Agora é a hora de falar sobre o que realmente estamos falando

Chimamanda Ngozi Adichie, a nossa 'Chimas'

Tradução de Bárbara Paes para o texto em inglês de Chimamanda Ngozi Adichie para a New YorkerNOW IS THE TIME TO TALK ABOUT WHAT WE ARE ACTUALLY TALKING ABOUT

Chimamanda Ngozi Adichie é autora de três romances, incluindo “Americanah”, que será adaptado para o cinema

 


Os Estados Unidos sempre foram fonte de inspiração para mim. Mesmo quando eu me incomodei com suas hipocrisias, de alguma forma o país sempre parecia certo, uma nação que sabia o que estava fazendo, refrescantemente livre daquela incerteza existencial de qualquer-coisa-pode-acontecer tão familiar para as nações em desenvolvimento. Mas não mais. A eleição de Donald Trump acabou com a poesia existente na filosofia fundadora da América: o país nascido de uma ideia de liberdade está prestes a ser governado por um demagogo instável, obstinadamente desinformado e autoritário. E, em resposta a isso, há pessoas vivendo com um medo visceral, pessoas ansiosamente tentando discernir a política da algazarra, e pessoas reverenciando como se houvesse um novo rei. As coisas que recentemente tinham sido empurradas para os cantos do espaço político americano – o racismo manifesto, a misoginia evidente, e o anti-intelectualismo – estão novamente rastejando para o centro das discussões.

Agora é a hora de resistir à mais mínima extensão nos limites do que é certo e justo. Agora é a hora de se manifestar e usar como emblema de honra o opróbrio dos intolerantes. Agora é a hora de confrontar o fraco miolo do coração do vício americano de otimismo; ele deixa muito pouco espaço para a resiliência, e muito espaço para a fragilidade. Visões nebulosas de “cura” e de “não se tornar o ódio que odiamos” soam perigosamente como apaziguamento. A responsabilidade de criar unidade não pertence àqueles que estão sendo injustiçados, mas àqueles que cometem as injustiças. A premissa da empatia deve ser de humanidade igualitária; é uma injustiça exigir que os malignos se identifiquem com aqueles que questionam sua humanidade.

América ama vencedores, mas a vitória não absolve. A vitória, especialmente uma vitória precária decidida por alguns milhares de votos em um punhado de estados, não garante respeito. Ninguém automaticamente merece respeito por ascender à liderança de qualquer país. Os jornalistas americanos sabem disso muito bem quando falam sobre os líderes estrangeiros – o modo padrão com os africanos, por exemplo, é quase sempre um desdém quase oculto. O presidente Obama suportou o desrespeito de todos os lados. De longe, o insulto mais notório dirigido a ele, o movimento racista mansamente denominado “birtherism”, foi defendido por Trump.

Agora é a hora de se manifestar e usar como emblema de honra o opróbrio dos intolerantes

Ainda assim, um dia depois das eleições, ouvi um jornalista no rádio falar da acidez existente entre Obama e Trump. Não, a acidez era de Trump. Agora é a hora de queimar falsas equivalências para sempre. Fingir que ambos os lados de uma questão são iguais quando não são não é jornalismo “equilibrado”; é um conto de fadas e, ao contrário da maioria dos contos de fadas, é malicioso.

Agora é a hora de recusarmos o apagamento da memória. Cada menção de “impasse” durante a administração Obama deve ser lida com honestidade: esses “impasses” foram resultado de uma recusa deliberada e sistemática do Congresso Republicano de trabalhar com ele. Agora é a hora de chamar as coisas do que elas realmente são, porque a linguagem pode tanto iluminar a verdade quanto ofuscá-la. Agora é a hora de forjar novas palavras. “Alt-right”* [direita-alternativa] é uma expressão benigna. “White-supremacist right” [direita supremacista-branca] é um termo mais preciso.

Agora é a hora de falar sobre o que estamos realmente falando. “Contrários à mudança climática” ofusca. “Negadores da mudança climática” não. E já que a mudança climática é um fato científico, e não uma opinião, isto importa.

Agora é a hora de descartar esse cuidado que se assemelha demais à falta de convicção. A eleição não é uma “história de racismo simples”, porque nenhuma história de racismo é uma história de racismo “simples”, na qual pessoas malvadas vestindo branco e sorrindo queimam cruzes em estaleiros. Uma história de racismo é complicada, mas ainda é uma história de racismo, e vale a pena analisar. Agora não é o momento de ficar circulando nas pontas dos pés em torno de referências históricas. Remeter ao nazismo não é extremo; é a resposta astuta daqueles que sabem que a história dá contexto e advertência.

Agora é a hora de recalibrar as suposições padrão do discurso político americano. A política de identidade não é reservada somente aos eleitores minoritários. Esta eleição é um lembrete de que a política de identidade nos Estados Unidos é uma invenção branca: era a base da segregação. A negação dos direitos civis aos norte-americanos negros tinha em seu núcleo a ideia de que um negro americano não deveria ter autorização a votar porque esse negro americano não era branco. O interminável questionamento, antes da eleição de Obama, sobre o país estar “pronto” para um presidente negro foi uma reação à política de identidade branca. No entanto, as “políticas de identidade” passaram a ser associadas às minorias e, muitas vezes, a uma tendência condescendente, como se referissem a pessoas não-brancas motivadas por um irracional instinto de rebanho. Os americanos brancos têm praticado a política de identidade desde o início da América mas, agora que ela foi descoberta, é impossível evadir.

Agora é a hora da mídia, de esquerda e de direita, de educar e informar. Hora de ser ágil e alerta, de olhos abertos e cética, ativa em vez de reativa. Hora de fazer escolhas claras sobre o que realmente importa.

Agora é a hora de colocar a ideia de “bolha liberal” para descansar. A realidade do tribalismo americano é que diferentes grupos vivem em bolhas. Agora é a hora de reconhecer as maneiras que os democratas foram condescendentes à classe operária branca – e reconhecer que Trump é condescendente vendendo fantasias a essa classe. Agora é a hora de lembrar que há americanos de classe trabalhadora que não são brancos e que sofreram as mesmas privações e são igualmente dignos de notícias. Agora é o momento de lembrar que “mulheres” não quer dizer só mulheres brancas. “Mulheres” deve significar todas as mulheres.

Agora é a hora de aprimorar a arte de questionar. O único ressentimento válido na América é o dos homens brancos? Se quisermos simpatizar com a ideia de que as ansiedades econômicas levam a decisões questionáveis, isso se aplica a todos os grupos? Quem são exatamente os membros da elite?

Agora é a hora de enquadrar as perguntas de forma diferente. Se todo o resto permanecesse o mesmo, e Hillary Clinton fosse um homem, ela ainda lidaria com uma hostilidade superaquecida e exagerada? Será que se uma mulher se comportasse exatamente como Trump, ela seria eleita? Agora é a hora de parar de sugerir que o machismo estava ausente na eleição porque as mulheres brancas não votaram esmagadoramente para Clinton. A misoginia não está unicamente reservada aos homens.

Agora é o momento de lembrar que ‘mulheres’ não quer dizer só mulheres brancas. ‘Mulheres’ deve significar todas as mulheres

A questão não é que as mulheres sejam inerentemente melhores ou mais morais. É que elas são metade da humanidade e devem ter as mesmas oportunidades – e o direito de serem julgadas de acordo com os mesmos padrões – como a outra metade. Era esperado que Clinton fosse perfeita, de acordo com padrões contraditórios, em uma eleição que se tornou um referendo sobre sua popularidade.

Agora é a hora de perguntar por que os Estados Unidos estão muito atrás de muitos outros países (como Ruanda) quando o assunto é participação das mulheres na política. Agora é o momento de explorar as atitudes predominantes relacionadas à ambição das mulheres, ponderar em que medida os cálculos políticos comuns que todos os políticos fazem se traduzem como falhas morais quando vemos mulheres os fazendo. A cuidadosa calibragem de Clinton foi lida como furtividade ou desonestidade. Mas um político homem que é cuidadosamente calibrado – Mitt Romney, por exemplo – seria lido meramente como cuidadosamente calibrado?

Agora é a hora de ter precisão sobre o significado das palavras. Ao dizer “elas te deixam fazer isso”, enquanto está falando sobre assediar mulheres, Trump não está insinuando que houve consentimento, porque consentimento é algo que acontece antes de um ato.

Agora é a hora de lembrar que, mesmo em uma onda de populismo obscuro varrendo o Ocidente, existem saídas alternativas. A mensagem de Bernie Sanders não serviu de bode expiatório para os vulneráveis. Obama atravessou uma onda populista antes de sua primeira eleição, uma onda marcada por notável inclusividade. Agora é a hora de rebater mentiras com fatos, repetidamente e incansavelmente, ao mesmo tempo em que proclamamos as verdades maiores: de nossa humanidade, de decência, de compaixão. Cada ideal precioso deve ser reiterado, cada argumento óbvio deve ser feito, porque uma ideia feia não contestada começa a assumir a cor de algo normal. E as coisas não têm que ser assim.


*Alt-right é um termo que a direita conservadora racista vem usando como eufemismo para não se chamar abertamente do que eles são: racistas. Saiba mais aqui

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Sobre a cultura da pedofilia

Texto da escritora Alicen Grey, publicado originalmente em inglês no Feminist Current.

Tradução: Sarah Assaf.

 


Você já ouviu sobre a cultura do estupro, mas você já ouviu sobre a cultura da pedofilia?

“Eu sou um pedófilo, mas não sou um monstro.
Sou atraído por crianças mas relutante a agir sobre elas. Antes de me julgar rigorosamente, você estaria disposto a me escutar?
Todd Nickerson”

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Caro Todd Nickerson,

No Salon alguns dias atrás, você escreveu esse artigo provocantemente intitulado “Eu sou um pedófilo, mas não sou um monstro”. Provavelmente, um monte de pessoas está agora fazendo perguntas como “Será pedofilia natural?” ou “A pedofilia pode ser curada?”. Mas eu não vou tentar responder a essas perguntas específicas. Em vez disso, eu gostaria de aprofundar esse discurso através do preenchimento de algumas grandes lacunas em seu artigo.

Vamos começar com esta peça que faltava: a grande maioria dos pedófilos são homens. E a maioria das crianças vitimizadas por esses pedófilos que optam por agir sobre seus desejos sexuais são meninas. Este é um grande detalhe para negar a seu público, você não acha? Infelizmente, como enraizado e evidente que o patriarcado é, geralmente é o último detalhe mencionado em conversas dessa natureza – se for mencionado de qualquer modo.

Dito isto, a pedofilia pode parecer um tabu e desprezada pelas massas, mas uma avaliação honesta da nossa cultura em geral revela o contrário. Proponho que a pedofilia seja realmente recompensada e celebrada, e que toda a nossa cultura e compreensão da sexualidade seja construída em torno do que parecem ser os desejos de pedofilia. Eu chamo isso de “Cultura da Pedofilia.”

Na cultura da pedofilia, espera-se que as mulheres mantenham um nível quase impossível de magreza, pré-adolescentes em sua quase andrógina falta de curvatura e gordura corporal. Devido a essa pressão, distúrbios alimentares são abundantes em mulheres jovens, e as mulheres em particular, são alvo ao longo de suas vidas por uma indústria de perda de peso de bilhões de dólares.

Na cultura da pedofilia, a categoria mais acessada do Pornhub é “Teen” (adolescente).”Barely Legal” (quase ilegal), “meninas” em roupas de colegial que usam de tudo, desde “manipulações de virgens”, fantasias de incesto pai e filha, simulação professor-aluna – escreva o que quiser, existe pornografia para isso, e tem sido esgotado milhões e milhões e milhões de vezes. É justo de se pensar se a única coisa que afasta alguns desses espectadores de assistir à pornografia infantil diretamente são as leis de consenso e idade.

Influenciada pela indústria da pornografia, a labioplastia ou ninfoplastia – cirurgia plástica que consiste na remoção de pele dos lábios vaginais -, está rapidamente ganhando popularidade, assim como outros procedimentos, como himenoplastia, que restaura o “aperto” virgin-like para vaginas das mulheres.

Na cultura da pedofilia, as mulheres são pressionadas a se depilar com lâmina ou cera suas regiões inferiores e axilas regularmente. A indústria de cosméticos – novamente, dirigida às mulheres – vende cremes “anti-envelhecimento” e loções que irão tornar a nossa pele “macia como a de um bebê.”

Na cultura da pedofilia, nós casualmente nos referimos a mulheres adultas como “meninas” ou “garotas”. Nós temos uma paralvra especificamente para adolescentes atraentes: jailbait (ninfetas). Mulheres são sexualizada como chicks, kittens e babes.

Na cultura da pedofilia, muitas vezes eu noto homens em público me analisando com os olhos cheios de luxúria, até que vejam os pelos nas minhas pernas – em que ponto, eles recorrem a uma exibição teatral de desgosto. Eu tenho escutado grupos de rapazes em idade universitária falando sobre como eles não vão fazer sexo oral em uma mulher se seus grandes lábios forem muito proeminentes. Um homem que vinha atrás de sexo comigo durante três anos, de repente mudou de ideia quando eu revelei que eu não raspo e não rasparei meus pelos pubianos. Em outras palavras, muitos homens deixam de se sentirem atraídos por mim quando lembram que eu sou uma mulher, e não uma menina.

Certamente todos estes homens, que têm uma “preferência” para as qualidades acima mencionadas em mulheres, não são pedófilos pela definição estrita do termo. Mas parece que um número elevado de homens, provavelmente como resultado do condicionamento cultural profundo, encontram muitas das mesmas coisas atraentes em uma mulher que um pedófilo iria encontrar atraente em uma menina. Pequenos lábios, vaginas apertadas, hímens intactos, pele de bebê macia, membros sem pêlos e vulvas, juventude eterna, pequenos corpos frágeis… Como o usuário do Tumblr reddressalert escreveu: “como é que nós não reconhecemos que esta é essencialmente uma descrição de um bebê ou uma criança?”

De volta ao meu ponto original:

Eu preciso que você, e seus leitores simpatizantes, compreendam esta grave verdade: a pedofilia não é um quase tabu, ou é vergonhoso, ou repulsivo para a sociedade, como você diz que é. Eu queria que fosse. Muito em detrimento das mulheres em todo o mundo, seus desejos são refletidos de volta para você infinitamente, em uma escala global produzido em massa para atender uma demanda sempre crescente. Este mundo de supremacia masculina recebe de braços abertos, e todos os seus desejos são comandados. Ouso dizer que você está mais seguro de ser você mesmo, do que as meninas são.

Você diz “Eu sou um pedófilo, mas não um monstro”, e eu concordo plenamente com você. Você não é um monstro – você é um homem. Um homem bastante comum. Uma representação microcósmica de perversões mais prevalentes do patriarcado. Você não é especial, você não é anômalo, e você não está sozinho. Nem mesmo perto. Sua “orientação sexual” é apenas uma outra manifestação do desejo coletivo de homens para subjugar as fêmeas em uma cruzada para defender a supremacia masculina em todos os custos.

Portanto, se “ser compreensivo e dar apoio” a sua pedofilia envolve aliciamento de homens para erotizar características infantis em mulheres, e ensinando as mulheres a manter a juventude eterna a não agravar a insegurança do sexo masculino, então você não está pedindo o nosso apoio – você está pedindo nossa submissão. E assim como você diz que “não há nenhuma maneira ética de podermos concretizar plenamente os nossos desejos sexuais”, não há nenhuma maneira ética para solicitar a cooperação daqueles de nós que estão ativamente tentando desmantelar o sistema patriarcal que a sua “orientação” representa.

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Bárbara Paes para o texto em inglês de Chimamanda Ngozi Adichie para a New YorkerNOW IS THE TIME TO TALK ABOUT WHAT WE ARE ACTUALLY TALKING ABOUT

Chimamanda Ngozi Adichie é autora de três romances, incluindo “Americanah”, que será adaptado para o cinema

 


Os Estados Unidos sempre foram fonte de inspiração para mim. Mesmo quando eu me incomodei com suas hipocrisias, de alguma forma o país sempre parecia certo, uma nação que sabia o que estava fazendo, refrescantemente livre daquela incerteza existencial de qualquer-coisa-pode-acontecer tão familiar para as nações em desenvolvimento. Mas não mais. A eleição de Donald Trump acabou com a poesia existente na filosofia fundadora da América: o país nascido de uma ideia de liberdade está prestes a ser governado por um demagogo instável, obstinadamente desinformado e autoritário. E, em resposta a isso, há pessoas vivendo com um medo visceral, pessoas ansiosamente tentando discernir a política da algazarra, e pessoas reverenciando como se houvesse um novo rei. As coisas que recentemente tinham sido empurradas para os cantos do espaço político americano – o racismo manifesto, a misoginia evidente, e o anti-intelectualismo – estão novamente rastejando para o centro das discussões.

Agora é a hora de resistir à mais mínima extensão nos limites do que é certo e justo. Agora é a hora de se manifestar e usar como emblema de honra o opróbrio dos intolerantes. Agora é a hora de confrontar o fraco miolo do coração do vício americano de otimismo; ele deixa muito pouco espaço para a resiliência, e muito espaço para a fragilidade. Visões nebulosas de “cura” e de “não se tornar o ódio que odiamos” soam perigosamente como apaziguamento. A responsabilidade de criar unidade não pertence àqueles que estão sendo injustiçados, mas àqueles que cometem as injustiças. A premissa da empatia deve ser de humanidade igualitária; é uma injustiça exigir que os malignos se identifiquem com aqueles que questionam sua humanidade.

América ama vencedores, mas a vitória não absolve. A vitória, especialmente uma vitória precária decidida por alguns milhares de votos em um punhado de estados, não garante respeito. Ninguém automaticamente merece respeito por ascender à liderança de qualquer país. Os jornalistas americanos sabem disso muito bem quando falam sobre os líderes estrangeiros – o modo padrão com os africanos, por exemplo, é quase sempre um desdém quase oculto. O presidente Obama suportou o desrespeito de todos os lados. De longe, o insulto mais notório dirigido a ele, o movimento racista mansamente denominado “birtherism”, foi defendido por Trump.

Agora é a hora de se manifestar e usar como emblema de honra o opróbrio dos intolerantes

Ainda assim, um dia depois das eleições, ouvi um jornalista no rádio falar da acidez existente entre Obama e Trump. Não, a acidez era de Trump. Agora é a hora de queimar falsas equivalências para sempre. Fingir que ambos os lados de uma questão são iguais quando não são não é jornalismo “equilibrado”; é um conto de fadas e, ao contrário da maioria dos contos de fadas, é malicioso.

Agora é a hora de recusarmos o apagamento da memória. Cada menção de “impasse” durante a administração Obama deve ser lida com honestidade: esses “impasses” foram resultado de uma recusa deliberada e sistemática do Congresso Republicano de trabalhar com ele. Agora é a hora de chamar as coisas do que elas realmente são, porque a linguagem pode tanto iluminar a verdade quanto ofuscá-la. Agora é a hora de forjar novas palavras. “Alt-right”* [direita-alternativa] é uma expressão benigna. “White-supremacist right” [direita supremacista-branca] é um termo mais preciso.

Agora é a hora de falar sobre o que estamos realmente falando. “Contrários à mudança climática” ofusca. “Negadores da mudança climática” não. E já que a mudança climática é um fato científico, e não uma opinião, isto importa.

Agora é a hora de descartar esse cuidado que se assemelha demais à falta de convicção. A eleição não é uma “história de racismo simples”, porque nenhuma história de racismo é uma história de racismo “simples”, na qual pessoas malvadas vestindo branco e sorrindo queimam cruzes em estaleiros. Uma história de racismo é complicada, mas ainda é uma história de racismo, e vale a pena analisar. Agora não é o momento de ficar circulando nas pontas dos pés em torno de referências históricas. Remeter ao nazismo não é extremo; é a resposta astuta daqueles que sabem que a história dá contexto e advertência.

Agora é a hora de recalibrar as suposições padrão do discurso político americano. A política de identidade não é reservada somente aos eleitores minoritários. Esta eleição é um lembrete de que a política de identidade nos Estados Unidos é uma invenção branca: era a base da segregação. A negação dos direitos civis aos norte-americanos negros tinha em seu núcleo a ideia de que um negro americano não deveria ter autorização a votar porque esse negro americano não era branco. O interminável questionamento, antes da eleição de Obama, sobre o país estar “pronto” para um presidente negro foi uma reação à política de identidade branca. No entanto, as “políticas de identidade” passaram a ser associadas às minorias e, muitas vezes, a uma tendência condescendente, como se referissem a pessoas não-brancas motivadas por um irracional instinto de rebanho. Os americanos brancos têm praticado a política de identidade desde o início da América mas, agora que ela foi descoberta, é impossível evadir.

Agora é a hora da mídia, de esquerda e de direita, de educar e informar. Hora de ser ágil e alerta, de olhos abertos e cética, ativa em vez de reativa. Hora de fazer escolhas claras sobre o que realmente importa.

Agora é a hora de colocar a ideia de “bolha liberal” para descansar. A realidade do tribalismo americano é que diferentes grupos vivem em bolhas. Agora é a hora de reconhecer as maneiras que os democratas foram condescendentes à classe operária branca – e reconhecer que Trump é condescendente vendendo fantasias a essa classe. Agora é a hora de lembrar que há americanos de classe trabalhadora que não são brancos e que sofreram as mesmas privações e são igualmente dignos de notícias. Agora é o momento de lembrar que “mulheres” não quer dizer só mulheres brancas. “Mulheres” deve significar todas as mulheres.

Agora é a hora de aprimorar a arte de questionar. O único ressentimento válido na América é o dos homens brancos? Se quisermos simpatizar com a ideia de que as ansiedades econômicas levam a decisões questionáveis, isso se aplica a todos os grupos? Quem são exatamente os membros da elite?

Agora é a hora de enquadrar as perguntas de forma diferente. Se todo o resto permanecesse o mesmo, e Hillary Clinton fosse um homem, ela ainda lidaria com uma hostilidade superaquecida e exagerada? Será que se uma mulher se comportasse exatamente como Trump, ela seria eleita? Agora é a hora de parar de sugerir que o machismo estava ausente na eleição porque as mulheres brancas não votaram esmagadoramente para Clinton. A misoginia não está unicamente reservada aos homens.

Agora é o momento de lembrar que ‘mulheres’ não quer dizer só mulheres brancas. ‘Mulheres’ deve significar todas as mulheres

A questão não é que as mulheres sejam inerentemente melhores ou mais morais. É que elas são metade da humanidade e devem ter as mesmas oportunidades – e o direito de serem julgadas de acordo com os mesmos padrões – como a outra metade. Era esperado que Clinton fosse perfeita, de acordo com padrões contraditórios, em uma eleição que se tornou um referendo sobre sua popularidade.

Agora é a hora de perguntar por que os Estados Unidos estão muito atrás de muitos outros países (como Ruanda) quando o assunto é participação das mulheres na política. Agora é o momento de explorar as atitudes predominantes relacionadas à ambição das mulheres, ponderar em que medida os cálculos políticos comuns que todos os políticos fazem se traduzem como falhas morais quando vemos mulheres os fazendo. A cuidadosa calibragem de Clinton foi lida como furtividade ou desonestidade. Mas um político homem que é cuidadosamente calibrado – Mitt Romney, por exemplo – seria lido meramente como cuidadosamente calibrado?

Agora é a hora de ter precisão sobre o significado das palavras. Ao dizer “elas te deixam fazer isso”, enquanto está falando sobre assediar mulheres, Trump não está insinuando que houve consentimento, porque consentimento é algo que acontece antes de um ato.

Agora é a hora de lembrar que, mesmo em uma onda de populismo obscuro varrendo o Ocidente, existem saídas alternativas. A mensagem de Bernie Sanders não serviu de bode expiatório para os vulneráveis. Obama atravessou uma onda populista antes de sua primeira eleição, uma onda marcada por notável inclusividade. Agora é a hora de rebater mentiras com fatos, repetidamente e incansavelmente, ao mesmo tempo em que proclamamos as verdades maiores: de nossa humanidade, de decência, de compaixão. Cada ideal precioso deve ser reiterado, cada argumento óbvio deve ser feito, porque uma ideia feia não contestada começa a assumir a cor de algo normal. E as coisas não têm que ser assim.


*Alt-right é um termo que a direita conservadora racista vem usando como eufemismo para não se chamar abertamente do que eles são: racistas. Saiba mais aqui

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