Desde fevereiro de 2015 estou em uma empreitada de só ler livros escritos por mulheres. Nesse meio tempo, já respondi às mais variadas perguntas, indo desde “Você pode me indicar alguns livros?” até “Você não sente falta de ler autores homens?”. Mas a grande pergunta a ser respondida nesses quase dois anos deveria ser: “O quanto isso mudou a sua vida?” E posso responder essa pergunta falando de uma autora que conheci fazendo buscas de novas autoras para ler, a Claude Cahun “heroína desconhecida”, poeta, narcisa, ensaísta, andrógina, contista, feminista indefinida, jornalista, humanista eventual, panfletária, amiga dos gatos, epistoleira, dândi, memorialista, simbolista, atriz, naturista, criadora de objetos, individualista, fotógrafa, surrealista, ativista política, idealista, esteta, resistente, mítica, peça única, como consta em seu perfil.
A melhor coisa de ter entrado nesse esquema ~exclusivista feminazi~ (risos) foi a amplitude que passei a dar às minhas pesquisas e buscas por autores para ler. É muito fácil chegar até um autor homem novo, ele é indicado em todos os livros, posts de blog, outdoors de ônibus, buscas no Google e até mesmo na porta do CCBB vendendo poesia. Eles caem no nosso colo como sempre, arrojados invadindo o espaço e conquistando, como bandeirantes, os olhares de seus leitores. Talvez seja só comigo, mas sinto que com as mulheres é diferente, as indicações funcionam em esquema de receitas secretas de família: uma amiga que passa pra outra que passa pra outra que passa pra outra. Restringir meu objetivo de leitura, na verdade, me fez ampliar meus cliques e pesquisas, chegando até esta artista única que é a Claude Cahun.
Nascida em 1894, em Nantes, na França, Lucy Schwob, como foi registrada em seu nascimento, produziu em diversos meios artísticos entre as décadas de 1920 e 1940. Mais conhecida por seus autorretratos e fotomontagens, Claude Cahun também se dedicou à escrita e publicou textos em revistas literárias europeias, dando origem a esse conjunto de histórias nomeado “Heroínas”. Mas o que mais me chamou atenção nesta artista multifoco não foi sua produção, mas sim a falta de divulgação e de conhecimento sobre o seu trabalho.
Quando cheguei até o livro, lançado através de um crowdfunding pela A Bolha Editora, acreditei piamente se tratar de uma nova autora. Com um projeto gráfico lindão, o livro soa super atual, principalmente pela temática: são dezesseis contos que retratam uma nova perspectiva de diversas figuras femininas famosas de fabulas ou mitologias antigas. Claude Cahun faz uma leitura atravessada destas figuras impactantes, como Maria ou Cinderella, e ataca com sua ironia refinada e ácida.
Corrigindo a história e dando voz a essas personagens, a autora nos traz uma nova perspectiva sobre o papel da mulher nos contos de fada e nas mitologias. Ou seja: Claude Cahun, em 1920, já era uma figura feminista marcante, que desafiava os padrões de gênero não só em sua escrita, como também em sua vida. A edição do livro, bastante completa, traz um posfácio do filósofo François Leperlier, que descreve precisamente a aura dos textos de Claude:
A intenção é clara, ela é irônica e subversiva ao se atacar à imagem da mulher como apresentada nos contos e mitos; uma tentativa de corrigir e reescrever biografias fabulosas, fazendo oposição às versões admitidas, conformes e banalizadas com outras versões inesperadas, rebeldes, cáusticas e irreverentes.
– François Leperlier
A escolha do nome Claude, feita aos 22 anos, não foi à toa: a possibilidade de ter um nome que abarcasse os dois gêneros era essencial para sua obra. Com uma aparência andrógina, considerando-se gênero neutro, e uma escrita ácida, Claude fez da sua vida sua obra e conquistou um espaço revolucionário quando muitas mulheres sequer pensavam em escrever.
Mas por que não falamos mais sobre Claude Cahun? O livro “Heroínas”, editado pela A Bolha, conta com uma introdução essencial para entender a figura de Claude Cahun. A também escritora Nathanaël, na introdução do livro, faz uma análise muito acertada dessa figura múltipla e traz à tona o esquecimento de uma artista talentosérrima:
(…) foi por muito tempo presumida como derrotada em combate, apagando-se alegremente dos registros históricos a fim de se confundir no anonimato… não fosse esse salvamento intempestivo de uma obra que, caso contrário, ficaria dedicada ao esquecimento e cujos rastros nos chegam hoje para além até das línguas que lhe eram próprias.
Esquecidos, os textos de Claude Cahun, redigidos em diversas línguas, foram resgatados nos anos 80, caindo novamente no esquecimento e sendo trazidos à tona, em uma edição francesa, em 2006. Mas o que torna tudo ainda mais curioso é que Claude Cahun era uma presença importante e fundamental para autores que construíram o Surrealismo. Amiga de Henri Michaux, Andre Breton e George Bataille, Cahun participou de diversos movimentos e organizações surrealistas, integrando também movimentos políticos e lutando ativamente contra a o Nazismo que crescia na Europa. Acaba presa em 1944, junto a sua eterna companheira e amante, Marcel Moore, e são condenadas à morte. Conseguem fugir, mas atribui-se a morte de Claude Cahun a este período presa, por conta de sua saúde debilitada.
Uma mulher com uma trajetória tão intensa e à frente de seu tempo, presente em movimentos artísticos e políticos, foi apagada de nossa história sem dó. Fico me perguntando o quanto conhecer Claude Cahun e sua história pode mudar a nossa concepção do que é ser mulher, a concepção de gênero, e como podemos nos colocar frente ao mundo. “Heroínas” acaba sendo um testemunho de como suas ideias são fundamentais para a construção da nossa força enquanto mulheres. Em uma das histórias, Cahun dá voz a Margarida, personagem de Fausto, de Goethe, e questiona diversos estigmas atribuídos às mulheres:
Uma mulher que tem lá seus desejos é mesmo um monstro? Será minha culpa? Quando esse mal começou, eu era muito jovem, jovem demais para entender.
É preciso ler essas mulheres, tão vanguarda ainda hoje em dia. Evoluímos muito, mas ao mesmo tempo muito pouco, e é ao se deparar com esse tipo de apagamento e resgate que percebemos a necessidade de preencher os mais diversos buracos da nossa história enquanto mulheres. Não se trata de não termos participado da história, com feitos importantes, se trata da história ainda ser escrita apenas por quem nos oprime e apaga: homens. É preciso conhecer nossa história, é preciso ler “Heroínas” de Claude Cahun, é preciso reescrever nossa trajetória tão cheia de lacunas.
Você encontra o livro “Heroínas” através da loja online da Editora A Bolha e também na loja física, que fica no mesmo prédio da Comuna, no Rio de Janeiro (Rua Sorocaba, 585 – Botafogo). Além disso, você pode seguir A Bolha Editora no Facebook e ficar por dentro dos lançamentos, sempre bem bacanas.
E antes de começar a ler o livro, vem cá dar o play nessa playlist mara inspiradas nas “Heroínas” de Claude Cahun.
Desde fevereiro de 2015 estou em uma empreitada de só ler livros escritos por mulheres. Nesse meio tempo, já respondi às mais variadas perguntas, indo desde “Você pode me indicar alguns livros?” até “Você não sente falta de ler autores homens?”. Mas a grande pergunta a ser respondida nesses quase dois anos deveria ser: “O quanto isso mudou a sua vida?” E posso responder essa pergunta falando de uma autora que conheci fazendo buscas de novas autoras para ler, a Claude Cahun “heroína desconhecida”, poeta, narcisa, ensaísta, andrógina, contista, feminista indefinida, jornalista, humanista eventual, panfletária, amiga dos gatos, epistoleira, dândi, memorialista, simbolista, atriz, naturista, criadora de objetos, individualista, fotógrafa, surrealista, ativista política, idealista, esteta, resistente, mítica, peça única, como consta em seu perfil.
A melhor coisa de ter entrado nesse esquema ~exclusivista feminazi~ (risos) foi a amplitude que passei a dar às minhas pesquisas e buscas por autores para ler. É muito fácil chegar até um autor homem novo, ele é indicado em todos os livros, posts de blog, outdoors de ônibus, buscas no Google e até mesmo na porta do CCBB vendendo poesia. Eles caem no nosso colo como sempre, arrojados invadindo o espaço e conquistando, como bandeirantes, os olhares de seus leitores. Talvez seja só comigo, mas sinto que com as mulheres é diferente, as indicações funcionam em esquema de receitas secretas de família: uma amiga que passa pra outra que passa pra outra que passa pra outra. Restringir meu objetivo de leitura, na verdade, me fez ampliar meus cliques e pesquisas, chegando até esta artista única que é a Claude Cahun.
Nascida em 1894, em Nantes, na França, Lucy Schwob, como foi registrada em seu nascimento, produziu em diversos meios artísticos entre as décadas de 1920 e 1940. Mais conhecida por seus autorretratos e fotomontagens, Claude Cahun também se dedicou à escrita e publicou textos em revistas literárias europeias, dando origem a esse conjunto de histórias nomeado “Heroínas”. Mas o que mais me chamou atenção nesta artista multifoco não foi sua produção, mas sim a falta de divulgação e de conhecimento sobre o seu trabalho.
Quando cheguei até o livro, lançado através de um crowdfunding pela A Bolha Editora, acreditei piamente se tratar de uma nova autora. Com um projeto gráfico lindão, o livro soa super atual, principalmente pela temática: são dezesseis contos que retratam uma nova perspectiva de diversas figuras femininas famosas de fabulas ou mitologias antigas. Claude Cahun faz uma leitura atravessada destas figuras impactantes, como Maria ou Cinderella, e ataca com sua ironia refinada e ácida.
Corrigindo a história e dando voz a essas personagens, a autora nos traz uma nova perspectiva sobre o papel da mulher nos contos de fada e nas mitologias. Ou seja: Claude Cahun, em 1920, já era uma figura feminista marcante, que desafiava os padrões de gênero não só em sua escrita, como também em sua vida. A edição do livro, bastante completa, traz um posfácio do filósofo François Leperlier, que descreve precisamente a aura dos textos de Claude:
A intenção é clara, ela é irônica e subversiva ao se atacar à imagem da mulher como apresentada nos contos e mitos; uma tentativa de corrigir e reescrever biografias fabulosas, fazendo oposição às versões admitidas, conformes e banalizadas com outras versões inesperadas, rebeldes, cáusticas e irreverentes.
– François Leperlier
A escolha do nome Claude, feita aos 22 anos, não foi à toa: a possibilidade de ter um nome que abarcasse os dois gêneros era essencial para sua obra. Com uma aparência andrógina, considerando-se gênero neutro, e uma escrita ácida, Claude fez da sua vida sua obra e conquistou um espaço revolucionário quando muitas mulheres sequer pensavam em escrever.
Mas por que não falamos mais sobre Claude Cahun? O livro “Heroínas”, editado pela A Bolha, conta com uma introdução essencial para entender a figura de Claude Cahun. A também escritora Nathanaël, na introdução do livro, faz uma análise muito acertada dessa figura múltipla e traz à tona o esquecimento de uma artista talentosérrima:
(…) foi por muito tempo presumida como derrotada em combate, apagando-se alegremente dos registros históricos a fim de se confundir no anonimato… não fosse esse salvamento intempestivo de uma obra que, caso contrário, ficaria dedicada ao esquecimento e cujos rastros nos chegam hoje para além até das línguas que lhe eram próprias.
Esquecidos, os textos de Claude Cahun, redigidos em diversas línguas, foram resgatados nos anos 80, caindo novamente no esquecimento e sendo trazidos à tona, em uma edição francesa, em 2006. Mas o que torna tudo ainda mais curioso é que Claude Cahun era uma presença importante e fundamental para autores que construíram o Surrealismo. Amiga de Henri Michaux, Andre Breton e George Bataille, Cahun participou de diversos movimentos e organizações surrealistas, integrando também movimentos políticos e lutando ativamente contra a o Nazismo que crescia na Europa. Acaba presa em 1944, junto a sua eterna companheira e amante, Marcel Moore, e são condenadas à morte. Conseguem fugir, mas atribui-se a morte de Claude Cahun a este período presa, por conta de sua saúde debilitada.
Uma mulher com uma trajetória tão intensa e à frente de seu tempo, presente em movimentos artísticos e políticos, foi apagada de nossa história sem dó. Fico me perguntando o quanto conhecer Claude Cahun e sua história pode mudar a nossa concepção do que é ser mulher, a concepção de gênero, e como podemos nos colocar frente ao mundo. “Heroínas” acaba sendo um testemunho de como suas ideias são fundamentais para a construção da nossa força enquanto mulheres. Em uma das histórias, Cahun dá voz a Margarida, personagem de Fausto, de Goethe, e questiona diversos estigmas atribuídos às mulheres:
Uma mulher que tem lá seus desejos é mesmo um monstro? Será minha culpa? Quando esse mal começou, eu era muito jovem, jovem demais para entender.
É preciso ler essas mulheres, tão vanguarda ainda hoje em dia. Evoluímos muito, mas ao mesmo tempo muito pouco, e é ao se deparar com esse tipo de apagamento e resgate que percebemos a necessidade de preencher os mais diversos buracos da nossa história enquanto mulheres. Não se trata de não termos participado da história, com feitos importantes, se trata da história ainda ser escrita apenas por quem nos oprime e apaga: homens. É preciso conhecer nossa história, é preciso ler “Heroínas” de Claude Cahun, é preciso reescrever nossa trajetória tão cheia de lacunas.
Você encontra o livro “Heroínas” através da loja online da Editora A Bolha e também na loja física, que fica no mesmo prédio da Comuna, no Rio de Janeiro (Rua Sorocaba, 585 – Botafogo). Além disso, você pode seguir A Bolha Editora no Facebook e ficar por dentro dos lançamentos, sempre bem bacanas.
E antes de começar a ler o livro, vem cá dar o play nessa playlist mara inspiradas nas “Heroínas” de Claude Cahun.
Desde fevereiro de 2015 estou em uma empreitada de só ler livros escritos por mulheres. Nesse meio tempo, já respondi às mais variadas perguntas, indo desde “Você pode me indicar alguns livros?” até “Você não sente falta de ler autores homens?”. Mas a grande pergunta a ser respondida nesses quase dois anos deveria ser: “O quanto isso mudou a sua vida?” E posso responder essa pergunta falando de uma autora que conheci fazendo buscas de novas autoras para ler, a Claude Cahun “heroína desconhecida”, poeta, narcisa, ensaísta, andrógina, contista, feminista indefinida, jornalista, humanista eventual, panfletária, amiga dos gatos, epistoleira, dândi, memorialista, simbolista, atriz, naturista, criadora de objetos, individualista, fotógrafa, surrealista, ativista política, idealista, esteta, resistente, mítica, peça única, como consta em seu perfil.
[caption id="attachment_12217" align="aligncenter" width="700"] Autorretrato de Claude Cahun em 1928[/caption]
A melhor coisa de ter entrado nesse esquema ~exclusivista feminazi~ (risos) foi a amplitude que passei a dar às minhas pesquisas e buscas por autores para ler. É muito fácil chegar até um autor homem novo, ele é indicado em todos os livros, posts de blog, outdoors de ônibus, buscas no Google e até mesmo na porta do CCBB vendendo poesia. Eles caem no nosso colo como sempre, arrojados invadindo o espaço e conquistando, como bandeirantes, os olhares de seus leitores. Talvez seja só comigo, mas sinto que com as mulheres é diferente, as indicações funcionam em esquema de receitas secretas de família: uma amiga que passa pra outra que passa pra outra que passa pra outra. Restringir meu objetivo de leitura, na verdade, me fez ampliar meus cliques e pesquisas, chegando até esta artista única que é a Claude Cahun.
Nascida em 1894, em Nantes, na França, Lucy Schwob, como foi registrada em seu nascimento, produziu em diversos meios artísticos entre as décadas de 1920 e 1940. Mais conhecida por seus autorretratos e fotomontagens, Claude Cahun também se dedicou à escrita e publicou textos em revistas literárias europeias, dando origem a esse conjunto de histórias nomeado “Heroínas”. Mas o que mais me chamou atenção nesta artista multifoco não foi sua produção, mas sim a falta de divulgação e de conhecimento sobre o seu trabalho.
[caption id="attachment_12218" align="aligncenter" width="509"] “I am in training don’t kiss me”, Autorretrato[/caption]
Quando cheguei até o livro, lançado através de um crowdfunding pela A Bolha Editora, acreditei piamente se tratar de uma nova autora. Com um projeto gráfico lindão, o livro soa super atual, principalmente pela temática: são dezesseis contos que retratam uma nova perspectiva de diversas figuras femininas famosas de fabulas ou mitologias antigas. Claude Cahun faz uma leitura atravessada destas figuras impactantes, como Maria ou Cinderella, e ataca com sua ironia refinada e ácida.
[caption id="attachment_12229" align="aligncenter" width="700"] Heroínas lançado pela A Bolha Editora[/caption]
Corrigindo a história e dando voz a essas personagens, a autora nos traz uma nova perspectiva sobre o papel da mulher nos contos de fada e nas mitologias. Ou seja: Claude Cahun, em 1920, já era uma figura feminista marcante, que desafiava os padrões de gênero não só em sua escrita, como também em sua vida. A edição do livro, bastante completa, traz um posfácio do filósofo François Leperlier, que descreve precisamente a aura dos textos de Claude:
A intenção é clara, ela é irônica e subversiva ao se atacar à imagem da mulher como apresentada nos contos e mitos; uma tentativa de corrigir e reescrever biografias fabulosas, fazendo oposição às versões admitidas, conformes e banalizadas com outras versões inesperadas, rebeldes, cáusticas e irreverentes.
– François Leperlier
A escolha do nome Claude, feita aos 22 anos, não foi à toa: a possibilidade de ter um nome que abarcasse os dois gêneros era essencial para sua obra. Com uma aparência andrógina, considerando-se gênero neutro, e uma escrita ácida, Claude fez da sua vida sua obra e conquistou um espaço revolucionário quando muitas mulheres sequer pensavam em escrever.
Mas por que não falamos mais sobre Claude Cahun? O livro “Heroínas”, editado pela A Bolha, conta com uma introdução essencial para entender a figura de Claude Cahun. A também escritora Nathanaël, na introdução do livro, faz uma análise muito acertada dessa figura múltipla e traz à tona o esquecimento de uma artista talentosérrima:
(…) foi por muito tempo presumida como derrotada em combate, apagando-se alegremente dos registros históricos a fim de se confundir no anonimato… não fosse esse salvamento intempestivo de uma obra que, caso contrário, ficaria dedicada ao esquecimento e cujos rastros nos chegam hoje para além até das línguas que lhe eram próprias.
Esquecidos, os textos de Claude Cahun, redigidos em diversas línguas, foram resgatados nos anos 80, caindo novamente no esquecimento e sendo trazidos à tona, em uma edição francesa, em 2006. Mas o que torna tudo ainda mais curioso é que Claude Cahun era uma presença importante e fundamental para autores que construíram o Surrealismo. Amiga de Henri Michaux, Andre Breton e George Bataille, Cahun participou de diversos movimentos e organizações surrealistas, integrando também movimentos políticos e lutando ativamente contra a o Nazismo que crescia na Europa. Acaba presa em 1944, junto a sua eterna companheira e amante, Marcel Moore, e são condenadas à morte. Conseguem fugir, mas atribui-se a morte de Claude Cahun a este período presa, por conta de sua saúde debilitada.
[caption id="attachment_12219" align="aligncenter" width="700"] Marcel Moore (Suzanne Malherbe) e Claude Cahun (Lucy Schwob), Autorretrato refletido no espelho, 1920.[/caption]
Uma mulher com uma trajetória tão intensa e à frente de seu tempo, presente em movimentos artísticos e políticos, foi apagada de nossa história sem dó. Fico me perguntando o quanto conhecer Claude Cahun e sua história pode mudar a nossa concepção do que é ser mulher, a concepção de gênero, e como podemos nos colocar frente ao mundo. “Heroínas” acaba sendo um testemunho de como suas ideias são fundamentais para a construção da nossa força enquanto mulheres. Em uma das histórias, Cahun dá voz a Margarida, personagem de Fausto, de Goethe, e questiona diversos estigmas atribuídos às mulheres:
Uma mulher que tem lá seus desejos é mesmo um monstro? Será minha culpa? Quando esse mal começou, eu era muito jovem, jovem demais para entender.
É preciso ler essas mulheres, tão vanguarda ainda hoje em dia. Evoluímos muito, mas ao mesmo tempo muito pouco, e é ao se deparar com esse tipo de apagamento e resgate que percebemos a necessidade de preencher os mais diversos buracos da nossa história enquanto mulheres. Não se trata de não termos participado da história, com feitos importantes, se trata da história ainda ser escrita apenas por quem nos oprime e apaga: homens. É preciso conhecer nossa história, é preciso ler “Heroínas” de Claude Cahun, é preciso reescrever nossa trajetória tão cheia de lacunas.
Você encontra o livro “Heroínas” através da loja online da Editora A Bolha e também na loja física, que fica no mesmo prédio da Comuna, no Rio de Janeiro (Rua Sorocaba, 585 – Botafogo). Além disso, você pode seguir A Bolha Editora no Facebook e ficar por dentro dos lançamentos, sempre bem bacanas.
E antes de começar a ler o livro, vem cá dar o play nessa playlist mara inspiradas nas “Heroínas” de Claude Cahun.
Outro dia conversava com uma amiga sobre sua tentativa de parar de fumar e começar a fazer exercícios físicos. Ela falava sobre estar um tanto quanto frustrada com suas tentativas, que queria acordar um dia e simplesmente ter outro comportamento, outra forma de encarar os vícios e passividades que a cercavam. Algo como abrir os olhos e ser uma triatleta super saudável.
Claro que me identifiquei, afinal de contas, a ansiedade é uma das grandes marcas do nosso tempo, queremos tudo logo e pra ontem, as manchetes nos mostram que é possível, as dietas alcançam sucesso em sete dias e os ricos enriquecem com poucas horas de aplicação na bolsa.
Ficamos um tempo conversando sobre isso, sobre o quanto é difícil alcançar um objetivo que já aparece em nossa cabeça como algo pronto. Comentamos como o ato de parar de fumar vem sempre acompanhado de exemplos de sucesso e listas com dez itens essenciais para largar o vício. Mas na prática, a teoria é outra, a gente sabe disso. Ainda que lá no fundo, haja uma voz que repete aquele mantra que diz que não é tão fácil, mas também não é tão difícil, é comum não darmos ouvido a ela. Essa voz lógica, que nos pede coerência, acaba abafada e, assim, nos jogamos na ansiedade. Surge aquela imensa vontade de alcançar tudo pra ontem, rápido, pronto, resolvido, indolor, uma forma meio miojo de ver a vida. Mas a verdade é que a vida não é um miojo, macarrão instantâneo, que fica pronto em três minutos e conta com um pacotinho mágico de tempero. Não, as coisas não acontecem assim, de uma hora pra outra.
Na mesma época em que conversávamos sobre o vício e a urgência de resolver tudo em três minutos, eu estava lendo A Redoma de Vidro, da Sylvia Plath. Uma passagem chamou muito a minha atenção, acima de qualquer outro relato sobre depressão ou tristeza. O trecho falava sobre a pausa que a personagem se dá ao entrar em um banho quente.
Fiquei refletindo sobre esse trecho e me lembrei das inúmeras vezes em que acabei apressando as coisas por não ter tido força para respirar fundo e ter calma comigo mesma. A falta de paciência que sentia não era em relação aos outros, mas sim em relação a mim mesma. Não era ansiedade por não ter uma resposta vinda de outra pessoa, mas sim ansiedade por não saber lidar com o tempo das coisas. Como se fosse uma falta de conexão com a natureza e suas fases, querendo acelerar tudo ao máximo.
“Sempre que fico triste pensando que um dia vou morrer, ou perco o sono de tão nervosa, ou estou apaixonada por alguém que não verei por uma semana, me deixo sofrer até certo ponto e então digo: ‘vou tomar um banho quente’.”
– Sylvia Plath, A Redoma de Vidro
Foi quando me caiu a ficha de que nos falta paciência conosco mesmas. Estamos constantemente tentando avançar, seguir adiante, não nos dar por vencidas, não podemos parar. Não nos damos tempo para nos abraçar lentamente e dizer a nós mesmas que vai funcionar, que vai dar certo, mas que é preciso paciência, tempo e descanso para que tudo funcione. Lembrei minha crise de estafa, meu corpo estressado, eu me doendo inteira não por estar doente, mas pela vontade de que a doença passasse logo e eu pudesse avançar. A Sapucaí é grande, o tempo urge, eu sei, mas às vezes afrouxar o passo, aproveitar a caminhada pode ajudar a domar um pouco essa enorme ansiedade.
Somos constantemente expostas às exigências de mostrar resultados, conquistas, mudanças, crescimento, evoluções, mas ninguém nos fala sobre o tempo e as falhas e fracassos que acontecem no processo. Nossa geração, tão pronta para focar o sucesso dos outros, não consegue lidar com os próprios sucessos e fracassos. Com o tempo correndo e nós correndo contra ele, quem vai se dar alguns minutos para exercer a paciência?
Sempre pensei que a ansiedade de chegar aos resultados atrapalharia a graça do processo, mas dificilmente me lembro disso quando olho pra frente, pros objetivos que tenho. A falta de paciência com meus próprios processos me fazia desistir de muitas coisas por pensar que tudo seria muito difícil, assim como parar de fumar. É preciso paciência, tento me lembrar sempre de me dizer, é preciso atenção e calma comigo mesma, é preciso ouvir meu próprio tempo e passar a entender o tempo do outro.
Porque em épocas tão difíceis como os dias de hoje, é preciso, urgentemente, olhar para o outro com paciência e compaixão, mas como fazer isso se nós mesmas não temos autocompaixão? Quando comecei a escrever, não estava pensando exatamente no termo compaixão e sim paciência, mas me caiu no colo esse texto do Brainpickings e esse vídeo super delicioso do pessoal do The School of Life que, aliás, se encaixa muito bem também naquele papo que tivemos aqui sobre estar só consigo mesma.
Enquanto minha grande amiga se desmontava em ansiedade, fui tentando mostrar a ela o quanto precisamos ter paciência conosco mesmas. Precisamos, pra ontem, nos acolher em um mundo de paciência, respirações lentas, abraços e banhos quentes. Seja sozinha, seja em conjunto com amigas, irmãs, companheiras. Precisamos pensar com mais carinho em cada pequena falha e pequena conquista que nos atravessa, entender que são essas atitudes que nos constituem enquanto seres complexos e únicos que somos. Acredito, de verdade, que ser paciente consigo mesma é também uma forma de exercer empatia, de respeitar o tempo das coisas e o tempo dos outros.
Desde fevereiro de 2015 estou em uma empreitada de só ler livros escritos por mulheres. Nesse meio tempo, já respondi às mais variadas perguntas, indo desde “Você pode me indicar alguns livros?” até “Você não sente falta de ler autores homens?”. Mas a grande pergunta a ser respondida nesses quase dois anos deveria ser: “O quanto isso mudou a sua vida?” E posso responder essa pergunta falando de uma autora que conheci fazendo buscas de novas autoras para ler, a Claude Cahun “heroína desconhecida”, poeta, narcisa, ensaísta, andrógina, contista, feminista indefinida, jornalista, humanista eventual, panfletária, amiga dos gatos, epistoleira, dândi, memorialista, simbolista, atriz, naturista, criadora de objetos, individualista, fotógrafa, surrealista, ativista política, idealista, esteta, resistente, mítica, peça única, como consta em seu perfil.
A melhor coisa de ter entrado nesse esquema ~exclusivista feminazi~ (risos) foi a amplitude que passei a dar às minhas pesquisas e buscas por autores para ler. É muito fácil chegar até um autor homem novo, ele é indicado em todos os livros, posts de blog, outdoors de ônibus, buscas no Google e até mesmo na porta do CCBB vendendo poesia. Eles caem no nosso colo como sempre, arrojados invadindo o espaço e conquistando, como bandeirantes, os olhares de seus leitores. Talvez seja só comigo, mas sinto que com as mulheres é diferente, as indicações funcionam em esquema de receitas secretas de família: uma amiga que passa pra outra que passa pra outra que passa pra outra. Restringir meu objetivo de leitura, na verdade, me fez ampliar meus cliques e pesquisas, chegando até esta artista única que é a Claude Cahun.
Nascida em 1894, em Nantes, na França, Lucy Schwob, como foi registrada em seu nascimento, produziu em diversos meios artísticos entre as décadas de 1920 e 1940. Mais conhecida por seus autorretratos e fotomontagens, Claude Cahun também se dedicou à escrita e publicou textos em revistas literárias europeias, dando origem a esse conjunto de histórias nomeado “Heroínas”. Mas o que mais me chamou atenção nesta artista multifoco não foi sua produção, mas sim a falta de divulgação e de conhecimento sobre o seu trabalho.
Quando cheguei até o livro, lançado através de um crowdfunding pela A Bolha Editora, acreditei piamente se tratar de uma nova autora. Com um projeto gráfico lindão, o livro soa super atual, principalmente pela temática: são dezesseis contos que retratam uma nova perspectiva de diversas figuras femininas famosas de fabulas ou mitologias antigas. Claude Cahun faz uma leitura atravessada destas figuras impactantes, como Maria ou Cinderella, e ataca com sua ironia refinada e ácida.
Corrigindo a história e dando voz a essas personagens, a autora nos traz uma nova perspectiva sobre o papel da mulher nos contos de fada e nas mitologias. Ou seja: Claude Cahun, em 1920, já era uma figura feminista marcante, que desafiava os padrões de gênero não só em sua escrita, como também em sua vida. A edição do livro, bastante completa, traz um posfácio do filósofo François Leperlier, que descreve precisamente a aura dos textos de Claude:
A intenção é clara, ela é irônica e subversiva ao se atacar à imagem da mulher como apresentada nos contos e mitos; uma tentativa de corrigir e reescrever biografias fabulosas, fazendo oposição às versões admitidas, conformes e banalizadas com outras versões inesperadas, rebeldes, cáusticas e irreverentes.
– François Leperlier
A escolha do nome Claude, feita aos 22 anos, não foi à toa: a possibilidade de ter um nome que abarcasse os dois gêneros era essencial para sua obra. Com uma aparência andrógina, considerando-se gênero neutro, e uma escrita ácida, Claude fez da sua vida sua obra e conquistou um espaço revolucionário quando muitas mulheres sequer pensavam em escrever.
Mas por que não falamos mais sobre Claude Cahun? O livro “Heroínas”, editado pela A Bolha, conta com uma introdução essencial para entender a figura de Claude Cahun. A também escritora Nathanaël, na introdução do livro, faz uma análise muito acertada dessa figura múltipla e traz à tona o esquecimento de uma artista talentosérrima:
(…) foi por muito tempo presumida como derrotada em combate, apagando-se alegremente dos registros históricos a fim de se confundir no anonimato… não fosse esse salvamento intempestivo de uma obra que, caso contrário, ficaria dedicada ao esquecimento e cujos rastros nos chegam hoje para além até das línguas que lhe eram próprias.
Esquecidos, os textos de Claude Cahun, redigidos em diversas línguas, foram resgatados nos anos 80, caindo novamente no esquecimento e sendo trazidos à tona, em uma edição francesa, em 2006. Mas o que torna tudo ainda mais curioso é que Claude Cahun era uma presença importante e fundamental para autores que construíram o Surrealismo. Amiga de Henri Michaux, Andre Breton e George Bataille, Cahun participou de diversos movimentos e organizações surrealistas, integrando também movimentos políticos e lutando ativamente contra a o Nazismo que crescia na Europa. Acaba presa em 1944, junto a sua eterna companheira e amante, Marcel Moore, e são condenadas à morte. Conseguem fugir, mas atribui-se a morte de Claude Cahun a este período presa, por conta de sua saúde debilitada.
Uma mulher com uma trajetória tão intensa e à frente de seu tempo, presente em movimentos artísticos e políticos, foi apagada de nossa história sem dó. Fico me perguntando o quanto conhecer Claude Cahun e sua história pode mudar a nossa concepção do que é ser mulher, a concepção de gênero, e como podemos nos colocar frente ao mundo. “Heroínas” acaba sendo um testemunho de como suas ideias são fundamentais para a construção da nossa força enquanto mulheres. Em uma das histórias, Cahun dá voz a Margarida, personagem de Fausto, de Goethe, e questiona diversos estigmas atribuídos às mulheres:
Uma mulher que tem lá seus desejos é mesmo um monstro? Será minha culpa? Quando esse mal começou, eu era muito jovem, jovem demais para entender.
É preciso ler essas mulheres, tão vanguarda ainda hoje em dia. Evoluímos muito, mas ao mesmo tempo muito pouco, e é ao se deparar com esse tipo de apagamento e resgate que percebemos a necessidade de preencher os mais diversos buracos da nossa história enquanto mulheres. Não se trata de não termos participado da história, com feitos importantes, se trata da história ainda ser escrita apenas por quem nos oprime e apaga: homens. É preciso conhecer nossa história, é preciso ler “Heroínas” de Claude Cahun, é preciso reescrever nossa trajetória tão cheia de lacunas.
Você encontra o livro “Heroínas” através da loja online da Editora A Bolha e também na loja física, que fica no mesmo prédio da Comuna, no Rio de Janeiro (Rua Sorocaba, 585 – Botafogo). Além disso, você pode seguir A Bolha Editora no Facebook e ficar por dentro dos lançamentos, sempre bem bacanas.
E antes de começar a ler o livro, vem cá dar o play nessa playlist mara inspiradas nas “Heroínas” de Claude Cahun.