Em uma reportagem num certo jornal de São Paulo, que prefiro não dar ibope (risos), tinha uma matéria sobre um time feminino, sub-14, Centro Olímpico. A matéria se referia ao time ter sido aceito para jogar o campeonato masculino chamado ~ Copa Moleque Travesso ~ e as meninas foram campeãs do campeonato. Fico triste em pensar que tiveram que ser aceitas para jogar porque não há muitos campeonatos para times femininos. De forma que, o que aconteceu com essas meninas nos estabeleceram dois pontos positivos. O primeiro, a visibilidade do problema em questão e o segundo, somos muito mais capazes do que a maioria imagina.
Como a diferença física é bem grande, a gente propôs entrar com um time um ano mais velho e eles aceitaram, só uma equipe se opôs. A maioria dos times super apoiou a ideia, disse que tinha que permitir a integração das meninas” – Lucas Piccinato, técnico
Mas será que tamanho é documento? Sabemos de muitos jogadores homens e franzinos (forma estereotipada da qual enxergam uma mulher que seja jogadora de futebol) são considerados super craques.
Mas no fim é sempre isso, sempre segregam a mulher de forma que ela precise estar às margens quando há algo que homens façam majoritariamente (por causa de misoginia histórica). No futebol, há sempre uma falta de incentivo e essa história tem um porquê. Sabemos que o estereótipo da mulher é de ser dependente e frágil, e durante a ditadura, em 1964, foi deliberado: Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo, halterofilismo e beisebol”. Essas práticas foram proibidas com o propósito das mulheres não se debilitarem diante a maternidade, função que se considerava inerente a todas nós. Impressionantemente, essa decisão só foi anulada em ~ pasmem ~ 1981, e ainda assim a profissionalização não era possível. O futebol feminino já começou muito atrasado mas como contra cultura, transgressor, popular e não-elitista.
Falta competição feminina no Brasil. A gente tem dificuldades de achar torneios em todas as idades, ainda mais no sub-11, sub-13 e sub-15. Sempre acharam que entrar em torneios masculinos era uma desvantagem. Agora, a gente mostrou que não é. Tomara que no ano que vem nos permitam jogar de novo.” – jogadora do Campo Olímpico
O tempo passou e o Brasil continuou sendo o país do futebol (masculino). Por pior que sejam as condições de qualquer criança brasileira para se entrar e profissionalizar em qualquer esporte, e deixo claro meus recortes de cor e classe aqui, o espaço no futebol entre meninas/mulheres e meninos/homens, é abissal. Atualmente é muito difícil uma jogadora profissional conseguir um bom salário, a maioria das jogadoras da nossa seleção brasileira de futebol joga fora do país. Não só por prestígio, mas porque em outros lugares elas podem fazer uma carreira, uma profissão. Pouquíssimas jogadoras com bastante visibilidade, como nossa querida Marta e Formiga, podem ““““se dar o luxo”””” de jogarem no Brasil.
Ano passado aconteceu a Copa do Mundo de futebol feminino. Você ficou sabendo? Você soube qual emissora cobriria os jogos? Quem ganhou? Pois é, a maioria não soube, e quem estava ligado, não tinha onde assistir porque foi muito pouco falado, divulgado e transmitido. De forma que, a Copa do Mundo ano passado foi no Canadá, e ainda assim, mesmos sendo um evento enorme, não deram campo de grama para as mulheres jogarem. Elas tiveram que jogar todos os jogos em campo sintético. Você deve se perguntar o que tem a ver, certo? Pode deixar que eu te mostro:
Para muito além de canelas roxas e pernas queimadas, a atleta Caitlin Fisher destaca a importância da problematização. A questão pode parecer inocente, mas é cheia de machismo e questões de inferiorização do gênero feminino no esporte. O texto abaixo foi originalmente publicado pela Al Jazeera EUA e adaptado para o site Donna:
“No dia 21 de janeiro de 2015 um grupo de mais de 40 jogadoras de futebol abriu um processo de discriminação de gênero contra a FIFA e a Associação Canadense de Futebol. A queixa fora apresentada em outubro do ano anterior, e se opunha à decisão de realizar a Copa do Mundo de Futebol Feminino em gramado sintético, não natural. O campeonato masculino nunca foi jogado em gramado artificial. Mas o simbolismo de oferecer um gramado inferior para atletas do sexo feminino é mais profundo do que o que ocorre na superfície de um campo de futebol. Ao realizar a Copa do Mundo de Futebol Feminino em campos inferiores, a instituição responsável pelo rumo da modalidade reforça uma mensagem que vem sendo enviada para atletas mulheres há anos: o seu jogo é de segunda classe. Esta é a mesma mensagem subliminar enviada para meninas e mulheres em todos os lugares, todos os dias: ‘vocês merecem menos’. Ainda mais prejudicialmente, torcedores, administradores, familiares, treinadores e professores parecem estar confortáveis com o fato de as mulheres ficarem com menos. Aceitar que as mulheres devem jogar em campos precários é o mesmo que aceitar a diferença salarial entre gêneros.”
Nasceu no Brasil, um projeto incrível chamado Guerreiras Project. Formado por mulheres brasileiras e gringas. O projeto tem a incrível função de tratar sobre a desigualdade de gênero trazendo o futebol como ferramenta principal e prática. As mulheres atuam desde 2010 e começaram a fazer documentários maravilhosos sobre como era ser uma jogadora de futebol em um país em que homens são jogadores. Além de atuar fisicamente em comunidades e outras incríveis intervenções. Deixo aqui um dos vídeos incríveis, da nossa queridinha, Formiga:
Por meio deste incrível projeto, entrei em contato com as organizadoras que me concederam contatos de jogadoras amadoras e profissionais (além de fotos incríveis) para realizarem uma pequena entrevista. Assim podemos dar lugar de fala pra quem realmente vive na pele o dia a dia de ser uma jogadora de futebol, segue pequena entrevista:
Ovelha: Qual seu nome, idade e de que estado vocês são?
R: Nayara Perone – São Paulo, SP – 29 anos. Angélica Souza, 3 anos, São Paulo. Maiara Beckrich, 28 anos, SP. Thais Picarte, São Paulo.
Ovelha: Com quantos anos começaram a jogar futebol?
Nayara Perone: Comecei aos 26 anos treinando diariamente, na escola era só de vez em quando.
Angélica Souza: Não sei precisar, talvez com 5 ou 6 anos.
Maiara Beckrich: Não me lembro de antes de jogar futebol (risos).
Thais Picarte: Comecei a jogar de forma mais organizada em um clube onde era associada, em Santo André, minha cidade natal. Tinha 10 anos e até então só havia jogado com meninos na escola, na rua.
Ovelha: Jogam amadora ou profissionalmente? Qual é a frequência dos treinos?
Nayara Perone: Amadora, jogo pelo menos 1 vez por semana.
Angélica Souza: Amadora. Hoje, uma vez por mês.
Maiara Beckrich: Amadora, estou parada agora devido a uma lesão, mas costumo jogar duas vezes por semana.
Thais Picarte: Sou atetla profissional de futebol há mais de quinze anos. Treino cinco dias na semana, os dois períosos, temos um ou dois jogos na semana e geralmente um dia de folga.
Ovelha: Quais os piores obstáculos, se é que tiveram, para que pudessem jogar futebol?
Nayara Perone: Ensino. Lá só era permitido meninos jogarem futebol, meninas tinham que jogar vôlei ou queimada. As meninas que jogavam ouviam todo tipo de absurdo, eram constantemente ridicularizadas e ofendidas. Os professores nunca tiveram iniciativa de ensinar.
Angélica Souza: Encontrar um grupo exclusivamente feminino. Mas com o Pelado Real, o obstáculo foi superado.
Maiara Beckrich: Falta de lugar para jogar com outras meninas sempre foi o principal. Além é claro do machismo de homens que assediam a gente enquanto a gente joga. Ou tiram onda, desestimulando a prática do esporte, dizendo que a gente não sabe jogar ou não deveria estar ali.
Thais Picarte: A falta de recursos financeiros e de estrutura dos clubes. Normalmente, esta é a maior dificuldade para meninas que sonham em viver do futebol.
Ovelha: Qual foi a pior coisa que ouviram por ser mulher e jogar futebol? E a melhor?
Nayara Perone: A pior coisa é diária: homem mexendo, enchendo do lado de fora da quadra, coisas como “futebol é coisa de homem” e etc. A melhor foi recentemente, quando um amigo mudou um artigo para “22 pessoas correndo atrás de uma bola” em vez de “22 homens” pq disse que sempre lembra que eu falo bastante do futebol feminino.
Angélica Souza: Pior: Isso não é esporte para mulher, por isso você se machuca tanto (do meu ortopedista). Melhor: Vocês são mulheres à frente do seu tempo.
Maiara Beckrich: Difícil dizer qual foi a pior coisa. No meu caso é uma somatória de pequenas opressões pelas quais passei durante toda a vida que, inclusive, às vezes vêm disfarçadas de elogios. Como: “nossa, joga melhor do que muito menino.” Ou quando os homens acham qualquer coisa que você faz o máximo, por ser incrível na cabeça deles pensar que uma mulher consegue fazer alguma coisa bem (ainda mais uma coisa do universo pretensamente masculino).
Thais Picarte: A pior é sempre a associação preconceituosa que fazem, entre a opção esportiva e sua sexualidade. Em nosso país, as mulheres são subestimadas e sofrem coma desigualdade em diversas áreas. E quanto a melhor, quando eu comecei a jogar no clube, o pai de uma amiga me pediu um autógrafo e me disse que um dia ele iria valer muito, que eu seria uma grande goleira e que chegaria a seleção. Nunca esqueci aquele meu primeiro autógrafo e realmente cheguei a seleção e sou reconhecida na minha modalidade.
Ovelha: Vocês trabalham exclusivamente com futebol ou tem outro emprego? Se sim, qual?
Nayara Perone: Sou webdesigner, o futebol é meu hobbie. Tenho um time fixo, bem iniciante que joga campeonatos amadores e organizo um campeonato para meninas de todos os níveis, mas principalmente as que nunca jogaram e decidiram começar a jogar por causa dele.
Angélica Souza: Eu trabalho em uma agência de content marketing na área de esporte. O dibradoras é um projeto que toco paralelamente.
Maiara Beckrich: Eu colaboro com o Dibradoras, página que busca dar visibilidade para o futebol feminino, mas também trata de qualquer esporte onde hajam mulheres resistindo e praticando, apesar de todas as dificuldades. Mas não vivo disso, trabalho com mídia.
Thais Picarte: Trabalho somente com futebol, tenho a sorte de trabalhar em um clube que me dá o respaldo financeiro para que eu possa viver do futebol.
Ovelha: Como você vê o futuro do futebol feminino?
Nayara Perone: Vejo com bons olhos. Acredito que falar sempre no assunto ajuda a dar mais visibilidade e inserir o futebol feminino como algo do cotidiano, aceito e incentivado. Quanto mais gente jogando, mais meninas se sentirão a vontade e motivadas e saberão em quem se espelhar para continuar. Há muitos passos ainda, o abismo para o masculino ainda é imenso, mas ainda assim tenho esperanças boas no futebol feminino. Sobre campeonatos: obviamente precisam de mais campeonatos para as meninas. Não gosto da idéia dos campeonatos mistos, mas é o que temos para hoje. Temos que ter uma modalidade desenvolvida o suficiente para que tenham o mínimo de times para disputar campeonatos. Até incentivar os pais e meninas/mulheres nesse sentido, para que hajam mais times e por consequência mais quórum para disputas.
Angélica Souza: Vejo com um futuro promissor, mas ainda carente de investimento e pessoas dispostas a investir e acreditar nas mulheres não só atletas, mas também como gestoras esportivas.
Maiara Beckrich: Vejo um futuro complicado, pois poucas ações efetivas e duradouras estão sendo tomadas atualmente para elevar o futebol feminino brasileiro a um lugar de desempenho de alto nível. Hoje em dia, é quase uma utopia uma garota pensar em seguir uma carreira no futebol, sabendo de todas as dificuldades que vai enfrentar no caminho. Sabemos de atletas que têm que manter um emprego a parte para conseguir se bancar no futebol, de atletas que ficam sem clube durante meses e depois tem que defender a seleção brasileira, totalmente fora de ritmo. Descaso dos clubes, falta de incentivo, uniformes que sobraram do masculino, falta de ambulância, luz e vestiário adequados quando têm jogo. Enfim, caso completo. Alguma coisa melhorou com a criação da Seleção Permanente e algumas outras iniciativas pontuais, mas infelizmente ainda é muito pouco e sabemos que essas medidas quase nunca duram por muito tempo. O pior é que sabemos que com um mínimo de investimento já se poderia avançar um mundo. Falta interesse. Acho que muito porque a ideia da mulher como protagonista de qualquer coisa que seja no país que a gente vive fere a lógica patriarcal na qual estamos inseridas.
Thais Picarte: Acredito que o futuro da mulher como profissional, de um modo geral é muito promissor. Mas caminhamos a passos muito curtos, representamos uma fatia muito grande da sociedade para seguir no anonimato. Merecemos e devemos assumir mais responsabilidades e posições de maior reconhecimento e respeito.
Ovelha: Deixe aqui o nome da associação em que você joga, do seu time, quem você gostaria de dar visibilidade, o que quiserem, de verdade!
Nayara Perone: Meu time chama Miga FC, é um time basicamente de meninas que treinam pouco mas querem estar lá jogando e se divertindo. Gostaria de citar a Copa Trifon Ivanov, a copa sem fins lucrativos da qual faço a organização do campeonato feminino (temos o masculino e o feminino) e onde conheci além de pessoas incríveis, meninas que nunca sequer tinham corrido com uma bola e hoje jogam semanalmente e fizeram grandes laços de amizade.
Angélica Souza:Dibradoras, não é onde jogo, mas é onde procuro dar visibilidade ao futebol feminino.
Maiara Beckrich: Gostaria de valorizar qualquer pessoa ou associação que faça esse trabalho de formiga que é dar visibilidade à questão do futebol feminino, mas tenho um carinho especial por duas. O Pelado Real, onde eu jogo, que eu acredito que se configurou como uma grande referência para a mulherada que quer jogar futebol, tenha o nível que tenha. É um trabalho sem precedentes que eu acredito ser essencial e maravilhoso. Também gostaria de ressaltar o trabalho das dibradoras, que em muito pouco tempo (mais ou menos desde a Copa do Mundo feminina do ano passado) conseguiu se transformar uma plataforma sensacional para tratar da questão de gênero dentro da esfera do esporte. Tenho muito orgulho de poder trabalhar com essas minas e sei que o caminho ainda é muito longo. Mas a gente não desiste. Ah, mas não desiste mesmo.
Thais Picarte: Jogo no São José Esporte Clube. E sou embaixadora do Guerreiras Project. Gostaria que falasse um pouco sobre nossos ideias.
Pois bem, agora estamos a menos de 7 dias das Olimpíadas (mas os jogos de futebol começam antes!) e por ser um evento que confere mundialmente todos os esportes, muito provavelmente o futebol feminino deva ser bem televisionado e bem transmitido. O que você me diz? Vou te apresentar aqui o nosso time brasileiro, a escalação para os jogos, o cronograma dos jogos, os grupos em que cada time caiu. Vamos acompanhar? A Ovelha pretende produzir um podcast depois dos jogos para conversarmos sobre os os jogos e os ~ impedimentos ~ de ser mulher e jogar futebol no Brasil e no mundo. Convidadas especiais serão chamadas para participar com a gente e esperamos que vocês curtam muito!
Nossa escalação para as Olimpíadas está assim:
Para vocês terem uma noção do sexismo envolvendo as instituições, no próprio site da C.B.F., há um trecho do treinador da seleção feminina, Vadão, que diz o seguinte:
Aos 58 anos, o experiente Vadão, como é conhecido, deixou uma carreira consolidada, em que pôde estimular o crescimento de jogadores como Rivaldo e revelar talentos como o de Kaká, para incentivar uma modalidade menos favorecida no país e dar o passo definitivo rumo à excelência tanto na Copa do Mundo Feminina da FIFA quanto no torneio olímpico.
[Essa boçalidade que você leu aí em cima se encontra aqui]
Quer dizer, enaltece o treinador por ter trabalhado em clubes masculinos e parece que ele é o bom samaritano por abrir mão dessa carreira para incentivar uma modalidade menos favorecida. Dá vontade de mandar pra aquele lugar? Dá sim, porém aquele lugar é bom, então realmente fica apenas minha indignação sobre esse trecho. Também quero estar atenta a comentários de narradores como “jogo bonito de se ver” fazendo alusão a estética corporal das mulheres ao invés do jogo em si. ESTAREMOS DE OLHO, VIU? Voltemos à programação normal.
Os grupos estão organizados dessa forma e nosso primeiro jogo é no dia 3 de agosto com a China. O futebol oriental é fortíssimo, já vamos estrear com desafios!
Para facilitar a nossa vida, também fizemos uma tabela com o cronograma dos jogos femininos da primeira fase. Assim não tem desculpa para não acompanhar, a não ser claro, o horário de trabalho. Mas, podemos pedir para os chefes liberarem uma televisãozinha por bens maiores, não é mesmo?
Para piorar o quadro das mulheres profissionais, ainda rolou essa notícia bombástica. CBF não cumpre promessa e deixa jogadoras sem carteira assinada e benefícios. Vocês podem imaginar que no masculino os caras nem ganham pra estar na seleção, é pelo prestígio? Mas as mulheres precisam sair de seus times no extrangeiro, que é onde pagam melhor (melhor, vulgo, conseguem se sustentar, mandar um dinheiro pra família, etc.), para vestirem a camisa canarinho e ainda assim não são levadas a sério. Há muita coisa pelo que lutarmos. Vamos acompanhar nossa seleção feminina, vamos dar valor e visibilidade a essas mulheres que já tem títulos melhores que craques masculinos.
Segue o jogo.
P.S.: Quero fazer um agradecimento às mulheres incríveis que concederam a entrevista e a Nadja Marin, uma das cabeças do Guerreira Project, que por ela, pude fazer as conexões! <3
Em uma reportagem num certo jornal de São Paulo, que prefiro não dar ibope (risos), tinha uma matéria sobre um time feminino, sub-14, Centro Olímpico. A matéria se referia ao time ter sido aceito para jogar o campeonato masculino chamado ~ Copa Moleque Travesso ~ e as meninas foram campeãs do campeonato. Fico triste em pensar que tiveram que ser aceitas para jogar porque não há muitos campeonatos para times femininos. De forma que, o que aconteceu com essas meninas nos estabeleceram dois pontos positivos. O primeiro, a visibilidade do problema em questão e o segundo, somos muito mais capazes do que a maioria imagina.
Como a diferença física é bem grande, a gente propôs entrar com um time um ano mais velho e eles aceitaram, só uma equipe se opôs. A maioria dos times super apoiou a ideia, disse que tinha que permitir a integração das meninas” – Lucas Piccinato, técnico
Mas será que tamanho é documento? Sabemos de muitos jogadores homens e franzinos (forma estereotipada da qual enxergam uma mulher que seja jogadora de futebol) são considerados super craques.
Mas no fim é sempre isso, sempre segregam a mulher de forma que ela precise estar às margens quando há algo que homens façam majoritariamente (por causa de misoginia histórica). No futebol, há sempre uma falta de incentivo e essa história tem um porquê. Sabemos que o estereótipo da mulher é de ser dependente e frágil, e durante a ditadura, em 1964, foi deliberado: Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo, halterofilismo e beisebol”. Essas práticas foram proibidas com o propósito das mulheres não se debilitarem diante a maternidade, função que se considerava inerente a todas nós. Impressionantemente, essa decisão só foi anulada em ~ pasmem ~ 1981, e ainda assim a profissionalização não era possível. O futebol feminino já começou muito atrasado mas como contra cultura, transgressor, popular e não-elitista.
Falta competição feminina no Brasil. A gente tem dificuldades de achar torneios em todas as idades, ainda mais no sub-11, sub-13 e sub-15. Sempre acharam que entrar em torneios masculinos era uma desvantagem. Agora, a gente mostrou que não é. Tomara que no ano que vem nos permitam jogar de novo.” – jogadora do Campo Olímpico
O tempo passou e o Brasil continuou sendo o país do futebol (masculino). Por pior que sejam as condições de qualquer criança brasileira para se entrar e profissionalizar em qualquer esporte, e deixo claro meus recortes de cor e classe aqui, o espaço no futebol entre meninas/mulheres e meninos/homens, é abissal. Atualmente é muito difícil uma jogadora profissional conseguir um bom salário, a maioria das jogadoras da nossa seleção brasileira de futebol joga fora do país. Não só por prestígio, mas porque em outros lugares elas podem fazer uma carreira, uma profissão. Pouquíssimas jogadoras com bastante visibilidade, como nossa querida Marta e Formiga, podem ““““se dar o luxo”””” de jogarem no Brasil.
Ano passado aconteceu a Copa do Mundo de futebol feminino. Você ficou sabendo? Você soube qual emissora cobriria os jogos? Quem ganhou? Pois é, a maioria não soube, e quem estava ligado, não tinha onde assistir porque foi muito pouco falado, divulgado e transmitido. De forma que, a Copa do Mundo ano passado foi no Canadá, e ainda assim, mesmos sendo um evento enorme, não deram campo de grama para as mulheres jogarem. Elas tiveram que jogar todos os jogos em campo sintético. Você deve se perguntar o que tem a ver, certo? Pode deixar que eu te mostro:
Para muito além de canelas roxas e pernas queimadas, a atleta Caitlin Fisher destaca a importância da problematização. A questão pode parecer inocente, mas é cheia de machismo e questões de inferiorização do gênero feminino no esporte. O texto abaixo foi originalmente publicado pela Al Jazeera EUA e adaptado para o site Donna:
“No dia 21 de janeiro de 2015 um grupo de mais de 40 jogadoras de futebol abriu um processo de discriminação de gênero contra a FIFA e a Associação Canadense de Futebol. A queixa fora apresentada em outubro do ano anterior, e se opunha à decisão de realizar a Copa do Mundo de Futebol Feminino em gramado sintético, não natural. O campeonato masculino nunca foi jogado em gramado artificial. Mas o simbolismo de oferecer um gramado inferior para atletas do sexo feminino é mais profundo do que o que ocorre na superfície de um campo de futebol. Ao realizar a Copa do Mundo de Futebol Feminino em campos inferiores, a instituição responsável pelo rumo da modalidade reforça uma mensagem que vem sendo enviada para atletas mulheres há anos: o seu jogo é de segunda classe. Esta é a mesma mensagem subliminar enviada para meninas e mulheres em todos os lugares, todos os dias: ‘vocês merecem menos’. Ainda mais prejudicialmente, torcedores, administradores, familiares, treinadores e professores parecem estar confortáveis com o fato de as mulheres ficarem com menos. Aceitar que as mulheres devem jogar em campos precários é o mesmo que aceitar a diferença salarial entre gêneros.”
Nasceu no Brasil, um projeto incrível chamado Guerreiras Project. Formado por mulheres brasileiras e gringas. O projeto tem a incrível função de tratar sobre a desigualdade de gênero trazendo o futebol como ferramenta principal e prática. As mulheres atuam desde 2010 e começaram a fazer documentários maravilhosos sobre como era ser uma jogadora de futebol em um país em que homens são jogadores. Além de atuar fisicamente em comunidades e outras incríveis intervenções. Deixo aqui um dos vídeos incríveis, da nossa queridinha, Formiga:
Por meio deste incrível projeto, entrei em contato com as organizadoras que me concederam contatos de jogadoras amadoras e profissionais (além de fotos incríveis) para realizarem uma pequena entrevista. Assim podemos dar lugar de fala pra quem realmente vive na pele o dia a dia de ser uma jogadora de futebol, segue pequena entrevista:
Ovelha: Qual seu nome, idade e de que estado vocês são?
R: Nayara Perone – São Paulo, SP – 29 anos. Angélica Souza, 3 anos, São Paulo. Maiara Beckrich, 28 anos, SP. Thais Picarte, São Paulo.
Ovelha: Com quantos anos começaram a jogar futebol?
Nayara Perone: Comecei aos 26 anos treinando diariamente, na escola era só de vez em quando.
Angélica Souza: Não sei precisar, talvez com 5 ou 6 anos.
Maiara Beckrich: Não me lembro de antes de jogar futebol (risos).
Thais Picarte: Comecei a jogar de forma mais organizada em um clube onde era associada, em Santo André, minha cidade natal. Tinha 10 anos e até então só havia jogado com meninos na escola, na rua.
Ovelha: Jogam amadora ou profissionalmente? Qual é a frequência dos treinos?
Nayara Perone: Amadora, jogo pelo menos 1 vez por semana.
Angélica Souza: Amadora. Hoje, uma vez por mês.
Maiara Beckrich: Amadora, estou parada agora devido a uma lesão, mas costumo jogar duas vezes por semana.
Thais Picarte: Sou atetla profissional de futebol há mais de quinze anos. Treino cinco dias na semana, os dois períosos, temos um ou dois jogos na semana e geralmente um dia de folga.
Ovelha: Quais os piores obstáculos, se é que tiveram, para que pudessem jogar futebol?
Nayara Perone: Ensino. Lá só era permitido meninos jogarem futebol, meninas tinham que jogar vôlei ou queimada. As meninas que jogavam ouviam todo tipo de absurdo, eram constantemente ridicularizadas e ofendidas. Os professores nunca tiveram iniciativa de ensinar.
Angélica Souza: Encontrar um grupo exclusivamente feminino. Mas com o Pelado Real, o obstáculo foi superado.
Maiara Beckrich: Falta de lugar para jogar com outras meninas sempre foi o principal. Além é claro do machismo de homens que assediam a gente enquanto a gente joga. Ou tiram onda, desestimulando a prática do esporte, dizendo que a gente não sabe jogar ou não deveria estar ali.
Thais Picarte: A falta de recursos financeiros e de estrutura dos clubes. Normalmente, esta é a maior dificuldade para meninas que sonham em viver do futebol.
Ovelha: Qual foi a pior coisa que ouviram por ser mulher e jogar futebol? E a melhor?
Nayara Perone: A pior coisa é diária: homem mexendo, enchendo do lado de fora da quadra, coisas como “futebol é coisa de homem” e etc. A melhor foi recentemente, quando um amigo mudou um artigo para “22 pessoas correndo atrás de uma bola” em vez de “22 homens” pq disse que sempre lembra que eu falo bastante do futebol feminino.
Angélica Souza: Pior: Isso não é esporte para mulher, por isso você se machuca tanto (do meu ortopedista). Melhor: Vocês são mulheres à frente do seu tempo.
Maiara Beckrich: Difícil dizer qual foi a pior coisa. No meu caso é uma somatória de pequenas opressões pelas quais passei durante toda a vida que, inclusive, às vezes vêm disfarçadas de elogios. Como: “nossa, joga melhor do que muito menino.” Ou quando os homens acham qualquer coisa que você faz o máximo, por ser incrível na cabeça deles pensar que uma mulher consegue fazer alguma coisa bem (ainda mais uma coisa do universo pretensamente masculino).
Thais Picarte: A pior é sempre a associação preconceituosa que fazem, entre a opção esportiva e sua sexualidade. Em nosso país, as mulheres são subestimadas e sofrem coma desigualdade em diversas áreas. E quanto a melhor, quando eu comecei a jogar no clube, o pai de uma amiga me pediu um autógrafo e me disse que um dia ele iria valer muito, que eu seria uma grande goleira e que chegaria a seleção. Nunca esqueci aquele meu primeiro autógrafo e realmente cheguei a seleção e sou reconhecida na minha modalidade.
Ovelha: Vocês trabalham exclusivamente com futebol ou tem outro emprego? Se sim, qual?
Nayara Perone: Sou webdesigner, o futebol é meu hobbie. Tenho um time fixo, bem iniciante que joga campeonatos amadores e organizo um campeonato para meninas de todos os níveis, mas principalmente as que nunca jogaram e decidiram começar a jogar por causa dele.
Angélica Souza: Eu trabalho em uma agência de content marketing na área de esporte. O dibradoras é um projeto que toco paralelamente.
Maiara Beckrich: Eu colaboro com o Dibradoras, página que busca dar visibilidade para o futebol feminino, mas também trata de qualquer esporte onde hajam mulheres resistindo e praticando, apesar de todas as dificuldades. Mas não vivo disso, trabalho com mídia.
Thais Picarte: Trabalho somente com futebol, tenho a sorte de trabalhar em um clube que me dá o respaldo financeiro para que eu possa viver do futebol.
Ovelha: Como você vê o futuro do futebol feminino?
Nayara Perone: Vejo com bons olhos. Acredito que falar sempre no assunto ajuda a dar mais visibilidade e inserir o futebol feminino como algo do cotidiano, aceito e incentivado. Quanto mais gente jogando, mais meninas se sentirão a vontade e motivadas e saberão em quem se espelhar para continuar. Há muitos passos ainda, o abismo para o masculino ainda é imenso, mas ainda assim tenho esperanças boas no futebol feminino. Sobre campeonatos: obviamente precisam de mais campeonatos para as meninas. Não gosto da idéia dos campeonatos mistos, mas é o que temos para hoje. Temos que ter uma modalidade desenvolvida o suficiente para que tenham o mínimo de times para disputar campeonatos. Até incentivar os pais e meninas/mulheres nesse sentido, para que hajam mais times e por consequência mais quórum para disputas.
Angélica Souza: Vejo com um futuro promissor, mas ainda carente de investimento e pessoas dispostas a investir e acreditar nas mulheres não só atletas, mas também como gestoras esportivas.
Maiara Beckrich: Vejo um futuro complicado, pois poucas ações efetivas e duradouras estão sendo tomadas atualmente para elevar o futebol feminino brasileiro a um lugar de desempenho de alto nível. Hoje em dia, é quase uma utopia uma garota pensar em seguir uma carreira no futebol, sabendo de todas as dificuldades que vai enfrentar no caminho. Sabemos de atletas que têm que manter um emprego a parte para conseguir se bancar no futebol, de atletas que ficam sem clube durante meses e depois tem que defender a seleção brasileira, totalmente fora de ritmo. Descaso dos clubes, falta de incentivo, uniformes que sobraram do masculino, falta de ambulância, luz e vestiário adequados quando têm jogo. Enfim, caso completo. Alguma coisa melhorou com a criação da Seleção Permanente e algumas outras iniciativas pontuais, mas infelizmente ainda é muito pouco e sabemos que essas medidas quase nunca duram por muito tempo. O pior é que sabemos que com um mínimo de investimento já se poderia avançar um mundo. Falta interesse. Acho que muito porque a ideia da mulher como protagonista de qualquer coisa que seja no país que a gente vive fere a lógica patriarcal na qual estamos inseridas.
Thais Picarte: Acredito que o futuro da mulher como profissional, de um modo geral é muito promissor. Mas caminhamos a passos muito curtos, representamos uma fatia muito grande da sociedade para seguir no anonimato. Merecemos e devemos assumir mais responsabilidades e posições de maior reconhecimento e respeito.
Ovelha: Deixe aqui o nome da associação em que você joga, do seu time, quem você gostaria de dar visibilidade, o que quiserem, de verdade!
Nayara Perone: Meu time chama Miga FC, é um time basicamente de meninas que treinam pouco mas querem estar lá jogando e se divertindo. Gostaria de citar a Copa Trifon Ivanov, a copa sem fins lucrativos da qual faço a organização do campeonato feminino (temos o masculino e o feminino) e onde conheci além de pessoas incríveis, meninas que nunca sequer tinham corrido com uma bola e hoje jogam semanalmente e fizeram grandes laços de amizade.
Angélica Souza:Dibradoras, não é onde jogo, mas é onde procuro dar visibilidade ao futebol feminino.
Maiara Beckrich: Gostaria de valorizar qualquer pessoa ou associação que faça esse trabalho de formiga que é dar visibilidade à questão do futebol feminino, mas tenho um carinho especial por duas. O Pelado Real, onde eu jogo, que eu acredito que se configurou como uma grande referência para a mulherada que quer jogar futebol, tenha o nível que tenha. É um trabalho sem precedentes que eu acredito ser essencial e maravilhoso. Também gostaria de ressaltar o trabalho das dibradoras, que em muito pouco tempo (mais ou menos desde a Copa do Mundo feminina do ano passado) conseguiu se transformar uma plataforma sensacional para tratar da questão de gênero dentro da esfera do esporte. Tenho muito orgulho de poder trabalhar com essas minas e sei que o caminho ainda é muito longo. Mas a gente não desiste. Ah, mas não desiste mesmo.
Thais Picarte: Jogo no São José Esporte Clube. E sou embaixadora do Guerreiras Project. Gostaria que falasse um pouco sobre nossos ideias.
Pois bem, agora estamos a menos de 7 dias das Olimpíadas (mas os jogos de futebol começam antes!) e por ser um evento que confere mundialmente todos os esportes, muito provavelmente o futebol feminino deva ser bem televisionado e bem transmitido. O que você me diz? Vou te apresentar aqui o nosso time brasileiro, a escalação para os jogos, o cronograma dos jogos, os grupos em que cada time caiu. Vamos acompanhar? A Ovelha pretende produzir um podcast depois dos jogos para conversarmos sobre os os jogos e os ~ impedimentos ~ de ser mulher e jogar futebol no Brasil e no mundo. Convidadas especiais serão chamadas para participar com a gente e esperamos que vocês curtam muito!
Nossa escalação para as Olimpíadas está assim:
Para vocês terem uma noção do sexismo envolvendo as instituições, no próprio site da C.B.F., há um trecho do treinador da seleção feminina, Vadão, que diz o seguinte:
Aos 58 anos, o experiente Vadão, como é conhecido, deixou uma carreira consolidada, em que pôde estimular o crescimento de jogadores como Rivaldo e revelar talentos como o de Kaká, para incentivar uma modalidade menos favorecida no país e dar o passo definitivo rumo à excelência tanto na Copa do Mundo Feminina da FIFA quanto no torneio olímpico.
[Essa boçalidade que você leu aí em cima se encontra aqui]
Quer dizer, enaltece o treinador por ter trabalhado em clubes masculinos e parece que ele é o bom samaritano por abrir mão dessa carreira para incentivar uma modalidade menos favorecida. Dá vontade de mandar pra aquele lugar? Dá sim, porém aquele lugar é bom, então realmente fica apenas minha indignação sobre esse trecho. Também quero estar atenta a comentários de narradores como “jogo bonito de se ver” fazendo alusão a estética corporal das mulheres ao invés do jogo em si. ESTAREMOS DE OLHO, VIU? Voltemos à programação normal.
Os grupos estão organizados dessa forma e nosso primeiro jogo é no dia 3 de agosto com a China. O futebol oriental é fortíssimo, já vamos estrear com desafios!
Para facilitar a nossa vida, também fizemos uma tabela com o cronograma dos jogos femininos da primeira fase. Assim não tem desculpa para não acompanhar, a não ser claro, o horário de trabalho. Mas, podemos pedir para os chefes liberarem uma televisãozinha por bens maiores, não é mesmo?
Para piorar o quadro das mulheres profissionais, ainda rolou essa notícia bombástica. CBF não cumpre promessa e deixa jogadoras sem carteira assinada e benefícios. Vocês podem imaginar que no masculino os caras nem ganham pra estar na seleção, é pelo prestígio? Mas as mulheres precisam sair de seus times no extrangeiro, que é onde pagam melhor (melhor, vulgo, conseguem se sustentar, mandar um dinheiro pra família, etc.), para vestirem a camisa canarinho e ainda assim não são levadas a sério. Há muita coisa pelo que lutarmos. Vamos acompanhar nossa seleção feminina, vamos dar valor e visibilidade a essas mulheres que já tem títulos melhores que craques masculinos.
Segue o jogo.
P.S.: Quero fazer um agradecimento às mulheres incríveis que concederam a entrevista e a Nadja Marin, uma das cabeças do Guerreira Project, que por ela, pude fazer as conexões! <3
Em uma reportagem num certo jornal de São Paulo, que prefiro não dar ibope (risos), tinha uma matéria sobre um time feminino, sub-14, Centro Olímpico. A matéria se referia ao time ter sido aceito para jogar o campeonato masculino chamado ~ Copa Moleque Travesso ~ e as meninas foram campeãs do campeonato. Fico triste em pensar que tiveram que ser aceitas para jogar porque não há muitos campeonatos para times femininos. De forma que, o que aconteceu com essas meninas nos estabeleceram dois pontos positivos. O primeiro, a visibilidade do problema em questão e o segundo, somos muito mais capazes do que a maioria imagina.
[caption id="attachment_11509" align="aligncenter" width="829"] Parabéns meninas do Centro Olímpico! <3[/caption]
Como a diferença física é bem grande, a gente propôs entrar com um time um ano mais velho e eles aceitaram, só uma equipe se opôs. A maioria dos times super apoiou a ideia, disse que tinha que permitir a integração das meninas” – Lucas Piccinato, técnico
Mas será que tamanho é documento? Sabemos de muitos jogadores homens e franzinos (forma estereotipada da qual enxergam uma mulher que seja jogadora de futebol) são considerados super craques.
Mas no fim é sempre isso, sempre segregam a mulher de forma que ela precise estar às margens quando há algo que homens façam majoritariamente (por causa de misoginia histórica). No futebol, há sempre uma falta de incentivo e essa história tem um porquê. Sabemos que o estereótipo da mulher é de ser dependente e frágil, e durante a ditadura, em 1964, foi deliberado: Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo, halterofilismo e beisebol”. Essas práticas foram proibidas com o propósito das mulheres não se debilitarem diante a maternidade, função que se considerava inerente a todas nós. Impressionantemente, essa decisão só foi anulada em ~ pasmem ~ 1981, e ainda assim a profissionalização não era possível. O futebol feminino já começou muito atrasado mas como contra cultura, transgressor, popular e não-elitista.
Falta competição feminina no Brasil. A gente tem dificuldades de achar torneios em todas as idades, ainda mais no sub-11, sub-13 e sub-15. Sempre acharam que entrar em torneios masculinos era uma desvantagem. Agora, a gente mostrou que não é. Tomara que no ano que vem nos permitam jogar de novo.” – jogadora do Campo Olímpico
O tempo passou e o Brasil continuou sendo o país do futebol (masculino). Por pior que sejam as condições de qualquer criança brasileira para se entrar e profissionalizar em qualquer esporte, e deixo claro meus recortes de cor e classe aqui, o espaço no futebol entre meninas/mulheres e meninos/homens, é abissal. Atualmente é muito difícil uma jogadora profissional conseguir um bom salário, a maioria das jogadoras da nossa seleção brasileira de futebol joga fora do país. Não só por prestígio, mas porque em outros lugares elas podem fazer uma carreira, uma profissão. Pouquíssimas jogadoras com bastante visibilidade, como nossa querida Marta e Formiga, podem ““““se dar o luxo”””” de jogarem no Brasil.
[caption id="attachment_11528" align="aligncenter" width="2000"] Projeto Guerreiras, 2014. Photo: Daniel Kfouri[/caption]
Ano passado aconteceu a Copa do Mundo de futebol feminino. Você ficou sabendo? Você soube qual emissora cobriria os jogos? Quem ganhou? Pois é, a maioria não soube, e quem estava ligado, não tinha onde assistir porque foi muito pouco falado, divulgado e transmitido. De forma que, a Copa do Mundo ano passado foi no Canadá, e ainda assim, mesmos sendo um evento enorme, não deram campo de grama para as mulheres jogarem. Elas tiveram que jogar todos os jogos em campo sintético. Você deve se perguntar o que tem a ver, certo? Pode deixar que eu te mostro:
[caption id="attachment_11613" align="aligncenter" width="500"] a norte-americana Sydney Leroux e a australiana Samantha Kerr publicaram fotos de arranhões e queimaduras causados pela grama sintética[/caption]
Para muito além de canelas roxas e pernas queimadas, a atleta Caitlin Fisher destaca a importância da problematização. A questão pode parecer inocente, mas é cheia de machismo e questões de inferiorização do gênero feminino no esporte. O texto abaixo foi originalmente publicado pela Al Jazeera EUA e adaptado para o site Donna:
“No dia 21 de janeiro de 2015 um grupo de mais de 40 jogadoras de futebol abriu um processo de discriminação de gênero contra a FIFA e a Associação Canadense de Futebol. A queixa fora apresentada em outubro do ano anterior, e se opunha à decisão de realizar a Copa do Mundo de Futebol Feminino em gramado sintético, não natural. O campeonato masculino nunca foi jogado em gramado artificial. Mas o simbolismo de oferecer um gramado inferior para atletas do sexo feminino é mais profundo do que o que ocorre na superfície de um campo de futebol. Ao realizar a Copa do Mundo de Futebol Feminino em campos inferiores, a instituição responsável pelo rumo da modalidade reforça uma mensagem que vem sendo enviada para atletas mulheres há anos: o seu jogo é de segunda classe. Esta é a mesma mensagem subliminar enviada para meninas e mulheres em todos os lugares, todos os dias: ‘vocês merecem menos’. Ainda mais prejudicialmente, torcedores, administradores, familiares, treinadores e professores parecem estar confortáveis com o fato de as mulheres ficarem com menos. Aceitar que as mulheres devem jogar em campos precários é o mesmo que aceitar a diferença salarial entre gêneros.”
Nasceu no Brasil, um projeto incrível chamado Guerreiras Project. Formado por mulheres brasileiras e gringas. O projeto tem a incrível função de tratar sobre a desigualdade de gênero trazendo o futebol como ferramenta principal e prática. As mulheres atuam desde 2010 e começaram a fazer documentários maravilhosos sobre como era ser uma jogadora de futebol em um país em que homens são jogadores. Além de atuar fisicamente em comunidades e outras incríveis intervenções. Deixo aqui um dos vídeos incríveis, da nossa queridinha, Formiga:
Por meio deste incrível projeto, entrei em contato com as organizadoras que me concederam contatos de jogadoras amadoras e profissionais (além de fotos incríveis) para realizarem uma pequena entrevista. Assim podemos dar lugar de fala pra quem realmente vive na pele o dia a dia de ser uma jogadora de futebol, segue pequena entrevista:
Ovelha: Qual seu nome, idade e de que estado vocês são?
R: Nayara Perone – São Paulo, SP – 29 anos. Angélica Souza, 3 anos, São Paulo. Maiara Beckrich, 28 anos, SP. Thais Picarte, São Paulo.
Ovelha: Com quantos anos começaram a jogar futebol?
Nayara Perone: Comecei aos 26 anos treinando diariamente, na escola era só de vez em quando.
Angélica Souza: Não sei precisar, talvez com 5 ou 6 anos.
Maiara Beckrich: Não me lembro de antes de jogar futebol (risos).
Thais Picarte: Comecei a jogar de forma mais organizada em um clube onde era associada, em Santo André, minha cidade natal. Tinha 10 anos e até então só havia jogado com meninos na escola, na rua.
Ovelha: Jogam amadora ou profissionalmente? Qual é a frequência dos treinos?
Nayara Perone: Amadora, jogo pelo menos 1 vez por semana.
Angélica Souza: Amadora. Hoje, uma vez por mês.
Maiara Beckrich: Amadora, estou parada agora devido a uma lesão, mas costumo jogar duas vezes por semana.
Thais Picarte: Sou atetla profissional de futebol há mais de quinze anos. Treino cinco dias na semana, os dois períosos, temos um ou dois jogos na semana e geralmente um dia de folga.
Ovelha: Quais os piores obstáculos, se é que tiveram, para que pudessem jogar futebol?
Nayara Perone: Ensino. Lá só era permitido meninos jogarem futebol, meninas tinham que jogar vôlei ou queimada. As meninas que jogavam ouviam todo tipo de absurdo, eram constantemente ridicularizadas e ofendidas. Os professores nunca tiveram iniciativa de ensinar.
Angélica Souza: Encontrar um grupo exclusivamente feminino. Mas com o Pelado Real, o obstáculo foi superado.
Maiara Beckrich: Falta de lugar para jogar com outras meninas sempre foi o principal. Além é claro do machismo de homens que assediam a gente enquanto a gente joga. Ou tiram onda, desestimulando a prática do esporte, dizendo que a gente não sabe jogar ou não deveria estar ali.
Thais Picarte: A falta de recursos financeiros e de estrutura dos clubes. Normalmente, esta é a maior dificuldade para meninas que sonham em viver do futebol.
Ovelha: Qual foi a pior coisa que ouviram por ser mulher e jogar futebol? E a melhor?
Nayara Perone: A pior coisa é diária: homem mexendo, enchendo do lado de fora da quadra, coisas como “futebol é coisa de homem” e etc. A melhor foi recentemente, quando um amigo mudou um artigo para “22 pessoas correndo atrás de uma bola” em vez de “22 homens” pq disse que sempre lembra que eu falo bastante do futebol feminino.
Angélica Souza: Pior: Isso não é esporte para mulher, por isso você se machuca tanto (do meu ortopedista). Melhor: Vocês são mulheres à frente do seu tempo.
Maiara Beckrich: Difícil dizer qual foi a pior coisa. No meu caso é uma somatória de pequenas opressões pelas quais passei durante toda a vida que, inclusive, às vezes vêm disfarçadas de elogios. Como: “nossa, joga melhor do que muito menino.” Ou quando os homens acham qualquer coisa que você faz o máximo, por ser incrível na cabeça deles pensar que uma mulher consegue fazer alguma coisa bem (ainda mais uma coisa do universo pretensamente masculino).
Thais Picarte: A pior é sempre a associação preconceituosa que fazem, entre a opção esportiva e sua sexualidade. Em nosso país, as mulheres são subestimadas e sofrem coma desigualdade em diversas áreas. E quanto a melhor, quando eu comecei a jogar no clube, o pai de uma amiga me pediu um autógrafo e me disse que um dia ele iria valer muito, que eu seria uma grande goleira e que chegaria a seleção. Nunca esqueci aquele meu primeiro autógrafo e realmente cheguei a seleção e sou reconhecida na minha modalidade.
Ovelha: Vocês trabalham exclusivamente com futebol ou tem outro emprego? Se sim, qual?
Nayara Perone: Sou webdesigner, o futebol é meu hobbie. Tenho um time fixo, bem iniciante que joga campeonatos amadores e organizo um campeonato para meninas de todos os níveis, mas principalmente as que nunca jogaram e decidiram começar a jogar por causa dele.
Angélica Souza: Eu trabalho em uma agência de content marketing na área de esporte. O dibradoras é um projeto que toco paralelamente.
Maiara Beckrich: Eu colaboro com o Dibradoras, página que busca dar visibilidade para o futebol feminino, mas também trata de qualquer esporte onde hajam mulheres resistindo e praticando, apesar de todas as dificuldades. Mas não vivo disso, trabalho com mídia.
Thais Picarte: Trabalho somente com futebol, tenho a sorte de trabalhar em um clube que me dá o respaldo financeiro para que eu possa viver do futebol.
Ovelha: Como você vê o futuro do futebol feminino?
Nayara Perone: Vejo com bons olhos. Acredito que falar sempre no assunto ajuda a dar mais visibilidade e inserir o futebol feminino como algo do cotidiano, aceito e incentivado. Quanto mais gente jogando, mais meninas se sentirão a vontade e motivadas e saberão em quem se espelhar para continuar. Há muitos passos ainda, o abismo para o masculino ainda é imenso, mas ainda assim tenho esperanças boas no futebol feminino. Sobre campeonatos: obviamente precisam de mais campeonatos para as meninas. Não gosto da idéia dos campeonatos mistos, mas é o que temos para hoje. Temos que ter uma modalidade desenvolvida o suficiente para que tenham o mínimo de times para disputar campeonatos. Até incentivar os pais e meninas/mulheres nesse sentido, para que hajam mais times e por consequência mais quórum para disputas.
Angélica Souza: Vejo com um futuro promissor, mas ainda carente de investimento e pessoas dispostas a investir e acreditar nas mulheres não só atletas, mas também como gestoras esportivas.
Maiara Beckrich: Vejo um futuro complicado, pois poucas ações efetivas e duradouras estão sendo tomadas atualmente para elevar o futebol feminino brasileiro a um lugar de desempenho de alto nível. Hoje em dia, é quase uma utopia uma garota pensar em seguir uma carreira no futebol, sabendo de todas as dificuldades que vai enfrentar no caminho. Sabemos de atletas que têm que manter um emprego a parte para conseguir se bancar no futebol, de atletas que ficam sem clube durante meses e depois tem que defender a seleção brasileira, totalmente fora de ritmo. Descaso dos clubes, falta de incentivo, uniformes que sobraram do masculino, falta de ambulância, luz e vestiário adequados quando têm jogo. Enfim, caso completo. Alguma coisa melhorou com a criação da Seleção Permanente e algumas outras iniciativas pontuais, mas infelizmente ainda é muito pouco e sabemos que essas medidas quase nunca duram por muito tempo. O pior é que sabemos que com um mínimo de investimento já se poderia avançar um mundo. Falta interesse. Acho que muito porque a ideia da mulher como protagonista de qualquer coisa que seja no país que a gente vive fere a lógica patriarcal na qual estamos inseridas.
Thais Picarte: Acredito que o futuro da mulher como profissional, de um modo geral é muito promissor. Mas caminhamos a passos muito curtos, representamos uma fatia muito grande da sociedade para seguir no anonimato. Merecemos e devemos assumir mais responsabilidades e posições de maior reconhecimento e respeito.
Ovelha: Deixe aqui o nome da associação em que você joga, do seu time, quem você gostaria de dar visibilidade, o que quiserem, de verdade!
Nayara Perone: Meu time chama Miga FC, é um time basicamente de meninas que treinam pouco mas querem estar lá jogando e se divertindo. Gostaria de citar a Copa Trifon Ivanov, a copa sem fins lucrativos da qual faço a organização do campeonato feminino (temos o masculino e o feminino) e onde conheci além de pessoas incríveis, meninas que nunca sequer tinham corrido com uma bola e hoje jogam semanalmente e fizeram grandes laços de amizade.
Angélica Souza:Dibradoras, não é onde jogo, mas é onde procuro dar visibilidade ao futebol feminino.
Maiara Beckrich: Gostaria de valorizar qualquer pessoa ou associação que faça esse trabalho de formiga que é dar visibilidade à questão do futebol feminino, mas tenho um carinho especial por duas. O Pelado Real, onde eu jogo, que eu acredito que se configurou como uma grande referência para a mulherada que quer jogar futebol, tenha o nível que tenha. É um trabalho sem precedentes que eu acredito ser essencial e maravilhoso. Também gostaria de ressaltar o trabalho das dibradoras, que em muito pouco tempo (mais ou menos desde a Copa do Mundo feminina do ano passado) conseguiu se transformar uma plataforma sensacional para tratar da questão de gênero dentro da esfera do esporte. Tenho muito orgulho de poder trabalhar com essas minas e sei que o caminho ainda é muito longo. Mas a gente não desiste. Ah, mas não desiste mesmo.
Thais Picarte: Jogo no São José Esporte Clube. E sou embaixadora do Guerreiras Project. Gostaria que falasse um pouco sobre nossos ideias.
[caption id="attachment_11526" align="aligncenter" width="2000"] Projeto Guerreiras, 2014. Foto de Daniel Kfouri.[/caption]
Pois bem, agora estamos a menos de 7 dias das Olimpíadas (mas os jogos de futebol começam antes!) e por ser um evento que confere mundialmente todos os esportes, muito provavelmente o futebol feminino deva ser bem televisionado e bem transmitido. O que você me diz? Vou te apresentar aqui o nosso time brasileiro, a escalação para os jogos, o cronograma dos jogos, os grupos em que cada time caiu. Vamos acompanhar? A Ovelha pretende produzir um podcast depois dos jogos para conversarmos sobre os os jogos e os ~ impedimentos ~ de ser mulher e jogar futebol no Brasil e no mundo. Convidadas especiais serão chamadas para participar com a gente e esperamos que vocês curtam muito!
Nossa escalação para as Olimpíadas está assim:
Para vocês terem uma noção do sexismo envolvendo as instituições, no próprio site da C.B.F., há um trecho do treinador da seleção feminina, Vadão, que diz o seguinte:
Aos 58 anos, o experiente Vadão, como é conhecido, deixou uma carreira consolidada, em que pôde estimular o crescimento de jogadores como Rivaldo e revelar talentos como o de Kaká, para incentivar uma modalidade menos favorecida no país e dar o passo definitivo rumo à excelência tanto na Copa do Mundo Feminina da FIFA quanto no torneio olímpico.
[Essa boçalidade que você leu aí em cima se encontra aqui]
Quer dizer, enaltece o treinador por ter trabalhado em clubes masculinos e parece que ele é o bom samaritano por abrir mão dessa carreira para incentivar uma modalidade menos favorecida. Dá vontade de mandar pra aquele lugar? Dá sim, porém aquele lugar é bom, então realmente fica apenas minha indignação sobre esse trecho. Também quero estar atenta a comentários de narradores como “jogo bonito de se ver” fazendo alusão a estética corporal das mulheres ao invés do jogo em si. ESTAREMOS DE OLHO, VIU? Voltemos à programação normal.
Os grupos estão organizados dessa forma e nosso primeiro jogo é no dia 3 de agosto com a China. O futebol oriental é fortíssimo, já vamos estrear com desafios!
Para facilitar a nossa vida, também fizemos uma tabela com o cronograma dos jogos femininos da primeira fase. Assim não tem desculpa para não acompanhar, a não ser claro, o horário de trabalho. Mas, podemos pedir para os chefes liberarem uma televisãozinha por bens maiores, não é mesmo?
[caption id="attachment_11608" align="aligncenter" width="1089"] Clica na imagem para ver maior (;[/caption]
Para piorar o quadro das mulheres profissionais, ainda rolou essa notícia bombástica. CBF não cumpre promessa e deixa jogadoras sem carteira assinada e benefícios. Vocês podem imaginar que no masculino os caras nem ganham pra estar na seleção, é pelo prestígio? Mas as mulheres precisam sair de seus times no extrangeiro, que é onde pagam melhor (melhor, vulgo, conseguem se sustentar, mandar um dinheiro pra família, etc.), para vestirem a camisa canarinho e ainda assim não são levadas a sério. Há muita coisa pelo que lutarmos. Vamos acompanhar nossa seleção feminina, vamos dar valor e visibilidade a essas mulheres que já tem títulos melhores que craques masculinos.
Segue o jogo.
P.S.: Quero fazer um agradecimento às mulheres incríveis que concederam a entrevista e a Nadja Marin, uma das cabeças do Guerreira Project, que por ela, pude fazer as conexões! <3
Chegou o dia, domingo, 02 de outubro! O dia em que, mesmo com muita descrença no sistema eleitoral brasileiro e, independente de sua visão política, é hora de fazer um voto pragmático (mais uma vez). Lembrando que, anular seu voto também pode ser considerado um voto pragmático, é seu direito.
Mesmo muito desacreditada do nosso sistema político, escolho votar por muitas questões, mas a principal ainda é a falta de representatividade. Particularmente depois do golpe (é golpe sim), várias cadeiras representativas caíram no novo governo federal. Para entender um pouco sobre representatividade, preciso falar sobre o termo minorias que usamos tanto nos movimentos sociais e em diferentes correntes feministas.
Minoria é um grupo na sociedade que é subordinado sócio e economicamente. Um grupo excluído e que apesar do termo ser confundido com sinônimos diretos do termo que significam ‘menor’ e/ou ‘pequeno’, as minorias no Brasil são maioria em número de pessoas, porém não em representatividade política. Não sei se você sabe, mas, no Brasil, temos menos mulheres no Legislativo do que no Oriente Médio, aquele território que conhecemos pouco mas que julgamos muito.
Mas Bárbara, então eu devo votar em mulheres, não importando as propostas? Não. Não devemos votar em quem não conhecemos propostas, planos de governo, as pautas e alianças e não, não devemos votar em mulheres apenas por serem mulheres, isso não significa que ela vá fazer um governo representativo. Vejamos o caso da Hillary Clinton, por exemplo, hoje, caso eu fosse estadunidense, eu votaria pragmaticamente nela por questões de Donald Trump (me perdoem porquinhos). Porém, ela não seria a minha primeira escolha quando começou a corrida eleitoral. Infelizmente, votar na Hillary, é dar continuidade em uma agenda bélica, de guerras e neo-liberalismos. ~ God bless ‘Merica (and nobody else)! ~
E apesar de tudo isso, ainda há uma enorme importância em votar em mulheres, fazer recorte de gênero na política é essencial para repararmos a nossa falta de contribuição histórica, ou melhor dizendo, nosso silenciamento e exclusão, em qualquer âmbito, seja social e/ou político.
Mesmo que, com cotas para mulheres dentro da política, partidos preenchem as vagas mas não dão espaço ativo para elas, apenas cumpre-se uma tabela burocrática. E isso em qualquer partido, não puxando pano mais para um ou para outro porque muitos só usam mulheres e minorias no geral como token. Pessoalmente, já tive a experiência de ser diminuída em espaços ditos-democráticos, o que me fez pensar e questionar muito sobre espaços seguros e o quanto ainda precisamos nos unir se quisermos fazer alguma coisa, nos unir e ocupar esses espaços que são majoritariamente masculinos.
Dito isso, acho que é de primeira importância termos noção do que faz um prefeito e o que faz um vereador, cadeira das quais votaremos hoje. Chamei uma convidada muito especial (quem dera que eu tivesse essa intimidade, haha) para falar sobre esse assunto tão importante, a nossa queridinha JoutJout.
Pronto, já está craque? Já sabe que não poderemos votar na legenda para não cair na manobra política? Agora que tal entrar no site do merepresenta.org.br e tirar um tempinho (ainda há tempo) para pesquisar uma pessoa super maneira para representar quem precisa ser representado? Eu gosto muito desse nome, Me Representa, mas mais importante que nos representar, é fazer uma reflexão para saber quem ainda precisa ser mais representado do que nós mesmos, ou melhor, para além de nós mesmos. E assim, migues, exercemos nosso altruísmo e cidadania e claro, empatia.
Me Representa é o ‘tinder’ político com agenda para minorias, você clica nas pautas que não abre mão que sejam representadas pelo seu candidato e a plataforma ~ dá um match ~ com os vereadores que estão aptos a receber seu voto!
Além do site citado acima, também temos alguns links úteis caso você queira ganhar um tempinho antes de sair para fazer o seu voto. Temos o Guia de Justiça Alimentar e Cidadania, o site e twitter do Gênero Número que apresenta narrativas jornalísticas guiadas por dados sobre as assimetrias de gênero, o site de Mobilidade Ativa (somente SP) e o Truco, que checa fatos ditos por candidatos. Existem muitos outros e se quiserem compartilhar com a gente, deixe nos comentários!
jornal de São Paulo, que prefiro não dar ibope (risos), tinha uma matéria sobre um time feminino, sub-14, Centro Olímpico. A matéria se referia ao time ter sido aceito para jogar o campeonato masculino chamado ~ Copa Moleque Travesso ~ e as meninas foram campeãs do campeonato. Fico triste em pensar que tiveram que ser aceitas para jogar porque não há muitos campeonatos para times femininos. De forma que, o que aconteceu com essas meninas nos estabeleceram dois pontos positivos. O primeiro, a visibilidade do problema em questão e o segundo, somos muito mais capazes do que a maioria imagina.
Como a diferença física é bem grande, a gente propôs entrar com um time um ano mais velho e eles aceitaram, só uma equipe se opôs. A maioria dos times super apoiou a ideia, disse que tinha que permitir a integração das meninas” – Lucas Piccinato, técnico
Mas será que tamanho é documento? Sabemos de muitos jogadores homens e franzinos (forma estereotipada da qual enxergam uma mulher que seja jogadora de futebol) são considerados super craques.
Mas no fim é sempre isso, sempre segregam a mulher de forma que ela precise estar às margens quando há algo que homens façam majoritariamente (por causa de misoginia histórica). No futebol, há sempre uma falta de incentivo e essa história tem um porquê. Sabemos que o estereótipo da mulher é de ser dependente e frágil, e durante a ditadura, em 1964, foi deliberado: Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo, halterofilismo e beisebol”
. Essas práticas foram proibidas com o propósito das mulheres não se debilitarem diante a maternidade, função que se considerava inerente a todas nós. Impressionantemente, essa decisão só foi anulada em ~ pasmem ~ 1981, e ainda assim a profissionalização não era possível. O futebol feminino já começou muito atrasado mas como contra cultura, transgressor, popular e não-elitista.
Falta competição feminina no Brasil. A gente tem dificuldades de achar torneios em todas as idades, ainda mais no sub-11, sub-13 e sub-15. Sempre acharam que entrar em torneios masculinos era uma desvantagem. Agora, a gente mostrou que não é. Tomara que no ano que vem nos permitam jogar de novo.” – jogadora do Campo Olímpico
O tempo passou e o Brasil continuou sendo o país do futebol (masculino). Por pior que sejam as condições de qualquer criança brasileira para se entrar e profissionalizar em qualquer esporte, e deixo claro meus recortes de cor e classe aqui, o espaço no futebol entre meninas/mulheres e meninos/homens, é abissal. Atualmente é muito difícil uma jogadora profissional conseguir um bom salário, a maioria das jogadoras da nossa seleção brasileira de futebol joga fora do país. Não só por prestígio, mas porque em outros lugares elas podem fazer uma carreira, uma profissão. Pouquíssimas jogadoras com bastante visibilidade, como nossa querida Marta e Formiga, podem ““““se dar o luxo”””” de jogarem no Brasil.
Ano passado aconteceu a Copa do Mundo de futebol feminino. Você ficou sabendo? Você soube qual emissora cobriria os jogos? Quem ganhou? Pois é, a maioria não soube, e quem estava ligado, não tinha onde assistir porque foi muito pouco falado, divulgado e transmitido. De forma que, a Copa do Mundo ano passado foi no Canadá, e ainda assim, mesmos sendo um evento enorme, não deram campo de grama para as mulheres jogarem. Elas tiveram que jogar todos os jogos em campo sintético. Você deve se perguntar o que tem a ver, certo? Pode deixar que eu te mostro:
Para muito além de canelas roxas e pernas queimadas, a atleta Caitlin Fisher destaca a importância da problematização. A questão pode parecer inocente, mas é cheia de machismo e questões de inferiorização do gênero feminino no esporte. O texto abaixo foi originalmente publicado pela Al Jazeera EUA e adaptado para o site Donna:
“No dia 21 de janeiro de 2015 um grupo de mais de 40 jogadoras de futebol abriu um processo de discriminação de gênero contra a FIFA e a Associação Canadense de Futebol. A queixa fora apresentada em outubro do ano anterior, e se opunha à decisão de realizar a Copa do Mundo de Futebol Feminino em gramado sintético, não natural. O campeonato masculino nunca foi jogado em gramado artificial. Mas o simbolismo de oferecer um gramado inferior para atletas do sexo feminino é mais profundo do que o que ocorre na superfície de um campo de futebol. Ao realizar a Copa do Mundo de Futebol Feminino em campos inferiores, a instituição responsável pelo rumo da modalidade reforça uma mensagem que vem sendo enviada para atletas mulheres há anos: o seu jogo é de segunda classe. Esta é a mesma mensagem subliminar enviada para meninas e mulheres em todos os lugares, todos os dias: ‘vocês merecem menos’. Ainda mais prejudicialmente, torcedores, administradores, familiares, treinadores e professores parecem estar confortáveis com o fato de as mulheres ficarem com menos. Aceitar que as mulheres devem jogar em campos precários é o mesmo que aceitar a diferença salarial entre gêneros.”
Nasceu no Brasil, um projeto incrível chamado Guerreiras Project. Formado por mulheres brasileiras e gringas. O projeto tem a incrível função de tratar sobre a desigualdade de gênero trazendo o futebol como ferramenta principal e prática. As mulheres atuam desde 2010 e começaram a fazer documentários maravilhosos sobre como era ser uma jogadora de futebol em um país em que homens são jogadores. Além de atuar fisicamente em comunidades e outras incríveis intervenções. Deixo aqui um dos vídeos incríveis, da nossa queridinha, Formiga:
Por meio deste incrível projeto, entrei em contato com as organizadoras que me concederam contatos de jogadoras amadoras e profissionais (além de fotos incríveis) para realizarem uma pequena entrevista. Assim podemos dar lugar de fala pra quem realmente vive na pele o dia a dia de ser uma jogadora de futebol, segue pequena entrevista:
Ovelha: Qual seu nome, idade e de que estado vocês são?
R: Nayara Perone – São Paulo, SP – 29 anos. Angélica Souza, 3 anos, São Paulo. Maiara Beckrich, 28 anos, SP. Thais Picarte, São Paulo.
Ovelha: Com quantos anos começaram a jogar futebol?
Nayara Perone: Comecei aos 26 anos treinando diariamente, na escola era só de vez em quando.
Angélica Souza: Não sei precisar, talvez com 5 ou 6 anos.
Maiara Beckrich: Não me lembro de antes de jogar futebol (risos).
Thais Picarte: Comecei a jogar de forma mais organizada em um clube onde era associada, em Santo André, minha cidade natal. Tinha 10 anos e até então só havia jogado com meninos na escola, na rua.
Ovelha: Jogam amadora ou profissionalmente? Qual é a frequência dos treinos?
Nayara Perone: Amadora, jogo pelo menos 1 vez por semana.
Angélica Souza: Amadora. Hoje, uma vez por mês.
Maiara Beckrich: Amadora, estou parada agora devido a uma lesão, mas costumo jogar duas vezes por semana.
Thais Picarte: Sou atetla profissional de futebol há mais de quinze anos. Treino cinco dias na semana, os dois períosos, temos um ou dois jogos na semana e geralmente um dia de folga.
Ovelha: Quais os piores obstáculos, se é que tiveram, para que pudessem jogar futebol?
Nayara Perone: Ensino. Lá só era permitido meninos jogarem futebol, meninas tinham que jogar vôlei ou queimada. As meninas que jogavam ouviam todo tipo de absurdo, eram constantemente ridicularizadas e ofendidas. Os professores nunca tiveram iniciativa de ensinar.
Angélica Souza: Encontrar um grupo exclusivamente feminino. Mas com o Pelado Real, o obstáculo foi superado.
Maiara Beckrich: Falta de lugar para jogar com outras meninas sempre foi o principal. Além é claro do machismo de homens que assediam a gente enquanto a gente joga. Ou tiram onda, desestimulando a prática do esporte, dizendo que a gente não sabe jogar ou não deveria estar ali.
Thais Picarte: A falta de recursos financeiros e de estrutura dos clubes. Normalmente, esta é a maior dificuldade para meninas que sonham em viver do futebol.
Ovelha: Qual foi a pior coisa que ouviram por ser mulher e jogar futebol? E a melhor?
Nayara Perone: A pior coisa é diária: homem mexendo, enchendo do lado de fora da quadra, coisas como “futebol é coisa de homem” e etc. A melhor foi recentemente, quando um amigo mudou um artigo para “22 pessoas correndo atrás de uma bola” em vez de “22 homens” pq disse que sempre lembra que eu falo bastante do futebol feminino.
Angélica Souza: Pior: Isso não é esporte para mulher, por isso você se machuca tanto (do meu ortopedista). Melhor: Vocês são mulheres à frente do seu tempo.
Maiara Beckrich: Difícil dizer qual foi a pior coisa. No meu caso é uma somatória de pequenas opressões pelas quais passei durante toda a vida que, inclusive, às vezes vêm disfarçadas de elogios. Como: “nossa, joga melhor do que muito menino.” Ou quando os homens acham qualquer coisa que você faz o máximo, por ser incrível na cabeça deles pensar que uma mulher consegue fazer alguma coisa bem (ainda mais uma coisa do universo pretensamente masculino).
Thais Picarte: A pior é sempre a associação preconceituosa que fazem, entre a opção esportiva e sua sexualidade. Em nosso país, as mulheres são subestimadas e sofrem coma desigualdade em diversas áreas. E quanto a melhor, quando eu comecei a jogar no clube, o pai de uma amiga me pediu um autógrafo e me disse que um dia ele iria valer muito, que eu seria uma grande goleira e que chegaria a seleção. Nunca esqueci aquele meu primeiro autógrafo e realmente cheguei a seleção e sou reconhecida na minha modalidade.
Ovelha: Vocês trabalham exclusivamente com futebol ou tem outro emprego? Se sim, qual?
Nayara Perone: Sou webdesigner, o futebol é meu hobbie. Tenho um time fixo, bem iniciante que joga campeonatos amadores e organizo um campeonato para meninas de todos os níveis, mas principalmente as que nunca jogaram e decidiram começar a jogar por causa dele.
Angélica Souza: Eu trabalho em uma agência de content marketing na área de esporte. O dibradoras é um projeto que toco paralelamente.
Maiara Beckrich: Eu colaboro com o Dibradoras, página que busca dar visibilidade para o futebol feminino, mas também trata de qualquer esporte onde hajam mulheres resistindo e praticando, apesar de todas as dificuldades. Mas não vivo disso, trabalho com mídia.
Thais Picarte: Trabalho somente com futebol, tenho a sorte de trabalhar em um clube que me dá o respaldo financeiro para que eu possa viver do futebol.
Ovelha: Como você vê o futuro do futebol feminino?
Nayara Perone: Vejo com bons olhos. Acredito que falar sempre no assunto ajuda a dar mais visibilidade e inserir o futebol feminino como algo do cotidiano, aceito e incentivado. Quanto mais gente jogando, mais meninas se sentirão a vontade e motivadas e saberão em quem se espelhar para continuar. Há muitos passos ainda, o abismo para o masculino ainda é imenso, mas ainda assim tenho esperanças boas no futebol feminino. Sobre campeonatos: obviamente precisam de mais campeonatos para as meninas. Não gosto da idéia dos campeonatos mistos, mas é o que temos para hoje. Temos que ter uma modalidade desenvolvida o suficiente para que tenham o mínimo de times para disputar campeonatos. Até incentivar os pais e meninas/mulheres nesse sentido, para que hajam mais times e por consequência mais quórum para disputas.
Angélica Souza: Vejo com um futuro promissor, mas ainda carente de investimento e pessoas dispostas a investir e acreditar nas mulheres não só atletas, mas também como gestoras esportivas.
Maiara Beckrich: Vejo um futuro complicado, pois poucas ações efetivas e duradouras estão sendo tomadas atualmente para elevar o futebol feminino brasileiro a um lugar de desempenho de alto nível. Hoje em dia, é quase uma utopia uma garota pensar em seguir uma carreira no futebol, sabendo de todas as dificuldades que vai enfrentar no caminho. Sabemos de atletas que têm que manter um emprego a parte para conseguir se bancar no futebol, de atletas que ficam sem clube durante meses e depois tem que defender a seleção brasileira, totalmente fora de ritmo. Descaso dos clubes, falta de incentivo, uniformes que sobraram do masculino, falta de ambulância, luz e vestiário adequados quando têm jogo. Enfim, caso completo. Alguma coisa melhorou com a criação da Seleção Permanente e algumas outras iniciativas pontuais, mas infelizmente ainda é muito pouco e sabemos que essas medidas quase nunca duram por muito tempo. O pior é que sabemos que com um mínimo de investimento já se poderia avançar um mundo. Falta interesse. Acho que muito porque a ideia da mulher como protagonista de qualquer coisa que seja no país que a gente vive fere a lógica patriarcal na qual estamos inseridas.
Thais Picarte: Acredito que o futuro da mulher como profissional, de um modo geral é muito promissor. Mas caminhamos a passos muito curtos, representamos uma fatia muito grande da sociedade para seguir no anonimato. Merecemos e devemos assumir mais responsabilidades e posições de maior reconhecimento e respeito.
Ovelha: Deixe aqui o nome da associação em que você joga, do seu time, quem você gostaria de dar visibilidade, o que quiserem, de verdade!
Nayara Perone: Meu time chama Miga FC, é um time basicamente de meninas que treinam pouco mas querem estar lá jogando e se divertindo. Gostaria de citar a Copa Trifon Ivanov, a copa sem fins lucrativos da qual faço a organização do campeonato feminino (temos o masculino e o feminino) e onde conheci além de pessoas incríveis, meninas que nunca sequer tinham corrido com uma bola e hoje jogam semanalmente e fizeram grandes laços de amizade.
Angélica Souza:Dibradoras, não é onde jogo, mas é onde procuro dar visibilidade ao futebol feminino.
Maiara Beckrich: Gostaria de valorizar qualquer pessoa ou associação que faça esse trabalho de formiga que é dar visibilidade à questão do futebol feminino, mas tenho um carinho especial por duas. O Pelado Real, onde eu jogo, que eu acredito que se configurou como uma grande referência para a mulherada que quer jogar futebol, tenha o nível que tenha. É um trabalho sem precedentes que eu acredito ser essencial e maravilhoso. Também gostaria de ressaltar o trabalho das dibradoras, que em muito pouco tempo (mais ou menos desde a Copa do Mundo feminina do ano passado) conseguiu se transformar uma plataforma sensacional para tratar da questão de gênero dentro da esfera do esporte. Tenho muito orgulho de poder trabalhar com essas minas e sei que o caminho ainda é muito longo. Mas a gente não desiste. Ah, mas não desiste mesmo.
Thais Picarte: Jogo no São José Esporte Clube. E sou embaixadora do Guerreiras Project. Gostaria que falasse um pouco sobre nossos ideias.
Pois bem, agora estamos a menos de 7 dias das Olimpíadas (mas os jogos de futebol começam antes!) e por ser um evento que confere mundialmente todos os esportes, muito provavelmente o futebol feminino deva ser bem televisionado e bem transmitido. O que você me diz? Vou te apresentar aqui o nosso time brasileiro, a escalação para os jogos, o cronograma dos jogos, os grupos em que cada time caiu. Vamos acompanhar? A Ovelha pretende produzir um podcast depois dos jogos para conversarmos sobre os os jogos e os ~ impedimentos ~ de ser mulher e jogar futebol no Brasil e no mundo. Convidadas especiais serão chamadas para participar com a gente e esperamos que vocês curtam muito!
Nossa escalação para as Olimpíadas está assim:
Para vocês terem uma noção do sexismo envolvendo as instituições, no próprio site da C.B.F., há um trecho do treinador da seleção feminina, Vadão, que diz o seguinte:
Aos 58 anos, o experiente Vadão, como é conhecido, deixou uma carreira consolidada, em que pôde estimular o crescimento de jogadores como Rivaldo e revelar talentos como o de Kaká, para incentivar uma modalidade menos favorecida no país e dar o passo definitivo rumo à excelência tanto na Copa do Mundo Feminina da FIFA quanto no torneio olímpico.
[Essa boçalidade que você leu aí em cima se encontra aqui]
Quer dizer, enaltece o treinador por ter trabalhado em clubes masculinos e parece que ele é o bom samaritano por abrir mão dessa carreira para incentivar uma modalidade menos favorecida. Dá vontade de mandar pra aquele lugar? Dá sim, porém aquele lugar é bom, então realmente fica apenas minha indignação sobre esse trecho. Também quero estar atenta a comentários de narradores como “jogo bonito de se ver” fazendo alusão a estética corporal das mulheres ao invés do jogo em si. ESTAREMOS DE OLHO, VIU? Voltemos à programação normal.
Os grupos estão organizados dessa forma e nosso primeiro jogo é no dia 3 de agosto com a China. O futebol oriental é fortíssimo, já vamos estrear com desafios!
Para facilitar a nossa vida, também fizemos uma tabela com o cronograma dos jogos femininos da primeira fase. Assim não tem desculpa para não acompanhar, a não ser claro, o horário de trabalho. Mas, podemos pedir para os chefes liberarem uma televisãozinha por bens maiores, não é mesmo?
Para piorar o quadro das mulheres profissionais, ainda rolou essa notícia bombástica. CBF não cumpre promessa e deixa jogadoras sem carteira assinada e benefícios. Vocês podem imaginar que no masculino os caras nem ganham pra estar na seleção, é pelo prestígio? Mas as mulheres precisam sair de seus times no extrangeiro, que é onde pagam melhor (melhor, vulgo, conseguem se sustentar, mandar um dinheiro pra família, etc.), para vestirem a camisa canarinho e ainda assim não são levadas a sério. Há muita coisa pelo que lutarmos. Vamos acompanhar nossa seleção feminina, vamos dar valor e visibilidade a essas mulheres que já tem títulos melhores que craques masculinos.
Segue o jogo.
P.S.: Quero fazer um agradecimento às mulheres incríveis que concederam a entrevista e a Nadja Marin, uma das cabeças do Guerreira Project, que por ela, pude fazer as conexões! <3