Tuane Rocha é uma passista de escola de samba no Rio de Janeiro. Foi a profissão que escolheu para sustentar sua filha, que teve ainda muito jovem. Para executar seu trabalho, ela se prepara minuciosamente. Coloca sua fantasia de penas e cria asas que a levam de um extremo a outro das passarelas de samba. Sua pele se transforma na pele de um elegante pássaro.
Com seu curta documental “Pele de Pássaro” (ou “Bird Skin”), Clara Peltier lança um olhar sobre o que há além dos passos de samba, do corpão e da quase completa nudez do corpo de uma dançarina de samba. Ela tenta explorar o lado mais pessoal e subjetivo dessa personagem do carnaval carioca, uma mulher que é vista frequentemente com preconceitos – racistas e machistas – e é percebida muitas vezes apenas como um elemento carnavalesco.
A diretora carioca viu Tuane pela primeira vez na competição da Musa do Carnaval do Caldeirão do Huck, em que a, na época, representante da Unidos da Vila Isabel foi entrevistada por Luciano Huck. Como todas as competidoras, Tuane também é invasivamente questionada pelo ~engraçadinho~ apresentador sobre sua vida pessoal. É incrível como ele acha que tem o direito de fazer trocadilhos e perguntas de duplo sentido para tentar constranger as candidatas. Mas Tuane não leva para o lado da brincadeira – afinal, não deveria ser né! – e responde a tudo de forma direta e sem medo. Clara diz que a sambista chamou sua atenção pela firmeza e coragem que demonstrou em suas respostas: “Tuane foi mãe aos 13 anos, e entrou cedo no carnaval para sustentar a filha. Tenho muita admiração pela trajetória dela, é uma história de luta mas também de amor, ao samba, à cultura brasileira, às nossas origens”.
Ao contrário do (ridículo) apresentador do Caldeirão, Clara é cuidadosa ao abordar a vida pessoal de Tuane em frente às câmeras. Ela monta um curta documental bastante subjetivo: sem perguntas, sem muitas falas, só a passista e a câmera que a segue em casa, no camarim e no palco. “Desde o princípio imaginei o filme como um mergulho sensorial no universo da Tuane, captando a emoção, o êxtase, o vazio, a solidão, os contrastes que coexistem na rotina dela. Acho que a força do filme vem daí. Se escolhesse explicar quem ela é, o filme perderia a subjetividade e o espectador ficaria preso a ideias, não embarcaria na dor e na beleza de se viver do samba”, me explicou Clara em entrevista, algumas semanas depois de seu filme ter sido exibido na Semana de Cinema Feminista de Berlim. “Pele de Pássaro” foi uma das três produções cinematográficas brasileiras escolhidas para entrar no festival. Junto com “ISTO”, de Mariana Collares e Mother of Pearl” (Madrepérola), de Deise Hauenstein.
No filme, Tuane aparece concentrada em frente ao espelho colocando sua maquiagem, roupa, enfim, montando sua fantasia. A câmera chega tão perto que é possível ouvir sua respiração. Depois da preparação, ela aparece em diferentes eventos: festas de casamento, festas de escola de samba e, por fim, no carro alegórico no desfile de carnaval. Tive a impressão de que ela se tornava outra personagem quando começava a sambar. No camarim e em casa, ela é séria, concentrada e tem até um ar de solitária. Já quando começa a dançar, aparece sorridente, cantante e cheia de pessoas a sua volta a admirando.
Talvez o que mais tenha me impressionado foram os comentários pós-filme. Assisti em um cinema em Berlim, portanto a maior parte do público eram europeus, muitos dos quais haviam vistos passistas em apenas uma situação: no desfile de carnaval do Rio pela televisão. Lembro que quando o filme terminou perguntei a uma amiga francesa o que ela tinha achada do curta. Ela me disse que achou a fotografia muito bonita, mas o filme em si muito triste. “Ué, mas o filme não tem uma história triste…”, argumentei; “Bom, mas é triste a forma como essa mulher é vista como um animal, ou um objeto, que as pessoas acham que podem tocar, agarrar, apertar onde quiserem…”
De fato, em diferentes momentos a câmera supreende pessoas (até muitas mulheres) olhando para as curvas de Tuane e pedindo para tirar fotos, pegando na sua bunda ou nos seus peitos. O que minha amiga da França viu como algo muito triste e desrespeitoso, Clara explica como curiosidade: “Confesso que fiquei surpresa quando começamos a filmar e registramos esses momentos. Existem mulheres que não veem problema em apalpar o corpo de uma passista. Decidi incluir isso no filme para levantar a questão, uma passista pode ser vista como um objeto ou como a grande estrela do show. Passistas com uma longa carreira no carnaval, como a Tuane, encaram isso apenas como uma curiosidade das mulheres pelo corpo delas”.
Essas críticas que o filme faz são interessantes, mas acabam sendo pouco trabalhadas. Acho que faltou algo no curta, como incluir mais a voz de Tuane, no sentido de dar voz a ela mesma para contar sua história e mostrar sua personalidade. No final, o espectador conclui coisas sobre ela, mas ainda superficialmente. Em nenhum momento ficou clara a paixão de Tuane pelo samba ou sua trajetória de vida difícil, dos quais a diretora fala. Há cenas em que realmente a gente fica se questionando o que se passa na cabeça dela, mas essas questões não são levadas adiante.
Concordo com a minha amiga que disse que há momentos em que o filme revela uma certa tristeza. Em uma das cenas, ela está em frente a um espelho e retira os apliques do cabelo. Aos poucos ela revela a Tuane natural, verdadeira, sem maquiagem, fantasias e de cabelo crespo. Sem a pele de pássaro. Sem essa pele, ela anda pelas ruas como qualquer outra pessoa, sem chamar a atenção, receber olhares curiosos ou elogios.
Nesse momento o filme acaba – talvez sem querer – por levantar outra questão bem profunda: a da imagem da mulher negra e o estereótipo em torno dela. Com seus lindos cachos, seu corpão de “mulata do carnaval” e seu samba no pé, Tuane recebe olhares de todos os lados, de admiração, curiosidade, de desejo. Quando retira sua fantasia, revela seu cabelo natural e seu rosto sem maquiagem, Tuane continua sendo uma mulher maravilhosa, mas não recebe os mesmos tipos de olhares como quando era “a grande estrela do show”. Pensando sobre a cena, me pareceu que a mulher negra chama atenção positiva facilmente se associada a estereótipos relacionados a seu corpo e sensualidade. Quando não corresponde a esses estereótipos, parece ser vista como menos interessante por não remeter tão claramente à ideia do exótico. Mas em todos os casos, a mulher negra sofre assédios – muitas vezes influenciados pela hiperssexualição de sua imagem.
Tirando a minha crítica sobre a falta de voz de Tuane no filme, achei o curta interessante por oferecer um olhar feminino e de outro ângulo sobre uma passista de escola de samba e por te fazer pensar sobre a imagem da mulher sambista, da mulher negra e da mulher brasileira.
//FILMES SOBRE MULHERES
A diretora Clara Peltier também é sócia-fundadora da produtora Eterna Filmes que surgiu em 2013. De forma independente, as componentes da Eterna têm como objetivo desenvolver filmes com temáticas femininas. “Buscamos histórias sobre mulheres brasileiras nos dias de hoje, que inspiram e revelam a força do feminino, sem perder de vista o prazer de ser mulher”, explica Clara.
Outro filme de Clara é o curta “Graça” que conta a história de uma jovem atleta de nado sincronizado. O próximo projeto da diretora carioca é um longa-metragem de ficção baseado em “Pele de Pássaro”.
Tuane Rocha é uma passista de escola de samba no Rio de Janeiro. Foi a profissão que escolheu para sustentar sua filha, que teve ainda muito jovem. Para executar seu trabalho, ela se prepara minuciosamente. Coloca sua fantasia de penas e cria asas que a levam de um extremo a outro das passarelas de samba. Sua pele se transforma na pele de um elegante pássaro.
Com seu curta documental “Pele de Pássaro” (ou “Bird Skin”), Clara Peltier lança um olhar sobre o que há além dos passos de samba, do corpão e da quase completa nudez do corpo de uma dançarina de samba. Ela tenta explorar o lado mais pessoal e subjetivo dessa personagem do carnaval carioca, uma mulher que é vista frequentemente com preconceitos – racistas e machistas – e é percebida muitas vezes apenas como um elemento carnavalesco.
A diretora carioca viu Tuane pela primeira vez na competição da Musa do Carnaval do Caldeirão do Huck, em que a, na época, representante da Unidos da Vila Isabel foi entrevistada por Luciano Huck. Como todas as competidoras, Tuane também é invasivamente questionada pelo ~engraçadinho~ apresentador sobre sua vida pessoal. É incrível como ele acha que tem o direito de fazer trocadilhos e perguntas de duplo sentido para tentar constranger as candidatas. Mas Tuane não leva para o lado da brincadeira – afinal, não deveria ser né! – e responde a tudo de forma direta e sem medo. Clara diz que a sambista chamou sua atenção pela firmeza e coragem que demonstrou em suas respostas: “Tuane foi mãe aos 13 anos, e entrou cedo no carnaval para sustentar a filha. Tenho muita admiração pela trajetória dela, é uma história de luta mas também de amor, ao samba, à cultura brasileira, às nossas origens”.
Ao contrário do (ridículo) apresentador do Caldeirão, Clara é cuidadosa ao abordar a vida pessoal de Tuane em frente às câmeras. Ela monta um curta documental bastante subjetivo: sem perguntas, sem muitas falas, só a passista e a câmera que a segue em casa, no camarim e no palco. “Desde o princípio imaginei o filme como um mergulho sensorial no universo da Tuane, captando a emoção, o êxtase, o vazio, a solidão, os contrastes que coexistem na rotina dela. Acho que a força do filme vem daí. Se escolhesse explicar quem ela é, o filme perderia a subjetividade e o espectador ficaria preso a ideias, não embarcaria na dor e na beleza de se viver do samba”, me explicou Clara em entrevista, algumas semanas depois de seu filme ter sido exibido na Semana de Cinema Feminista de Berlim. “Pele de Pássaro” foi uma das três produções cinematográficas brasileiras escolhidas para entrar no festival. Junto com “ISTO”, de Mariana Collares e Mother of Pearl” (Madrepérola), de Deise Hauenstein.
No filme, Tuane aparece concentrada em frente ao espelho colocando sua maquiagem, roupa, enfim, montando sua fantasia. A câmera chega tão perto que é possível ouvir sua respiração. Depois da preparação, ela aparece em diferentes eventos: festas de casamento, festas de escola de samba e, por fim, no carro alegórico no desfile de carnaval. Tive a impressão de que ela se tornava outra personagem quando começava a sambar. No camarim e em casa, ela é séria, concentrada e tem até um ar de solitária. Já quando começa a dançar, aparece sorridente, cantante e cheia de pessoas a sua volta a admirando.
Talvez o que mais tenha me impressionado foram os comentários pós-filme. Assisti em um cinema em Berlim, portanto a maior parte do público eram europeus, muitos dos quais haviam vistos passistas em apenas uma situação: no desfile de carnaval do Rio pela televisão. Lembro que quando o filme terminou perguntei a uma amiga francesa o que ela tinha achada do curta. Ela me disse que achou a fotografia muito bonita, mas o filme em si muito triste. “Ué, mas o filme não tem uma história triste…”, argumentei; “Bom, mas é triste a forma como essa mulher é vista como um animal, ou um objeto, que as pessoas acham que podem tocar, agarrar, apertar onde quiserem…”
De fato, em diferentes momentos a câmera supreende pessoas (até muitas mulheres) olhando para as curvas de Tuane e pedindo para tirar fotos, pegando na sua bunda ou nos seus peitos. O que minha amiga da França viu como algo muito triste e desrespeitoso, Clara explica como curiosidade: “Confesso que fiquei surpresa quando começamos a filmar e registramos esses momentos. Existem mulheres que não veem problema em apalpar o corpo de uma passista. Decidi incluir isso no filme para levantar a questão, uma passista pode ser vista como um objeto ou como a grande estrela do show. Passistas com uma longa carreira no carnaval, como a Tuane, encaram isso apenas como uma curiosidade das mulheres pelo corpo delas”.
Essas críticas que o filme faz são interessantes, mas acabam sendo pouco trabalhadas. Acho que faltou algo no curta, como incluir mais a voz de Tuane, no sentido de dar voz a ela mesma para contar sua história e mostrar sua personalidade. No final, o espectador conclui coisas sobre ela, mas ainda superficialmente. Em nenhum momento ficou clara a paixão de Tuane pelo samba ou sua trajetória de vida difícil, dos quais a diretora fala. Há cenas em que realmente a gente fica se questionando o que se passa na cabeça dela, mas essas questões não são levadas adiante.
Concordo com a minha amiga que disse que há momentos em que o filme revela uma certa tristeza. Em uma das cenas, ela está em frente a um espelho e retira os apliques do cabelo. Aos poucos ela revela a Tuane natural, verdadeira, sem maquiagem, fantasias e de cabelo crespo. Sem a pele de pássaro. Sem essa pele, ela anda pelas ruas como qualquer outra pessoa, sem chamar a atenção, receber olhares curiosos ou elogios.
Nesse momento o filme acaba – talvez sem querer – por levantar outra questão bem profunda: a da imagem da mulher negra e o estereótipo em torno dela. Com seus lindos cachos, seu corpão de “mulata do carnaval” e seu samba no pé, Tuane recebe olhares de todos os lados, de admiração, curiosidade, de desejo. Quando retira sua fantasia, revela seu cabelo natural e seu rosto sem maquiagem, Tuane continua sendo uma mulher maravilhosa, mas não recebe os mesmos tipos de olhares como quando era “a grande estrela do show”. Pensando sobre a cena, me pareceu que a mulher negra chama atenção positiva facilmente se associada a estereótipos relacionados a seu corpo e sensualidade. Quando não corresponde a esses estereótipos, parece ser vista como menos interessante por não remeter tão claramente à ideia do exótico. Mas em todos os casos, a mulher negra sofre assédios – muitas vezes influenciados pela hiperssexualição de sua imagem.
Tirando a minha crítica sobre a falta de voz de Tuane no filme, achei o curta interessante por oferecer um olhar feminino e de outro ângulo sobre uma passista de escola de samba e por te fazer pensar sobre a imagem da mulher sambista, da mulher negra e da mulher brasileira.
//FILMES SOBRE MULHERES
A diretora Clara Peltier também é sócia-fundadora da produtora Eterna Filmes que surgiu em 2013. De forma independente, as componentes da Eterna têm como objetivo desenvolver filmes com temáticas femininas. “Buscamos histórias sobre mulheres brasileiras nos dias de hoje, que inspiram e revelam a força do feminino, sem perder de vista o prazer de ser mulher”, explica Clara.
Outro filme de Clara é o curta “Graça” que conta a história de uma jovem atleta de nado sincronizado. O próximo projeto da diretora carioca é um longa-metragem de ficção baseado em “Pele de Pássaro”.
Tuane Rocha é uma passista de escola de samba no Rio de Janeiro. Foi a profissão que escolheu para sustentar sua filha, que teve ainda muito jovem. Para executar seu trabalho, ela se prepara minuciosamente. Coloca sua fantasia de penas e cria asas que a levam de um extremo a outro das passarelas de samba. Sua pele se transforma na pele de um elegante pássaro.
Com seu curta documental “Pele de Pássaro” (ou “Bird Skin”), Clara Peltier lança um olhar sobre o que há além dos passos de samba, do corpão e da quase completa nudez do corpo de uma dançarina de samba. Ela tenta explorar o lado mais pessoal e subjetivo dessa personagem do carnaval carioca, uma mulher que é vista frequentemente com preconceitos – racistas e machistas – e é percebida muitas vezes apenas como um elemento carnavalesco.
A diretora carioca viu Tuane pela primeira vez na competição da Musa do Carnaval do Caldeirão do Huck, em que a, na época, representante da Unidos da Vila Isabel foi entrevistada por Luciano Huck. Como todas as competidoras, Tuane também é invasivamente questionada pelo ~engraçadinho~ apresentador sobre sua vida pessoal. É incrível como ele acha que tem o direito de fazer trocadilhos e perguntas de duplo sentido para tentar constranger as candidatas. Mas Tuane não leva para o lado da brincadeira – afinal, não deveria ser né! – e responde a tudo de forma direta e sem medo. Clara diz que a sambista chamou sua atenção pela firmeza e coragem que demonstrou em suas respostas: “Tuane foi mãe aos 13 anos, e entrou cedo no carnaval para sustentar a filha. Tenho muita admiração pela trajetória dela, é uma história de luta mas também de amor, ao samba, à cultura brasileira, às nossas origens”.
Ao contrário do (ridículo) apresentador do Caldeirão, Clara é cuidadosa ao abordar a vida pessoal de Tuane em frente às câmeras. Ela monta um curta documental bastante subjetivo: sem perguntas, sem muitas falas, só a passista e a câmera que a segue em casa, no camarim e no palco. “Desde o princípio imaginei o filme como um mergulho sensorial no universo da Tuane, captando a emoção, o êxtase, o vazio, a solidão, os contrastes que coexistem na rotina dela. Acho que a força do filme vem daí. Se escolhesse explicar quem ela é, o filme perderia a subjetividade e o espectador ficaria preso a ideias, não embarcaria na dor e na beleza de se viver do samba”, me explicou Clara em entrevista, algumas semanas depois de seu filme ter sido exibido na Semana de Cinema Feminista de Berlim. “Pele de Pássaro” foi uma das três produções cinematográficas brasileiras escolhidas para entrar no festival. Junto com “ISTO”, de Mariana Collares e Mother of Pearl” (Madrepérola), de Deise Hauenstein.
No filme, Tuane aparece concentrada em frente ao espelho colocando sua maquiagem, roupa, enfim, montando sua fantasia. A câmera chega tão perto que é possível ouvir sua respiração. Depois da preparação, ela aparece em diferentes eventos: festas de casamento, festas de escola de samba e, por fim, no carro alegórico no desfile de carnaval. Tive a impressão de que ela se tornava outra personagem quando começava a sambar. No camarim e em casa, ela é séria, concentrada e tem até um ar de solitária. Já quando começa a dançar, aparece sorridente, cantante e cheia de pessoas a sua volta a admirando.
Talvez o que mais tenha me impressionado foram os comentários pós-filme. Assisti em um cinema em Berlim, portanto a maior parte do público eram europeus, muitos dos quais haviam vistos passistas em apenas uma situação: no desfile de carnaval do Rio pela televisão. Lembro que quando o filme terminou perguntei a uma amiga francesa o que ela tinha achada do curta. Ela me disse que achou a fotografia muito bonita, mas o filme em si muito triste. “Ué, mas o filme não tem uma história triste…”, argumentei; “Bom, mas é triste a forma como essa mulher é vista como um animal, ou um objeto, que as pessoas acham que podem tocar, agarrar, apertar onde quiserem…”
De fato, em diferentes momentos a câmera supreende pessoas (até muitas mulheres) olhando para as curvas de Tuane e pedindo para tirar fotos, pegando na sua bunda ou nos seus peitos. O que minha amiga da França viu como algo muito triste e desrespeitoso, Clara explica como curiosidade: “Confesso que fiquei surpresa quando começamos a filmar e registramos esses momentos. Existem mulheres que não veem problema em apalpar o corpo de uma passista. Decidi incluir isso no filme para levantar a questão, uma passista pode ser vista como um objeto ou como a grande estrela do show. Passistas com uma longa carreira no carnaval, como a Tuane, encaram isso apenas como uma curiosidade das mulheres pelo corpo delas”.
Essas críticas que o filme faz são interessantes, mas acabam sendo pouco trabalhadas. Acho que faltou algo no curta, como incluir mais a voz de Tuane, no sentido de dar voz a ela mesma para contar sua história e mostrar sua personalidade. No final, o espectador conclui coisas sobre ela, mas ainda superficialmente. Em nenhum momento ficou clara a paixão de Tuane pelo samba ou sua trajetória de vida difícil, dos quais a diretora fala. Há cenas em que realmente a gente fica se questionando o que se passa na cabeça dela, mas essas questões não são levadas adiante.
Concordo com a minha amiga que disse que há momentos em que o filme revela uma certa tristeza. Em uma das cenas, ela está em frente a um espelho e retira os apliques do cabelo. Aos poucos ela revela a Tuane natural, verdadeira, sem maquiagem, fantasias e de cabelo crespo. Sem a pele de pássaro. Sem essa pele, ela anda pelas ruas como qualquer outra pessoa, sem chamar a atenção, receber olhares curiosos ou elogios.
Nesse momento o filme acaba – talvez sem querer – por levantar outra questão bem profunda: a da imagem da mulher negra e o estereótipo em torno dela. Com seus lindos cachos, seu corpão de “mulata do carnaval” e seu samba no pé, Tuane recebe olhares de todos os lados, de admiração, curiosidade, de desejo. Quando retira sua fantasia, revela seu cabelo natural e seu rosto sem maquiagem, Tuane continua sendo uma mulher maravilhosa, mas não recebe os mesmos tipos de olhares como quando era “a grande estrela do show”. Pensando sobre a cena, me pareceu que a mulher negra chama atenção positiva facilmente se associada a estereótipos relacionados a seu corpo e sensualidade. Quando não corresponde a esses estereótipos, parece ser vista como menos interessante por não remeter tão claramente à ideia do exótico. Mas em todos os casos, a mulher negra sofre assédios – muitas vezes influenciados pela hiperssexualição de sua imagem.
Tirando a minha crítica sobre a falta de voz de Tuane no filme, achei o curta interessante por oferecer um olhar feminino e de outro ângulo sobre uma passista de escola de samba e por te fazer pensar sobre a imagem da mulher sambista, da mulher negra e da mulher brasileira.
//FILMES SOBRE MULHERES
A diretora Clara Peltier também é sócia-fundadora da produtora Eterna Filmes que surgiu em 2013. De forma independente, as componentes da Eterna têm como objetivo desenvolver filmes com temáticas femininas. “Buscamos histórias sobre mulheres brasileiras nos dias de hoje, que inspiram e revelam a força do feminino, sem perder de vista o prazer de ser mulher”, explica Clara.
Outro filme de Clara é o curta “Graça” que conta a história de uma jovem atleta de nado sincronizado. O próximo projeto da diretora carioca é um longa-metragem de ficção baseado em “Pele de Pássaro”.
Gosto bastante de textos antropológicos e por isso não tive dificuldades de gostar logo de cara das obras de Mirian Goldenberg. Mas até pra quem não gosta mesmo desse tipo de leitura vai se envolver facilmente com os textos da antropóloga do Rio de Janeiro. E isso exatamente porque ela usa uma escrita acadêmica que é a menos acadêmica possível, por não ser tão objetiva e imparcial. Em“Infiel”, livro de 2006 que ganhou uma tradução para o alemão em 2014, Mirian conta a história de um de seus estudos de caso como uma narrativa romântica. Só isso já me fez devorar o livro, de tanta ansiedade para saber o que ia acontecer com a bendita personagem. Esse é um daqueles livros que te deixa de ressaca depois de ler, mas no bom sentindo – eu, por exemplo, fiquei dias pensando e refletindo sobre o livro. Só sosseguei depois de boas discussões sobre ele com amigas e, por muita sorte, com a própria Mirian. Em uma conversa pra uma matéria da revista alemã Wir Frauen, eu aproveitei a meia horinha de telefonema para sanar todos meus anseios e dúvidas sobre o “Infiel”.
Nas primeiras páginas, a antropóloga faz uma pequena análise da vida amorosa de Simone de Beauvoir com Jean-Paul Sartre e Nelson Algren. Mirian diz ter ficado impressionada ao notar, pelas leituras e releituras de Beauvoir que, mesmo uma mulher tão feminista e defensora da liberdade, poderia se tornar dependente de seus amores, de seus homens. E foi na busca por respostas sobre essas contradições entre comportamentos e discursos, quanto ao tema relacionamentos, que Mirian conheceu Mônica.
Mônica é uma jornalista que mora no Rio de Janeiro e tem a vida de um roteiro de filme. Com tragédia, amores, sexo e traições. Uma vida com a qual, acredito, muitas mulheres se identificariam. Não por sua história em si, mas por seus sentimentos e desejos ambíguos. Mônica é uma mulher independente, autoconfiante, segura de si. Mas também é uma mulher que deseja a segurança de um relacionamento mais estável e duradouro.
“Eu achei que ela sintetiza muitas histórias que eu ouvi sobre a dificuldade da mulher de viver seus próprios desejos, de assumi-los. Muitas brasileiras ainda têm medo de assumir sua sexualidade pelo que os homens vão pensar”. Mirian chega a compará-la com Leila Diniz por ser uma mulher que fala abertamente de sua vida e seus relacionamentos, sem medo de assumir verbalmente que teve muitos parceiros sexuais, que traiu ou fez sexo sem amor. “Ela me pareceu muito segura, autoconfiante. Uma mulher que eu raramente encontro no Brasil”, descreveu Mirian.
Mas ao mesmo tempo, Mônica é como muitas mulheres brasileiras e se afoga em uma crise de culpa quando trai seu parceiro com um homem, que nem faz seu tipo, mas que desperta nela um desejo sexual enorme. Com seu amante, Mônica descobre um lado sexual que ainda era desconhecido, mesmo depois de ter transado com vários homens. Daí é que a história complica e a jornalista se vê em um conflito entre o desejo por liberdade mas também pela segurança do relacionamento com seu parceiro. Um conflito que Mirian diz ter observado em muitas mulheres em seus estudos nas camadas médias urbanas do Rio de Janeiro.
A incrível história de vida de Mônica me deixou ansiosa por cada página. Exatamente por ser uma história que poderia acontecer com qualquer uma de nós. Mas não serei aqui spoiler chata e não contarei o desfecho disso tudo. O que mais posso revelar do livro são alguns fatos que me deixaram pensando e pensando e pensando no “Infiel”.
Sabe aquele estereótipo sobre amantes que elas seriam mulheres atrás de homens casados, ricos, que as pudessem enche-las de presentes e sustenta-las? Sabe aquela ideia de que toda amante é uma mulher na fila do casamento, só no aguardo para que o tal homem casado se separe? Pois é, a pesquisa de Mirian revelou uma imagem muito diferente que quebra esse tipo de preconceito. A Outra é, em muitos casos, uma mulher super independente – ela mora sozinha, trabalha, se sustenta e, algumas vezes, tem outros parceiros além do amante. Mirian a descreve como alguém que, muitas vezes, tem uma relação mais igualitária com o homem do que a própria esposa. “Ser a Outra pode ser, para algumas mulheres, uma forma de combinar companheirismo com liberdade”, escreve Mirian ao contar o caso de mulheres que desejam manter sua independência e não acham que isso seja completamente possível em um casamento.
Mas além desse desejo de liberdade e companheirismo, os números apresentados no livro revelam que para, algumas mulheres, ter um relacionamento com um homem casado é a forma mais fácil de não ficar só. Ela escreve que existem três mulheres para cada homem não-casado depois dos 45 anos, e cinco para um depois dos 65 anos. Ou seja, a opção seria dividir para não ficar só.
Depois disso fiquei me perguntando: “seria a mulher brasileira tão dependente que não consegue ficar sozinha e precisa de um marido/namorado/peguete?” Em nossa conversa, Mirian me deu uma interessante resposta. “Ela (a mulher brasileira) consegue ficar sozinha, ela até gosta de ficar sozinha, ela até prefere ficar sozinha! Mas morre de medo porque ficar sozinha aqui dá uma ideia de abandono e de fracasso. Há mulheres bem sucedidas que quando chegam sozinhas em algum evento são encaradas como coitadas. Elas querem curtir sua vida e sua liberdade. Mas hoje é preciso enfrentar tanta coisa pra ficar sozinha, tem que enfrentar tantos olhares de pena e de acusação, que muitas têm medo e acabam ficando com alguém por isso”. Mirian diz que o novo capital mais valioso da mulher no Brasil, além do corpão e da juventude, é o maridão. Ela observa que, além da pressão por um casamento, a mulher ainda sofre com uma criação que a tornou uma “romântica incurável”: “As novelas, os romances, os filmes, tudo conspira. Nunca as meninas brasileiras foram tão cor de rosa. Desde que você nasce, você é criada pra ser assim, ganhando bonecas e vestido de princesa pra brincar de casinha”.
Enfim, depois da leitura e da conversa com Mirian notei que talvez ainda sejam precisos muitos passos para que toda mulher brasileira se torne “meio Leila Diniz”. Mas estamos no caminho. Segundo Mirian, já é maior o número de mulheres que decidem ficar só, sem marido, filhos ou amantes fixos. Mulheres que decidiram enfrentar os olhares de pena e de julgamento. Que não tem medo de assumir e falar abertamente de sua sexualidade e que estão mais próximas do ideal “Leila Diniz” que Mirian tanto cita em sua obra.
Os livros da Mirian foram lançados pela Editoraecord e podem ser encontrados facilmente em grandes livrarias ou até em sebos (onde eu achei o meu). Além do “Infiel”, outros títulos interessantes são “A Outra”, “Toda Mulher é meio Leila Diniz”, “Coroas” e o mais recente “Sexo”.
Semana de Cinema Feminista de Berlim. “Pele de Pássaro” foi uma das três produções cinematográficas brasileiras escolhidas para entrar no festival. Junto com “ISTO”, de Mariana Collares e Mother of Pearl” (Madrepérola), de Deise Hauenstein.
No filme, Tuane aparece concentrada em frente ao espelho colocando sua maquiagem, roupa, enfim, montando sua fantasia. A câmera chega tão perto que é possível ouvir sua respiração. Depois da preparação, ela aparece em diferentes eventos: festas de casamento, festas de escola de samba e, por fim, no carro alegórico no desfile de carnaval. Tive a impressão de que ela se tornava outra personagem quando começava a sambar. No camarim e em casa, ela é séria, concentrada e tem até um ar de solitária. Já quando começa a dançar, aparece sorridente, cantante e cheia de pessoas a sua volta a admirando.
Talvez o que mais tenha me impressionado foram os comentários pós-filme. Assisti em um cinema em Berlim, portanto a maior parte do público eram europeus, muitos dos quais haviam vistos passistas em apenas uma situação: no desfile de carnaval do Rio pela televisão. Lembro que quando o filme terminou perguntei a uma amiga francesa o que ela tinha achada do curta. Ela me disse que achou a fotografia muito bonita, mas o filme em si muito triste. “Ué, mas o filme não tem uma história triste…”, argumentei; “Bom, mas é triste a forma como essa mulher é vista como um animal, ou um objeto, que as pessoas acham que podem tocar, agarrar, apertar onde quiserem…”
De fato, em diferentes momentos a câmera supreende pessoas (até muitas mulheres) olhando para as curvas de Tuane e pedindo para tirar fotos, pegando na sua bunda ou nos seus peitos. O que minha amiga da França viu como algo muito triste e desrespeitoso, Clara explica como curiosidade: “Confesso que fiquei surpresa quando começamos a filmar e registramos esses momentos. Existem mulheres que não veem problema em apalpar o corpo de uma passista. Decidi incluir isso no filme para levantar a questão, uma passista pode ser vista como um objeto ou como a grande estrela do show. Passistas com uma longa carreira no carnaval, como a Tuane, encaram isso apenas como uma curiosidade das mulheres pelo corpo delas”.
Essas críticas que o filme faz são interessantes, mas acabam sendo pouco trabalhadas. Acho que faltou algo no curta, como incluir mais a voz de Tuane, no sentido de dar voz a ela mesma para contar sua história e mostrar sua personalidade. No final, o espectador conclui coisas sobre ela, mas ainda superficialmente. Em nenhum momento ficou clara a paixão de Tuane pelo samba ou sua trajetória de vida difícil, dos quais a diretora fala. Há cenas em que realmente a gente fica se questionando o que se passa na cabeça dela, mas essas questões não são levadas adiante.
Concordo com a minha amiga que disse que há momentos em que o filme revela uma certa tristeza. Em uma das cenas, ela está em frente a um espelho e retira os apliques do cabelo. Aos poucos ela revela a Tuane natural, verdadeira, sem maquiagem, fantasias e de cabelo crespo. Sem a pele de pássaro. Sem essa pele, ela anda pelas ruas como qualquer outra pessoa, sem chamar a atenção, receber olhares curiosos ou elogios.
Nesse momento o filme acaba – talvez sem querer – por levantar outra questão bem profunda: a da imagem da mulher negra e o estereótipo em torno dela. Com seus lindos cachos, seu corpão de “mulata do carnaval” e seu samba no pé, Tuane recebe olhares de todos os lados, de admiração, curiosidade, de desejo. Quando retira sua fantasia, revela seu cabelo natural e seu rosto sem maquiagem, Tuane continua sendo uma mulher maravilhosa, mas não recebe os mesmos tipos de olhares como quando era “a grande estrela do show”. Pensando sobre a cena, me pareceu que a mulher negra chama atenção positiva facilmente se associada a estereótipos relacionados a seu corpo e sensualidade. Quando não corresponde a esses estereótipos, parece ser vista como menos interessante por não remeter tão claramente à ideia do exótico. Mas em todos os casos, a mulher negra sofre assédios – muitas vezes influenciados pela hiperssexualição de sua imagem.
Tirando a minha crítica sobre a falta de voz de Tuane no filme, achei o curta interessante por oferecer um olhar feminino e de outro ângulo sobre uma passista de escola de samba e por te fazer pensar sobre a imagem da mulher sambista, da mulher negra e da mulher brasileira.
//FILMES SOBRE MULHERES
A diretora Clara Peltier também é sócia-fundadora da produtora Eterna Filmes que surgiu em 2013. De forma independente, as componentes da Eterna têm como objetivo desenvolver filmes com temáticas femininas. “Buscamos histórias sobre mulheres brasileiras nos dias de hoje, que inspiram e revelam a força do feminino, sem perder de vista o prazer de ser mulher”, explica Clara.
Outro filme de Clara é o curta “Graça” que conta a história de uma jovem atleta de nado sincronizado. O próximo projeto da diretora carioca é um longa-metragem de ficção baseado em “Pele de Pássaro”.