexo. É exatamente por isso que as mulheres engajadas na cena de pornografia feminista e queer sentem a necessidade de lutar contra o estigma em torno do pornô.

Durante o painel “Precisamos de pornografia feminista também como ferramenta de educação?”, Laura Méritt defendeu que sexo não pode ser um tema proibido dentro de casa, mas tratado abertamente, e que os pais são responsáveis pela pornografia assistida por seus filhos e filhas. Por isso, seria importante saber que tipo de coisa eles estão assistindo e falar com eles sobre isso, explicando, por exemplo, que consentimento é parte importantíssima do ato sexual. Méritt propôs inclusive que os pais recomendassem os sites de pornô feminista e pornô ético aos jovens para que eles possam assistir a conteúdos mais educativos.

Assim como ela, Dorrie Lane também defende que se deve falar de sexo mais abertamente e acredita que seus vídeos podem ser de grande ajuda na educação sexual de jovens e adultos. “Ao invés de só se ensinar métodos contraceptivos e de prevenção a doenças, é preciso falar também sobre o prazer e os aspectos emocionais envolvidos no sexo”, defende Dorrie. A criadora das vulva puppets diz que tem como missão levar conhecimento a jovens e mulheres adultas sobre seus próprios corpos. “Conhecer sua vagina e saber como se dar prazer é empoderamento”. Ela mesma criou a primeira vagina de pelúcia para falar sobre sexo com a filha, na época com 13 anos. “Eu entreguei a ela e só disse que tinha feito aquilo para que ela soubesse de onde veio. Não falei mais nada, ela que veio com as perguntas e essa foi a primeira vez que falamos sobre sexo”, conta Dorrie. Hoje, a diretora de São Francisco viaja pelos Estados Unidos e pelo mundo participando de conferências e compartilhando seu conhecimento, e é claro suas vaginas de pelúcia.

 

*Morgana Muses não foi premiada no festival desse ano, mas é uma diretora que vale a pena conhecer. A australiana deixou a vida de bela, recatada e do lar para se fazer filmes eróticos em Berlim que celebrem a sexualidade em uma idade já mais avançada. Seus filmes são classificados como sex positive e age positive.

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Mais de Débora Backes

Meu primeiro assédio na Realidade Virtual

Tradução do texto em inglês de Jordan Belamire, que sofreu o assédio


Semana passada, eu fui apalpada em um jogo de realidade virtual. Você sabia que isso podia acontecer? Eu não, mas agora já estou bem ciente disso.

Fui visitar meu cunhado e decidimos testar seu HTC Vive, um sistema de realidade virtual. Meu marido e eu estávamos na sua sala de estar da casa em Redwood. Era um dia idílico de 26 graus e nós três nos revezávamos no Vive.

Era minha vez. Eu dei uma última olhada ao redor da sala antes de colocar o enorme equipamento na cabeça. Com ele, entrei em um mundo muito mais bonito do que eu podia imaginar.

Girei o corpo 360 graus para ver tudo. Me empolguei com as fortalezas medievais cobertas de neve do jogo chamado QuiVr, que você joga no papel de um arqueiro que atira em zumbis. Depois de algumas instruções, encontrei o meu ritmo no jogo. Arco e flecha esticados, a postos e eu fiz minha flecha voar e atravessar o crânio de um demônio. Feito!

Nunca tinha visto uma realidade virtual tão real. Eu fiquei tão encantada que não queria mais sair daquele mundo. Para dar mais realidade à minha experiência, meu cunhado me mostrou como chegar ao topo da torre mais alta do jogo. “Agora ande até sair do parapeito”, ele sugeriu. Eu bem que podia tentar… Fui chegando mais perto da beirada, olhando pra aquela convincente queda de centenas de metros. Meu medo de altura começou a bater dentro de mim, e forte. Fechando os olhos, eu dei um passo para fora do parapeito e… nada aconteceu. Eu não cai! Ao invés disso, eu andei pelo ar. Eu era uma deusa. A realidade virtual tinha me ganhado por completo. Ou, pelo menos, era o que eu achava.

ovalha-miniimagem-vrAlguns minutos depois, comecei um novo jogo e escolhi o modo com mais de um jogador, em que outros jogadores aparecem simultaneamente com você no cenário. Cada um deles com uma aparência semelhante a sua: um capacete flutuante segurando um arco em uma mão, enquanto a outra se move livremente. Mantenha essa mão livre em mente…

Enfim, eu estava atirando em zumbis ao lado de outro jogador que tinha o nome de BigBro442. Ele podia me escutar quando eu falava e minha voz era a única coisa que revelava a minha identidade feminina. Fora isso meu avatar era idêntico ao dele.

Entre as ondas de zumbis e demônios, eu ficava esperando o próximo ataque ao lado de BigBro442. De repente, o capacete sem corpo de BigBro442 estava me encarando. Sua mão flutuante se aproximou do meu corpo e ele começou apalpar meu peito virtualmente.

“Para!”, eu gritei. Eu devo ter rido de tão ridícula e vergonhosa era aquela situação. Afinal, mulheres devem ficar de boa e encarar qualquer forma de abuso sexual com uma risadinha. Mas mesmo assim, eu mandei ele parar.
Isso só o atiçou. Mesmo depois que sai de perto, ele me seguiu, fazendo menção de agarrar e beliscar meus peitos. Ele até enfiou a mão na minha vagina virtual e começou a esfrega-la.

E ali estava eu, sendo assediada virtualmente em uma fortaleza medieval, com meu cunhado e meu marido assistindo.

Quando o abuso foi progredindo, minhas piadas ridicularizando BigBro442 se tornaram comentários raivosos, apimentados com obscenidades frustradas. No começo, meu cunhado e marido riram comigo da situação – tudo o que eles podiam ver era o assédio pela tela do computador. Do lado de fora do mundo do QuiVr, o acontecido deve ter parecido engraçado pra eles – e definitivamente irreal.

Lembra quando comentei como aquela queda de centenas de metros parecia ser super real? Pois é. Adivinha só. O assédio virtual pareceu tão real quanto.

Claro que você não está sendo tocada fisicamente, mas é a mesma sensação: você sabe que não está de fato a centenas de metros do chão, mas mesmo assim fica com medo. Meu sentimento de grandeza do início do jogo murchou. Eu passei de uma deusa que caminhava sobre o ar a uma mulher indefesa, perseguida por um avatar chamado BigBro442.

Eu não era uma jogadora tão experiente como BigBro442. Pra todo lugar que eu ia, ele aparecia atrás de mim, pronto pra me tocar assim que a onda de zumbis tivesse terminado. Eu já estava cansada disso! Com um último sinal obsceno, eu tirei o equipamento da minha cabeça e voltei para a sala ensolarada e familiar do meu cunhado. O que foi isso? Eu não durei três minutos no modo com vários jogadores sem ser assediada virtualmente.

O pior é que tudo pareceu muito real, agressivo. Isso pode parecer ridículo para quem nunca esteve na beira de uma queda virtual e olhou pra baixo. Mas se você já esteve, talvez comece entender. A perseguição e o assédio virtual aconteceram há uma semana e eu ainda não consigo parar de pensar nisso.

Agora que o choque passou, tenho me questionado sobre a misoginia incontida criada pelo anonimato no jogo. É fácil desconsiderar as ofensas vulgares de jovens adolescentes, mas eu não acho que isso seja tão raro assim.

Como é possível que meu cunhado tenha jogado com outros jogadores em tempo real, centenas de vezes, sem nenhum incidente do tipo, mas que a minha voz feminina tenha provocado um comportamento tão lascivo em questão de minutos?

Com a Realidade Virtual se tornando cada vez mais real, como podemos decidir qual o limite entre um simples incômodo e um assédio sexual? Eventualmente, vamos precisar de regras para domar o velho oeste dos jogos de RV com jogadores simultâneos. Ou esse vai se tornar mais um lugar em que mulheres não ousam se aventurar?

Mulheres são permitidas, é claro, mas os BigBro442 do mundo vão fazer o possível para que você não queira voltar nunca mais.
 
Ilustrações feitas com exclusividade por Thais Cortez (Emily).
 

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