Passo-a-passo: como fazer um aborto

Calma. Nós não vamos ensinar nossas leitoras métodos caseiros ou profissionais de interromper uma gravidez. Mas é a irônica proposta de uma campanha pró-aborto do Chile, que apresenta vídeos tutoriais que supostamente ensinam como abortar “por acidente”, já que é a única justificativa para as mulheres chilenas abortarem (de outro modo, é crime).

 

 
A campanha une a ideia do aborto espontâneo (ou seja, um acidente) com a ideia real de um acidente forçado na esperança de interromper a gravidez: Queda de escada, atropelamento e até mesmo um salto alto que se quebra próximo a um hidrante são exemplos que mostram o cúmulo do desespero de muitas mulheres na situação de uma gravidez indesejada.

 

 

Em uma entrevista para a agência de notícias EFE, Claudia Dides, diretora da organização MILES Chile, responsável pela campanha, explica que, além das inúmeras vítimas da criminalização do aborto no Chile, ela mesma sofreu com dois abortos clandestinos. Claudia, que viveu esse terror na própria pele, diz: “As mulheres são tratadas como criminosas. Ninguém gosta da ideia de abortar. Nenhuma mulher é feliz com isso. É uma decisão complicada.”

 

 
Aqui no Brasil não é diferente. Quantas histórias não ouvimos sobre abortos clandestinos, como o “método da pisada”, em que muitas mulheres se submetem a ter suas barrigas pisoteadas a fim de terem uma hemorragia, um sangramento que a faça abortar – mas que traz conseqüências graves e muitas vezes a morte.

Até quando o Estado (e, claramente, a religião) vão continuar a controlar as escolhas que fazemos sobre nossos corpos?

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O desafio que é a maternidade

Por Mayra Oi*

Nesse meu momento de estreia como mãe e de corrente do “desafio da maternidade”, também fui convidada por algumas amigas a participar. Coincidindo com esse turbilhão de novas percepções que estou sentindo e de questionamentos que tenho acompanhado por aqui no feminismo fico pensando que é um momento incrível pra ter um bebê e viver esse turbilhão! Incrível porque está no ar uma grande discussão sobre a maternidade compulsória e todos os pesos que o patriarcado nos impõe. Contextualizo isso rasamente pra situar sobre o meu ponto de vista, mas quem quiser saber mais, é só fuçar nos grupos feministas por aí que a coisa tá pegando fogo!

Fato é que pra mim é incrível esse momento porque bem quando eu estava mergulhada no assunto e me aproximando do feminismo radical, engravidei, topei levar essa parada a cabo e como se não bastasse, dei a luz a um ser com pênis! Hahaha, Martín já veio chacoalhando os princípios dessa mãe feminista!

Me tornar mãe foi e está sendo uma elaboração difícil. Amorosa, mas dolorosa, como imagino que seja pra todas, mas sobre a qual nem todas falam. Eu sou privilegiada, estou tendo todo o apoio, afetivo e financeiro pra bancar essa situação. Por isso, me identifico com as mães apaixonadas e encantadas por serem mães de seus bebês, mas também me reconheço muito nas falas das mães amarguradas, cheias de dores, complicações de saúde, carências emocionais, limitações na vida que antes foi construída tão independentemente. Nem imagino o que seja ser mãe-solo, ou que está doente, ou que tem o filho doente, ou que sofre violência, ou que está em qualquer outra situação de risco, enfim, todo o respeito e solidariedade, sem julgamento, à essas mães.

Dividida entre essas posições, prefiro não tomar um só partido, até porque se estou entendendo um pouco do que é a maternidade é que ela é multifacetada. Tem dores e delícias. A alegria de ver seu filho sorrir, aprender a controlar as mãozinhas, a fazer novos barulhos, e a angústia de estar com ele chorando sem saber o que fazer pra passar a dor, ou de não poder fazer nem um quinto das coisas que eu podia antes dele chegar.

Por isso, aproveito essa corrente pra homenagear o outro lado da maternidade: a minha mãe. Não tem maior verdade do que aquela que diz que a gente vai entender e dar razão à nossa mãe quando tiver um filho. Eu sempre soube disso, mas agora eu sinto isso. Ao longo da gravidez, no meu parto e agora no puerpério eu fui acompanhando o nascimento da minha mãe como avó e o renascimento dela como mãe também. Renascimento porque nossa relação se renovou. Eu fico tão comovida ao ver o quanto ela se dedicou à mim (agora e sempre) e se dedica ao Martín, com todo amor, dispondo de todo o tempo, energia e recursos pra ver a gente bem.

 

 

Fico pensando em como foi na vez dela, o que foi ser mãe sem ter a dela por perto. Imagino a dureza que foi. Eu acho que não conseguiria sem ela aqui. Agora eu entendo as decisões que ela tomou, as coisas que teve que abrir mão e vejo que ela fez o melhor que pode. Mesmo nas cobranças, nas reclamações, nos vícios, mesmo errando, ela tava tentando acertar. Se eu for metade da mãe que ela é, já vou estar bem satisfeita.

Escrevi isso tudo pra você mãe, e é um pouco de tudo que venho percebendo nos últimos meses e da gratidão e do amor que sinto transbordando em mim.

 


*Mayra Oi trabalha há 10 anos com educação e arte. Tem um amor enorme pelas matrizes africanas e indígenas do Brasil, além da nave-mãe nipônica. É filha de Oxum e mãe do Martín.

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Em uma entrevista para a agência de notícias EFE, Claudia Dides, diretora da organização MILES Chile, responsável pela campanha, explica que, além das inúmeras vítimas da criminalização do aborto no Chile, ela mesma sofreu com dois abortos clandestinos. Claudia, que viveu esse terror na própria pele, diz: “As mulheres são tratadas como criminosas. Ninguém gosta da ideia de abortar. Nenhuma mulher é feliz com isso. É uma decisão complicada.”

 

 
Aqui no Brasil não é diferente. Quantas histórias não ouvimos sobre abortos clandestinos, como o “método da pisada”, em que muitas mulheres se submetem a ter suas barrigas pisoteadas a fim de terem uma hemorragia, um sangramento que a faça abortar – mas que traz conseqüências graves e muitas vezes a morte.

Até quando o Estado (e, claramente, a religião) vão continuar a controlar as escolhas que fazemos sobre nossos corpos?

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