Uma conversa sobre assédio

Ilustração por Fernanda Garcia (Kissy) exclusivamente para a Ovelha
Ilustração por Fernanda Garcia (Kissy) exclusivamente para a Ovelha

Existe um conceito latente em nossa sociedade que nós, mulheres, aprendemos já crianças, e que nos afeta durante o resto da vida. É a ideia de que o corpo feminino é algo público, não só para ser olhado e avaliado (muitas vezes em voz alta), como também tocado.

O que eu estou dizendo não é novidade. Todas nós sabemos muito bem o que é ter o nosso espaço pessoal invadido – não preciso nem citar exemplos. E eventualmente incorporamos essas violências na nossa rotina e aprendemos pequenas ferramentas de sobrevivência. Mas mesmo assim, pelo menos para mim, ainda sobram muitas dúvidas – se estou reagindo ao assédio do “jeito certo”, se estou fazendo tudo que posso fazer, como não deixar a raiva entrar no peito e ficar. Como acho que essas são dúvidas que todas nós temos, convidei uma amiga (a G.) para conversar um pouco sobre o assunto – não para tentar achar respostas, mas para pensar mais sobre as perguntas, e ver que não estamos tão sozinhas.

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B: Eu comecei a escrever um post para a Ovelha sobre assédio e como não deixar a raiva que você sente na hora atrapalhar a sua existência, mas enquanto escrevia percebi que não tenho a resposta para essa pergunta, de forma alguma! Por isso quis convidar você para conversar um pouco sobre o assunto e falar sobre as dúvidas que sinto. Eu tive a ideia para este post um dia que eu fui em uma festa com a perna imobilizada (eu estava com o ligamento rompido). Uma hora veio uma menina e começou a encostar na minha perna, e eu fiquei muito brava e comecei a falar: “Para de encostar em mim, não encosta em mim, você não me conhece”. Foi uma situação extremamente chata. Eu percebi que na minha vida, agora, eu sinto um pouco de dificuldade em diferenciar quando é ok a pessoa encostar em mim e quando não é ok, por conta de trauma e por isso ter tomado um peso tão grande.

Às vezes quando eu estou na rua e um cara fala alguma coisa eu dou uma olhada feia e tal, mas eu sei que se eu for responder eu vou ficar estressada com isso o dia inteiro. Vou ficar lembrando do que eu falei, e que o cara foi escroto, e por isso eu parei de responder.

B: O outro dia eu estava em um bar escrevendo e meu amigo havia deixado o violão dele na mesa comigo. Um cara que estava parado atrás de mim simplesmente pôs a mão no meu ombro e falou “O quê você está escrevendo, música?”. Eu fiquei super desconfortável, e acho que isso é uma situação onde dá para ficar desconfortável. Mas por outro lado, quando amigos que eu já não conheço tanto me abraçam eu também fico desconfortável, por que isso pilhou tanto que encostar em mim virou um negócio. Eu acho que a gente só deveria deixar as pessoas encostarem na gente quando a gente está confortável com a ideia, mas percebo que muitas vezes eu não tenho nada contra a pessoa encostar em mim, até que ela de fato encoste, e aí vejo que eu não consigo lidar. Outra coisa que não sei mais como lidar é com como responder alguém que está me assediando. Por exemplo, quando a gente está andando na rua e alguém assedia e o primeiro instinto é gritar e falar “Vai se fuder, não fala assim comigo” etc. Mas depois eu sinto uma carga de ódio muito grande dentro de mim, e isso me afeta muito. Você falou que você parou de gritar com as pessoas na rua quando elas te assediam, por que isso aconteceu?

G: Isso na verdade tem a ver com uma postura minha. Antes eu usava roupas muito mais curtas e por conta do trabalho eu tenho usado roupas mais comportadas, e por isso muito do assédio que tinha antes parou. Esse macaquinho eu comprei no final de semana, mas não era a minha primeira opção de roupa. Minha primeira opção era uma saia bem comprida, mas ai eu pensei “Por que eu estou comprando um monte de roupa comprida sendo que eu sempre comprei roupa curta?”. Tanto que eu comprei até para voltar a usar as roupas que eu usava antes. Eu acho que parei de usar roupas curtas primeiro por não me sentir mais tão confortável por conta do assédio, e segundo, por causa do trabalho (é natural que você não vá usar um shorts numa reunião com cliente). Eu comecei a ficar muito estressada de ter que ficar respondendo sempre e pensar que a minha reação era tão importante. Eu sempre achei que a minha reação ia ter um efeito muito grande na outra pessoa, e muitas vezes teve, como aquela vez em que eu falei com o cara do posto de gasolina. Só que, mesmo naquela vez, acabou gerando uma situação chata, porque era um lugar onde eu passava todo dia e eles sempre falavam bom dia e era um negócio legal porque eu sempre falava oi para pessoas que eu via no meu caminho, e depois disso ficou uma situação incrivelmente chata, onde eu passava e ele fazia cara feia, e os outros caras do posto não me cumprimentavam mais. Acabou gerando uma situação que eu pensei “Tá, será que eu preciso disso?”. Às vezes quando eu estou na rua e um cara fala alguma coisa eu dou uma olhada feia e tal, mas eu sei que se eu for responder eu vou ficar estressada com isso o dia inteiro. Vou ficar lembrando do que eu falei, e que o cara foi escroto, e por isso eu parei de responder.

Eu comecei a entrar em um dilema, porque muitas vezes eu não tinha mais vontade de responder, porque eu ia ter que carregar aquela raiva pelo resto do dia. Mas eu também me sentia péssima de não responder, como se eu tivesse a obrigação de responder.

B: Eu tenho muito isso também. Uma coisa que eu sempre fazia era gritar muito alto para tentar fazer a pessoa passar vergonha. É que antes eu não falava absolutamente nada, então foi muito natural para mim quando eu comecei a falar isso virar um veículo para toda a raiva que eu sentia. Ainda mais porque quando você não fala nada, existe uma coisa muito forte de você se sentir invisível, então eu era extra raivosa para me sentir extremamente visível. No começo, eu acho que foi necessário e foi muito bom, e me ajudou a me firmar. Só que depois de um tempo acontecia de eu simplesmente estar carregando aquela raiva dentro de mim. Tipo, a pessoa falava uma besteira, eu xingava ela, o cara quase sempre me xingava de volta, e daí eu virava a esquina tremendo e me sentindo feliz de ter falado alguma coisa, mas era muito ruim ter que carregar aquilo pelo resto do dia. Eu percebi que depois que eu comecei a responder eu comecei a sofrer menos assédio. Eu não sei se mudou alguma coisa na minha postura. Pode ser também. Eu realmente espero que o assédio tenha de fato diminuído por isso ter se tornado uma coisa mais amplamente discutido, e eu realmente sinto que ultimamente tem sido. Eu comecei a entrar em um dilema, porque muitas vezes eu não tinha mais vontade de responder, porque eu ia ter que carregar aquela raiva pelo resto do dia. Mas eu também me sentia péssima de não responder, como se eu tivesse a obrigação de responder. Se a pessoa fala alguma coisa, sinto que eu tenho a obrigação de constranger ela, já que ela me constrangeu, para ela não passar impune. E é um dilema muito grande isso. O que fazer? Eu realmente não sei o que fazer.

G: Tem vezes que você está mais cansada, até sobre o assunto, e você não está afim de responder. Um exemplo disso é o tema ‘bicicleta’. Eu nem fui no primeiro protesto a favor das ciclovias, só dei uma passada. Eu estava muito cansada de ficar insistindo em uma coisa que eu acredito e sempre acontecer várias merdas. Mas aí eu fui no segundo e a liminar foi derrubada. Então isso foi um lembrete para mim, porque eu estava tão descrente. Ultimamente quando um cara fala alguma coisa na rua, quando sinto um olhar esquisito, eu penso “Ah, foda-se, tô cansada, não aguento mais, não quero responder”. Isso foi um lembrete de que a reação também é importante. Você não deixar isso acontecer também é importante. Eu tenho certeza que aquele cara do posto pensou duas vezes antes de ir ‘brincar’ com uma menina, ou tomar uma liberdade que ele não tem. Ou às vezes ele ficou puto na hora, mas depois ele até pensou sobre isso. Ele foi educado para fazer isso a vida inteira, então ele não acha que é um problema, e nem pensa sobre o impacto disso na vida das outras pessoas.

[caption id="attachment_3269" align="aligncenter" width="500"]Ilustração animada por Fernanda Garcia (Kissy) GIF por Fernanda Garcia (Kissy)[/caption]

 

B: Eu lembro que a primeira vez que eu respondi para um cara na rua eu tentei explicar para ele que o que ele estava fazendo era errado. Eu até cheguei e falei “Oi, desculpa, eu sei que você acha que o que você tá fazendo é certo”. Só que a pessoa não quer ouvir, é uma bosta isso. Então você é forçada a reagir de forma raivosa. Ultimamente eu tenho me perguntado qual é a maneira eficiente de fazer alguma coisa. Mas talvez não tenha uma resposta, talvez seja de situação em situação.

G: É, depende muito do caso. Tem vezes que você tem a liberdade de voltar e falar com a pessoa, tem vezes que você vê a pessoa e pensa ‘Eu só vou conseguir explicar o meu desconforto com uma piada, ou ridicularizando ele’. Tem vezes que você vê que você só vai conseguir explicar retrucando com ódio. Tem cara que está fazendo aquilo para te constranger. Ele sabe que aquilo é errado, que aquilo vai te deixar chateada, mas ele faz e esse é o objetivo dele, essa é a graça do assédio para ele. Aí se você virar para ele e falar alguma coisa mais raivosa às vezes é mais eficaz que ir lá conversar com o cara. Mas tem cara que está fazendo porque nunca parou para pensar sobre isso, e se você virar para ele e explicar porque isso te constrange ele vai pensar. Tem gente que está aberta, mas tem gente que quer exercer poder sobre você, e você só vai conseguir lutar contra isso se você mostrar que também consegue exercer poder sobre ele, que ele não é nada superior a você só porque ele quer te constranger.

Colocamos essa pressão em nós mesmas para ser essas superfeministas que nunca vão falhar a humanidade ou falhar a nova geração de feministas, e dai é bom saber que não existe uma resposta certa, que existem jeitos diferentes de fazer as coisas e que a gente nunca vai acertar sempre.

B: Eu sempre lembro de dois casos muito bizarros que aconteceram comigo de ser assediada por grupos de meninos de 12 anos. Isso aconteceu duas vezes e foi muito estranho. E na primeira vez foram muitos meninos, uns seis meninos. Eles vieram e começaram o assédio, e eu xinguei eles, e eles ficaram muito bravos e começaram a me xingar de volta. Depois eu fiquei pensando, eu não deveria ter xingado eles. Deveria ter virado e falado “Escuta, o que você está fazendo? Não é certo o que você está fazendo”. Eu não sei se eles teriam me ouvido, porque eles estavam em muitos, e geralmente jovens quando estão em muitos não estão dispostos a ouvir. A segunda vez eu estava perto do trabalho e passaram esses três meninos e começaram com a mesma conversa. Eu virei e fiquei olhando feio para eles. Eles pararam, e quando eu olhei para frente para continuar andando um meio que continuou, e o outro mandou ele calar a boca. Depois eu fiquei pensando que eu deveria ter falado alguma coisa para eles. Eu acho que teria um espaço de escuta. Eu deveria ter sido mais observadora do que seria uma boa reação. Tudo bem, eles ficaram constrangidos. Espero que eles não façam isso de novo, mas pode ser que eles façam. Pelo que eu senti, era uma espécie de ‘ato de desafio à autoridade’. Mas assediar pessoas não deveria ser um desafio à autoridade.

G: Mas acho que só de você ter olhado feio já serviu para alguma coisa.

B: Eu espero que sim. Eu acho que às vezes a gente sente muita pressão para ser supermulheres. Toda vez que eu sou assediada na rua eu penso ‘Eu preciso constranger esse homem porque senão ele vai fazer isso com outras mulheres, possivelmente uma menina de quatorze anos que nem eu era quando era assediada na rua e achava que não podia fazer nada’. Ou eu penso em como eu só aprendi que eu poderia responder o dia que eu vi você respondendo. Antes eu nunca achei que isso fosse uma possibilidade. Então eu sinto como se tivesse uma responsabilidade social de fazer essas coisas. Eu fico muito triste porque eu sinto muita raiva e é muita pressão quando o assédio acontece, mas eu sinto que eu preciso responder. Por isso achei legal conversar com você sobre isso, acho que a gente acaba se sentindo muito sozinha. Colocamos essa pressão em nós mesmas para ser essas superfeministas que nunca vão falhar a humanidade ou falhar a nova geração de feministas, e dai é bom saber que não existe uma resposta certa, que existem jeitos diferentes de fazer as coisas e que a gente nunca vai acertar sempre.

Hoje, por mais que o assédio na rua pareça ter diminuído, todos os outros pontos de contato do machismo continuam. Algumas expectativas dos outros, ou da família. Sempre vai ter alguma coisa, e nem sempre a minha primeira reação vai ser a reação ideal.

G: Eu sempre penso que eu sou uma pessoa que foi criada em uma sociedade machista e o feminismo não veio do berço. Ele veio na adolescência, e mesmo na adolescência ele veio de forma muito preliminar, muito primitiva. Eu só fui realmente pensar nisso mais profundamente na faculdade. Então eu entendo que eu vou ter atitudes machistas, e o importante é consegui identificar elas e ter a vontade de mudar. Eventualmente vamos ter algum resquício disso, principalmente por nós sermos as pessoas afetadas. Hoje, por mais que o assédio na rua pareça ter diminuído, todos os outros pontos de contato do machismo continuam. Algumas expectativas dos outros, ou da família. Sempre vai ter alguma coisa, e nem sempre a minha primeira reação vai ser a reação ideal. E é compreensível se a primeira reação não for a ideal, porque a gente foi criada em uma sociedade machista. Mas o fato de você estar aqui e conversar sobre isso, e pensar sobre isso diariamente, já é uma mudança.

B: É, eu acho que a gente precisa entender que o feminismo é uma coisa em processo, e que se a sua primeira reação não for a ideal, você vai pensar sobre isso e dai na próxima vez ela vai ser mais perto da ideal.

G: Isso. Pensa na primeira vez que você foi responder para um cara. Hoje você tem os traquejos de responder para caras. Hoje, se chegasse um grupo de meninos daquela idade para falar aquelas coisas para você a sua reação nunca seria igual a primeira.

B: Exatamente. Tanto que ela mudou da primeira para a segunda.

G: O meu meio profissional é um meio muito dominado por homens. Só tem homem. Existe um senso comum de que homens irão aguentar a pressão e mulheres não. Mas cara, eu aguento bem a pressão. Sempre vai ter um ponto de contato com o machismo, e a nossa reação vai ser sempre diferente. Mas sempre que eu sou enquadrada em uma situação onde eu sou a oprimida, ou a pessoa menor na situação, eu ajo do jeito que eu agiria normalmente, como se isso não importasse. No final, isso acaba dando certo. É muito difícil você se levantar contra uma situação onde você está sendo oprimido, mas o fato da gente responder muda muito. Você se comportar de um jeito que mostre que é a outra pessoa que está maluca, e não você por estar andando na rua. Eu não sei se eu estou respondendo do jeito certo. Eu nunca sei se uma cara feia vai ser o suficiente, ou se eu preciso ir lá e falar com a pessoa, ou se devo xingar. Eu sei que xingar com certeza não é o ideal, mas tem vezes que eu preciso fazer isso, porque a pessoa está querendo me agredir. Eu não tenho uma resposta do que eu acho que é o ideal na situação. Às vezes até penso que talvez responder nem seja o ideal. Mas, na verdade, acho que é sim.

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Ilustração por Fernanda Garcia (Kissy)

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É machismo sim

Há alguns meses me tornei dona de uma placa com os dizeres “Cunha inimigo número 1 das mulheres” de um lado e “A América Latina vai ser toda feminista” do outro. Recebi de uma mana em uma das muitas passeatas contra o Eduardo Cunha quando ele estava tentando passar a PL5069 – aquelas manifestações lá que deram origem ao que a mídia batizou de “primavera das mulheres”.

Me incomoda bastante o quanto o machismo dessa coisa toda de impeachment tem sido pouco comentada, pouco exposta por nossa mídia. Não é uma questão de apoiar cegamente o governo Dilma por ela ser mulher (ainda estou esperando o direito ao aborto legal que nos foi prometido), mas sim de manter os olhos descascados para o que nessa história está nascendo de um desconforto social em ver uma mulher no poder. Nos Estados Unidos ninguém finge que Barack Obama não é negro, mas no Brasil nos sentimos totalmente confortáveis em fingir que Dilma não é mulher. Que ela estar ocupando o assento que ocupa hoje tem o mesmo significado que teria se fosse um dos 400 homens brancos que ocupam a câmera dos deputados. A mídia brasileira, tão confortável em apoiar golpe, também se sente totalmente a vonts fingindo que cada vez que um deputado diz “Pela família, voto sim” ele não está falando “Como você mulher ousou sair da cozinha e vir para o Planalto?”. A reportagem da Veja (revista que até agora só faltou falar que a cor do batom da presidenta não combina com o terninho dela) sobre a esposa do Michel Temer está ai para provar. Mulher boa, no Brasil, é mulher que fica em casa, mulher educada, mulher quieta que torce para ter um segundo filho. Mulher que é torturada no pau de arara para combater a ditadura aparentemente não tem espaço na graça do brasileiros. O recado que nossos ilustres deputados estão nos dando – e com nós digo todas as mulheres que me lêem – é esse: não abram a boca. Não venham lutar. Não saiam do lugar que nós designamos para vocês. E quem duvidar, é só ouvir o Bolsonaro, tão desesperado com uma mulher no poder, que homenageia a figura de um torturador estuprador. É só se perguntar se esse argumento da família estaria fazendo sentido se fosse Lula, se fosse (deus me livre) Alckmin, os nomes a serem “impeachados” (no melhor português). É só lembrar daquele adesivo de carro grotesco que mostrava Dilma abrindo as pernas para a gasolina (me dá vergonha até de escrever isso). É só ver as milhares, milhares de fotos de homens brancos de meia idade comemorando um golpe de estado “Pelo bem da família”. Um golpe que nos é oferecido pela Bancada do Boi, da Bala e da Bíblia. Pelo bem da família. Familia essa tão ameaçada pela mulher divorciada, mulher que já declarou em entrevista que “o mundo não é para debutante”, que preside o nosso país.

Não derrubamos o Eduardo Cunha na primavera das mulheres. Gostaria de dizer que um dia o destino chama todos nós para a chincha, mas nasci e cresci no Brasil e sei muito bem que isso não é verdade. As chances de não acontecer nada com o Cunha são grandes, maiores ainda do que as razões pelas quais ele deveria estar apodrecendo atrás das grades. Quanto à plaquinha do meu quarto, mantenho ela virada para o lado “A América Latina vai ser toda feminista”. Porque nisso pelo menos eu tenho esperanças sim. Esperança de que, se não na mídia, pelo menos nos nossos corações esteja bem claro o que está acontecendo. E que nossos olhos abertos que tudo veem não permitam que isso seja esquecido.
 

Ilustração feita com exclusividade por Sarah Assaf.
 

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G.) para conversar um pouco sobre o assunto – não para tentar achar respostas, mas para pensar mais sobre as perguntas, e ver que não estamos tão sozinhas.

B: Eu comecei a escrever um post para a Ovelha sobre assédio e como não deixar a raiva que você sente na hora atrapalhar a sua existência, mas enquanto escrevia percebi que não tenho a resposta para essa pergunta, de forma alguma! Por isso quis convidar você para conversar um pouco sobre o assunto e falar sobre as dúvidas que sinto. Eu tive a ideia para este post um dia que eu fui em uma festa com a perna imobilizada (eu estava com o ligamento rompido). Uma hora veio uma menina e começou a encostar na minha perna, e eu fiquei muito brava e comecei a falar: “Para de encostar em mim, não encosta em mim, você não me conhece”. Foi uma situação extremamente chata. Eu percebi que na minha vida, agora, eu sinto um pouco de dificuldade em diferenciar quando é ok a pessoa encostar em mim e quando não é ok, por conta de trauma e por isso ter tomado um peso tão grande.

Às vezes quando eu estou na rua e um cara fala alguma coisa eu dou uma olhada feia e tal, mas eu sei que se eu for responder eu vou ficar estressada com isso o dia inteiro. Vou ficar lembrando do que eu falei, e que o cara foi escroto, e por isso eu parei de responder.

B: O outro dia eu estava em um bar escrevendo e meu amigo havia deixado o violão dele na mesa comigo. Um cara que estava parado atrás de mim simplesmente pôs a mão no meu ombro e falou “O quê você está escrevendo, música?”. Eu fiquei super desconfortável, e acho que isso é uma situação onde dá para ficar desconfortável. Mas por outro lado, quando amigos que eu já não conheço tanto me abraçam eu também fico desconfortável, por que isso pilhou tanto que encostar em mim virou um negócio. Eu acho que a gente só deveria deixar as pessoas encostarem na gente quando a gente está confortável com a ideia, mas percebo que muitas vezes eu não tenho nada contra a pessoa encostar em mim, até que ela de fato encoste, e aí vejo que eu não consigo lidar. Outra coisa que não sei mais como lidar é com como responder alguém que está me assediando. Por exemplo, quando a gente está andando na rua e alguém assedia e o primeiro instinto é gritar e falar “Vai se fuder, não fala assim comigo” etc. Mas depois eu sinto uma carga de ódio muito grande dentro de mim, e isso me afeta muito. Você falou que você parou de gritar com as pessoas na rua quando elas te assediam, por que isso aconteceu?

G: Isso na verdade tem a ver com uma postura minha. Antes eu usava roupas muito mais curtas e por conta do trabalho eu tenho usado roupas mais comportadas, e por isso muito do assédio que tinha antes parou. Esse macaquinho eu comprei no final de semana, mas não era a minha primeira opção de roupa. Minha primeira opção era uma saia bem comprida, mas ai eu pensei “Por que eu estou comprando um monte de roupa comprida sendo que eu sempre comprei roupa curta?”. Tanto que eu comprei até para voltar a usar as roupas que eu usava antes. Eu acho que parei de usar roupas curtas primeiro por não me sentir mais tão confortável por conta do assédio, e segundo, por causa do trabalho (é natural que você não vá usar um shorts numa reunião com cliente). Eu comecei a ficar muito estressada de ter que ficar respondendo sempre e pensar que a minha reação era tão importante. Eu sempre achei que a minha reação ia ter um efeito muito grande na outra pessoa, e muitas vezes teve, como aquela vez em que eu falei com o cara do posto de gasolina. Só que, mesmo naquela vez, acabou gerando uma situação chata, porque era um lugar onde eu passava todo dia e eles sempre falavam bom dia e era um negócio legal porque eu sempre falava oi para pessoas que eu via no meu caminho, e depois disso ficou uma situação incrivelmente chata, onde eu passava e ele fazia cara feia, e os outros caras do posto não me cumprimentavam mais. Acabou gerando uma situação que eu pensei “Tá, será que eu preciso disso?”. Às vezes quando eu estou na rua e um cara fala alguma coisa eu dou uma olhada feia e tal, mas eu sei que se eu for responder eu vou ficar estressada com isso o dia inteiro. Vou ficar lembrando do que eu falei, e que o cara foi escroto, e por isso eu parei de responder.

Eu comecei a entrar em um dilema, porque muitas vezes eu não tinha mais vontade de responder, porque eu ia ter que carregar aquela raiva pelo resto do dia. Mas eu também me sentia péssima de não responder, como se eu tivesse a obrigação de responder.

B: Eu tenho muito isso também. Uma coisa que eu sempre fazia era gritar muito alto para tentar fazer a pessoa passar vergonha. É que antes eu não falava absolutamente nada, então foi muito natural para mim quando eu comecei a falar isso virar um veículo para toda a raiva que eu sentia. Ainda mais porque quando você não fala nada, existe uma coisa muito forte de você se sentir invisível, então eu era extra raivosa para me sentir extremamente visível. No começo, eu acho que foi necessário e foi muito bom, e me ajudou a me firmar. Só que depois de um tempo acontecia de eu simplesmente estar carregando aquela raiva dentro de mim. Tipo, a pessoa falava uma besteira, eu xingava ela, o cara quase sempre me xingava de volta, e daí eu virava a esquina tremendo e me sentindo feliz de ter falado alguma coisa, mas era muito ruim ter que carregar aquilo pelo resto do dia. Eu percebi que depois que eu comecei a responder eu comecei a sofrer menos assédio. Eu não sei se mudou alguma coisa na minha postura. Pode ser também. Eu realmente espero que o assédio tenha de fato diminuído por isso ter se tornado uma coisa mais amplamente discutido, e eu realmente sinto que ultimamente tem sido. Eu comecei a entrar em um dilema, porque muitas vezes eu não tinha mais vontade de responder, porque eu ia ter que carregar aquela raiva pelo resto do dia. Mas eu também me sentia péssima de não responder, como se eu tivesse a obrigação de responder. Se a pessoa fala alguma coisa, sinto que eu tenho a obrigação de constranger ela, já que ela me constrangeu, para ela não passar impune. E é um dilema muito grande isso. O que fazer? Eu realmente não sei o que fazer.

G: Tem vezes que você está mais cansada, até sobre o assunto, e você não está afim de responder. Um exemplo disso é o tema ‘bicicleta’. Eu nem fui no primeiro protesto a favor das ciclovias, só dei uma passada. Eu estava muito cansada de ficar insistindo em uma coisa que eu acredito e sempre acontecer várias merdas. Mas aí eu fui no segundo e a liminar foi derrubada. Então isso foi um lembrete para mim, porque eu estava tão descrente. Ultimamente quando um cara fala alguma coisa na rua, quando sinto um olhar esquisito, eu penso “Ah, foda-se, tô cansada, não aguento mais, não quero responder”. Isso foi um lembrete de que a reação também é importante. Você não deixar isso acontecer também é importante. Eu tenho certeza que aquele cara do posto pensou duas vezes antes de ir ‘brincar’ com uma menina, ou tomar uma liberdade que ele não tem. Ou às vezes ele ficou puto na hora, mas depois ele até pensou sobre isso. Ele foi educado para fazer isso a vida inteira, então ele não acha que é um problema, e nem pensa sobre o impacto disso na vida das outras pessoas.

 

B: Eu lembro que a primeira vez que eu respondi para um cara na rua eu tentei explicar para ele que o que ele estava fazendo era errado. Eu até cheguei e falei “Oi, desculpa, eu sei que você acha que o que você tá fazendo é certo”. Só que a pessoa não quer ouvir, é uma bosta isso. Então você é forçada a reagir de forma raivosa. Ultimamente eu tenho me perguntado qual é a maneira eficiente de fazer alguma coisa. Mas talvez não tenha uma resposta, talvez seja de situação em situação.

G: É, depende muito do caso. Tem vezes que você tem a liberdade de voltar e falar com a pessoa, tem vezes que você vê a pessoa e pensa ‘Eu só vou conseguir explicar o meu desconforto com uma piada, ou ridicularizando ele’. Tem vezes que você vê que você só vai conseguir explicar retrucando com ódio. Tem cara que está fazendo aquilo para te constranger. Ele sabe que aquilo é errado, que aquilo vai te deixar chateada, mas ele faz e esse é o objetivo dele, essa é a graça do assédio para ele. Aí se você virar para ele e falar alguma coisa mais raivosa às vezes é mais eficaz que ir lá conversar com o cara. Mas tem cara que está fazendo porque nunca parou para pensar sobre isso, e se você virar para ele e explicar porque isso te constrange ele vai pensar. Tem gente que está aberta, mas tem gente que quer exercer poder sobre você, e você só vai conseguir lutar contra isso se você mostrar que também consegue exercer poder sobre ele, que ele não é nada superior a você só porque ele quer te constranger.

Colocamos essa pressão em nós mesmas para ser essas superfeministas que nunca vão falhar a humanidade ou falhar a nova geração de feministas, e dai é bom saber que não existe uma resposta certa, que existem jeitos diferentes de fazer as coisas e que a gente nunca vai acertar sempre.

B: Eu sempre lembro de dois casos muito bizarros que aconteceram comigo de ser assediada por grupos de meninos de 12 anos. Isso aconteceu duas vezes e foi muito estranho. E na primeira vez foram muitos meninos, uns seis meninos. Eles vieram e começaram o assédio, e eu xinguei eles, e eles ficaram muito bravos e começaram a me xingar de volta. Depois eu fiquei pensando, eu não deveria ter xingado eles. Deveria ter virado e falado “Escuta, o que você está fazendo? Não é certo o que você está fazendo”. Eu não sei se eles teriam me ouvido, porque eles estavam em muitos, e geralmente jovens quando estão em muitos não estão dispostos a ouvir. A segunda vez eu estava perto do trabalho e passaram esses três meninos e começaram com a mesma conversa. Eu virei e fiquei olhando feio para eles. Eles pararam, e quando eu olhei para frente para continuar andando um meio que continuou, e o outro mandou ele calar a boca. Depois eu fiquei pensando que eu deveria ter falado alguma coisa para eles. Eu acho que teria um espaço de escuta. Eu deveria ter sido mais observadora do que seria uma boa reação. Tudo bem, eles ficaram constrangidos. Espero que eles não façam isso de novo, mas pode ser que eles façam. Pelo que eu senti, era uma espécie de ‘ato de desafio à autoridade’. Mas assediar pessoas não deveria ser um desafio à autoridade.

G: Mas acho que só de você ter olhado feio já serviu para alguma coisa.

B: Eu espero que sim. Eu acho que às vezes a gente sente muita pressão para ser supermulheres. Toda vez que eu sou assediada na rua eu penso ‘Eu preciso constranger esse homem porque senão ele vai fazer isso com outras mulheres, possivelmente uma menina de quatorze anos que nem eu era quando era assediada na rua e achava que não podia fazer nada’. Ou eu penso em como eu só aprendi que eu poderia responder o dia que eu vi você respondendo. Antes eu nunca achei que isso fosse uma possibilidade. Então eu sinto como se tivesse uma responsabilidade social de fazer essas coisas. Eu fico muito triste porque eu sinto muita raiva e é muita pressão quando o assédio acontece, mas eu sinto que eu preciso responder. Por isso achei legal conversar com você sobre isso, acho que a gente acaba se sentindo muito sozinha. Colocamos essa pressão em nós mesmas para ser essas superfeministas que nunca vão falhar a humanidade ou falhar a nova geração de feministas, e dai é bom saber que não existe uma resposta certa, que existem jeitos diferentes de fazer as coisas e que a gente nunca vai acertar sempre.

Hoje, por mais que o assédio na rua pareça ter diminuído, todos os outros pontos de contato do machismo continuam. Algumas expectativas dos outros, ou da família. Sempre vai ter alguma coisa, e nem sempre a minha primeira reação vai ser a reação ideal.

G: Eu sempre penso que eu sou uma pessoa que foi criada em uma sociedade machista e o feminismo não veio do berço. Ele veio na adolescência, e mesmo na adolescência ele veio de forma muito preliminar, muito primitiva. Eu só fui realmente pensar nisso mais profundamente na faculdade. Então eu entendo que eu vou ter atitudes machistas, e o importante é consegui identificar elas e ter a vontade de mudar. Eventualmente vamos ter algum resquício disso, principalmente por nós sermos as pessoas afetadas. Hoje, por mais que o assédio na rua pareça ter diminuído, todos os outros pontos de contato do machismo continuam. Algumas expectativas dos outros, ou da família. Sempre vai ter alguma coisa, e nem sempre a minha primeira reação vai ser a reação ideal. E é compreensível se a primeira reação não for a ideal, porque a gente foi criada em uma sociedade machista. Mas o fato de você estar aqui e conversar sobre isso, e pensar sobre isso diariamente, já é uma mudança.

B: É, eu acho que a gente precisa entender que o feminismo é uma coisa em processo, e que se a sua primeira reação não for a ideal, você vai pensar sobre isso e dai na próxima vez ela vai ser mais perto da ideal.

G: Isso. Pensa na primeira vez que você foi responder para um cara. Hoje você tem os traquejos de responder para caras. Hoje, se chegasse um grupo de meninos daquela idade para falar aquelas coisas para você a sua reação nunca seria igual a primeira.

B: Exatamente. Tanto que ela mudou da primeira para a segunda.

G: O meu meio profissional é um meio muito dominado por homens. Só tem homem. Existe um senso comum de que homens irão aguentar a pressão e mulheres não. Mas cara, eu aguento bem a pressão. Sempre vai ter um ponto de contato com o machismo, e a nossa reação vai ser sempre diferente. Mas sempre que eu sou enquadrada em uma situação onde eu sou a oprimida, ou a pessoa menor na situação, eu ajo do jeito que eu agiria normalmente, como se isso não importasse. No final, isso acaba dando certo. É muito difícil você se levantar contra uma situação onde você está sendo oprimido, mas o fato da gente responder muda muito. Você se comportar de um jeito que mostre que é a outra pessoa que está maluca, e não você por estar andando na rua. Eu não sei se eu estou respondendo do jeito certo. Eu nunca sei se uma cara feia vai ser o suficiente, ou se eu preciso ir lá e falar com a pessoa, ou se devo xingar. Eu sei que xingar com certeza não é o ideal, mas tem vezes que eu preciso fazer isso, porque a pessoa está querendo me agredir. Eu não tenho uma resposta do que eu acho que é o ideal na situação. Às vezes até penso que talvez responder nem seja o ideal. Mas, na verdade, acho que é sim.

Ilustração por Fernanda Garcia (Kissy)

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