Por um mundo com menos caras legais

"The Blue Flowers", arte baseada na pintura de Otto Dix. Por The Weaver House.

É hora de textão desabafo. Depois do ‪#meuprimeiroassédio e ‪#‎agoraéquesãoelas surgiram algumas respostas de homens do tipo #meaculpa e outras defesas piores que não quero nem comentar, e honestamente já deu.

Estou CANSADA de ver homem defendendo o assédio dele com a razão “mas eu sou uma ótima pessoa”. Querido, pode ser que você acorde cedo e lave prato e divida todas as contas possíveis do restaurante, que sua mãe trabalhe com você e você tenha várias amigas mulheres, que você se considere feminista e ache que todas nós temos o direito de votar. Pode ser, mesmo. Acontece que todos nós (sim, todos nós, eu inclusive, e sua mãe que trabalha com você) somos produtos de uma sociedade machista, e como tal, acabamos cometendo atitudes opressoras. Então, homem, caso você se veja sendo alertado ao fato de que cometeu uma atitude opressora, por favor nos poupe dos seus relatos de como você é um indivíduo fantástico. Você pode ser a pessoa mais maravilhosa do mundo, isso não te isenta de cometer atitudes opressoras. Afinal, tem muita mulher fantástica por ai que lavou muita louça e sempre dividiu conta que tá sendo estuprada, então a essa altura a gente sabe que ser fantástico não conta para nada. Se você, lendo as hashtags do primeiro assédio, lendo os textos do Agora é que são elas, percebeu que você também já teve atitudes opressoras, use isso como um momento de reflexão. Converse com seus amigos, veja o que podem fazer para desconstruir, para melhorar. Não vem pedir confete já que “olha, ofendi aqui, mas na verdade sou um cara super”. “Nossa, você sempre dividiu a conta? Ah, então tudo bem! Vou avisar aquela menina que você chamou de vadia pros amigos porque ela não quis te beijar, pode deixar que a gente te coloca no banco de dados feminista como ‘cara que sempre lavou a louça e na verdade é super legal'”. Meaculpa na delegacia ninguém tá fazendo né?

Acho engraçado também a velocidade com a qual homens que estão se envolvendo na defesa desses movimentos que estão brotando ultimamente pulam para defender o amiguinho que é legal mas foi acusado de machismo. Gente, se chama DESCONSTRUÇÃO, não diversão. Se fosse fácil ia chamar dia-na-praia, não vamos-desconstruir-e-tentar-derrubar-o-patriarcado-pras-mina-viver-em-paz. Porque acreditem, a única coisa pior que ter o seu espaço violado é depois ter que ouvir que o cara que violou o espaço é super legal então é pra você relevar. Dói ter que perceber que foi machista? Que machucou a menina? Que as pessoas vão achar você escroto pelo que fez? Que a sua ação teve significados que você não achava que teriam? Que você foi opressor, que colaborou para propagar um sistema opressor que tira vidas todos os dias? Dói. Mas dói muito, muito mais ver homens que dizem estar ajudando achando mais importante tirar o deles da reta porque são “caras legais” do que estar genuinamente interessados em fazer algo para mudar essa situação. Se metade da energia que os homens colocam em se justificar e tentar provar que eles são legais fosse posta em homens conversando um com o outro, tentando entender porque eles agiram desse jeito e tentando desconstruir juntos o machismo deles, a gente já estaria topless na praia com o aborto legalizado. Ou em um plano mais realista, talvez se os homens usassem suas plataformas de amplo acesso para explicar porque o que fizeram foi errado e machucou, ao invés de se justificar e tentar convencer todo mundo de como eles são caras ótimos, a gente já estaria andando de shorts na rua sem medo (parece tão pouco a se pedir né?).

Às vezes vale mais simplesmente ouvir, refletir, pedir desculpas. E pronto. Isso que vai fazer de você, não um cara legal que vai ganhar biscoito das feministas, mas uma pessoa humana, que entende a importância de tratar os outros com a mesma humanidade que espera que tratem você, entendendo de uma vez por todas que a dor do outro é mais importante que a sua justificativa. E que, no mundo real, onde mulheres são assassinadas todos os dias, não vai fazer a mínima diferença quantas louças você já lavou.
 
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Arte da capa via.

Mais de Barbara Mastrobuono

Lady sings the blues

Hoje comemoramos o centenário de Billie Holiday, nossa querida Lady Day. A moça foi uma das cantoras de jazz mais talentosas da história da música, cantando ao lado de nomes como Louis Armstrong e Artie Shaw. Holiday foi uma das primeiras cantoras negras a trabalhar com uma orquestra branca, e na década de 30 ela deu voz ao nascente movimento pela igualdade racial estadounidense com a canção Strange Fruit.

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Trata-se de uma versão musical do poema homônimo de Abel Meerpol, escritor judeu que criou Strange Fruit após ver uma foto de dois jovens negros linchados em Marion, Indiana. A foto aterrorizadora mostra Thomas Shipp e Abram Smith pendendo de uma árvore como um grotesco evento de entretenimento local, os espectadores brancos causalmente espalhando pela relva, olhando para a câmera com olhos perturbadoramente descompromissados. Na época Billie Holiday trabalhava para a Columbia Records. O selo proibiu-a de gravar a canção, mas Holiday não desistiu e liberou a música pelo selo alternativo Commodore. Strange Fruit foi a primeira canção a chamar atenção ao problema dos linchamentos nos Estados Unidos. David Margolick, autor de Strange Fruit, livro que descreve a trajetória da canção, descreve bem a sensação causada pela canção na época: “Por todo o país, adolescentes tocavam ‘Strange Fruit’ uns para os outros com uma sensação furtiva, como se o fruto em questão não fosse estranho, mas proibido”.

Qualquer um que já ouviu Billie Holiday cantando sabe que não existem palavras para descrever a emoção visceral que ela injeta em suas canções. Por isso não vou nem tentar. Deixo vocês com Strange Fruit, e com uma sensação de gratidão – pela força, pela luta e pela dor, tão necessária, para não esquecer.

 

 

Strange Fruit

Southern trees bear a strange fruit

Blood on the leaves and blood at the root

Black bodies swinging in the southern breeze

Strange fruit hanging from the poplar trees

 

Pastoral scene of the gallant south

The bulging eyes and the twisted mouth

Scent of magnolias, sweet and fresh

Then the sudden smell of burning flesh

 

Here is fruit for the crows to pluck

For the rain to gather, for the wind to suck

For the sun to rot, for the trees to drop

Here is a strange and bitter crop

 

Fruta Estranha

Árvores do sul produzem uma fruta estranha

Sangue nas folhas e sangue nas raízes

Corpos negros balançando na brisa do sul

Fruta estranha penduradas nos álamos

 

Pastoril cena do valente sul

Os olhos inchados e a boca torcida

Perfume de magnólias, doce e fresca

Depois o repentino cheiro de carne queimada

 

Aqui está a fruta para os corvos arrancarem

Para a chuva recolher, para o vento sugar

Para o sol apodrecer, para as árvores deixarem cair

Aqui está a estranha e amarga colheita

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‪#meuprimeiroassédio e ‪#‎agoraéquesãoelas surgiram algumas respostas de homens do tipo #meaculpa e outras defesas piores que não quero nem comentar, e honestamente já deu.

Estou CANSADA de ver homem defendendo o assédio dele com a razão “mas eu sou uma ótima pessoa”. Querido, pode ser que você acorde cedo e lave prato e divida todas as contas possíveis do restaurante, que sua mãe trabalhe com você e você tenha várias amigas mulheres, que você se considere feminista e ache que todas nós temos o direito de votar. Pode ser, mesmo. Acontece que todos nós (sim, todos nós, eu inclusive, e sua mãe que trabalha com você) somos produtos de uma sociedade machista, e como tal, acabamos cometendo atitudes opressoras. Então, homem, caso você se veja sendo alertado ao fato de que cometeu uma atitude opressora, por favor nos poupe dos seus relatos de como você é um indivíduo fantástico. Você pode ser a pessoa mais maravilhosa do mundo, isso não te isenta de cometer atitudes opressoras. Afinal, tem muita mulher fantástica por ai que lavou muita louça e sempre dividiu conta que tá sendo estuprada, então a essa altura a gente sabe que ser fantástico não conta para nada. Se você, lendo as hashtags do primeiro assédio, lendo os textos do Agora é que são elas, percebeu que você também já teve atitudes opressoras, use isso como um momento de reflexão. Converse com seus amigos, veja o que podem fazer para desconstruir, para melhorar. Não vem pedir confete já que “olha, ofendi aqui, mas na verdade sou um cara super”. “Nossa, você sempre dividiu a conta? Ah, então tudo bem! Vou avisar aquela menina que você chamou de vadia pros amigos porque ela não quis te beijar, pode deixar que a gente te coloca no banco de dados feminista como ‘cara que sempre lavou a louça e na verdade é super legal'”. Meaculpa na delegacia ninguém tá fazendo né?

Acho engraçado também a velocidade com a qual homens que estão se envolvendo na defesa desses movimentos que estão brotando ultimamente pulam para defender o amiguinho que é legal mas foi acusado de machismo. Gente, se chama DESCONSTRUÇÃO, não diversão. Se fosse fácil ia chamar dia-na-praia, não vamos-desconstruir-e-tentar-derrubar-o-patriarcado-pras-mina-viver-em-paz. Porque acreditem, a única coisa pior que ter o seu espaço violado é depois ter que ouvir que o cara que violou o espaço é super legal então é pra você relevar. Dói ter que perceber que foi machista? Que machucou a menina? Que as pessoas vão achar você escroto pelo que fez? Que a sua ação teve significados que você não achava que teriam? Que você foi opressor, que colaborou para propagar um sistema opressor que tira vidas todos os dias? Dói. Mas dói muito, muito mais ver homens que dizem estar ajudando achando mais importante tirar o deles da reta porque são “caras legais” do que estar genuinamente interessados em fazer algo para mudar essa situação. Se metade da energia que os homens colocam em se justificar e tentar provar que eles são legais fosse posta em homens conversando um com o outro, tentando entender porque eles agiram desse jeito e tentando desconstruir juntos o machismo deles, a gente já estaria topless na praia com o aborto legalizado. Ou em um plano mais realista, talvez se os homens usassem suas plataformas de amplo acesso para explicar porque o que fizeram foi errado e machucou, ao invés de se justificar e tentar convencer todo mundo de como eles são caras ótimos, a gente já estaria andando de shorts na rua sem medo (parece tão pouco a se pedir né?).

Às vezes vale mais simplesmente ouvir, refletir, pedir desculpas. E pronto. Isso que vai fazer de você, não um cara legal que vai ganhar biscoito das feministas, mas uma pessoa humana, que entende a importância de tratar os outros com a mesma humanidade que espera que tratem você, entendendo de uma vez por todas que a dor do outro é mais importante que a sua justificativa. E que, no mundo real, onde mulheres são assassinadas todos os dias, não vai fazer a mínima diferença quantas louças você já lavou.
 

Arte da capa via.

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