Uma pergunta simples e concisa. Nada que não pudesse ser respondido com um “R$ 15”. Fui atendida por dois vendedores, homens. O primeiro me ofereceu três modelos, do menos ao mais confiável, menos e mais caros. Escolhi o intermediário. Ao colocar o produto em um cesto, ele não conseguiu conter mais o olhar preocupado que assumiu desde que eu passei do pedido de um remédio para o teste: “Nossa, boa sorte, tomara que não dê nada”.
Incrédula, dei um meio sorriso, peguei meu cesto e fui para o caixa. Um remédio, dois remédios, uma pastilha Valda. “Esses dias passei pelo mesmo perrengue, graças a Deus deu negativo”, disse o segundo. Comentários feitos a uma cliente que, até ali, poderia estar grávida. Quase que por reflexo, fiz questão de dizer que queria que desse positivo. O primeiro, que continuava por perto, me olhou estranho. O outro, constrangido, desandou num discurso de ser contra o aborto. Melhor ainda. Quer dizer que ficar grávida era ruim, mas se eu estivesse grávida, aborto também seria algo péssimo. Eu que lidasse com essa má sorte que Deus não me deu a graça de me livrar.
Dessa vez, fazia a compra como um favor. Era desses favores que se faz e que se pede – aí também está um problema. Por que, afinal, não podemos consumir sozinhas e seguras esse produto? A resposta é evidenciada nos relatos dos primeiros parágrafos. Somos, sim, julgadas. E nos importamos mais ou menos com isso. Não consegui deixar de pensar: será que alguém faria algum comentário se eu estivesse acompanhada por um homem?
O julgamento aconteceu numa situação de consumo, regida pela famosa frase “o cliente tem sempre razão”. Pode até ser, mas clientes específicos, mulheres aparentemente fragilizadas [e também pobres, negros, moradores de periferia], não podem consumir sem receber um olhar torto, sem um pitaco não pedido.
Os atendentes eram homens. E isso significa que eles nunca passarão pela sensação de ter uma criança crescendo dentro de si, nem serão capazes de entender as questões psicológicas e físicas que isso envolve. O assunto é simplesmente complicado demais para ser reduzido a frases de abominação. Ainda mais vindo de profissionais que estão prestando um serviço.
A gravidez sempre tem um peso e só parece ser aceitável no caso de um casal heterossexual, estável. Caso contrário, a gravidez tem sempre um culpado. Aquelas que carregam “o fardo”, no caso, nós mulheres. Fomos nós mulheres que não tomamos o anticoncepcional. Fomos nós que não tomamos a pílula do dia seguinte.
O corpo é nosso. O que passa na cabeça dessas pessoas? Posso querer e posso não querer estar grávida. Isso é da conta de quem? Aparentemente tenho muito que dar satisfação.
Ao compartilhar a história, ouvi de amigos que os vendedores ali só estavam sendo simpáticos, que eles sabem que quem procura esses testes geralmente está desesperada, e que jovens não costumam querer engravidar. Mas, calma, simpáticos a uma situação que nunca viverão? Isso me soa um pouco superior, não? Que peso esse comentário teria feito a alguém de fato jovem e desesperada?
Saí da farmácia aliviada por ter sido eu e não a pessoa que fez o teste quem passou por esse constrangimento. Qualquer hora volto na farmácia para anunciar que deu negativo e aí sim ganhar o direito de andar de cabeça erguida e poder me dizer digna da graça de Deus. Não é preciso muito esforço para perceber que tem algo errado.
Uma pergunta simples e concisa. Nada que não pudesse ser respondido com um “R$ 15”. Fui atendida por dois vendedores, homens. O primeiro me ofereceu três modelos, do menos ao mais confiável, menos e mais caros. Escolhi o intermediário. Ao colocar o produto em um cesto, ele não conseguiu conter mais o olhar preocupado que assumiu desde que eu passei do pedido de um remédio para o teste: “Nossa, boa sorte, tomara que não dê nada”.
Incrédula, dei um meio sorriso, peguei meu cesto e fui para o caixa. Um remédio, dois remédios, uma pastilha Valda. “Esses dias passei pelo mesmo perrengue, graças a Deus deu negativo”, disse o segundo. Comentários feitos a uma cliente que, até ali, poderia estar grávida. Quase que por reflexo, fiz questão de dizer que queria que desse positivo. O primeiro, que continuava por perto, me olhou estranho. O outro, constrangido, desandou num discurso de ser contra o aborto. Melhor ainda. Quer dizer que ficar grávida era ruim, mas se eu estivesse grávida, aborto também seria algo péssimo. Eu que lidasse com essa má sorte que Deus não me deu a graça de me livrar.
Dessa vez, fazia a compra como um favor. Era desses favores que se faz e que se pede – aí também está um problema. Por que, afinal, não podemos consumir sozinhas e seguras esse produto? A resposta é evidenciada nos relatos dos primeiros parágrafos. Somos, sim, julgadas. E nos importamos mais ou menos com isso. Não consegui deixar de pensar: será que alguém faria algum comentário se eu estivesse acompanhada por um homem?
O julgamento aconteceu numa situação de consumo, regida pela famosa frase “o cliente tem sempre razão”. Pode até ser, mas clientes específicos, mulheres aparentemente fragilizadas [e também pobres, negros, moradores de periferia], não podem consumir sem receber um olhar torto, sem um pitaco não pedido.
Os atendentes eram homens. E isso significa que eles nunca passarão pela sensação de ter uma criança crescendo dentro de si, nem serão capazes de entender as questões psicológicas e físicas que isso envolve. O assunto é simplesmente complicado demais para ser reduzido a frases de abominação. Ainda mais vindo de profissionais que estão prestando um serviço.
A gravidez sempre tem um peso e só parece ser aceitável no caso de um casal heterossexual, estável. Caso contrário, a gravidez tem sempre um culpado. Aquelas que carregam “o fardo”, no caso, nós mulheres. Fomos nós mulheres que não tomamos o anticoncepcional. Fomos nós que não tomamos a pílula do dia seguinte.
O corpo é nosso. O que passa na cabeça dessas pessoas? Posso querer e posso não querer estar grávida. Isso é da conta de quem? Aparentemente tenho muito que dar satisfação.
Ao compartilhar a história, ouvi de amigos que os vendedores ali só estavam sendo simpáticos, que eles sabem que quem procura esses testes geralmente está desesperada, e que jovens não costumam querer engravidar. Mas, calma, simpáticos a uma situação que nunca viverão? Isso me soa um pouco superior, não? Que peso esse comentário teria feito a alguém de fato jovem e desesperada?
Saí da farmácia aliviada por ter sido eu e não a pessoa que fez o teste quem passou por esse constrangimento. Qualquer hora volto na farmácia para anunciar que deu negativo e aí sim ganhar o direito de andar de cabeça erguida e poder me dizer digna da graça de Deus. Não é preciso muito esforço para perceber que tem algo errado.
Ilustração por Marcella Tamayo exclusivamente para a Ovelha
“Bom dia, um teste de gravidez, por favor.”
Uma pergunta simples e concisa. Nada que não pudesse ser respondido com um “R$ 15”. Fui atendida por dois vendedores, homens. O primeiro me ofereceu três modelos, do menos ao mais confiável, menos e mais caros. Escolhi o intermediário. Ao colocar o produto em um cesto, ele não conseguiu conter mais o olhar preocupado que assumiu desde que eu passei do pedido de um remédio para o teste: “Nossa, boa sorte, tomara que não dê nada”.
Incrédula, dei um meio sorriso, peguei meu cesto e fui para o caixa. Um remédio, dois remédios, uma pastilha Valda. “Esses dias passei pelo mesmo perrengue, graças a Deus deu negativo”, disse o segundo. Comentários feitos a uma cliente que, até ali, poderia estar grávida. Quase que por reflexo, fiz questão de dizer que queria que desse positivo. O primeiro, que continuava por perto, me olhou estranho. O outro, constrangido, desandou num discurso de ser contra o aborto. Melhor ainda. Quer dizer que ficar grávida era ruim, mas se eu estivesse grávida, aborto também seria algo péssimo. Eu que lidasse com essa má sorte que Deus não me deu a graça de me livrar.
Dessa vez, fazia a compra como um favor. Era desses favores que se faz e que se pede – aí também está um problema. Por que, afinal, não podemos consumir sozinhas e seguras esse produto? A resposta é evidenciada nos relatos dos primeiros parágrafos. Somos, sim, julgadas. E nos importamos mais ou menos com isso. Não consegui deixar de pensar: será que alguém faria algum comentário se eu estivesse acompanhada por um homem?
O julgamento aconteceu numa situação de consumo, regida pela famosa frase “o cliente tem sempre razão”. Pode até ser, mas clientes específicos, mulheres aparentemente fragilizadas [e também pobres, negros, moradores de periferia], não podem consumir sem receber um olhar torto, sem um pitaco não pedido.
Os atendentes eram homens. E isso significa que eles nunca passarão pela sensação de ter uma criança crescendo dentro de si, nem serão capazes de entender as questões psicológicas e físicas que isso envolve. O assunto é simplesmente complicado demais para ser reduzido a frases de abominação. Ainda mais vindo de profissionais que estão prestando um serviço.
[caption id="attachment_3284" align="aligncenter" width="1024"] Ilustração por Marcella Tamayo exclusivamente para a Ovelha[/caption]
A gravidez sempre tem um peso e só parece ser aceitável no caso de um casal heterossexual, estável. Caso contrário, a gravidez tem sempre um culpado. Aquelas que carregam “o fardo”, no caso, nós mulheres. Fomos nós mulheres que não tomamos o anticoncepcional. Fomos nós que não tomamos a pílula do dia seguinte.
O corpo é nosso. O que passa na cabeça dessas pessoas? Posso querer e posso não querer estar grávida. Isso é da conta de quem? Aparentemente tenho muito que dar satisfação.
Ao compartilhar a história, ouvi de amigos que os vendedores ali só estavam sendo simpáticos, que eles sabem que quem procura esses testes geralmente está desesperada, e que jovens não costumam querer engravidar. Mas, calma, simpáticos a uma situação que nunca viverão? Isso me soa um pouco superior, não? Que peso esse comentário teria feito a alguém de fato jovem e desesperada?
Saí da farmácia aliviada por ter sido eu e não a pessoa que fez o teste quem passou por esse constrangimento. Qualquer hora volto na farmácia para anunciar que deu negativo e aí sim ganhar o direito de andar de cabeça erguida e poder me dizer digna da graça de Deus. Não é preciso muito esforço para perceber que tem algo errado.
[infobox maintitle="Escreva sua história!" subtitle="Se quer colaborar com a gente regularmente ou tem um relato ou experiência para compartilhar, escreva para ovelhamag(arroba)gmail.com" bg="green" color="black" opacity="on" space="30" link="http://ovelhamag.com/colabore/"]
Nesse ano, reservei minhas férias no trabalho para fazer algo que sempre quis: um curso de doula. Sou formada em Artes Visuais, trabalho em um museu importante de São Paulo, mas eu sempre senti uma comoção com o momento do nascer. Eis que, com o passar do tempo, o chamado ficou forte e decidi que agora era a hora, independentemente da minha formação.
Procurei, me informei e acabei encontrando o Instituto Gama (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa), um lugar com uma proposta incrível, um ponto de encontro para gestantes, profissionais da área e interessados em geral.
Já faz algum tempo que a palavra sororidade cabe perfeitamente com tudo o que acredito e durante o curso de doula não teve como ser diferente. Todas aquelas mulheres juntas para se formarem como profissionais capacitadas para estarem unidas à gestante, sendo companheiras cheias de empatia por ela, e as duas lutando pelo mesmo objetivo: um parto saudável, humanizado e repleto de respeito e amor para a mulher e seu bebê.
Eu, como amante do assunto e super interessada lendo tudo o que aparece nos livros e nas internê, sempre pensei que o parto fosse do âmbito feminino, uma ação realizada por mulheres de uma determinada comunidade, e a medicina introduziu os homens num lugar que antes era de exclusividade feminina. Colocaram a mulher obrigatoriamente deitada de pernas abertas para o doutor, sem levar em conta que, para a grande maioria de parturientes, essa não é a posição mais confortável. Ouvi as motivações de todas as mulheres que estavam ali no curso e eis que, BA-TA-TA, a grande maioria tinha sofrido violência obstetra no primeiro parto e só no segundo ou terceiro que acabaram conhecendo o parto humanizado.
Chorei. Chorei ouvindo os relatos de como o direito ao parto é roubado das mulheres. Chorei pensando em como o bebê é tratado como um grande problema na nossa sociedade e em como a mulher é vista como incompetente em parir. “Porque o bebê tá virado pro outro lado”, “porque o cordão umbilical está enrolado no pescoço”, “porque você não vai dilatar mais que isso não, olha o tamanho da sua bacia”, eles dizem… E tudo vira motivo para facilitar a vida de todo mundo (menos da grávida) porque ninguém quer ouvir uma mulher em estado de dor por muito tempo, às vezes, dias… E a mulher vai retrucar nessa hora? Na hora em que um DOUTOR diz pra ela que o bebê dela está em risco? Não. E eu também não retrucaria se não soubesse o que sei agora e não me sentisse devidamente amparada.
Me sinto obrigada a frisar o que antes só esbocei: o bebê e a gestante são vistos como problemas sim. E vou bater boca em almoço de família, vou ser a diferentona e vou levantar bandeira sobre esse assunto enquanto for necessário. Quantas vezes ouvimos que depois que o bebê nasce não dá mais pra viajar, não dá mais pra gente se dedicar às nossas coisas, não dá mais pra ver os amigos etc? Mas peraí! E a escolha dessa mulher que se tornou mãe? Cuidar do começo da vida de um ser humano não é fazer nada? Sem contar o assunto da repressão da amamentação em lugares públicos. Se a gente precisa criar uma lei que permita a mulher amamentar seu filho em público, minhas amigas… certamente estamos numa sociedade doente. Mas voltando. Só depois que o bebê desmama, que fala legal e que anda, pula e dança é que o bebê para de ser visto com maus olhos. Talvez porque finalmente ele não está mais no controle dessa mulher que o pariu? Vamos dormir com essa.
A doula é quem faz massagem, quem acalma, quem está ali para olhar no olho dessa mulher e falar: “Você é forte, você consegue!”. A doula voltar para esse momento da vida de uma família (porque é uma profissão de tempos imemoriais, viu?) é um empoderamento feminino. A doula não é médica, não faz procedimentos médicos como aferição de pressão, exame de toque e auscultação fetal. O papel dessa profissional é dar apoio físico e emocional à mulher antes, durante e depois do parto, podendo oferecer informações para evitar a intervenção cirúrgica desnecessária – triste realidade do cenário brasileiro em que 53,7% dos nossos bebês nascem de cesarianas e, segundo a Organização Mundial de Saúde, a porcentagem adequada gira em torno dos 15%.
O curso de doula acabou e ainda não me sinto preparada para me dedicar a esta função de forma remunerada, mas parece que eu ganhei um novo mundo, um mundo de amparo, conscientização e empoderamento feminino imenso. Nós devemos falar sobre o que acontece com as mulheres durante a gestação, na hora do parto e no período de lactação. Precisamos saber sobre os nossos corpos, as nossas condições físicas e, o mais importante, precisamos falar mais, MUITO mais, sobre violência obstetra. Até que o mundo escute.
Malu Risi é artista visual, cantora, metida à tatuadora, aprendiz de doula e faz uma faxina que é uma beleza. Também faz ilustrações para a Ovelha.