Leia: a tetralogia napolitana de Elena Ferrante

Colagem digital por Fernanda Garcia (Kissy)
A sutilidade e a honestidade que a autora usa para lidar com a relação das duas amigas é revigorante

Elena Ferrante sempre ocultou sua identidade. Diz que prefere que suas obras falem por ela. Responde entrevistas por mediação de seus editores. Nunca apareceu nos holofotes nem mesmo após o sucesso internacional da série Tetralogia Napolitana, lançada em 2011 e que será adaptada para a televisão pela HBO, com a previsão de ir ao ar em 2018. Chegaram até mesmo a cogitar que Ferrante fosse um homem.

Em outubro do ano passado, o jornalista investigativo Claudio Gatti publicou uma reportagem no Il Sore 24 Ore, alegando ter descoberto a verdadeira identidade de Ferrante. Gatti teve acesso ~ através de fontes anônimas ~ às transações bancárias e aos registros imobiliários relativos à Anita Raja, tradutora que trabalha para a mesma editora que publica os livros de Ferrante, e, após cruzamento de dados dessas transações bancárias com as datas dos lançamentos dos livros da série, chegou à conclusão sobre essa verdadeira identidade.

Ferrante teve seu direito à privacidade negado e sua vida escrutinada por um jornalista que não hesitou em oferecer sua identidade para o mundo, sem aviso. Inúmeros leitores, escritores e editores protestaram contra a publicação da matéria e o claro desrespeito às vontades da escritora de ficar alheia como figura pública.

Foi sob esses protestos que Ferrante lançou, no início deste ano, o último volume da série napolitana (pela editora Biblioteca Azul no Brasil) e nos entregou o encerramento da história da amizade agridoce de Lenu e Lila, nascidas na cidade de Nápoles pós-guerra, num bairro pobre e marginal.

A série começa com Lenu já por volta de seus 60 anos, recebendo uma ligação sobre o sumiço de Lila. Ao invés de sair a sua procura nas ruas, cartas e linhas telefônicas, é na escrita que Lenu se volta, na tentativa de conservar sua história. Sabia que o destino de Lila era o desaparecimento e é com este intuito que começa a narrativa das duas: a história da amizade de Lenu e Lila, sua amiga genial.

Ao mesmo tempo que adota um tom quase folhetinesco ao estabelecer inúmeros personagens do bairro e suas intrincadas relações – a família Solara, donos de uma confeitaria, a família de Dom Achille Carraci, associada à máfia Camorra, os comunistas Peluso etc -, Ferrante consegue também criar uma relação entre o microcosmos daquele bairro de Nápoles com o macrocosmos da movimentação política e social que estava acontecendo na Itália a partir da década de 50.

Os quatro livros vão acompanhando a evolução dessa amizade e esse movimento é diretamente proporcional às delimitações da ambientação construída: se no primeiro a autora se concentrou no nascimento dessa estranha amizade de opostos nas entranhas da marginalidade do bairro; nos seguintes, Ferrante explora mais Nápoles e suas fronteiras à medida que Lenu se afasta de Lila, vencida pela constante tensão de viver no limite de ódio e admiração pela amiga.

[infobox maintitle="Alerta de spoiler suave" subtitle="Há alguns detalhes sobre a trama dos livros que podem estragar um pouquinho da surpresa, mas não acabará com a sua leitura" bg="red" color="black" opacity="on" space="30" link="no link"]

O primeiro da série, A Amiga Genial (sobre o qual já falamos aqui) estabelece o tom da narrativa, cria a atmosfera do bairro arruinado de Nápoles logo após a guerra, com pequenos comércios que mal se sustentam e a presença de uma violência que ocupa a ausência do Estado em todas as esferas.

Em História do Novo Sobrenome, o segundo volume, outras relações se formam, baseadas na mesma violência com a qual cresceram: o casamento de Lila com Stefano, os roxos em seu corpo, as traições do marido e o intenso romance com Nino durante as férias em Ischia.

Lenu, desiludida pelo amor não correspondido, se desgruda do núcleo napolitano e parte para a vida universitária. Desaprende a falar o ríspido dialeto e, em um grande esforço em reafirmar-se sofisticada e cosmopolita, se casa com Pietro Airota, acadêmico da universidade de Pisa, cuja família rica e influente exerce grande fascínio.

[caption id="attachment_15086" align="aligncenter" width="800"] Cena do filme “Começou em Nápoles” (1960) – afinal, precisamos situar essa vida napolitana[/caption]

Já em História de quem Foge e quem Fica a narrativa perde um pouco de seu poder e seu aspecto folhetinesco cobrou seu preço: foi um malabarismo para retomar todos os personagens apresentados nos livros anteriores e seus núcleos narrativos.

As relações ficaram mais cruas e a amizade de Lenu e Lila, já há muito desgastada, deixa de ocupar lugar principal; mas sua sombra permanece como nunca. Lila permanece no bairro, depois de muitos percalços, tentando sobreviver da maneira que consegue enquanto Lenu se lança na carreira literária, alavancada pelo entusiasmo da sogra, figura influente nas editoras italianas. Lenu se pauta pelas negativas de sua amiga até repetir a história pela segunda vez – dessa vez como uma farsa? – ao se tornar amante de seu antigo amor Nino Sarratore.

Nesse livro, o contexto político da Itália das décadas de 1960 e 70 explode e é muito presente na vida de Lila, que trabalha em uma fábrica de embutidos e se junta às demandas trabalhistas. Mas esse aspecto é apenas um ruído na vida de Lenu, criando uma relação direta entre a sua Florença, culta e civilizada, e a Nápoles de Lila, dura e violenta.

[caption id="attachment_15085" align="aligncenter" width="800"] Cena do filme “Começou em Nápoles” (1960) – esses seres que são os homens italianos[/caption]

O cliffhanger do terceiro livro é dramático e exigia uma conclusão igualmente arrebatadora no último livro da série, História da Menina Perdida. Porém, Ferrante se perde por apressar uma narrativa que, até então, era marcada por sua autenticidade e organicidade. O folhetim toma força novamente: muita coisa acontece em um espaço curto de tempo narrado, Lila estava feliz, dona de uma empresa de programação no começo do parágrafo e raivosa e obcecada no final dele; Lenu aparecia amante numa página e mãe-solo perdida em Nápoles na outra.

Aqui encontramos as duas protagonistas em períodos muito diferentes da vida mas que passam pela maternidade juntas, reconstruindo uma relação, estabelecendo novos limites e intimidade. No último livro, sente-se o peso de quase 50 anos de amizade, suas feridas cicatrizaram de modo diferentes, mas a violência que sofreram ecoa da mesma maneira. Se Lenu sobrevive para fincar sua existência nas páginas que acumulou escrevendo, Lila sobreviveu esse tempo todo apenas para desaparecer para um silêncio construído.

[caption id="attachment_15084" align="aligncenter" width="800"] Cena do filme “Começou em Nápoles” (1960) – Sophia Loren já sofreu nessa cidade[/caption]

Confesso, saí dessa tetralogia revigorada:

a sutilidade e a honestidade que Ferrante usa para lidar com a relação das duas – a doce e esforçada Lenu Greco e a dura e impetuosa Lila Cerullo – me arrebatou e me fez lembrar o quanto nossas relações são complexas, possuem camadas de sentimentos tão sobrepostos que é difícil compreender sem adotar uma terceira perspectiva. Me fez entender que se julguei a relação de Lenu e Lila como tóxica à primeira vista, foi porque perdi algumas sutilezas e contrapontos que vem na mesma moeda, que a crueldade e rudeza de Lila era diretamente complementar à insegurança e orgulho de Lenu e que a amizade que sobrevive à esses opostos é poderosa.

Escrito por
Mais de Fabi Oda

Leia: A esposa de Paul Auster

Ao mascarar um machismo e retirar o protagonismo da própria escritora, o título acima reduz Siri Hustvedt à condição de esposa, companheira, coadjuvante. A grosso modo, é sobre essa frase e suas implicações a abordagem do livro O mundo em chamas, lançado em 2014 pela Companhia das Letras.

A autora Siri Hustvedt é filha de imigrantes noruegueses. Nascida em Minnesota, EUA,  mudou-se para Nova Iorque para graduar-se na Universidade de Columbia e saiu de lá com um doutorado em literatura. Multidisciplinar, publicou poesias e romances além de ensaios de filosofia, psicanálise e artigos sobre neurociência. Em 2014, foi nomeada para o Man Booker Prize e ganhou o Prêmio Los Angeles Time Book Award for Fiction no ano seguinte.

O livro O mundo em chamas, tanto o objeto real como o fictício e metalinguístico produzido pelo personagem I.V Hess, é uma coletânea post-mortem de entrevistas, depoimentos e trechos de diários da artista Harriet Burden.

Harriet Burden, ou Harry para os íntimos, é uma mulher mais velha, viúva, intelectual, ávida leitora, veste-se com chapéus e cores vivas, ostenta cabelos longos e cacheados, com a altura de um jogador de basquete. Com personalidade avassaladora, é objeto de repulsa da crítica especializada, chamada de histérica, neurótica, louca e bruxa. Frequentemente lembrada como excelente anfitriã de jantares, mas nunca teve seu trabalho artístico levado a sério, ela percebe cada vez mais o peso (o sobrenome Burden significa fardo em inglês) dos rótulos castradores utilizados para classificar seu trabalho e sua personalidade.

capa_O mundo em chamas

Harriet nunca teve suas obras reconhecidas pela comunidade artística e por anos viveu à sombra de seu marido marchand Felix Lord. Amargurada e impotente, se vê em um meio cada vez mais narcisístico e surdo, no qual é impossível argumentar ou apresentar algum tipo de contraponto. Porém, quando seu marido morre, ela vê a possibilidade de se reinventar, criando uma série de instalações plásticas, mascarando sua identidade atrás do nome de três artistas masculinos relativamente conhecidos.

O projeto, chamado de Mascaramentos, procura não só evidenciar a misoginia no círculo artístico como também discutir os conceitos de apropriação e percepção de gênero, raça e sexualidade, incitando o espectador a refletir sobre sua própria identidade.

Mascaramentos foi a solução encontrada para expressar-se, mas mais do que isso, era uma vingança, um grande tapa na cara do mundo. Burden queria rir de todos ao apontar a mesquinhez e machismo da sociedade e sabia que máscaras frequentemente eram mais reveladoras que a face real.

De fato, o experimento é um grande sucesso, mas começa a apresentar falhas quando o terceiro e último artista-fachada, Rune (sem sobrenome, como a Madonna) nega a autoria real da obra e recebe todos os louros do sucesso da instalação Por baixo. Sua tão desejada vingança não previa as variáveis do ego e as segundas intenções de suas máscaras.

Com isso fica mais claro o motivo da montagem de documentos do livro ficcional O mundo em chamas. I.V Hess tenta dar luz à carreira de Harriet Burden e esclarecer as autorias de Mascaramentos e sua relevância.

Passado e presente entrelaçam além da conjugação de verbos através da narrativa dos diários-alfabéticos da artista, mais temáticos do que cronológicos, remontando suas memórias de infância, traumas e vivências. Além dos diários, há depoimentos de seus filhos, Maisie e Ethan, de seu namorado e alguns de seus principais colaboradores. Os diversos gêneros textuais deixam o quebra-cabeça narrativo mais instigante e sua montagem é processual e prazerosa.

A compilação documental acronológica que traça a trajetória artística de Harriet Bruden deixa claro que O mundo em chamas não é apenas uma fábula feminista, mas também um complexo emaranhado de narrativas que dão corpo a uma personagem aterrorizada por memórias e ranços de seus traumas. A montagem de diversos depoimentos sobre Harry cria uma personagem multifacetada, entendendo a percepção do objeto pelo seu receptor como essencial para sua compreensão e talvez a única possível.

O enredo – familiar demais para Siri Hustvedt, “esposa do escritor Paul Auster” – é o retrato de diversas artistas e escritoras de nossa realidade, como a artista Margaret Keane, a escritora italiana Elena Ferrante (Letícia Mendes escreveu sobre o assunto aqui), a escultora Camille Claudel e Gerda Taro, fotógrafa que criou o personagem de Robert Capa junto com Andre Friedmann.

Porém, diversos críticos literários não captaram a ironia do romance e insiste em elogios condescendentes como “Harriet Burden parece um herói vindo dos romances de Phillip Roth ou Saul Bellow” ou “Siri Hustvedt parece se valer dos artísticos narrativos usados pelo marido para criar a tênue linha entre o concreto e o delírio”. É evidente que Harriet Burden ainda é necessária, essencial para reivindicarmos nossa própria autoria.

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