Meu casamento x Construções sociais

Eu nunca quis casar. Nunca mesmo, ou se quis foi sempre um desejo muito entranhado e nunca externado na vida. Como quando eu era criança aqui no Rio e na praia eu fazia alguns amiguinhos novos, alguém lançava a ideia de brincar de Power Rangers e eu tentava dizer primeiro “EU SOU A AMARELA!”, eu queria ser a rosa, lá no fundo, eu queria ser a rosa. Mas todo mundo queria ser a rosa, aliás, todas as meninas queriam ser a rosa e isso me dava no saco.

 
[caption id="attachment_5230" align="aligncenter" width="700"]1 Trinity ♡ (mas a que eu realmente amei foi a do Matrix)[/caption]  

Eu fui criada pelo meu pai, ele nunca casou, logo, eu não via o menor sentido naquilo tudo. Claro que quando eu era criança gostava das Princesas, a Ariel sempre foi a minha favorita, juntamente com a Úrsula (que mais tarde eu fui descobrir que foi inspirada na Divine <3). Portanto, a construção social do ‘felizes para sempre’ ou mesmo do ‘final feliz’ sempre me perseguiu e creio que persiga a maioria das mulheres da minha geração.

 
[caption id="attachment_5232" align="aligncenter" width="700"]♡ ♡[/caption]  

Isso é engraçado porque eu sempre ‘lidei’ com frustrações, rejeição e angústia desde muito cedo, mas nunca soube colocar em palavras o que eu estava sentindo, eu tentava explicar com uns 6, 7 anos: “É como se um Elefante e uma formiga levantassem vôo ao mesmo tempo”, e contrapondo o pesado e o leve eu tentava expor minha angústia. Mas mesmo com a perseguição inóspita do ‘felizes para sempre’, sempre desconfiei de que houvesse algo errado. Concluí que havia algo errado quando a conotação de ~ borboletas no estômago ~ para outros era algo bom e pra mim sempre foi péssimo, muito forte, eu sabia que tinha algum descompasso, o que mais tarde, bem mais tarde, viria a entender meu problema real com ansiedade.

 
[caption id="attachment_5233" align="aligncenter" width="500"]Ariel também foi criada pelo pai, representatividade importa! Ariel também foi criada pelo pai, representatividade importa![/caption]  

De qualquer forma, por ironias do destino, me caso em 4 dias. Meu pai ontem mesmo me disse: “Te criei pra ser atéia e não casar, olha só no que deu!”, hahaha! Sou espírita com períodos otimistas e pessimistas intermitentes e caso na quarta-feira dia 22. O negócio é o seguinte, eu já moro com meu companheiro há 3 anos e meio e vamos nos mudar pra Barcelona no final do ano. Estamos guardando dinheiro faz 1 ano para isso e de acordo com todas as especificidades a serem cumpridas pelo consulado espanhol é incrivelmente mais fácil adentrar à família tradicional brasileira para conseguir um visto temporário para morar fora, infelizmente. “Vamos casar, então!”, pensei. Estava tudo bem, estava tudo muito bem, eu casaria por causa de papéis para poder ir viver o sonho, ESTAVA TUDO BEM.

 
[caption id="attachment_5235" align="aligncenter" width="500"]5 HAHAHA! Não me levem a mal, nos amamos muitíssimo e eu tenho a maior sorte de estar casando com meu melhor amigo![/caption]  

Pretendia casar de chinelo mesmo, minha indumentária favorita. Não iria fazer nada, fazer alguma coisa pra quê? Só estava cumprindo uma tabela, gastar dinheiro com isso quando posso juntar mais dinheiro pra viajar? E aí começou a vir a galera que grita primeiro “EU SOU A ROSA!”, e aquele desejo entranhado de ser a rosa eu já tinha conseguido desconstruir, mas mesmo sendo a amarela, ainda eram Power Rangers, se é que você me entende. Fui convencida por amigos e familiares à ser a amarela, porque a rosa já estava distante demais e todos sabiam disso. Depois do cartório, resolvi fazer um almocinho para poucos e bons e depois uma festa no melhor estilo Felipe Dylon, cada um paga o seu, mas vamos lá beber juntos porque a vida é uma só e como futura historiadora (quem sabe), assumo que rituais são momentos importantes.

 
[caption id="attachment_5242" align="aligncenter" width="700"]Muita gente riu e criticou na época, mas apoio 100% esse tipo de iniciativa! Muita gente riu e criticou na época, mas apoio 100% esse tipo de iniciativa![/caption]  

O problema é que comecei a ver isso tudo faltando uns 15 dias pro casamento e aí um novo personagem na saga de animação (auto) destruidora adentrou a lista do superego que já contava com a Power Ranger rosa suprimida, a amarela, a Ariel e a Úrsula (com certeza tem outras), chegou então, a BRIDEZILLA. Que já era o contraponto em si, a bridezilla é a mocinha e a bandida na mesma personagem. Além de uma fobia social gigalesca, ela é auto sabotadora.

 
[caption id="attachment_5236" align="aligncenter" width="160"]ahã miga ahã miga[/caption]  

Saí da terapia na terça-feira passada com duas opções, comprar um ansiolítico e um tampão de ouvido para tentar dormir melhor. Tentei o tampão primeiro, funcionou. Hoje começou a insônia e acho que agora, pela primeira vez na minha vida, vou introduzir um remédio pra ajudar a passar por esses últimos 4 dias de pesadelo, ainda não me decidi. Ontem fui tentar comprar uma roupinha nova, quando eu disse que tinha um vestido que eu gostava e tinha usado no casamento de um amigo, criticaram. “O vestido é preto, ninguém casa de preto, tem que comprar uma roupa nova!”, essas coisas nos consomem, a gente acaba fazendo um dia como outro qualquer num cartório, que é um serviço do qual abomino um pouquinho, um dia especial, em que muitas expectativas são impostas, só que a maior lição da vida adulta para todes nós sempre foi suprimir as expectativas, então não sei lidar com momentos como esse. Já pensei em desistir mil vezes, todos os filmes estadunidenses de pessoas que querem fugir dos seus casamentos caíram como uma luva, estou vivendo o estereótipo.

 
[caption id="attachment_5238" align="aligncenter" width="700"]8 pra que casar de branco, gente? aff, me deixa ser gótica ~[/caption]  

Voltando para a roupinha, fui a dois shoppings aqui no Rio. Gostei de uma blusa que era um pouco mais curta e uma calça com a cintura um pouco alta mas nem tanto.

 

– Moça, você pode me ajudar?
  Gostaria de experimentar aquela blusa ali da vitrine!
– Claro, qual é o seu tamanho?
– É 42 ou 44!
– Ah, nós só fazemos peças até o 42!

 

Agradeci e não quis nem experimentar o 42. Esse tipo de coisa me deixa triste, brava, frustrada, insegura pra caralho, tudo ao mesmo tempo. Quis ir embora. Não sou o padrão há muito tempo e hoje em dia luto para me sentir confortável não sendo padrão e luto para que outras possam ser felizes fora do padrão. Já entendi que familiares não entendem isso e externam de uma forma que machuca mas que no fundo querem o seu bem, “Você precisa ser padrão porque a sociedade só aceita o padrão!” é o que eles querem dizer, eles todos que na grande maioria tomam anti-depressivos e ansiolíticos e não são padrão e tentam se encaixar desesperadamente mesmo que isso precise fazer eles tomarem mais remédios e passar mais fome e gastar mais dinheiro. A verdade é que também são vítimas, se não é quebrado o ciclo da opressão com empoderamento e consciência, ela é reproduzida. De qualquer forma, acredito piamente que quem se sente completamente feliz e encaixado nessa sociedade doente é quem tem mais problemas, se anula, é muito 1984 pra mim. Padrão é mais uma construção social, apenas. Entendam isso, lidem com isso, sou linda e sou gorda e sou saudável e sou vegetariana. As proteínas estão bem, obrigada.

 
[caption id="attachment_5239" align="aligncenter" width="360"]hihi hihi[/caption]  

Enfim, caso em 4 dias. Hoje acordei 5:40 por pura e espontânea ansiedade. A cada “Parabéns!” recebido, meu estômago revira. Amigos me chamam de ‘noiva’ por puro bullying do milho verde. Hahaha! Eu não estou acostumada a ser o centro das atenções, isso me deixa nervosa. Outro dia fiz um cineclube no dia das bruxas na minha casa para eu e as amigas verem ‘Jovens Bruxas‘ e tomar ‘margaritas da meia noite’, fui a primeira a ficar bêbada e capotar, às vezes vou com sede ao pote como se ainda tivesse 7 anos tentando explicar os contrapontos de tamanho e peso para as minhas angústias.

 
[caption id="attachment_5241" align="aligncenter" width="500"]Twin Peaks, melhor série ♡ Twin Peaks, melhor série ♡[/caption]  

Ainda assim, até esses meus 29 anos, tem valido a pena. Vou com sede ao pote, capoto, mas levanto, haha! Fico extremamente feliz por ser lembrada pelas minhas piadas sem graça e risada altíssima. Siga la pelota, 8h30 vou tomar café da manhã, beixota!

Mais de Bárbara Gondar

‘Chimas’ e o Meio Sol Amarelo ♡

Chimas foi o apelido carinhoso que eu e minhas amigas demos à Chimamanda Ngozi Adichie quando resolvemos fazer um clube do livro e começarmos pelo segundo livro escrito por ela, o Meio Sol Amarelo. Em verdade eu gostaria de ter começado com um dos outros títulos que eu já havia comprado e estavam aqui aguardando leitura, mas por votação, adentramos ao maravilhoso mundo de Chimas, ainda bem.

Meio Sol Amarelo é um romance que costura ficção e história de uma forma muito peculiar e excelente por causa dos lapsos de tempo que nos fazem sentir com menos impacto o terror de uma guerra. A guerra de Biafra, a guerra civil da Nigéria. Uma das muitas histórias silenciadas pelo ocidente.

 
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O contexto histórico é o seguinte, nos anos 60 a Nigéria tinha acabado de se emancipar da Inglaterra e enfrentava muitas dificuldades com sua diversidade étnica e herança colonial. Bem resumidamente, a guerra envolveu dois grandes povos nigerianos, os Hauças do norte (noroeste) da Nigéria, em sua grande maioria muçulmanos e os Igbos, do sul (sudeste), cristãos em sua maioria.

 

 
Os afrontamentos se davam por disparidades étnicas e religiosas. Em 1965 ocorreram diversos motins em que 30 mil Ibos já haviam morrido e mais de um milhão de Ibos estavam refugiados. Em 1966 começou então uma revolta militar separatista para que a região sudeste se separasse da Nigéria. Iniciando então a Guerra de Biafra.

 

 
No livro, toda essa história é introduzida em meio ao romance que é narrativo e se passa em partes diferentes dentro de – o que vem a ser – uma mesma família. O livro se inicia com a história de Ugwu, um rapaz que vai servir um professor universitário como um empregado doméstico. E quando eu digo servir é, abandonar a família dele numa vila rural para ser serviçal de um professor da Universidade de Nssuka, o Odenigbo. O professor é a favor do separatismo de Biafra e namora Olanna, uma mulher de uma família muito rica da Nigéria em que todos os membros, incluindo sua irmã gêmea Kainene, estudaram na Inglaterra. Há também o ponto de vista de Richard, um inglês que mora em Biafra e é namorado de Kainene. A trama se passa com esses personagens e suas percepções e realidades durante a guerra.

Confesso que até a página 200, eu, que não sou muito de romances, não estava achando nada muito demais. A comparação entre as muitas realidades, entre as classes sociais da Nigéria e as partes históricas, foram as partes que eu mais estava gostando. Claro que a forma de transitar entre personagens diferentes e os lapsos de tempo já tinham me captado bastante, mas foi a partir da página 200 que eu comi o livro. Comi porque até esse ponto você não entende que está completamente imerso no dia a dia da família e quando começa a guerra é um ponto de virada muito forte. A partir daqui, li mais de 100 páginas por dia, acabando o livro nos próximos 3 dias, acreditem se quiser. Hahaha.

A história é muito forte. É uma história que a gente não aprende na escola, é uma história que a gente aprende a ver mais de um ponto de vista por trás dos estereótipos que nos são ensinados. E sobre isso, nada melhor que a própria Chimas falando sobre o perigo do discurso único, que é também o perigo do silenciamento.

 

Tem legenda em português!

 
Fica muito clara, no livro, a posição dos intelectuais nigerianos em relação aos brancos que estão no país querendo ajudar numa posição de privilégio soberano. Há um entendimento total sobre os resquícios da colonização, condenação de reprodução de racismo, auto degradação cultural e uma proposta de resgate muito forte. A repressão é além da força física, é uma repressão ideológica, e isso é muito bem relatado e retratado.

Lendo sobre isso, são incansáveis as pontes que se podem fazer para as questões de apropriação cultural, silenciamento do feminismo negro, white savior(ismo?) ou ‘complexo de Princesa Isabel’, etc.

Procurei todas as palavras em Ibo que estão no livro, as cidades e locais específicos onde ocorreram alguns acontecimentos e os pratos típicos que são sempre comentados, procurei as receitas, hahaha! Fiquei em fase de negação total quando acabei o livro. Posso dizer que fiquei completamente apaixonada e não vejo a hora de ler todos os outros livros da nkem, Chimas♡. É uma história que consegue transitar entre uma doçura e uma dureza muito bem colocadas, críticas intensas e valor histórico inestimável.

Ainda não vi o filme, tenho um baita medão de desconstruir os personagens que a minha imaginação elencou, mas possivelmente devo assistir daqui a um tempo, se alguém aqui já viu, me fala se é bão?

Caso você não conheça nadica sobre a Chimas, ela ficou bem mais conhecida depois que a Beyoncé colocou uma parte de um de seus discursos na música Flawless. Vou deixar aqui abaixo tanto o discurso quanto o clipe, por que, né? De nada. Hahaha.
 

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Eu nunca quis casar. Nunca mesmo, ou se quis foi sempre um desejo muito entranhado e nunca externado na vida. Como quando eu era criança aqui no Rio e na praia eu fazia alguns amiguinhos novos, alguém lançava a ideia de brincar de Power Rangers e eu tentava dizer primeiro “EU SOU A AMARELA!”, eu queria ser a rosa, lá no fundo, eu queria ser a rosa. Mas todo mundo queria ser a rosa, aliás, todas as meninas queriam ser a rosa e isso me dava no saco.

 

 

Eu fui criada pelo meu pai, ele nunca casou, logo, eu não via o menor sentido naquilo tudo. Claro que quando eu era criança gostava das Princesas, a Ariel sempre foi a minha favorita, juntamente com a Úrsula (que mais tarde eu fui descobrir que foi inspirada na Divine <3). Portanto, a construção social do ‘felizes para sempre’ ou mesmo do ‘final feliz’ sempre me perseguiu e creio que persiga a maioria das mulheres da minha geração.

 

 

Isso é engraçado porque eu sempre ‘lidei’ com frustrações, rejeição e angústia desde muito cedo, mas nunca soube colocar em palavras o que eu estava sentindo, eu tentava explicar com uns 6, 7 anos: “É como se um Elefante e uma formiga levantassem vôo ao mesmo tempo”, e contrapondo o pesado e o leve eu tentava expor minha angústia. Mas mesmo com a perseguição inóspita do ‘felizes para sempre’, sempre desconfiei de que houvesse algo errado. Concluí que havia algo errado quando a conotação de ~ borboletas no estômago ~ para outros era algo bom e pra mim sempre foi péssimo, muito forte, eu sabia que tinha algum descompasso, o que mais tarde, bem mais tarde, viria a entender meu problema real com ansiedade.

 

 

De qualquer forma, por ironias do destino, me caso em 4 dias. Meu pai ontem mesmo me disse: “Te criei pra ser atéia e não casar, olha só no que deu!”, hahaha! Sou espírita com períodos otimistas e pessimistas intermitentes e caso na quarta-feira dia 22. O negócio é o seguinte, eu já moro com meu companheiro há 3 anos e meio e vamos nos mudar pra Barcelona no final do ano. Estamos guardando dinheiro faz 1 ano para isso e de acordo com todas as especificidades a serem cumpridas pelo consulado espanhol é incrivelmente mais fácil adentrar à família tradicional brasileira para conseguir um visto temporário para morar fora, infelizmente. “Vamos casar, então!”, pensei. Estava tudo bem, estava tudo muito bem, eu casaria por causa de papéis para poder ir viver o sonho, ESTAVA TUDO BEM.

 

 

Pretendia casar de chinelo mesmo, minha indumentária favorita. Não iria fazer nada, fazer alguma coisa pra quê? Só estava cumprindo uma tabela, gastar dinheiro com isso quando posso juntar mais dinheiro pra viajar? E aí começou a vir a galera que grita primeiro “EU SOU A ROSA!”, e aquele desejo entranhado de ser a rosa eu já tinha conseguido desconstruir, mas mesmo sendo a amarela, ainda eram Power Rangers, se é que você me entende. Fui convencida por amigos e familiares à ser a amarela, porque a rosa já estava distante demais e todos sabiam disso. Depois do cartório, resolvi fazer um almocinho para poucos e bons e depois uma festa no melhor estilo Felipe Dylon, cada um paga o seu, mas vamos lá beber juntos porque a vida é uma só e como futura historiadora (quem sabe), assumo que rituais são momentos importantes.

 

 

O problema é que comecei a ver isso tudo faltando uns 15 dias pro casamento e aí um novo personagem na saga de animação (auto) destruidora adentrou a lista do superego que já contava com a Power Ranger rosa suprimida, a amarela, a Ariel e a Úrsula (com certeza tem outras), chegou então, a BRIDEZILLA. Que já era o contraponto em si, a bridezilla é a mocinha e a bandida na mesma personagem. Além de uma fobia social gigalesca, ela é auto sabotadora.

 

 

Saí da terapia na terça-feira passada com duas opções, comprar um ansiolítico e um tampão de ouvido para tentar dormir melhor. Tentei o tampão primeiro, funcionou. Hoje começou a insônia e acho que agora, pela primeira vez na minha vida, vou introduzir um remédio pra ajudar a passar por esses últimos 4 dias de pesadelo, ainda não me decidi. Ontem fui tentar comprar uma roupinha nova, quando eu disse que tinha um vestido que eu gostava e tinha usado no casamento de um amigo, criticaram. “O vestido é preto, ninguém casa de preto, tem que comprar uma roupa nova!”, essas coisas nos consomem, a gente acaba fazendo um dia como outro qualquer num cartório, que é um serviço do qual abomino um pouquinho, um dia especial, em que muitas expectativas são impostas, só que a maior lição da vida adulta para todes nós sempre foi suprimir as expectativas, então não sei lidar com momentos como esse. Já pensei em desistir mil vezes, todos os filmes estadunidenses de pessoas que querem fugir dos seus casamentos caíram como uma luva, estou vivendo o estereótipo.

 

 

Voltando para a roupinha, fui a dois shoppings aqui no Rio. Gostei de uma blusa que era um pouco mais curta e uma calça com a cintura um pouco alta mas nem tanto.

 

– Moça, você pode me ajudar?
  Gostaria de experimentar aquela blusa ali da vitrine!
– Claro, qual é o seu tamanho?
– É 42 ou 44!
– Ah, nós só fazemos peças até o 42!

 

Agradeci e não quis nem experimentar o 42. Esse tipo de coisa me deixa triste, brava, frustrada, insegura pra caralho, tudo ao mesmo tempo. Quis ir embora. Não sou o padrão há muito tempo e hoje em dia luto para me sentir confortável não sendo padrão e luto para que outras possam ser felizes fora do padrão. Já entendi que familiares não entendem isso e externam de uma forma que machuca mas que no fundo querem o seu bem, “Você precisa ser padrão porque a sociedade só aceita o padrão!” é o que eles querem dizer, eles todos que na grande maioria tomam anti-depressivos e ansiolíticos e não são padrão e tentam se encaixar desesperadamente mesmo que isso precise fazer eles tomarem mais remédios e passar mais fome e gastar mais dinheiro. A verdade é que também são vítimas, se não é quebrado o ciclo da opressão com empoderamento e consciência, ela é reproduzida. De qualquer forma, acredito piamente que quem se sente completamente feliz e encaixado nessa sociedade doente é quem tem mais problemas, se anula, é muito 1984 pra mim. Padrão é mais uma construção social, apenas. Entendam isso, lidem com isso, sou linda e sou gorda e sou saudável e sou vegetariana. As proteínas estão bem, obrigada.

 

 

Enfim, caso em 4 dias. Hoje acordei 5:40 por pura e espontânea ansiedade. A cada “Parabéns!” recebido, meu estômago revira. Amigos me chamam de ‘noiva’ por puro bullying do milho verde. Hahaha! Eu não estou acostumada a ser o centro das atenções, isso me deixa nervosa. Outro dia fiz um cineclube no dia das bruxas na minha casa para eu e as amigas verem ‘Jovens Bruxas‘ e tomar ‘margaritas da meia noite’, fui a primeira a ficar bêbada e capotar, às vezes vou com sede ao pote como se ainda tivesse 7 anos tentando explicar os contrapontos de tamanho e peso para as minhas angústias.

 

 

Ainda assim, até esses meus 29 anos, tem valido a pena. Vou com sede ao pote, capoto, mas levanto, haha! Fico extremamente feliz por ser lembrada pelas minhas piadas sem graça e risada altíssima. Siga la pelota, 8h30 vou tomar café da manhã, beixota!

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