Assista: Raw

Um filme que propõe questionar a natureza humana, e sua inerente monstruosidade, através da vivência de uma jovem mulher

A Ovelha já indicou Raw em um post em que recomendamos diversos filmes de terror dirigidos e protagonizados por mulheres, escrito pela Fabi Oda. Porém, com o Halloween chegando, acreditamos que Raw merece uma resenha só pra ele.


 

Sinopse

Justine – interpretada de forma genial e intensa por Garance Marillier – não questionou seu futuro como estudante de veterinária; muito em função de seus pais serem veterinários e terem cursado a mesma instituição, ou mesmo por ter sido criada desde pequena como vegetariana e assim é visível sua empatia com os animais – senão também, a imensa sensação de reconhecimento neles.

Todavia, o que Justine não esperava, era todo conforto na lembrança familiar ser logo arrebatado pela sua nova vida, sendo tal início marcado por um ritual de passagem que não escolheu fazer parte: o trote de faculdade obrigado à todos os calouros, dentre os abusos, todos deviam comer carne crua de coelho. Justine resiste, mas logo entende que precisa fazer parte, e cede.

Como consequência da ingestão, no mesmo dia ela adoece, e seu corpo entra num estado de alergia e contaminação alimentar intenso como efeito colateral, mas nesse processo é também despertada um desejo crescente por mais carne; logo, torna-se difícil diferenciar se ela passa por uma febre de repulsa, ou uma febre de abstinência. Por mais que tente resistir, a fome está instaurada e só há sossego quando é sanada, isso através da primeira vez que Justine experimenta a carne humana. Porém, o que ela agora começa à entender, é que a fome continua.

 

Direção feminina em gêneros de suspense e terror

Tão fascinante quanto o filme, é sua diretora Julia Ducournau. Em 2011, ela dirigiu um curta-metragem chamado “Junior” – também protagonizado por uma muito mais jovem Garance Marillier – sobre uma garota que começa à trocar de pele após ser picada por um inseto. Todas suas protagonistas são mulheres, e todas subvertem o estereótipo contido ao feminino em filmes de terror.

Ela explica seu fascínio pela carne como algo que herdou por ser filha de médicos (seu pai é dermatologista, e a mãe é ginecologista), sendo que busca na película uma forma de provocar reflexões sobre a falta de controle que temos biologicamente sobre nossos corpos, que possui autonomia biológica para tanto realizar mutações, ou mesmo responder ao instinto. Ainda, como tudo isso gera questões na construção identitária. Pois, o quanto eu sou meu corpo? Ou o quanto meu corpo sou eu?

Para a criação de “Raw”, Julia diz que sua maior motivação era criar uma personagem canibal no qual fosse possível a conexão e empatia, ou mesmo representá-la em estados tremendos de fragilidade ou delicadeza, mas mesmo assim não havendo escolha senão sucumbir aos seus desejos.

Fazendo um paralelo com o filme “Neon Demon”, lançado no mesmo ano e dirigido por Nicolas Winding Refn, é possível ver como o tema canibalismo na vivência feminina pela visão de um diretor homem é representada através de uma força sexual descontrolada, movido pela luxúria e prazeres da carne. Enquanto foi completamente muito mais instigante – e um alívio – poder ver o tema trazido por uma diretora mulher, pois em “Raw” a temática canibalismo é trazida através de uma jovem protagonista mulher lutando contra sua natureza instintiva, a monstruosidade inerente à todo indivíduo, e ainda, tudo aquilo que nos consome e que desejamos consumir.

Assim, discordo totalmente da opinião de que o canibalismo de Justine é movido por sua “entrada na sexualidade”, não, Justine é um ser sexual simplesmente por isso ser natural à sua condição humana. Precisamos parar de fetichizar a vivência de mulheres como se o sexo fosse sempre o principal ponto de guinada em seus arcos históricos. O sexo é apenas bode expiatório da personagem para sufocar seus verdadeiros anseios. O canibalismo é a entrada na construção de seu verdadeiro “eu”, é o início na jornada de sua verdadeira história.

Se trata da perda de inocência através de entender como o mundo também pode ser cruel, e como nós mesmos podemos ser criaturas com vontades monstruosas.

 

Mulher x Animal: relações de poder

Há vários momentos no qual é possível ver o corpo frágil e esquálido de Justine, em relação à corpos vigorosos de cavalos sendo estudados na universidade de veterinária. Esse paralelo é trazido à tona exatamente para revelar a natureza instintiva de ambos, mas como cada qual está igualmente enclausurados: seja pela moral, seja pela homem. Além disso, há pequenas discussões que tratam de abuso e consentimento por animais, além de toda a questão sobre o vegetarianismo/veganismo no filme, no qual me lembrou discursos feministas sobre a política sexual da carne, estruturas de poder e abolicionismo.

 

Raiva: descontrole na não-escolha

Desde quando os pais de Justine a deixam no campus da universidade, ela vivencia situações seguidas de violência vinda de terceiros. Seja física, verbal, ou emocional, e é como se ela não tivesse força para revidar, ou mesmo estivesse aprendendo à sobreviver nessa nova perspectiva. Ainda, principalmente homens são algozes dessas situações, e principalmente esses, são aqueles mortos e ingeridos; o que sustenta ainda mais a compreensão de que o canibalismo também surge como a única, incontrolável e instintiva forma de defesa da personagem contra tudo aquilo que há oprime.

 

Irmandade feminina: Justine e Alexia e Mãe

Há uma personagem essencial que percorre o viés da história inteira, e que compartilho bem pouco (ou quase nada) pois o arco de sua construção é simplesmente a cereja do bolo deste filme. Assim, só digo que há cenas emocionantes no qual a irmandade do feminino é simplesmente imensa, e principalmente a amizade entre mulheres é representada de forma subversiva, ao mesmo tempo amorosa e acalentadora.

Ainda, é incrível a força da mãe de Justine, que transborda à uma personalidade controladora e castradora, mas intensa e objetiva. Enquanto isso, o pai parece emasculado por todas essas presenças femininas e ainda servil, no final, esse cenário é algo que percorre todo o filme: o masculino sucumbindo à força do feminino.

Como mulher racializada, me incomoda e é preciso sim ser feita a crítica de que os únicos indivíduos racializados são coadjuvantes e em papéis duvidosos.

Porém, “Raw” é uma redenção à todo exploração feminina no gênero de terror. Julia Ducournau é um alento em seu ímpeto de propor obras com protagonistas mulheres complexas e humanas, em vivências plurais de suas decadências e desejos. E que esta seja a ponta do iceberg de um contemporâneo possível de cada vez mais vermos diretoras e protagonistas produzindo, interpretando e criando filmes que ampliem as vivências do feminino em muito além.
 

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Cindy Sherman e a subversão da “selfie”

Cindy Sherman é principalmente uma multi-artista. A fotógrafa e diretora nova-iorquina transborda por inúmeras plataformas, e através de um olhar irônico, grotesco e imaginativo diante do cotidiano, utiliza o próprio corpo como base para extravasar e materializar personagens existentes em realidades possíveis porém imaginárias.

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Para personificação de múltiplas personalidades, o processo de Cindy vai desde a experimentação em seu próprio corpo de prostéticos para modificação corporal e maquiagem, até uma pesquisa genuína diante do contexto emocional que circunda tais personas.

Este repertório imagético e psicológico guia a postura, olhar e feições da artista quando está diante das câmeras, o que torna a maioria destes auto-retratos assustadores, na conclusão de que podem ser inúmeras as presenças, porém há apenas uma artista.

Cindy já personificou socialites americanas, divas góticas de Hollywood, palhaços assustadores porém humanos, peruas fashionistas. Ela deixou a mídia e o público horrorizados com seu lado grotesco em uma série de fotografias que apresentavam vômito, secreções corporais e sangue – falsos – em composição plástica.

Se não bastasse, ainda interpretou Maria Callas na ópera “Prima Donna” assinada por Rufus Wainwright, colaborou com marcas como Comme des Garçons, M.A.C e ChanelJohn Waters à entrevistou para o catálogo de sua retrospectiva no MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York – disponível on-line), e em 2011, sua obra “Untitled #96” foi leiloada pelo valor mais alto pago à uma fotografia na história, no valor de $3.89 milhões de dólares. Sendo assim, uma das mais bem pagas artistas mulheres da atualidade.

Quanto mais perfeito o artista, maior é a distância entre o indivíduo que sofre e a mente que cria.

Tradução da citação “[…] but, the more perfect the artist, the more completely separate in him will be the man who suffers and the mind which creates”, T.S. Eliot (1888-1965) em “The Sacred Wood” (1921).

No livro “A Vida dos Artistas” (2009), o crítico norte-americano Calvin Tomkis quota o poeta modernista T.S. Eliot para sucintar quão surpreendente é a imensa calma na pessoa da artista, em relação à sua obra subversiva e que causa desconforto para alguns.

Porém, a multiplicidade de Cindy denota uma mente exaustivamente receptiva, que guia a curadoria cuidadosa em seu olhar para compreender e identificar onde está a expressão contemporânea real de sua obra, ainda, como tudo pode ser subjetivo e possível: as ferramentas, as realidades, a criação em si.

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No início de agosto, Cindy Sherman tornou público sua conta no Instagram – até então privada, mesmo existente desde outubro de 2016 – com dezenas de novas imagens representativas ao seu trabalho, ao meio de muitas outras fotografias cotidianas e relacionadas à sua vida pessoal. Assim, o que torna esse repentino “retorno” emocionante, está exatamente no fato das margens diante do que realmente é o lugar da arte e quais suas plataformas ideais estarem novamente borradas.

O digital expandiu as possibilidades de criação da artista que, além da maquiagem e figurino usados normalmente, agora têm aplicado filtros do Instagram e Snapchat, e também utilizado os app’s Facetune e Perfect365 – segundo o jornal The New York Times – para enriquecer suas personificações e modificações corporais com distorções de efeito fish-eye, maquiagens aplicadas digitalmente por facetrack, multiplicadores de faces, e outros efeitos que beiram o bizarro, e com isso demonstram o quanto a própria artista consegue se reinventar.

High on life

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Seja em auto-retrato ou “selfie”, a obra de Cindy é gigantesca, e igualmente importante é sua representatividade criativa como artista mulher na arte contemporânea e mercado de arte, principalmente na vigência da decaída de estruturas patriarcais que ainda inviabilizam a obra de mulheres artistas.

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Ainda, a internet têm sido principal ferramenta de expansão para jovens criadores, e a possibilidade de embasamento desta plataforma por artistas consagrados, permite que cada vez mais as vias de visibilidade e vocalização sejam plurais e dinâmicas.


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