Foda-se Tom Hansen

Acredito que todo mundo já tenha assistido 500 dias com Ela – e chorou. Chorou porque Tom era a epítome do cara bonitinho e gente boa que toda mulher quer, mas mesmo assim levou uma bota da vadia da Summer. Afinal de contas, Summer que estava errada: como ela se atrevia a não querer ficar com Tom? Assim, todo mundo sentiu raiva da Summer – ou pelo menos foi induzido a detestá-la, já que o filme todo se volta contra ela. Se 500 dias com Ela fosse um filme feminista, ele teria acabado na metade, e Summer teria sido muito mais feliz.

500 dias com Ela é um filme de bosta que ensina às mulheres que terminar um relacionamento traz apenas uma consequência: você vira a cretina da situação. Todas as amigas e todos os amigos do cara vão se virar contra você, os pais dele também, até suas amigas e seus amigos vão falar que você está exagerando (até a sua própria família, quem sabe). Mulher não pode ser feliz sozinha em Hollywood, e portanto não pode ser feliz sozinha na vida real também, tem que ficar com o cara bonzinho que, aparentemente, “se esforçou” para te fazer feliz.

500-days-of-summer-3

O machismo nas relações interpessoais realmente não deixa sobreviventes, principalmente nas relações afetivas heterossexuais. Eu digo isso baseando-me na minha própria experiência enquanto mulher cis heterossexual. Todos os meus relacionamentos até então foram pautados por uma hierarquia de gênero que sempre me colocou na posição de Summer – não quis porque é uma vadia, porque não soube dar valor pro cara certo, porque não soube dar valor a si própria. A pior parte disso tudo é que eu tenho certeza de que eu não fui a única que passei por isso, e que muitas meninas, sejam elas bi ou heterossexuais, cis ou trans, ao se relacionarem com um homem sofreram algum tipo de violência – principalmente ao falar não pro cara.

“quando o homem sofre, a culpa é da mulher, mas quando a mulher sofre, a culpa é dela mesma”

Aparentemente os homens foram socializados de modo a nunca poderem ouvir a palavra não – não quero sair com você, não quero dar pra você, não quero ser mais sua namorada, não quero que você fale assim comigo, não quero que você me toque dessa forma, não quero que você olhe para mim. Não. Dizer não a um homem (principalmente um “homem bonzinho”) é negar a ele todos os privilégios que lhe foram conseguidos, e isso traz graves consequências às mulheres, como o estupro, a violência física e, claro, a violência emocional, tão presente, mas mesmo assim tão subestimada pela sociedade – se ela for feminina, claro.

Tom Hansen não soube ouvir não, e seu sofrimento, tão romantizado pelo cinema, fez um desserviço às mulheres, colocando-as na posição de algozes da masculinidade. Já não basta toda a babaquice envolvida no mito da virilidade e da sexualidade masculina, os homens também detém o privilégio do sofrimento legítimo – quando o homem sofre, a culpa é da mulher,mas quando a mulher sofre a culpa é dela mesma. Além de ficarmos absolutamente sozinhas nessa relação, já que perdemos total credibilidade perante nossos círculos sociais, ainda temos que lidar com toda a culpabilização em nível simbólico, como nos mostra todas as comédias românticas, com exceção d’ “O Casamento do Meu Melhor Amigo“. Ou seja, o sofrimento masculino é algo absolutamente romantizado e público, enquanto o sofrimento feminino, se não for motivo de chacota, deve permanecer apenas no privado, de preferência trancado em diários, banheiros ou “conversas de mulher”.

 

Leia também:
Descartando um namoro por Whatsapp
Solteira sim, sozinha também
A bisexualidade existe sim

 
Aí é que está: a violência da mulher (no caso, terminar um namoro), sempre será pior que a violência protagonizada pelo cara. Não importa o que o cara tenha feito, quantas vezes tenha mentido, quantas vezes tenha sido agressivo ou chantagista, a mina SEMPRE vai ser a algoz, destruidora de corações (já falaram para mim que eu tinha “destruído a vida do cara” por ter terminado o namoro). Além de tudo isso não fazer sentido (afinal de contas, ninguém é obrigado a ficar com ninguém), isso só corrobora com a realidade de milhares de meninas metidas em relacionamentos abusivos – muitas das quais nem se dão conta disso, tendo em vista o silenciamento e a falta de protagonismo na relação. O relacionamento abusivo se manifesta de maneiras sutis, sendo a mais perigosa delas a chantagem emocional – seja ela direta ou indireta. O que Tom Hansen faz não é sofrer, mas sim uma hora e meia de chantagem emocional indireta, uma vez que só podemos ouvir seus pensamentos no filme – claro né, gente, foda-se a Summer.

Recentemente eu tenho assistido a filmes que antes me emocionavam para ver se eles ainda tinham o mesmo efeito sobre mim. Ao rever 500 dias com Ela, percebi que o feminismo fez com que eu passasse de adoradora do Tom para a pessoa que mais quer mandá-lo se foder. Mais especificamente, todos os Toms e Mark Webbs do mundo deveriam se foder. Ainda estou tentando (re)digerir essa história patética de ode ao sofrimento e à superação masculina. Por que a superação da Summer é vista como um entrave na vida do Tom enquanto a superação dele é vista como um novo capítulo de um livro? Por que focar a história na figura masculina ferida, que não aceita ouvir um não?

Muitos (acreditem, muita gente mesmo) irão argumentar que o ponto do filme é, na verdade, mostrar o quão babaca o Tom é, mostrando o papelão que ele protagonizou por causa de um término de relacionamento (vamos lembrar da cena em que ele bate em um cara no bar só pra provar ser machão pra Summer?). Eu acho que se esse fosse o ponto do filme ele não estaria na posição de mocinho – todos sabemos como funciona essa estrutura dramática do herói que luta contra o mal e se exima dos pecados depois de passar por várias provações, bem ao estilo século XII. Se a Summer estivesse no lugar do Tom ela provavelmente terminaria internada em um hospital psiquiátrico, porque uma mulher fazendo qualquer uma das coisas que Hansen faz no filme seria considerado histeria ou personalidade borderline. É realmente cansativo ver essa exaltação do sofrimento masculino heterossexual enquanto todas já passamos por algum tipo de abuso no relacionamento e fomos silenciadas justamente devido a essa extrema compaixão para com os homens.

Não sei, acho que preciso dar um tempo nas comédias românticas.

Tags relacionadas
,
Escrito por
Mais de Júlia Rocha

Assista: XX, terror feito por mulheres

Estou com fome.

Esse é o desfecho do curta A Caixa, parte da antologia de terror XX, recentemente lançada na Netflix. Com cenas dirigidas por Jovanka Vuckovic, Annie Clark (sim, nossa adorada St Vincent!), Roxanne Benjamin, e Karyn Kusama, o filme inova em trazer somente a perspectiva feminina para o mundo do terror – muitas vezes deixadas de lado. Embalado pelas animações de Sofia Carillo, o tom melancólico não abandona a tela, e cada transição sugere o quão visceral a antologia pode ser.

Apesar de trazer temáticas típicas do terror mainstream (terror familiar, assassinatos misteriosos, demônios e criaturas), a perspectiva feminina faz toda a diferença – principalmente estética. Ou seja, se você não é fã de terror, mas adora uma cena bem montada e uma trilha sonora envolvente, esse filme é também para você.

O primeiro curta, denominado A Caixa (Vuckovic), já traz o tom pesado dos demais que o seguirão. O enredo conta a história de Susan, uma mãe que vê seu filho mais novo deixar de se alimentar após espiar o conteúdo de uma caixa pertencente a um estranho no metrô. Sem entender muito bem o que acontece, Susan vai deixando a questão progredir – e assim se iniciam os atritos em casa, sobretudo com seu marido.

O curta chamado A Festa de Aniversário (Clark) traz a história de Mary, uma mãe preocupada em oferecer à sua filha Lucy uma festa de aniversário, mas que encontra o corpo de seu marido em um dos cômodos na manhã da comemoração. As tentativas de Mary em esconder o corpo e fazer de tudo para agradar sua pequena filha são o centro da história – e é extremamente angustiante acompanhar esse pequeno relato de maternidade.

Já o Seu Único Filho Vivo (Kusama) conta a história de Cora, uma mãe com um passado enigmático, e seu filho Andy, que acaba de completar 18 anos. Como se a dinâmica entre Cora e Andy não fosse suficientemente estranha, a forma com a qual o garoto é visto pelo resto dos habitantes da cidade mostra que algo está errado com ele – e a última interpretação que podemos fazer é de que pode se tratar de um spin-off de O Bebê de Rosemary.

A genialidade desses quatro pequenos filmes reside na capacidade das diretoras de falar sobre os medos e horrores da maternidade sem romantizá-los. Apesar de se tratar de uma ficção, os sentimentos das mães são tratados de maneira muito honesta: o cansaço de ser a única responsabilizada pelos eventuais problemas das crianças, com o peso de ser a mãe perfeita e proteger os filhos de todas as frustrações, e o medo de falhar enquanto mãe e ver o próprio filho tornar-se alguém irreconhecível.

O peso da maternidade é, de fato, aterrorizante. Mas outra obrigação tradicionalmente feminina é a do sacrifício e do afeto. O terceiro curta de XX, Não Caia (Benjamin), mostra como os relacionamentos interpessoais podem ser um fardo para nós. Seguindo a receita clássica do terror, o filme mostra como Gretchen, a mais sensível do grupo de quatro jovens aventureiros, acaba sendo vítima de um monstro – tornando-se ele próprio. As relações dela com outras pessoas mostram como Gretchen é mais sensível e preocupada com seus companheiros, principalmente seu irmão, sendo a única a tentar cuidar de tudo – um trabalho emocional sempre protagonizado por nós mulheres.

O filme, portanto, conta de modo geral como mulheres estão mais propensas a aceitarem sacrifícios para agradar aqueles que amam – principalmente enquanto mães. Através de situações extremas, cada personagem feminina se desdobra em sua forma – algumas literalmente dão o sangue e o corpo para satisfazer a própria família.

E é aqui que o filme deixa de ser ficção: não é, de fato, aterrorizante o quanto nos expomos e nos arriscamos para o contento de quem amamos – muitas vezes sem o reconhecimento devido? Quantas vezes não podemos demonstrar como realmente nos sentimos sem que passemos por negligentes?

A fome que Susan sente em A Caixa (na minha opinião, o melhor e mais aterrorizante dos filmes) é uma mescla de ansiedade e cansaço que aflige a maioria das mulheres, a maioria das mães. Não estamos todas sedentas por um mínimo reconhecimento pelos fardos emocionais que muitas vezes temos? Não estamos cansadas da imposição da maternidade sobre nós? Retratar esse sentimento usando uma das sensações mais básicas do ser humano, a que nos guia aos seios de nossas mães, a fome, coloca em perspectiva se isso que sentimos deve continuar sendo uma imposição naturalizada ou se devemos desconstruí-la antes que ela destrua mais mulheres (figurativa e literalmente).

Pois é. Eu também estou com fome – e não falo de apetite.

Leia mais
500 dias com Ela – e chorou. Chorou porque Tom era a epítome do cara bonitinho e gente boa que toda mulher quer, mas mesmo assim levou uma bota da vadia da Summer. Afinal de contas, Summer que estava errada: como ela se atrevia a não querer ficar com Tom? Assim, todo mundo sentiu raiva da Summer – ou pelo menos foi induzido a detestá-la, já que o filme todo se volta contra ela. Se 500 dias com Ela fosse um filme feminista, ele teria acabado na metade, e Summer teria sido muito mais feliz.

500 dias com Ela é um filme de bosta que ensina às mulheres que terminar um relacionamento traz apenas uma consequência: você vira a cretina da situação. Todas as amigas e todos os amigos do cara vão se virar contra você, os pais dele também, até suas amigas e seus amigos vão falar que você está exagerando (até a sua própria família, quem sabe). Mulher não pode ser feliz sozinha em Hollywood, e portanto não pode ser feliz sozinha na vida real também, tem que ficar com o cara bonzinho que, aparentemente, “se esforçou” para te fazer feliz.

500-days-of-summer-3

O machismo nas relações interpessoais realmente não deixa sobreviventes, principalmente nas relações afetivas heterossexuais. Eu digo isso baseando-me na minha própria experiência enquanto mulher cis heterossexual. Todos os meus relacionamentos até então foram pautados por uma hierarquia de gênero que sempre me colocou na posição de Summer – não quis porque é uma vadia, porque não soube dar valor pro cara certo, porque não soube dar valor a si própria. A pior parte disso tudo é que eu tenho certeza de que eu não fui a única que passei por isso, e que muitas meninas, sejam elas bi ou heterossexuais, cis ou trans, ao se relacionarem com um homem sofreram algum tipo de violência – principalmente ao falar não pro cara.

“quando o homem sofre, a culpa é da mulher, mas quando a mulher sofre, a culpa é dela mesma”

Aparentemente os homens foram socializados de modo a nunca poderem ouvir a palavra não – não quero sair com você, não quero dar pra você, não quero ser mais sua namorada, não quero que você fale assim comigo, não quero que você me toque dessa forma, não quero que você olhe para mim. Não. Dizer não a um homem (principalmente um “homem bonzinho”) é negar a ele todos os privilégios que lhe foram conseguidos, e isso traz graves consequências às mulheres, como o estupro, a violência física e, claro, a violência emocional, tão presente, mas mesmo assim tão subestimada pela sociedade – se ela for feminina, claro.

Tom Hansen não soube ouvir não, e seu sofrimento, tão romantizado pelo cinema, fez um desserviço às mulheres, colocando-as na posição de algozes da masculinidade. Já não basta toda a babaquice envolvida no mito da virilidade e da sexualidade masculina, os homens também detém o privilégio do sofrimento legítimo – quando o homem sofre, a culpa é da mulher,mas quando a mulher sofre a culpa é dela mesma. Além de ficarmos absolutamente sozinhas nessa relação, já que perdemos total credibilidade perante nossos círculos sociais, ainda temos que lidar com toda a culpabilização em nível simbólico, como nos mostra todas as comédias românticas, com exceção d’ “O Casamento do Meu Melhor Amigo“. Ou seja, o sofrimento masculino é algo absolutamente romantizado e público, enquanto o sofrimento feminino, se não for motivo de chacota, deve permanecer apenas no privado, de preferência trancado em diários, banheiros ou “conversas de mulher”.

 

Leia também:
Descartando um namoro por Whatsapp
Solteira sim, sozinha também
A bisexualidade existe sim

 
Aí é que está: a violência da mulher (no caso, terminar um namoro), sempre será pior que a violência protagonizada pelo cara. Não importa o que o cara tenha feito, quantas vezes tenha mentido, quantas vezes tenha sido agressivo ou chantagista, a mina SEMPRE vai ser a algoz, destruidora de corações (já falaram para mim que eu tinha “destruído a vida do cara” por ter terminado o namoro). Além de tudo isso não fazer sentido (afinal de contas, ninguém é obrigado a ficar com ninguém), isso só corrobora com a realidade de milhares de meninas metidas em relacionamentos abusivos – muitas das quais nem se dão conta disso, tendo em vista o silenciamento e a falta de protagonismo na relação. O relacionamento abusivo se manifesta de maneiras sutis, sendo a mais perigosa delas a chantagem emocional – seja ela direta ou indireta. O que Tom Hansen faz não é sofrer, mas sim uma hora e meia de chantagem emocional indireta, uma vez que só podemos ouvir seus pensamentos no filme – claro né, gente, foda-se a Summer.

Recentemente eu tenho assistido a filmes que antes me emocionavam para ver se eles ainda tinham o mesmo efeito sobre mim. Ao rever 500 dias com Ela, percebi que o feminismo fez com que eu passasse de adoradora do Tom para a pessoa que mais quer mandá-lo se foder. Mais especificamente, todos os Toms e Mark Webbs do mundo deveriam se foder. Ainda estou tentando (re)digerir essa história patética de ode ao sofrimento e à superação masculina. Por que a superação da Summer é vista como um entrave na vida do Tom enquanto a superação dele é vista como um novo capítulo de um livro? Por que focar a história na figura masculina ferida, que não aceita ouvir um não?

Muitos (acreditem, muita gente mesmo) irão argumentar que o ponto do filme é, na verdade, mostrar o quão babaca o Tom é, mostrando o papelão que ele protagonizou por causa de um término de relacionamento (vamos lembrar da cena em que ele bate em um cara no bar só pra provar ser machão pra Summer?). Eu acho que se esse fosse o ponto do filme ele não estaria na posição de mocinho – todos sabemos como funciona essa estrutura dramática do herói que luta contra o mal e se exima dos pecados depois de passar por várias provações, bem ao estilo século XII. Se a Summer estivesse no lugar do Tom ela provavelmente terminaria internada em um hospital psiquiátrico, porque uma mulher fazendo qualquer uma das coisas que Hansen faz no filme seria considerado histeria ou personalidade borderline. É realmente cansativo ver essa exaltação do sofrimento masculino heterossexual enquanto todas já passamos por algum tipo de abuso no relacionamento e fomos silenciadas justamente devido a essa extrema compaixão para com os homens.

Não sei, acho que preciso dar um tempo nas comédias românticas.

" />