Pornô feminista: orgasmos fora do padrão

Cena de um dos filmes da diretora Jiz Lee, "Threat".

Mulheres não assistem pornô. Mulheres não se excitam com pornografia. Errado! Muito errado! Talvez mulheres assistam menos pornô – supostamente – porque não existam pornôs suficientes que as representem. Que saibam atingir e representar o prazer feminino em sua beleza e complexidade. Mas isso está mudando, amigas! Graças às criativas mentes femininas, queer, trans, etc da indústria erótica.  Algumas dessas mentes brilhantes e revolucionárias estiveram na Premiação de Pornô Feminista, PorYes, que ocorreu lindamente no sábado, dia 17 de outubro, em Berlim.

 
[caption id="attachment_7241" align="alignnone" width="1024"]Jennifer Lyon Bell e Buck Angel conversam antes do início da premiação Jennifer Lyon Bell e Buck Angel conversam antes do início da premiação[/caption]  
Que mulheres são representadas de forma machista em filmes pornôs não é novidade e disso todo mundo que tem o mínimo de senso e que já assistiu pornografia uma vez na vida já se ligou. Mulheres são retratadas como passivas, objetos que estão lá para proporcionar prazer ao homem. Os corpos seguem um padrão de peitos grandes ou gigantes, bundas grandes e vaginas depiladas. Enquanto isso os homens são retratados muitas vezes como agressivos, insensíveis, com corpos mega malhados e pênis gigantescos. São imagens que pouco correspondem à realidade dos espectadores. Isso sem falar nas situações por vezes ridículas que resultam em sexo.

Foi numa tentativa de mudar isso e oferecer uma alternativa fora da pornografia mainstream é que os pornôs feministas surgiram. Neles, as mulheres são o público alvo e são representadas como seres ativos que exploram sua sexualidade de diferentes formas – como é de fato na vida real! E o mais importante: os cenários são montados para contar histórias em que tudo acontece de forma consensual e prazerosa pra todos os lados (enquanto muitos pornôs mainstream exploram a violência contra a mulher como um fetiche).

 
[caption id="attachment_7253" align="aligncenter" width="621"]Cena do filme "Touch", uma co-produção de Gala Vanting Cena do filme “Touch”, uma co-produção de Gala Vanting[/caption]  
A premiação PorYes foi criada em 2009 pela comunicadora e especialista em sexo e anatomia feminina Dr. Laura Meritt, com objetivo de apoiar essa revolução feminista contra a pornografia sexista e mainstream.  O evento acontece de dois em dois anos em Berlim e premia diretores, atores, produtores que consigam, com seus trabalhos, representar e alcançar o prazer feminino. São pessoas que influenciam a indústria de filmes eróticos de forma positiva. Os esforços para trazer o pornô mais próximo das mulheres foram surgindo dentro do Sex-Positive Movement e Sex-Positive Feminism que, entre outras coisas, abrange o sexo como algo saudável, consensual e que deve ser explorado de forma positiva e prazerosa a todos. Nessa experimentação de coisas novas, incluem-se também novas tendências criativas de pornografia, que explorem o imaginativo erótico – e por que não? – o prazer feminino.

 
[caption id="attachment_7252" align="alignnone" width="1024"]Cena do filme "Shutter", dirigido por Goodyn Green Cena do filme “Shutter”, dirigido por Goodyn Green[/caption]  
Achei lindo o que Laura Meritt falou ao apresentar o PorYes 2015, que teve como tema principal esse ano a transexualidade: “Trans é ultrapassar fronteiras, não só de personalidade, mas das normas de gênero e de corpo. É sair de categorias limitadas, colocadas por muitas produções pornográficas, como do que é um corpo bonito ou sexy e do que é ‘sexo bonito’”. Esqueça padrões de beleza esperados e gêneros engavetados em xx e xy ou whatever. Esqueça também aquele “good looking sex”. Nos pornôs feministas da mostra, padrões de beleza e gênero são quebrados com muita criatividade.

Logo depois da abertura feita por Laura e Ula Stöckl, cineasta pioneira na produção de filmes por mulheres para mulheres, foram passadas algumas cenas de um filme com uma mulher gordinha em uma cadeira de rodas que é masturbada por outra mulher; na próxima cena, outra mulher se senta em um pênis de borracha amarrado na perna da mulher na cadeira de rodas. A cena acontece em um cenário simples – a sala de estar de uma casa que parece até meio velha – e as atrizes não correspondem a nenhum padrão de beleza da indústria pornô – são gordinhas e tem marcas no corpo, como cicatrizes. Essas cenas são mostradas para exemplificar o que está sendo produzido fora da pornografia mainstream.

 
[caption id="attachment_7248" align="alignnone" width="997"]Cena do filme "Silver Shoes", de Jennifer Lyon Bell Cena do filme “Silver Shoes”, de Jennifer Lyon Bell[/caption]  
Outro exemplo de produção alternativa são os filmes da primeira premiada da noite, Jennifer Lyon Bell. A diretora holandesa fundou a produtora de filmes eróticos Blue Artichoke Films, em que trabalha com o que é chamado de realismo emocional (emotional realism). O negócio é fazer a cena parecer o mais real possível, com emoções reais. “Sexo pode acontecer em diferentes contextos emocionais, não só de amor romântico, ou girly love, mas de nervosismo, alegria, excitação, etc”, diz Jennifer. Por isso, em seus filmes, as cenas de sexo acontecem em meio a uma relação entre os indivíduos – não necessariamente amorosa, de amizade, ou etc, mas algo que os liga por uma emoção – sejam eles completos desconhecidos ou não. Com técnicas como shot-reverse shot, que vai em volta focando no rosto e expressões dos personagens, e facial reaction shots, os filmes de Jennifer Lyon Bell tentam fazer com que os espectadores se sintam parte do ato. Essas são coisas presentes em seu filme premiado “Silver Shoes”, que conta três histórias relacionadas a um par de sapatos prateados e intercala cenas de sexo hetero, lésbico e de masturbação feminina.

 
[caption id="attachment_7259" align="alignnone" width="1024"]Jennifer Lyon Bell recebe prêmio pelo filme "Silver Shoes" Jennifer Lyon Bell recebe prêmio pelo filme “Silver Shoes” [/caption]  
O filme “Want some Oranges”, da dinamarquesa Goodyn Green, também me chamou muito a atenção na premiação. Uma das mulheres da cena está grávida e exerce o papel dominante, usando um cinto com a prótese de um pênis, com outra mulher. “Isso é para mostrar a mulher grávida em outro papel, um papel não convencional, e isso também é um fetiche”, explica Goodyn Green. Sobre o processo de filmagem, ela diz que monta a cena e deixa a câmera rodar. “O mais importante é os atores terem química entre eles, daí tudo vai acontecendo meio que por acidente”, diz a diretora e fotógrafa.

 
[caption id="attachment_7244" align="alignnone" width="1024"]Goodyn Green ganha prêmio por tematizar androginia em seus projetos Goodyn Green ganha prêmio por tematizar androginia em seus projetos[/caption]  
Mais premiados da noite foram Gala Vanting, Buck Angel e Jiz Lee. A australiana Gala Vanting é entusiasta de BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) e produtora de filmes artísticos que exploram a imaginação erótica. Buck Angel, “the man with a pussy”, foi um dos pioneiros a fazer filmes pornôs como um homem trans. Ele explica que no início ninguém queria filmar com ele por o considerarem uma aberração, mas ele não se importou e criou sua própria produtora com filmes pornôs estrelando homens e mulheres trans. Buck Angel chorou ao fazer o discurso de agradecimento pelo prêmio PorYes 2015, quando falou de seu ativismo para passar conhecimento sobre transexualismo transexualidade e obter mais respeito aos transexuais.

 
[caption id="attachment_7243" align="alignnone" width="1024"]Gala Vanting fala sobre seus projetos como cineasta e entusiasta de BDSM Gala Vanting fala sobre seus projetos como cineasta e entusiasta de BDSM[/caption]  
[caption id="attachment_7245" align="alignnone" width="1024"]Buck Angel recebe prêmio por sua contribuição na causa LGBT Buck Angel recebe prêmio por sua contribuição na causa LGBT[/caption]  
[caption id="attachment_7249" align="alignnone" width="683"]Buck Angel foi pioneiro como homem trans na indústria pornô Buck Angel foi pioneiro como homem trans na indústria pornô[/caption]  
Jiz Lee, que concedeu uma entrevista inteirinha para o Ovelha, recebeu o prêmio por último. Jiz Lee se considera pessoa genderqueer ou não-binária, ou seja, não se identifica como homem nem mulher ou como os dois. Os filmes em que atua representam isso muito bem, ao ultrapassar limitações de conceitos de mulher, homem, hetero ou homossexualidade. Recentemente, Jiz Lee lançou o livro “Coming Out as a Porn Star”, em que são contadas histórias de pessoas que trabalham na indústria pornô: como elas chegaram até ali, o porquê, o que elas fazem e como assumiram isso, ou não, para o mundo.

 
[caption id="attachment_7247" align="alignnone" width="1024"]Cena de um dos filmes de Jiz Lee que foi mostrada na premiação Cena de um dos filmes de Jiz Lee que foi mostrada na premiação[/caption]  
Ir na premiação foi uma experiência além das minhas expectativas. Em algumas poucas horas, conheci um mundo inteiro de coisas novas que exploram a sexualidade feminina de forma muito positiva e de mil e uma formas diferentes! O negócio é esquecer barreiras, categorias, padrões, e pensar no prazer. Sai de lá com esperança numa sociedade que discrimine menos a sexualidade feminina e grite mais: Viva la Vulva!*

 
[caption id="attachment_7246" align="alignnone" width="1024"]Premiados reunidos ao final da noite Premiados reunidos ao final da noite[/caption]  
* As garotas do Sex-Positive-Movement usam essa expressão para exaltar a sexualidade feminina e empoderar nossas vaginas. Laura Meritt saudou o público na abertura do PorYes 2015 com essa frase.

 
[separator type="thin"]

Créditos das fotos: Débora Backes e Polly Fannlaf © poryes

Escrito por
Mais de Débora Backes

Assista: A Garota Dinamarquesa

 

 
Em um atelier de pintura, em uma casa da década de 1920, em Copenhague, marido e esposa trabalham. A modelo para seu retrato se atrasa e ela pede ao marido que vista meias até o joelho, calce sapatos de salto e coloque um vestido pomposo na frente, para ajudá-la a terminar o trabalho. Enquanto ela pincela na tela, ele amacia o tecido do vestido com as pontas dos dedos e se perde em pensamentos. Concentrado no toque, respira rapidamente, quase que nervoso. Quando a modelo e amiga do casal entra no quarto de repente e vê a cena, vira-se para o homem vestido de mulher e em gargalhadas diz: “Vamos te chamar de Lili.”

 
Focus Fea
 
Essa não é a primeira cena do filme “A Garota Dinamarquesa” (“The Danish Girl”), do diretor Tom Hooper, mas é com certeza decisiva. O filme se inspira história do livro de ficção, baseado em fatos reais, “A Garota Dinamarquesa” de David Ebershoff, que por sua vez conta parte da vida do pintor dinamarquês Einar Wegener ou Lili Elbe, depois a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo. A cirurgia o primeiro procedimento do tipo documentado na história.

Mais do que uma simples biografia, o filme foca na relação complexa e delicada entre Einar (e depois Lili) e sua mulher Gerda. Os dois eram o casal perfeito, super apaixonados, e Einar dizia só ter olhos para sua linda esposa. Também combinavam em talento: ele, pintor de paisagens do interior da Dinamarca; ela, pintora de retratos de pessoas ricas e famosas. Um dia são convidados a um baile do meio artístico por uma amiga. Como Einar não queria ir, Gerda tem a ideia de vesti-lo como Lili, assim ela e Lili poderiam ir à festa. Ela diria que Lili era a prima de Einar do interior. Tudo começa como uma brincadeira que acaba por despertar outro lado no pintor. O seu lado Lili.

 
the danish girl divulgação
 
A partir de então é como se ele tivesse duas personalidades. Com o tempo, a personalidade de Lili passa a predominar e Einar se torna seguro de que nunca será feliz em um corpo masculino. Gerda, sua esposa, não faz escândalos ou tem grandes crises (só algumas pequenas). O apoia e decidi leva-lo a Paris, quando os médicos ameaçam interna-lo por loucura. No filme, Einar procura vários médicos em busca de ajuda e muitas vezes recebe o diagnóstico de esquizofrênico ou homossexual (o que na época se acreditava ser algo a ser tratado).

 
A171_C001_03123F.0017547.tif
 
Ainda em Copenhague, Gerda começa a fazer sucesso com os retratos de Lili. Em Paris, ela se foca mais ainda nisso, encorajando Einar a ser cada vez mais Lili. Claro que, com o tempo, a relação de marido e mulher some entre os dois. Até por isso, há momentos muitos difíceis para Gerda. Em uma das cenas que achei bem marcante, ela chega em casa pedindo para falar com seu marido Einar, mas é Lili que está ali. E Lili responde que não pode chama-lo. Ao que Gerda insiste em lágrimas que precisa abraçar seu marido, Einar reaparece brevemente.

A relação dos dois é complexa, mas bela. Gerda claramente era uma mulher à frente de seu tempo, que mesmo com o sofrimento em perder seu marido, esteve todo o tempo ao lado de Einar e Lili. Ela tinha consciência de que iria, de certa forma, perdê-lo, mas quer acabar com sua angústia por estar no corpo de um homem.

Outra cena bastante decisiva no filme é quando Einar e Gerda se encontram com o médico alemão Dr. Warnekros. Em uma mesa de um café, Einar diz acreditar ser, de fato, uma mulher. Gerda concorda: “Eu também acredito que ele seja uma mulher”. Os dois se olham e dão as mãos, enquanto o médico explica como pode ajudar. Graças a uma nova prática cirúrgica, ele seria capaz de fazer Einar se tornar Lili por completo. “É a minha única esperança”, e com isso Einar decide partir para Dresden, no leste da Alemanha, para retornar como Lili.

O filme tem uma fotografia linda e foca bastante em detalhes, como o toque delicado e nervoso de Einar ao passar as mães em roupas femininas ou, com desgosto, por seu próprio corpo. Delicada também é a forma como a história é contada. Acho o filme conseguiu mostrar bem a transformação gradual de Einar em Lili e deixa claro que aquilo não havia começado por culpa de Gerda, que o fez vestir as roupas femininas pela primeira vez. “Lili sempre esteve em mim, você só ajudou a dar vida a ela”, são palavras de Lili à Gerda. Mais tarde, fica claro que desde criança Einar sentia estar no corpo errado.

Parte me deixou bem pra baixo no cinema foi ver a forma como as pessoas tratavam homossexuais e transexuais naquela época. Tá certo que ainda não vencemos todas as barreiras e ainda existem pessoas muito ignorantes quanto a isso (oi, Bolsonaros da vida, estou falando com vocês!), mas ver como era naquela época foi um soco no estômago. Einar passou por tratamentos com radiação, terapias e foi classificado como louco, correndo o risco de ser trancado em um hospício para sempre. Pelo que entendi, havia um grande medo quanto a isso e quem apresentasse um lado considerado “anormal” ou “imoral”, como eles mesmo dizem no filme, era logo classificado como insano.

 
the danish girl focus features 2
 
Apesar das críticas, achei que a atuação do ator britânico Eddie Redmayne como Einar e Lili foi muito boa. Achei que ele conseguiu acompanhar a transformação gradual do seu personagem e também jogar com as duas personalidades que brigam para se tornar predominante. A sua indicação ao Oscar não foi à toa, na minha opinião.

Outra atuação impecável é a da atriz sueca Alicia Vikander (também indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) no papel de Gerda. Ela consegue passar a leveza e a força da personalidade da pintura, que mostra só lealdade para com Einar e Lili. Uma lealdade incrível que é, na minha opinião, uma das coisas mais surpreendentes no longa.

Enfim, fica aí a recomendação e aguardo ansiosamente por novos comentários sobre filme.

 

 


Créditos das imagens: Focus Features/Divulgação

Leia mais
PorYes, que ocorreu lindamente no sábado, dia 17 de outubro, em Berlim.

 

 
Que mulheres são representadas de forma machista em filmes pornôs não é novidade e disso todo mundo que tem o mínimo de senso e que já assistiu pornografia uma vez na vida já se ligou. Mulheres são retratadas como passivas, objetos que estão lá para proporcionar prazer ao homem. Os corpos seguem um padrão de peitos grandes ou gigantes, bundas grandes e vaginas depiladas. Enquanto isso os homens são retratados muitas vezes como agressivos, insensíveis, com corpos mega malhados e pênis gigantescos. São imagens que pouco correspondem à realidade dos espectadores. Isso sem falar nas situações por vezes ridículas que resultam em sexo.

Foi numa tentativa de mudar isso e oferecer uma alternativa fora da pornografia mainstream é que os pornôs feministas surgiram. Neles, as mulheres são o público alvo e são representadas como seres ativos que exploram sua sexualidade de diferentes formas – como é de fato na vida real! E o mais importante: os cenários são montados para contar histórias em que tudo acontece de forma consensual e prazerosa pra todos os lados (enquanto muitos pornôs mainstream exploram a violência contra a mulher como um fetiche).

 

 
A premiação PorYes foi criada em 2009 pela comunicadora e especialista em sexo e anatomia feminina Dr. Laura Meritt, com objetivo de apoiar essa revolução feminista contra a pornografia sexista e mainstream.  O evento acontece de dois em dois anos em Berlim e premia diretores, atores, produtores que consigam, com seus trabalhos, representar e alcançar o prazer feminino. São pessoas que influenciam a indústria de filmes eróticos de forma positiva. Os esforços para trazer o pornô mais próximo das mulheres foram surgindo dentro do Sex-Positive Movement e Sex-Positive Feminism que, entre outras coisas, abrange o sexo como algo saudável, consensual e que deve ser explorado de forma positiva e prazerosa a todos. Nessa experimentação de coisas novas, incluem-se também novas tendências criativas de pornografia, que explorem o imaginativo erótico – e por que não? – o prazer feminino.

 

 
Achei lindo o que Laura Meritt falou ao apresentar o PorYes 2015, que teve como tema principal esse ano a transexualidade: “Trans é ultrapassar fronteiras, não só de personalidade, mas das normas de gênero e de corpo. É sair de categorias limitadas, colocadas por muitas produções pornográficas, como do que é um corpo bonito ou sexy e do que é ‘sexo bonito’”. Esqueça padrões de beleza esperados e gêneros engavetados em xx e xy ou whatever. Esqueça também aquele “good looking sex”. Nos pornôs feministas da mostra, padrões de beleza e gênero são quebrados com muita criatividade.

Logo depois da abertura feita por Laura e Ula Stöckl, cineasta pioneira na produção de filmes por mulheres para mulheres, foram passadas algumas cenas de um filme com uma mulher gordinha em uma cadeira de rodas que é masturbada por outra mulher; na próxima cena, outra mulher se senta em um pênis de borracha amarrado na perna da mulher na cadeira de rodas. A cena acontece em um cenário simples – a sala de estar de uma casa que parece até meio velha – e as atrizes não correspondem a nenhum padrão de beleza da indústria pornô – são gordinhas e tem marcas no corpo, como cicatrizes. Essas cenas são mostradas para exemplificar o que está sendo produzido fora da pornografia mainstream.

 

 
Outro exemplo de produção alternativa são os filmes da primeira premiada da noite, Jennifer Lyon Bell. A diretora holandesa fundou a produtora de filmes eróticos Blue Artichoke Films, em que trabalha com o que é chamado de realismo emocional (emotional realism). O negócio é fazer a cena parecer o mais real possível, com emoções reais. “Sexo pode acontecer em diferentes contextos emocionais, não só de amor romântico, ou girly love, mas de nervosismo, alegria, excitação, etc”, diz Jennifer. Por isso, em seus filmes, as cenas de sexo acontecem em meio a uma relação entre os indivíduos – não necessariamente amorosa, de amizade, ou etc, mas algo que os liga por uma emoção – sejam eles completos desconhecidos ou não. Com técnicas como shot-reverse shot, que vai em volta focando no rosto e expressões dos personagens, e facial reaction shots, os filmes de Jennifer Lyon Bell tentam fazer com que os espectadores se sintam parte do ato. Essas são coisas presentes em seu filme premiado “Silver Shoes”, que conta três histórias relacionadas a um par de sapatos prateados e intercala cenas de sexo hetero, lésbico e de masturbação feminina.

 

 
O filme “Want some Oranges”, da dinamarquesa Goodyn Green, também me chamou muito a atenção na premiação. Uma das mulheres da cena está grávida e exerce o papel dominante, usando um cinto com a prótese de um pênis, com outra mulher. “Isso é para mostrar a mulher grávida em outro papel, um papel não convencional, e isso também é um fetiche”, explica Goodyn Green. Sobre o processo de filmagem, ela diz que monta a cena e deixa a câmera rodar. “O mais importante é os atores terem química entre eles, daí tudo vai acontecendo meio que por acidente”, diz a diretora e fotógrafa.

 

 
Mais premiados da noite foram Gala Vanting, Buck Angel e Jiz Lee. A australiana Gala Vanting é entusiasta de BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) e produtora de filmes artísticos que exploram a imaginação erótica. Buck Angel, “the man with a pussy”, foi um dos pioneiros a fazer filmes pornôs como um homem trans. Ele explica que no início ninguém queria filmar com ele por o considerarem uma aberração, mas ele não se importou e criou sua própria produtora com filmes pornôs estrelando homens e mulheres trans. Buck Angel chorou ao fazer o discurso de agradecimento pelo prêmio PorYes 2015, quando falou de seu ativismo para passar conhecimento sobre transexualismo transexualidade e obter mais respeito aos transexuais.

 

 

 

 
Jiz Lee, que concedeu uma entrevista inteirinha para o Ovelha, recebeu o prêmio por último. Jiz Lee se considera pessoa genderqueer ou não-binária, ou seja, não se identifica como homem nem mulher ou como os dois. Os filmes em que atua representam isso muito bem, ao ultrapassar limitações de conceitos de mulher, homem, hetero ou homossexualidade. Recentemente, Jiz Lee lançou o livro “Coming Out as a Porn Star”, em que são contadas histórias de pessoas que trabalham na indústria pornô: como elas chegaram até ali, o porquê, o que elas fazem e como assumiram isso, ou não, para o mundo.

 

 
Ir na premiação foi uma experiência além das minhas expectativas. Em algumas poucas horas, conheci um mundo inteiro de coisas novas que exploram a sexualidade feminina de forma muito positiva e de mil e uma formas diferentes! O negócio é esquecer barreiras, categorias, padrões, e pensar no prazer. Sai de lá com esperança numa sociedade que discrimine menos a sexualidade feminina e grite mais: Viva la Vulva!*

 

 
* As garotas do Sex-Positive-Movement usam essa expressão para exaltar a sexualidade feminina e empoderar nossas vaginas. Laura Meritt saudou o público na abertura do PorYes 2015 com essa frase.

 

Créditos das fotos: Débora Backes e Polly Fannlaf © poryes

" />