Enquanto a autoria do famoso readymade de Duchamp, “a Fonte”, é questionada, uma nova exposição examina o trio de mulheres que realmente lideraram o dadaísmo do início do século 20.
A escultura readymade do urinol de Marcel Duchamp, entitulada “a Fonte”, foi eleita a obra artística mais influente do século 20. Recentemente, no entanto, surgiram dúvidas se Duchamp de fato comprou ou não o urinol e o chamou de arte – muitos historiadores da arte acreditam agora que a famigerada peça foi, na verdade, a obra de outra artista dadaísta e excêntrica, a baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven. O nome lhe parece familiar? Para muito de nós, provavelmente não. Elsa, apesar da genialidade de seu trabalho e vida, nunca teve a fama nem a notoriedade recebida pelos seus colegas dadaístas homens.
Sophie Taeuber-Arp, Hannah Hoch e Elsa von Freytag-Loringhoven são três mulheres que foram as principais artistas do movimento vanguarda Dadaísta: um movimento que sempre fora historicamente associado com seus protagonistas masculinos. Apesar da da relativa obscuridade comparado aos nomes como Duchamp ou Manray, essas três mulheres contribuíram significativamente para o dadaísmo, através de obras de arte feitas a partir de uma gama vertiginosamente diversificada de mídias, incluindo colagem, cenografia, têxtil, escultura e objetos-escultura encontrados. Suas práticas incluem até exemplos de arte performática que ainda permanecem notavelmente atuais, apesar de terem quase um século. Esse trio, por muitas vezes esquecido, é o destaque da DADA Differently – traduzido Dada Diferente – uma exposição coletiva no Museu Haus Konstruktiv, em Zurique.
O Dada representou uma quebra radical da compreensão tradicional não só da arte, mas da razão e da própria lógica. Formado na politicamente neutra Suíça como reação aos horrores da Primeira Guerra Mundial, Dada imaginou uma arte tão sem sentido como o mundo em seu entorno. No entanto, apesar de sua sátira inovadora e iconoclastia cultural, Dada permaneceu como um movimento que abrigava e normalizava a misoginia do começo do século 20 assim como outras escolas de vanguarda da época. A marginalização dos trabalhos de Taeuber-Arp, Höch, and von Freytag-Loringhoven refletem isso.
A andrógena von Freytag-Loringhoven foi uma pioneira em performance artística, cuja arte e, crucialmente, vida desafiava ferozmente as convenções burguesas artísticas e morais. Ela ganhou notoriedade por sua estética proto-punk; fotografias mostravam a artista com um sutiã feito de latas de sopa, vestindo um canário enjaulado como colar, ou com seus cabelos raspados tingidos de vermillion. Em 1913, a caminho do cartório para se casar com um barão sem dinheiro, von Freytag-Loringhoven pegou um anel de ferro na rua e declarou ser um Enduring Ornament: um dos primeiros objetos readymade do mundo. Fazendo isso, minou a concepção ocidental do obra de arte como algo necessariamente agradável e única – dois anos antes de Duchamp e Francis Picabia fazerem o mesmo.
As fotomontagens de Höch cortam e fatiam imagens da vida contemporânea para criar novos significados enquanto minam compreensões do antigo. Enquanto essa colagens inovadoras tenham recebido aclamação recentemente, outros aspectos de sua prática – como as estranhas bonecas Dada – são menos conhecidos. Com olhos largos e arregalados e atributos sexuais secundários exagerados, as bonecas de pano continham a marca da incisiva sensibilidade crítica de Höch.
Pintora, dançarina e cenógrafa, Taeuber-Arp também subverteu o tradicionalmente feminino meio têxtil para fins mais radicais, criando marionetes articuladas para serem utilizadas em uma peça que integrava dança Dada com o nascente movimento psicanalítico. Fantoches como König Hirsch: Clarissa (1918) eram criados para expressar estados interiores, através do movimento expressivo libertado das restrições da anatomia humana.
Zurique foi a cidade na qual o movimento Dada ganhou seu nome e definição em 1916, no famoso cabaré Voltaire. É apropriado então, que em seu aniversário de 100 anos, o movimento nos ofereça a exposição DADA Differently, uma oportunidade para revisitar o Dada sob a luz da contribuição de todos seus membros – não apenas os homens.
Exposição “DADA Differently: Sophie Taeuber-Arp, Hannah Höch, Elsa von Freytag-Loringhoven”, rola de 25 de fevereiro até 8 de maio de 2016 no Museu Haus Konstruktiv, Zurique
Enquanto a autoria do famoso readymade de Duchamp, “a Fonte”, é questionada, uma nova exposição examina o trio de mulheres que realmente lideraram o dadaísmo do início do século 20.
A escultura readymade do urinol de Marcel Duchamp, entitulada “a Fonte”, foi eleita a obra artística mais influente do século 20. Recentemente, no entanto, surgiram dúvidas se Duchamp de fato comprou ou não o urinol e o chamou de arte – muitos historiadores da arte acreditam agora que a famigerada peça foi, na verdade, a obra de outra artista dadaísta e excêntrica, a baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven. O nome lhe parece familiar? Para muito de nós, provavelmente não. Elsa, apesar da genialidade de seu trabalho e vida, nunca teve a fama nem a notoriedade recebida pelos seus colegas dadaístas homens.
Sophie Taeuber-Arp, Hannah Hoch e Elsa von Freytag-Loringhoven são três mulheres que foram as principais artistas do movimento vanguarda Dadaísta: um movimento que sempre fora historicamente associado com seus protagonistas masculinos. Apesar da da relativa obscuridade comparado aos nomes como Duchamp ou Manray, essas três mulheres contribuíram significativamente para o dadaísmo, através de obras de arte feitas a partir de uma gama vertiginosamente diversificada de mídias, incluindo colagem, cenografia, têxtil, escultura e objetos-escultura encontrados. Suas práticas incluem até exemplos de arte performática que ainda permanecem notavelmente atuais, apesar de terem quase um século. Esse trio, por muitas vezes esquecido, é o destaque da DADA Differently – traduzido Dada Diferente – uma exposição coletiva no Museu Haus Konstruktiv, em Zurique.
O Dada representou uma quebra radical da compreensão tradicional não só da arte, mas da razão e da própria lógica. Formado na politicamente neutra Suíça como reação aos horrores da Primeira Guerra Mundial, Dada imaginou uma arte tão sem sentido como o mundo em seu entorno. No entanto, apesar de sua sátira inovadora e iconoclastia cultural, Dada permaneceu como um movimento que abrigava e normalizava a misoginia do começo do século 20 assim como outras escolas de vanguarda da época. A marginalização dos trabalhos de Taeuber-Arp, Höch, and von Freytag-Loringhoven refletem isso.
A andrógena von Freytag-Loringhoven foi uma pioneira em performance artística, cuja arte e, crucialmente, vida desafiava ferozmente as convenções burguesas artísticas e morais. Ela ganhou notoriedade por sua estética proto-punk; fotografias mostravam a artista com um sutiã feito de latas de sopa, vestindo um canário enjaulado como colar, ou com seus cabelos raspados tingidos de vermillion. Em 1913, a caminho do cartório para se casar com um barão sem dinheiro, von Freytag-Loringhoven pegou um anel de ferro na rua e declarou ser um Enduring Ornament: um dos primeiros objetos readymade do mundo. Fazendo isso, minou a concepção ocidental do obra de arte como algo necessariamente agradável e única – dois anos antes de Duchamp e Francis Picabia fazerem o mesmo.
As fotomontagens de Höch cortam e fatiam imagens da vida contemporânea para criar novos significados enquanto minam compreensões do antigo. Enquanto essa colagens inovadoras tenham recebido aclamação recentemente, outros aspectos de sua prática – como as estranhas bonecas Dada – são menos conhecidos. Com olhos largos e arregalados e atributos sexuais secundários exagerados, as bonecas de pano continham a marca da incisiva sensibilidade crítica de Höch.
Pintora, dançarina e cenógrafa, Taeuber-Arp também subverteu o tradicionalmente feminino meio têxtil para fins mais radicais, criando marionetes articuladas para serem utilizadas em uma peça que integrava dança Dada com o nascente movimento psicanalítico. Fantoches como König Hirsch: Clarissa (1918) eram criados para expressar estados interiores, através do movimento expressivo libertado das restrições da anatomia humana.
Zurique foi a cidade na qual o movimento Dada ganhou seu nome e definição em 1916, no famoso cabaré Voltaire. É apropriado então, que em seu aniversário de 100 anos, o movimento nos ofereça a exposição DADA Differently, uma oportunidade para revisitar o Dada sob a luz da contribuição de todos seus membros – não apenas os homens.
Exposição “DADA Differently: Sophie Taeuber-Arp, Hannah Höch, Elsa von Freytag-Loringhoven”, rola de 25 de fevereiro até 8 de maio de 2016 no Museu Haus Konstruktiv, Zurique
Enquanto a autoria do famoso readymade de Duchamp, “a Fonte”, é questionada, uma nova exposição examina o trio de mulheres que realmente lideraram o dadaísmo do início do século 20.
A escultura readymade do urinol de Marcel Duchamp, entitulada “a Fonte”, foi eleita a obra artística mais influente do século 20. Recentemente, no entanto, surgiram dúvidas se Duchamp de fato comprou ou não o urinol e o chamou de arte – muitos historiadores da arte acreditam agora que a famigerada peça foi, na verdade, a obra de outra artista dadaísta e excêntrica, a baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven. O nome lhe parece familiar? Para muito de nós, provavelmente não. Elsa, apesar da genialidade de seu trabalho e vida, nunca teve a fama nem a notoriedade recebida pelos seus colegas dadaístas homens.
[caption id="attachment_9441" align="aligncenter" width="1074"] Famosa obra de Duchamp, “a Fonte”, pode ser da baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven[/caption]
Sophie Taeuber-Arp, Hannah Hoch e Elsa von Freytag-Loringhoven são três mulheres que foram as principais artistas do movimento vanguarda Dadaísta: um movimento que sempre fora historicamente associado com seus protagonistas masculinos. Apesar da da relativa obscuridade comparado aos nomes como Duchamp ou Manray, essas três mulheres contribuíram significativamente para o dadaísmo, através de obras de arte feitas a partir de uma gama vertiginosamente diversificada de mídias, incluindo colagem, cenografia, têxtil, escultura e objetos-escultura encontrados. Suas práticas incluem até exemplos de arte performática que ainda permanecem notavelmente atuais, apesar de terem quase um século. Esse trio, por muitas vezes esquecido, é o destaque da DADA Differently – traduzido Dada Diferente – uma exposição coletiva no Museu Haus Konstruktiv, em Zurique.
O Dada representou uma quebra radical da compreensão tradicional não só da arte, mas da razão e da própria lógica. Formado na politicamente neutra Suíça como reação aos horrores da Primeira Guerra Mundial, Dada imaginou uma arte tão sem sentido como o mundo em seu entorno. No entanto, apesar de sua sátira inovadora e iconoclastia cultural, Dada permaneceu como um movimento que abrigava e normalizava a misoginia do começo do século 20 assim como outras escolas de vanguarda da época. A marginalização dos trabalhos de Taeuber-Arp, Höch, and von Freytag-Loringhoven refletem isso.
A andrógena von Freytag-Loringhoven foi uma pioneira em performance artística, cuja arte e, crucialmente, vida desafiava ferozmente as convenções burguesas artísticas e morais. Ela ganhou notoriedade por sua estética proto-punk; fotografias mostravam a artista com um sutiã feito de latas de sopa, vestindo um canário enjaulado como colar, ou com seus cabelos raspados tingidos de vermillion. Em 1913, a caminho do cartório para se casar com um barão sem dinheiro, von Freytag-Loringhoven pegou um anel de ferro na rua e declarou ser um Enduring Ornament: um dos primeiros objetos readymade do mundo. Fazendo isso, minou a concepção ocidental do obra de arte como algo necessariamente agradável e única – dois anos antes de Duchamp e Francis Picabia fazerem o mesmo.
[caption id="attachment_9420" align="aligncenter" width="643"] Elsa von Freytag-Loringhoven, 1915[/caption]
[caption id="attachment_9445" align="aligncenter" width="1682"] Elsa von Freytag-Loringhoven, 1915[/caption]
[caption id="attachment_9444" align="aligncenter" width="822"] “God”, pela baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven e Morton Schamberg[/caption]
As fotomontagens de Höch cortam e fatiam imagens da vida contemporânea para criar novos significados enquanto minam compreensões do antigo. Enquanto essa colagens inovadoras tenham recebido aclamação recentemente, outros aspectos de sua prática – como as estranhas bonecas Dada – são menos conhecidos. Com olhos largos e arregalados e atributos sexuais secundários exagerados, as bonecas de pano continham a marca da incisiva sensibilidade crítica de Höch.
[caption id="attachment_9442" align="aligncenter" width="838"] Colagem de Hannah Höch[/caption]
[caption id="attachment_9443" align="aligncenter" width="900"] Colagem de Hannah Höch[/caption]
Pintora, dançarina e cenógrafa, Taeuber-Arp também subverteu o tradicionalmente feminino meio têxtil para fins mais radicais, criando marionetes articuladas para serem utilizadas em uma peça que integrava dança Dada com o nascente movimento psicanalítico. Fantoches como König Hirsch: Clarissa (1918) eram criados para expressar estados interiores, através do movimento expressivo libertado das restrições da anatomia humana.
[caption id="attachment_9422" align="aligncenter" width="450"] Sophie Taeuber-Arp em Ascona, 1925 Stiftung Arp e.V., Berlin/Rolandswerth[/caption]
[caption id="attachment_9423" align="aligncenter" width="556"] König Hirsch: Clarissa (Réplica), 1918/1989, de Sophie Taueber-Arp[/caption]
[caption id="attachment_9421" align="aligncenter" width="786"] Composição de manchas quadrangulares, policromadas, densas, 1920 Sophie Taeuber-Arp[/caption]
Zurique foi a cidade na qual o movimento Dada ganhou seu nome e definição em 1916, no famoso cabaré Voltaire. É apropriado então, que em seu aniversário de 100 anos, o movimento nos ofereça a exposição DADA Differently, uma oportunidade para revisitar o Dada sob a luz da contribuição de todos seus membros – não apenas os homens.
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Exposição “DADA Differently: Sophie Taeuber-Arp, Hannah Höch, Elsa von Freytag-Loringhoven”, rola de 25 de fevereiro até 8 de maio de 2016 no Museu Haus Konstruktiv, Zurique
Ao mascarar um machismo e retirar o protagonismo da própria escritora, o título acima reduz Siri Hustvedt à condição de esposa, companheira, coadjuvante. A grosso modo, é sobre essa frase e suas implicações a abordagem do livro O mundo em chamas, lançado em 2014 pela Companhia das Letras.
A autora Siri Hustvedt é filha de imigrantes noruegueses. Nascida em Minnesota, EUA, mudou-se para Nova Iorque para graduar-se na Universidade de Columbia e saiu de lá com um doutorado em literatura. Multidisciplinar, publicou poesias e romances além de ensaios de filosofia, psicanálise e artigos sobre neurociência. Em 2014, foi nomeada para o Man Booker Prize e ganhou o Prêmio Los Angeles Time Book Award for Fiction no ano seguinte.
O livro O mundo em chamas, tanto o objeto real como o fictício e metalinguístico produzido pelo personagem I.V Hess, é uma coletânea post-mortem de entrevistas, depoimentos e trechos de diários da artista Harriet Burden.
Harriet Burden, ou Harry para os íntimos, é uma mulher mais velha, viúva, intelectual, ávida leitora, veste-se com chapéus e cores vivas, ostenta cabelos longos e cacheados, com a altura de um jogador de basquete. Com personalidade avassaladora, é objeto de repulsa da crítica especializada, chamada de histérica, neurótica, louca e bruxa. Frequentemente lembrada como excelente anfitriã de jantares, mas nunca teve seu trabalho artístico levado a sério, ela percebe cada vez mais o peso (o sobrenome Burden significa fardo em inglês) dos rótulos castradores utilizados para classificar seu trabalho e sua personalidade.
Harriet nunca teve suas obras reconhecidas pela comunidade artística e por anos viveu à sombra de seu marido marchand Felix Lord. Amargurada e impotente, se vê em um meio cada vez mais narcisístico e surdo, no qual é impossível argumentar ou apresentar algum tipo de contraponto. Porém, quando seu marido morre, ela vê a possibilidade de se reinventar, criando uma série de instalações plásticas, mascarando sua identidade atrás do nome de três artistas masculinos relativamente conhecidos.
O projeto, chamado de Mascaramentos, procura não só evidenciar a misoginia no círculo artístico como também discutir os conceitos de apropriação e percepção de gênero, raça e sexualidade, incitando o espectador a refletir sobre sua própria identidade.
Mascaramentos foi a solução encontrada para expressar-se, mas mais do que isso, era uma vingança, um grande tapa na cara do mundo. Burden queria rir de todos ao apontar a mesquinhez e machismo da sociedade e sabia que máscaras frequentemente eram mais reveladoras que a face real.
De fato, o experimento é um grande sucesso, mas começa a apresentar falhas quando o terceiro e último artista-fachada, Rune (sem sobrenome, como a Madonna) nega a autoria real da obra e recebe todos os louros do sucesso da instalação Por baixo. Sua tão desejada vingança não previa as variáveis do ego e as segundas intenções de suas máscaras.
Com isso fica mais claro o motivo da montagem de documentos do livro ficcional O mundo em chamas. I.V Hess tenta dar luz à carreira de Harriet Burden e esclarecer as autorias de Mascaramentos e sua relevância.
Passado e presente entrelaçam além da conjugação de verbos através da narrativa dos diários-alfabéticos da artista, mais temáticos do que cronológicos, remontando suas memórias de infância, traumas e vivências. Além dos diários, há depoimentos de seus filhos, Maisie e Ethan, de seu namorado e alguns de seus principais colaboradores. Os diversos gêneros textuais deixam o quebra-cabeça narrativo mais instigante e sua montagem é processual e prazerosa.
A compilação documental acronológica que traça a trajetória artística de Harriet Bruden deixa claro que O mundo em chamas não é apenas uma fábula feminista, mas também um complexo emaranhado de narrativas que dão corpo a uma personagem aterrorizada por memórias e ranços de seus traumas. A montagem de diversos depoimentos sobre Harry cria uma personagem multifacetada, entendendo a percepção do objeto pelo seu receptor como essencial para sua compreensão e talvez a única possível.
O enredo – familiar demais para Siri Hustvedt, “esposa do escritor Paul Auster” – é o retrato de diversas artistas e escritoras de nossa realidade, como a artista Margaret Keane, a escritora italiana Elena Ferrante (Letícia Mendes escreveu sobre o assunto aqui), a escultora Camille Claudel e Gerda Taro, fotógrafa que criou o personagem de Robert Capa junto com Andre Friedmann.
Porém, diversos críticos literários não captaram a ironia do romance e insiste em elogios condescendentes como “Harriet Burden parece um herói vindo dos romances de Phillip Roth ou Saul Bellow” ou “Siri Hustvedt parece se valer dos artísticos narrativos usados pelo marido para criar a tênue linha entre o concreto e o delírio”. É evidente que Harriet Burden ainda é necessária, essencial para reivindicarmos nossa própria autoria.
readymade de Duchamp, “a Fonte”, é questionada, uma nova exposição examina o trio de mulheres que realmente lideraram o dadaísmo do início do século 20.
A escultura readymade do urinol de Marcel Duchamp, entitulada “a Fonte”, foi eleita a obra artística mais influente do século 20. Recentemente, no entanto, surgiram dúvidas se Duchamp de fato comprou ou não o urinol e o chamou de arte – muitos historiadores da arte acreditam agora que a famigerada peça foi, na verdade, a obra de outra artista dadaísta e excêntrica, a baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven. O nome lhe parece familiar? Para muito de nós, provavelmente não. Elsa, apesar da genialidade de seu trabalho e vida, nunca teve a fama nem a notoriedade recebida pelos seus colegas dadaístas homens.
Sophie Taeuber-Arp, Hannah Hoch e Elsa von Freytag-Loringhoven são três mulheres que foram as principais artistas do movimento vanguarda Dadaísta: um movimento que sempre fora historicamente associado com seus protagonistas masculinos. Apesar da da relativa obscuridade comparado aos nomes como Duchamp ou Manray, essas três mulheres contribuíram significativamente para o dadaísmo, através de obras de arte feitas a partir de uma gama vertiginosamente diversificada de mídias, incluindo colagem, cenografia, têxtil, escultura e objetos-escultura encontrados. Suas práticas incluem até exemplos de arte performática que ainda permanecem notavelmente atuais, apesar de terem quase um século. Esse trio, por muitas vezes esquecido, é o destaque da DADA Differently – traduzido Dada Diferente – uma exposição coletiva no Museu Haus Konstruktiv, em Zurique.
O Dada representou uma quebra radical da compreensão tradicional não só da arte, mas da razão e da própria lógica. Formado na politicamente neutra Suíça como reação aos horrores da Primeira Guerra Mundial, Dada imaginou uma arte tão sem sentido como o mundo em seu entorno. No entanto, apesar de sua sátira inovadora e iconoclastia cultural, Dada permaneceu como um movimento que abrigava e normalizava a misoginia do começo do século 20 assim como outras escolas de vanguarda da época. A marginalização dos trabalhos de Taeuber-Arp, Höch, and von Freytag-Loringhoven refletem isso.
A andrógena von Freytag-Loringhoven foi uma pioneira em performance artística, cuja arte e, crucialmente, vida desafiava ferozmente as convenções burguesas artísticas e morais. Ela ganhou notoriedade por sua estética proto-punk; fotografias mostravam a artista com um sutiã feito de latas de sopa, vestindo um canário enjaulado como colar, ou com seus cabelos raspados tingidos de vermillion. Em 1913, a caminho do cartório para se casar com um barão sem dinheiro, von Freytag-Loringhoven pegou um anel de ferro na rua e declarou ser um Enduring Ornament: um dos primeiros objetos readymade do mundo. Fazendo isso, minou a concepção ocidental do obra de arte como algo necessariamente agradável e única – dois anos antes de Duchamp e Francis Picabia fazerem o mesmo.
As fotomontagens de Höch cortam e fatiam imagens da vida contemporânea para criar novos significados enquanto minam compreensões do antigo. Enquanto essa colagens inovadoras tenham recebido aclamação recentemente, outros aspectos de sua prática – como as estranhas bonecas Dada – são menos conhecidos. Com olhos largos e arregalados e atributos sexuais secundários exagerados, as bonecas de pano continham a marca da incisiva sensibilidade crítica de Höch.
Pintora, dançarina e cenógrafa, Taeuber-Arp também subverteu o tradicionalmente feminino meio têxtil para fins mais radicais, criando marionetes articuladas para serem utilizadas em uma peça que integrava dança Dada com o nascente movimento psicanalítico. Fantoches como König Hirsch: Clarissa (1918) eram criados para expressar estados interiores, através do movimento expressivo libertado das restrições da anatomia humana.
Zurique foi a cidade na qual o movimento Dada ganhou seu nome e definição em 1916, no famoso cabaré Voltaire. É apropriado então, que em seu aniversário de 100 anos, o movimento nos ofereça a exposição DADA Differently, uma oportunidade para revisitar o Dada sob a luz da contribuição de todos seus membros – não apenas os homens.
Exposição “DADA Differently: Sophie Taeuber-Arp, Hannah Höch, Elsa von Freytag-Loringhoven”, rola de 25 de fevereiro até 8 de maio de 2016 no Museu Haus Konstruktiv, Zurique