Dada: as mulheres do movimento dadaísmo

Elsa von Freytag-Loringhoven, 1915 International News Photography © Bettman/Corbis

Enquanto a autoria do famoso readymade de Duchamp, “a Fonte”, é questionada, uma nova exposição examina o trio de mulheres que realmente lideraram o dadaísmo do início do século 20.

 

 
A escultura readymade do urinol de Marcel Duchamp, entitulada “a Fonte”, foi eleita a obra artística mais influente do século 20. Recentemente, no entanto, surgiram dúvidas se Duchamp de fato comprou ou não o urinol e o chamou de arte – muitos historiadores da arte acreditam agora que a famigerada peça foi, na verdade, a obra de  outra artista dadaísta e excêntrica, a baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven. O nome lhe parece familiar? Para muito de nós, provavelmente não. Elsa, apesar da genialidade de seu trabalho e vida, nunca teve a fama nem a notoriedade recebida pelos seus colegas dadaístas homens.

 
[caption id="attachment_9441" align="aligncenter" width="1074"]Famosa obra de Duchamp, "a Fonte", pode ser da baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven Famosa obra de Duchamp, “a Fonte”, pode ser da baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven[/caption]  
Sophie Taeuber-Arp, Hannah Hoch e Elsa von Freytag-Loringhoven são três mulheres que foram as principais artistas do movimento vanguarda Dadaísta: um movimento que sempre fora historicamente associado com seus protagonistas masculinos. Apesar da da relativa obscuridade comparado aos nomes como Duchamp ou Manray, essas três mulheres contribuíram significativamente para o dadaísmo, através de obras de arte feitas a partir de uma gama vertiginosamente diversificada de mídias, incluindo colagem, cenografia, têxtil, escultura e objetos-escultura encontrados. Suas práticas incluem até exemplos de arte performática que ainda permanecem notavelmente atuais, apesar de terem quase um século. Esse trio, por muitas vezes esquecido, é o destaque da DADA Differently – traduzido Dada Diferente – uma exposição coletiva no Museu Haus Konstruktiv, em Zurique.

O Dada representou uma quebra radical da compreensão tradicional não só da arte, mas da razão e da própria lógica. Formado na politicamente neutra Suíça como reação aos horrores da Primeira Guerra Mundial, Dada imaginou uma arte tão sem sentido como o mundo em seu entorno. No entanto, apesar de sua sátira inovadora e iconoclastia cultural, Dada permaneceu como um movimento que abrigava e normalizava a misoginia do começo do século 20 assim como outras escolas de vanguarda da época. A marginalização dos trabalhos de Taeuber-Arp, Höch, and von Freytag-Loringhoven refletem isso.

A andrógena von Freytag-Loringhoven foi uma pioneira em performance artística, cuja arte e, crucialmente, vida desafiava ferozmente as convenções burguesas artísticas e morais. Ela ganhou notoriedade por sua estética proto-punk; fotografias mostravam a artista com um sutiã feito de latas de sopa, vestindo um canário enjaulado como colar, ou com seus cabelos raspados tingidos de vermillion. Em 1913, a caminho do cartório para se casar com um barão sem dinheiro, von Freytag-Loringhoven pegou um anel de ferro na rua e declarou ser um Enduring Ornament: um dos primeiros objetos readymade do mundo. Fazendo isso, minou a concepção ocidental do obra de arte como algo necessariamente agradável e única – dois anos antes de Duchamp e Francis Picabia fazerem o mesmo.

 
[caption id="attachment_9420" align="aligncenter" width="643"]Elsa von Freytag-Loringhoven, 1915 Elsa von Freytag-Loringhoven, 1915[/caption]  
[caption id="attachment_9445" align="aligncenter" width="1682"]Elsa von Freytag-Loringhoven, 1915 Elsa von Freytag-Loringhoven, 1915[/caption]  
[caption id="attachment_9444" align="aligncenter" width="822"]"God", pela baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven e Morton Schamberg “God”, pela baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven e Morton Schamberg[/caption]  
As fotomontagens de Höch cortam e fatiam imagens da vida contemporânea para criar novos significados enquanto minam compreensões do antigo. Enquanto essa colagens inovadoras tenham recebido aclamação recentemente, outros aspectos de sua prática – como as estranhas bonecas Dada – são menos conhecidos. Com olhos largos e arregalados e atributos sexuais secundários exagerados, as bonecas de pano continham a marca da incisiva sensibilidade crítica de Höch.

 
[caption id="attachment_9442" align="aligncenter" width="838"]Colagem de Hannah Höch Colagem de Hannah Höch[/caption]  
[caption id="attachment_9443" align="aligncenter" width="900"]Colagem de Hannah Höch Colagem de Hannah Höch[/caption]  
Pintora, dançarina e cenógrafa, Taeuber-Arp também subverteu o tradicionalmente feminino meio têxtil para fins mais radicais, criando marionetes articuladas para serem utilizadas em uma peça que integrava dança Dada com o nascente movimento psicanalítico. Fantoches como König Hirsch: Clarissa (1918) eram criados para expressar estados interiores, através do movimento expressivo libertado das restrições da anatomia humana.

 
[caption id="attachment_9422" align="aligncenter" width="450"]Sophie Taeuber-Arp em Ascona, 1925 Stiftung Arp e.V., Berlin/Rolandswerth Sophie Taeuber-Arp em Ascona, 1925 Stiftung Arp e.V., Berlin/Rolandswerth[/caption]  
[caption id="attachment_9423" align="aligncenter" width="556"]König Hirsch: Clarissa (Réplica), 1918/1989, de Sophie Taueber-Arp König Hirsch: Clarissa (Réplica), 1918/1989, de Sophie Taueber-Arp[/caption]  
[caption id="attachment_9421" align="aligncenter" width="786"]Composição de manchas quadrangulares, policromadas, densas, 1920 Sophie Taeuber-Arp Composição de manchas quadrangulares, policromadas, densas, 1920 Sophie Taeuber-Arp[/caption]  
Zurique foi a cidade na qual o movimento Dada ganhou seu nome e definição em 1916, no famoso cabaré Voltaire. É apropriado então, que em seu aniversário de 100 anos, o movimento nos ofereça a exposição DADA Differently, uma oportunidade para revisitar o Dada sob a luz da contribuição de todos seus membros – não apenas os homens.

 
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Exposição “DADA Differently: Sophie Taeuber-Arp, Hannah Höch, Elsa von Freytag-Loringhoven”, rola de 25 de fevereiro até 8 de maio de 2016 no Museu Haus Konstruktiv, Zurique


Imagens retiradas daqui: 1 / 2 / 3 / 4

 
 

Escrito por
Mais de Fabi Oda

Assista: filmes de terror das minas

Dois mil e dezessete acabou de começar e já temos muitas expectativas quanto às estreias de cinema. Aqui selecionamos alguns filmes de terror dirigidos por mulheres que fogem dos estereótipos de gênero.

 

RAW – estreia em março nos EUA

 

A francesa Julia Ducournau estreia seu primeiro longa-metragem com RAW, que conta a história de uma caloura vegetariana que sofre um trote grotesco na faculdade de veterinária e passa a ficar atraída pelo gosto da carne crua.

Longe dos estereótipos de gênero, Ducournau aborda o canibalismo como símbolo do despertar da sexualidade e questionamento identitário da jovem protagonista.

O filme foi exibido nos festivais de Cannes, Toronto e ainda não tem data de estreia no Brasil.
 

Veja o trailer:

 

XX – estreia em fevereiro nos EUA

Antologia de terror dirigida e protagonizada por mulheres, Roxanne Benjamin, Karyn Kusama, St Vincent – ela mesma! a cantora St Vincent estreando na direção –  e Jovanka Vuckovic dirigem, respectivamente, os episódios Don’t Fall,  Her Only Living Son, The Birthday Party, The Box. E a animadora Sofia Carrillo amarra as histórias entre si.

Com primeira exibição marcada no festival de Sundance. agora no dia 22 de janeiro, mas também ainda sem data de estreia no Brasil.
 

Veja o trailer:

 

The Lure – ainda sem data no circuito comercial

Filme de 2015, dirigido pela polonesa Agnieszka Smoczynska, The Lure conta a história surreal and musical de duas irmãs sereias, Golden e Silver, que são “adotadas” por um cabaré.

Porém, enquanto uma quer encontrar um amor, a outra consegue apenas pensar em seu apetite canibal por humanos.

O musical colorido, surreal e sinistro foi exibido no festival de Sundance de 2016 e na 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ainda sem data de estreia no Brasil.
 

Veja o trailer:


 

Leia mais
readymade de Duchamp, “a Fonte”, é questionada, uma nova exposição examina o trio de mulheres que realmente lideraram o dadaísmo do início do século 20.

 

 
A escultura readymade do urinol de Marcel Duchamp, entitulada “a Fonte”, foi eleita a obra artística mais influente do século 20. Recentemente, no entanto, surgiram dúvidas se Duchamp de fato comprou ou não o urinol e o chamou de arte – muitos historiadores da arte acreditam agora que a famigerada peça foi, na verdade, a obra de  outra artista dadaísta e excêntrica, a baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven. O nome lhe parece familiar? Para muito de nós, provavelmente não. Elsa, apesar da genialidade de seu trabalho e vida, nunca teve a fama nem a notoriedade recebida pelos seus colegas dadaístas homens.

 

 
Sophie Taeuber-Arp, Hannah Hoch e Elsa von Freytag-Loringhoven são três mulheres que foram as principais artistas do movimento vanguarda Dadaísta: um movimento que sempre fora historicamente associado com seus protagonistas masculinos. Apesar da da relativa obscuridade comparado aos nomes como Duchamp ou Manray, essas três mulheres contribuíram significativamente para o dadaísmo, através de obras de arte feitas a partir de uma gama vertiginosamente diversificada de mídias, incluindo colagem, cenografia, têxtil, escultura e objetos-escultura encontrados. Suas práticas incluem até exemplos de arte performática que ainda permanecem notavelmente atuais, apesar de terem quase um século. Esse trio, por muitas vezes esquecido, é o destaque da DADA Differently – traduzido Dada Diferente – uma exposição coletiva no Museu Haus Konstruktiv, em Zurique.

O Dada representou uma quebra radical da compreensão tradicional não só da arte, mas da razão e da própria lógica. Formado na politicamente neutra Suíça como reação aos horrores da Primeira Guerra Mundial, Dada imaginou uma arte tão sem sentido como o mundo em seu entorno. No entanto, apesar de sua sátira inovadora e iconoclastia cultural, Dada permaneceu como um movimento que abrigava e normalizava a misoginia do começo do século 20 assim como outras escolas de vanguarda da época. A marginalização dos trabalhos de Taeuber-Arp, Höch, and von Freytag-Loringhoven refletem isso.

A andrógena von Freytag-Loringhoven foi uma pioneira em performance artística, cuja arte e, crucialmente, vida desafiava ferozmente as convenções burguesas artísticas e morais. Ela ganhou notoriedade por sua estética proto-punk; fotografias mostravam a artista com um sutiã feito de latas de sopa, vestindo um canário enjaulado como colar, ou com seus cabelos raspados tingidos de vermillion. Em 1913, a caminho do cartório para se casar com um barão sem dinheiro, von Freytag-Loringhoven pegou um anel de ferro na rua e declarou ser um Enduring Ornament: um dos primeiros objetos readymade do mundo. Fazendo isso, minou a concepção ocidental do obra de arte como algo necessariamente agradável e única – dois anos antes de Duchamp e Francis Picabia fazerem o mesmo.

 

 

 

 
As fotomontagens de Höch cortam e fatiam imagens da vida contemporânea para criar novos significados enquanto minam compreensões do antigo. Enquanto essa colagens inovadoras tenham recebido aclamação recentemente, outros aspectos de sua prática – como as estranhas bonecas Dada – são menos conhecidos. Com olhos largos e arregalados e atributos sexuais secundários exagerados, as bonecas de pano continham a marca da incisiva sensibilidade crítica de Höch.

 

 

 
Pintora, dançarina e cenógrafa, Taeuber-Arp também subverteu o tradicionalmente feminino meio têxtil para fins mais radicais, criando marionetes articuladas para serem utilizadas em uma peça que integrava dança Dada com o nascente movimento psicanalítico. Fantoches como König Hirsch: Clarissa (1918) eram criados para expressar estados interiores, através do movimento expressivo libertado das restrições da anatomia humana.

 

 

 

 
Zurique foi a cidade na qual o movimento Dada ganhou seu nome e definição em 1916, no famoso cabaré Voltaire. É apropriado então, que em seu aniversário de 100 anos, o movimento nos ofereça a exposição DADA Differently, uma oportunidade para revisitar o Dada sob a luz da contribuição de todos seus membros – não apenas os homens.

 

 
Exposição “DADA Differently: Sophie Taeuber-Arp, Hannah Höch, Elsa von Freytag-Loringhoven”, rola de 25 de fevereiro até 8 de maio de 2016 no Museu Haus Konstruktiv, Zurique


Imagens retiradas daqui: 1 / 2 / 3 / 4

 
 

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