Em uma reportagem num certo jornal de São Paulo, que prefiro não dar ibope (risos), tinha uma matéria sobre um time feminino, sub-14, Centro Olímpico. A matéria se referia ao time ter sido aceito para jogar o campeonato masculino chamado ~ Copa Moleque Travesso ~ e as meninas foram campeãs do campeonato. Fico triste em pensar que tiveram que ser aceitas para jogar porque não há muitos campeonatos para times femininos. De forma que, o que aconteceu com essas meninas nos estabeleceram dois pontos positivos. O primeiro, a visibilidade do problema em questão e o segundo, somos muito mais capazes do que a maioria imagina.
Como a diferença física é bem grande, a gente propôs entrar com um time um ano mais velho e eles aceitaram, só uma equipe se opôs. A maioria dos times super apoiou a ideia, disse que tinha que permitir a integração das meninas” – Lucas Piccinato, técnico
Mas será que tamanho é documento? Sabemos de muitos jogadores homens e franzinos (forma estereotipada da qual enxergam uma mulher que seja jogadora de futebol) são considerados super craques.
Mas no fim é sempre isso, sempre segregam a mulher de forma que ela precise estar às margens quando há algo que homens façam majoritariamente (por causa de misoginia histórica). No futebol, há sempre uma falta de incentivo e essa história tem um porquê. Sabemos que o estereótipo da mulher é de ser dependente e frágil, e durante a ditadura, em 1964, foi deliberado: Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo, halterofilismo e beisebol”. Essas práticas foram proibidas com o propósito das mulheres não se debilitarem diante a maternidade, função que se considerava inerente a todas nós. Impressionantemente, essa decisão só foi anulada em ~ pasmem ~ 1981, e ainda assim a profissionalização não era possível. O futebol feminino já começou muito atrasado mas como contra cultura, transgressor, popular e não-elitista.
Falta competição feminina no Brasil. A gente tem dificuldades de achar torneios em todas as idades, ainda mais no sub-11, sub-13 e sub-15. Sempre acharam que entrar em torneios masculinos era uma desvantagem. Agora, a gente mostrou que não é. Tomara que no ano que vem nos permitam jogar de novo.” – jogadora do Campo Olímpico
O tempo passou e o Brasil continuou sendo o país do futebol (masculino). Por pior que sejam as condições de qualquer criança brasileira para se entrar e profissionalizar em qualquer esporte, e deixo claro meus recortes de cor e classe aqui, o espaço no futebol entre meninas/mulheres e meninos/homens, é abissal. Atualmente é muito difícil uma jogadora profissional conseguir um bom salário, a maioria das jogadoras da nossa seleção brasileira de futebol joga fora do país. Não só por prestígio, mas porque em outros lugares elas podem fazer uma carreira, uma profissão. Pouquíssimas jogadoras com bastante visibilidade, como nossa querida Marta e Formiga, podem ““““se dar o luxo”””” de jogarem no Brasil.
Ano passado aconteceu a Copa do Mundo de futebol feminino. Você ficou sabendo? Você soube qual emissora cobriria os jogos? Quem ganhou? Pois é, a maioria não soube, e quem estava ligado, não tinha onde assistir porque foi muito pouco falado, divulgado e transmitido. De forma que, a Copa do Mundo ano passado foi no Canadá, e ainda assim, mesmos sendo um evento enorme, não deram campo de grama para as mulheres jogarem. Elas tiveram que jogar todos os jogos em campo sintético. Você deve se perguntar o que tem a ver, certo? Pode deixar que eu te mostro:
Para muito além de canelas roxas e pernas queimadas, a atleta Caitlin Fisher destaca a importância da problematização. A questão pode parecer inocente, mas é cheia de machismo e questões de inferiorização do gênero feminino no esporte. O texto abaixo foi originalmente publicado pela Al Jazeera EUA e adaptado para o site Donna:
“No dia 21 de janeiro de 2015 um grupo de mais de 40 jogadoras de futebol abriu um processo de discriminação de gênero contra a FIFA e a Associação Canadense de Futebol. A queixa fora apresentada em outubro do ano anterior, e se opunha à decisão de realizar a Copa do Mundo de Futebol Feminino em gramado sintético, não natural. O campeonato masculino nunca foi jogado em gramado artificial. Mas o simbolismo de oferecer um gramado inferior para atletas do sexo feminino é mais profundo do que o que ocorre na superfície de um campo de futebol. Ao realizar a Copa do Mundo de Futebol Feminino em campos inferiores, a instituição responsável pelo rumo da modalidade reforça uma mensagem que vem sendo enviada para atletas mulheres há anos: o seu jogo é de segunda classe. Esta é a mesma mensagem subliminar enviada para meninas e mulheres em todos os lugares, todos os dias: ‘vocês merecem menos’. Ainda mais prejudicialmente, torcedores, administradores, familiares, treinadores e professores parecem estar confortáveis com o fato de as mulheres ficarem com menos. Aceitar que as mulheres devem jogar em campos precários é o mesmo que aceitar a diferença salarial entre gêneros.”
Nasceu no Brasil, um projeto incrível chamado Guerreiras Project. Formado por mulheres brasileiras e gringas. O projeto tem a incrível função de tratar sobre a desigualdade de gênero trazendo o futebol como ferramenta principal e prática. As mulheres atuam desde 2010 e começaram a fazer documentários maravilhosos sobre como era ser uma jogadora de futebol em um país em que homens são jogadores. Além de atuar fisicamente em comunidades e outras incríveis intervenções. Deixo aqui um dos vídeos incríveis, da nossa queridinha, Formiga:
Por meio deste incrível projeto, entrei em contato com as organizadoras que me concederam contatos de jogadoras amadoras e profissionais (além de fotos incríveis) para realizarem uma pequena entrevista. Assim podemos dar lugar de fala pra quem realmente vive na pele o dia a dia de ser uma jogadora de futebol, segue pequena entrevista:
Ovelha: Qual seu nome, idade e de que estado vocês são?
R: Nayara Perone – São Paulo, SP – 29 anos. Angélica Souza, 3 anos, São Paulo. Maiara Beckrich, 28 anos, SP. Thais Picarte, São Paulo.
Ovelha: Com quantos anos começaram a jogar futebol?
Nayara Perone: Comecei aos 26 anos treinando diariamente, na escola era só de vez em quando.
Angélica Souza: Não sei precisar, talvez com 5 ou 6 anos.
Maiara Beckrich: Não me lembro de antes de jogar futebol (risos).
Thais Picarte: Comecei a jogar de forma mais organizada em um clube onde era associada, em Santo André, minha cidade natal. Tinha 10 anos e até então só havia jogado com meninos na escola, na rua.
Ovelha: Jogam amadora ou profissionalmente? Qual é a frequência dos treinos?
Nayara Perone: Amadora, jogo pelo menos 1 vez por semana.
Angélica Souza: Amadora. Hoje, uma vez por mês.
Maiara Beckrich: Amadora, estou parada agora devido a uma lesão, mas costumo jogar duas vezes por semana.
Thais Picarte: Sou atetla profissional de futebol há mais de quinze anos. Treino cinco dias na semana, os dois períosos, temos um ou dois jogos na semana e geralmente um dia de folga.
Ovelha: Quais os piores obstáculos, se é que tiveram, para que pudessem jogar futebol?
Nayara Perone: Ensino. Lá só era permitido meninos jogarem futebol, meninas tinham que jogar vôlei ou queimada. As meninas que jogavam ouviam todo tipo de absurdo, eram constantemente ridicularizadas e ofendidas. Os professores nunca tiveram iniciativa de ensinar.
Angélica Souza: Encontrar um grupo exclusivamente feminino. Mas com o Pelado Real, o obstáculo foi superado.
Maiara Beckrich: Falta de lugar para jogar com outras meninas sempre foi o principal. Além é claro do machismo de homens que assediam a gente enquanto a gente joga. Ou tiram onda, desestimulando a prática do esporte, dizendo que a gente não sabe jogar ou não deveria estar ali.
Thais Picarte: A falta de recursos financeiros e de estrutura dos clubes. Normalmente, esta é a maior dificuldade para meninas que sonham em viver do futebol.
Ovelha: Qual foi a pior coisa que ouviram por ser mulher e jogar futebol? E a melhor?
Nayara Perone: A pior coisa é diária: homem mexendo, enchendo do lado de fora da quadra, coisas como “futebol é coisa de homem” e etc. A melhor foi recentemente, quando um amigo mudou um artigo para “22 pessoas correndo atrás de uma bola” em vez de “22 homens” pq disse que sempre lembra que eu falo bastante do futebol feminino.
Angélica Souza: Pior: Isso não é esporte para mulher, por isso você se machuca tanto (do meu ortopedista). Melhor: Vocês são mulheres à frente do seu tempo.
Maiara Beckrich: Difícil dizer qual foi a pior coisa. No meu caso é uma somatória de pequenas opressões pelas quais passei durante toda a vida que, inclusive, às vezes vêm disfarçadas de elogios. Como: “nossa, joga melhor do que muito menino.” Ou quando os homens acham qualquer coisa que você faz o máximo, por ser incrível na cabeça deles pensar que uma mulher consegue fazer alguma coisa bem (ainda mais uma coisa do universo pretensamente masculino).
Thais Picarte: A pior é sempre a associação preconceituosa que fazem, entre a opção esportiva e sua sexualidade. Em nosso país, as mulheres são subestimadas e sofrem coma desigualdade em diversas áreas. E quanto a melhor, quando eu comecei a jogar no clube, o pai de uma amiga me pediu um autógrafo e me disse que um dia ele iria valer muito, que eu seria uma grande goleira e que chegaria a seleção. Nunca esqueci aquele meu primeiro autógrafo e realmente cheguei a seleção e sou reconhecida na minha modalidade.
Ovelha: Vocês trabalham exclusivamente com futebol ou tem outro emprego? Se sim, qual?
Nayara Perone: Sou webdesigner, o futebol é meu hobbie. Tenho um time fixo, bem iniciante que joga campeonatos amadores e organizo um campeonato para meninas de todos os níveis, mas principalmente as que nunca jogaram e decidiram começar a jogar por causa dele.
Angélica Souza: Eu trabalho em uma agência de content marketing na área de esporte. O dibradoras é um projeto que toco paralelamente.
Maiara Beckrich: Eu colaboro com o Dibradoras, página que busca dar visibilidade para o futebol feminino, mas também trata de qualquer esporte onde hajam mulheres resistindo e praticando, apesar de todas as dificuldades. Mas não vivo disso, trabalho com mídia.
Thais Picarte: Trabalho somente com futebol, tenho a sorte de trabalhar em um clube que me dá o respaldo financeiro para que eu possa viver do futebol.
Ovelha: Como você vê o futuro do futebol feminino?
Nayara Perone: Vejo com bons olhos. Acredito que falar sempre no assunto ajuda a dar mais visibilidade e inserir o futebol feminino como algo do cotidiano, aceito e incentivado. Quanto mais gente jogando, mais meninas se sentirão a vontade e motivadas e saberão em quem se espelhar para continuar. Há muitos passos ainda, o abismo para o masculino ainda é imenso, mas ainda assim tenho esperanças boas no futebol feminino. Sobre campeonatos: obviamente precisam de mais campeonatos para as meninas. Não gosto da idéia dos campeonatos mistos, mas é o que temos para hoje. Temos que ter uma modalidade desenvolvida o suficiente para que tenham o mínimo de times para disputar campeonatos. Até incentivar os pais e meninas/mulheres nesse sentido, para que hajam mais times e por consequência mais quórum para disputas.
Angélica Souza: Vejo com um futuro promissor, mas ainda carente de investimento e pessoas dispostas a investir e acreditar nas mulheres não só atletas, mas também como gestoras esportivas.
Maiara Beckrich: Vejo um futuro complicado, pois poucas ações efetivas e duradouras estão sendo tomadas atualmente para elevar o futebol feminino brasileiro a um lugar de desempenho de alto nível. Hoje em dia, é quase uma utopia uma garota pensar em seguir uma carreira no futebol, sabendo de todas as dificuldades que vai enfrentar no caminho. Sabemos de atletas que têm que manter um emprego a parte para conseguir se bancar no futebol, de atletas que ficam sem clube durante meses e depois tem que defender a seleção brasileira, totalmente fora de ritmo. Descaso dos clubes, falta de incentivo, uniformes que sobraram do masculino, falta de ambulância, luz e vestiário adequados quando têm jogo. Enfim, caso completo. Alguma coisa melhorou com a criação da Seleção Permanente e algumas outras iniciativas pontuais, mas infelizmente ainda é muito pouco e sabemos que essas medidas quase nunca duram por muito tempo. O pior é que sabemos que com um mínimo de investimento já se poderia avançar um mundo. Falta interesse. Acho que muito porque a ideia da mulher como protagonista de qualquer coisa que seja no país que a gente vive fere a lógica patriarcal na qual estamos inseridas.
Thais Picarte: Acredito que o futuro da mulher como profissional, de um modo geral é muito promissor. Mas caminhamos a passos muito curtos, representamos uma fatia muito grande da sociedade para seguir no anonimato. Merecemos e devemos assumir mais responsabilidades e posições de maior reconhecimento e respeito.
Ovelha: Deixe aqui o nome da associação em que você joga, do seu time, quem você gostaria de dar visibilidade, o que quiserem, de verdade!
Nayara Perone: Meu time chama Miga FC, é um time basicamente de meninas que treinam pouco mas querem estar lá jogando e se divertindo. Gostaria de citar a Copa Trifon Ivanov, a copa sem fins lucrativos da qual faço a organização do campeonato feminino (temos o masculino e o feminino) e onde conheci além de pessoas incríveis, meninas que nunca sequer tinham corrido com uma bola e hoje jogam semanalmente e fizeram grandes laços de amizade.
Angélica Souza:Dibradoras, não é onde jogo, mas é onde procuro dar visibilidade ao futebol feminino.
Maiara Beckrich: Gostaria de valorizar qualquer pessoa ou associação que faça esse trabalho de formiga que é dar visibilidade à questão do futebol feminino, mas tenho um carinho especial por duas. O Pelado Real, onde eu jogo, que eu acredito que se configurou como uma grande referência para a mulherada que quer jogar futebol, tenha o nível que tenha. É um trabalho sem precedentes que eu acredito ser essencial e maravilhoso. Também gostaria de ressaltar o trabalho das dibradoras, que em muito pouco tempo (mais ou menos desde a Copa do Mundo feminina do ano passado) conseguiu se transformar uma plataforma sensacional para tratar da questão de gênero dentro da esfera do esporte. Tenho muito orgulho de poder trabalhar com essas minas e sei que o caminho ainda é muito longo. Mas a gente não desiste. Ah, mas não desiste mesmo.
Thais Picarte: Jogo no São José Esporte Clube. E sou embaixadora do Guerreiras Project. Gostaria que falasse um pouco sobre nossos ideias.
Pois bem, agora estamos a menos de 7 dias das Olimpíadas (mas os jogos de futebol começam antes!) e por ser um evento que confere mundialmente todos os esportes, muito provavelmente o futebol feminino deva ser bem televisionado e bem transmitido. O que você me diz? Vou te apresentar aqui o nosso time brasileiro, a escalação para os jogos, o cronograma dos jogos, os grupos em que cada time caiu. Vamos acompanhar? A Ovelha pretende produzir um podcast depois dos jogos para conversarmos sobre os os jogos e os ~ impedimentos ~ de ser mulher e jogar futebol no Brasil e no mundo. Convidadas especiais serão chamadas para participar com a gente e esperamos que vocês curtam muito!
Nossa escalação para as Olimpíadas está assim:
Para vocês terem uma noção do sexismo envolvendo as instituições, no próprio site da C.B.F., há um trecho do treinador da seleção feminina, Vadão, que diz o seguinte:
Aos 58 anos, o experiente Vadão, como é conhecido, deixou uma carreira consolidada, em que pôde estimular o crescimento de jogadores como Rivaldo e revelar talentos como o de Kaká, para incentivar uma modalidade menos favorecida no país e dar o passo definitivo rumo à excelência tanto na Copa do Mundo Feminina da FIFA quanto no torneio olímpico.
[Essa boçalidade que você leu aí em cima se encontra aqui]
Quer dizer, enaltece o treinador por ter trabalhado em clubes masculinos e parece que ele é o bom samaritano por abrir mão dessa carreira para incentivar uma modalidade menos favorecida. Dá vontade de mandar pra aquele lugar? Dá sim, porém aquele lugar é bom, então realmente fica apenas minha indignação sobre esse trecho. Também quero estar atenta a comentários de narradores como “jogo bonito de se ver” fazendo alusão a estética corporal das mulheres ao invés do jogo em si. ESTAREMOS DE OLHO, VIU? Voltemos à programação normal.
Os grupos estão organizados dessa forma e nosso primeiro jogo é no dia 3 de agosto com a China. O futebol oriental é fortíssimo, já vamos estrear com desafios!
Para facilitar a nossa vida, também fizemos uma tabela com o cronograma dos jogos femininos da primeira fase. Assim não tem desculpa para não acompanhar, a não ser claro, o horário de trabalho. Mas, podemos pedir para os chefes liberarem uma televisãozinha por bens maiores, não é mesmo?
Para piorar o quadro das mulheres profissionais, ainda rolou essa notícia bombástica. CBF não cumpre promessa e deixa jogadoras sem carteira assinada e benefícios. Vocês podem imaginar que no masculino os caras nem ganham pra estar na seleção, é pelo prestígio? Mas as mulheres precisam sair de seus times no extrangeiro, que é onde pagam melhor (melhor, vulgo, conseguem se sustentar, mandar um dinheiro pra família, etc.), para vestirem a camisa canarinho e ainda assim não são levadas a sério. Há muita coisa pelo que lutarmos. Vamos acompanhar nossa seleção feminina, vamos dar valor e visibilidade a essas mulheres que já tem títulos melhores que craques masculinos.
Segue o jogo.
P.S.: Quero fazer um agradecimento às mulheres incríveis que concederam a entrevista e a Nadja Marin, uma das cabeças do Guerreira Project, que por ela, pude fazer as conexões! <3
Em uma reportagem num certo jornal de São Paulo, que prefiro não dar ibope (risos), tinha uma matéria sobre um time feminino, sub-14, Centro Olímpico. A matéria se referia ao time ter sido aceito para jogar o campeonato masculino chamado ~ Copa Moleque Travesso ~ e as meninas foram campeãs do campeonato. Fico triste em pensar que tiveram que ser aceitas para jogar porque não há muitos campeonatos para times femininos. De forma que, o que aconteceu com essas meninas nos estabeleceram dois pontos positivos. O primeiro, a visibilidade do problema em questão e o segundo, somos muito mais capazes do que a maioria imagina.
Como a diferença física é bem grande, a gente propôs entrar com um time um ano mais velho e eles aceitaram, só uma equipe se opôs. A maioria dos times super apoiou a ideia, disse que tinha que permitir a integração das meninas” – Lucas Piccinato, técnico
Mas será que tamanho é documento? Sabemos de muitos jogadores homens e franzinos (forma estereotipada da qual enxergam uma mulher que seja jogadora de futebol) são considerados super craques.
Mas no fim é sempre isso, sempre segregam a mulher de forma que ela precise estar às margens quando há algo que homens façam majoritariamente (por causa de misoginia histórica). No futebol, há sempre uma falta de incentivo e essa história tem um porquê. Sabemos que o estereótipo da mulher é de ser dependente e frágil, e durante a ditadura, em 1964, foi deliberado: Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo, halterofilismo e beisebol”. Essas práticas foram proibidas com o propósito das mulheres não se debilitarem diante a maternidade, função que se considerava inerente a todas nós. Impressionantemente, essa decisão só foi anulada em ~ pasmem ~ 1981, e ainda assim a profissionalização não era possível. O futebol feminino já começou muito atrasado mas como contra cultura, transgressor, popular e não-elitista.
Falta competição feminina no Brasil. A gente tem dificuldades de achar torneios em todas as idades, ainda mais no sub-11, sub-13 e sub-15. Sempre acharam que entrar em torneios masculinos era uma desvantagem. Agora, a gente mostrou que não é. Tomara que no ano que vem nos permitam jogar de novo.” – jogadora do Campo Olímpico
O tempo passou e o Brasil continuou sendo o país do futebol (masculino). Por pior que sejam as condições de qualquer criança brasileira para se entrar e profissionalizar em qualquer esporte, e deixo claro meus recortes de cor e classe aqui, o espaço no futebol entre meninas/mulheres e meninos/homens, é abissal. Atualmente é muito difícil uma jogadora profissional conseguir um bom salário, a maioria das jogadoras da nossa seleção brasileira de futebol joga fora do país. Não só por prestígio, mas porque em outros lugares elas podem fazer uma carreira, uma profissão. Pouquíssimas jogadoras com bastante visibilidade, como nossa querida Marta e Formiga, podem ““““se dar o luxo”””” de jogarem no Brasil.
Ano passado aconteceu a Copa do Mundo de futebol feminino. Você ficou sabendo? Você soube qual emissora cobriria os jogos? Quem ganhou? Pois é, a maioria não soube, e quem estava ligado, não tinha onde assistir porque foi muito pouco falado, divulgado e transmitido. De forma que, a Copa do Mundo ano passado foi no Canadá, e ainda assim, mesmos sendo um evento enorme, não deram campo de grama para as mulheres jogarem. Elas tiveram que jogar todos os jogos em campo sintético. Você deve se perguntar o que tem a ver, certo? Pode deixar que eu te mostro:
Para muito além de canelas roxas e pernas queimadas, a atleta Caitlin Fisher destaca a importância da problematização. A questão pode parecer inocente, mas é cheia de machismo e questões de inferiorização do gênero feminino no esporte. O texto abaixo foi originalmente publicado pela Al Jazeera EUA e adaptado para o site Donna:
“No dia 21 de janeiro de 2015 um grupo de mais de 40 jogadoras de futebol abriu um processo de discriminação de gênero contra a FIFA e a Associação Canadense de Futebol. A queixa fora apresentada em outubro do ano anterior, e se opunha à decisão de realizar a Copa do Mundo de Futebol Feminino em gramado sintético, não natural. O campeonato masculino nunca foi jogado em gramado artificial. Mas o simbolismo de oferecer um gramado inferior para atletas do sexo feminino é mais profundo do que o que ocorre na superfície de um campo de futebol. Ao realizar a Copa do Mundo de Futebol Feminino em campos inferiores, a instituição responsável pelo rumo da modalidade reforça uma mensagem que vem sendo enviada para atletas mulheres há anos: o seu jogo é de segunda classe. Esta é a mesma mensagem subliminar enviada para meninas e mulheres em todos os lugares, todos os dias: ‘vocês merecem menos’. Ainda mais prejudicialmente, torcedores, administradores, familiares, treinadores e professores parecem estar confortáveis com o fato de as mulheres ficarem com menos. Aceitar que as mulheres devem jogar em campos precários é o mesmo que aceitar a diferença salarial entre gêneros.”
Nasceu no Brasil, um projeto incrível chamado Guerreiras Project. Formado por mulheres brasileiras e gringas. O projeto tem a incrível função de tratar sobre a desigualdade de gênero trazendo o futebol como ferramenta principal e prática. As mulheres atuam desde 2010 e começaram a fazer documentários maravilhosos sobre como era ser uma jogadora de futebol em um país em que homens são jogadores. Além de atuar fisicamente em comunidades e outras incríveis intervenções. Deixo aqui um dos vídeos incríveis, da nossa queridinha, Formiga:
Por meio deste incrível projeto, entrei em contato com as organizadoras que me concederam contatos de jogadoras amadoras e profissionais (além de fotos incríveis) para realizarem uma pequena entrevista. Assim podemos dar lugar de fala pra quem realmente vive na pele o dia a dia de ser uma jogadora de futebol, segue pequena entrevista:
Ovelha: Qual seu nome, idade e de que estado vocês são?
R: Nayara Perone – São Paulo, SP – 29 anos. Angélica Souza, 3 anos, São Paulo. Maiara Beckrich, 28 anos, SP. Thais Picarte, São Paulo.
Ovelha: Com quantos anos começaram a jogar futebol?
Nayara Perone: Comecei aos 26 anos treinando diariamente, na escola era só de vez em quando.
Angélica Souza: Não sei precisar, talvez com 5 ou 6 anos.
Maiara Beckrich: Não me lembro de antes de jogar futebol (risos).
Thais Picarte: Comecei a jogar de forma mais organizada em um clube onde era associada, em Santo André, minha cidade natal. Tinha 10 anos e até então só havia jogado com meninos na escola, na rua.
Ovelha: Jogam amadora ou profissionalmente? Qual é a frequência dos treinos?
Nayara Perone: Amadora, jogo pelo menos 1 vez por semana.
Angélica Souza: Amadora. Hoje, uma vez por mês.
Maiara Beckrich: Amadora, estou parada agora devido a uma lesão, mas costumo jogar duas vezes por semana.
Thais Picarte: Sou atetla profissional de futebol há mais de quinze anos. Treino cinco dias na semana, os dois períosos, temos um ou dois jogos na semana e geralmente um dia de folga.
Ovelha: Quais os piores obstáculos, se é que tiveram, para que pudessem jogar futebol?
Nayara Perone: Ensino. Lá só era permitido meninos jogarem futebol, meninas tinham que jogar vôlei ou queimada. As meninas que jogavam ouviam todo tipo de absurdo, eram constantemente ridicularizadas e ofendidas. Os professores nunca tiveram iniciativa de ensinar.
Angélica Souza: Encontrar um grupo exclusivamente feminino. Mas com o Pelado Real, o obstáculo foi superado.
Maiara Beckrich: Falta de lugar para jogar com outras meninas sempre foi o principal. Além é claro do machismo de homens que assediam a gente enquanto a gente joga. Ou tiram onda, desestimulando a prática do esporte, dizendo que a gente não sabe jogar ou não deveria estar ali.
Thais Picarte: A falta de recursos financeiros e de estrutura dos clubes. Normalmente, esta é a maior dificuldade para meninas que sonham em viver do futebol.
Ovelha: Qual foi a pior coisa que ouviram por ser mulher e jogar futebol? E a melhor?
Nayara Perone: A pior coisa é diária: homem mexendo, enchendo do lado de fora da quadra, coisas como “futebol é coisa de homem” e etc. A melhor foi recentemente, quando um amigo mudou um artigo para “22 pessoas correndo atrás de uma bola” em vez de “22 homens” pq disse que sempre lembra que eu falo bastante do futebol feminino.
Angélica Souza: Pior: Isso não é esporte para mulher, por isso você se machuca tanto (do meu ortopedista). Melhor: Vocês são mulheres à frente do seu tempo.
Maiara Beckrich: Difícil dizer qual foi a pior coisa. No meu caso é uma somatória de pequenas opressões pelas quais passei durante toda a vida que, inclusive, às vezes vêm disfarçadas de elogios. Como: “nossa, joga melhor do que muito menino.” Ou quando os homens acham qualquer coisa que você faz o máximo, por ser incrível na cabeça deles pensar que uma mulher consegue fazer alguma coisa bem (ainda mais uma coisa do universo pretensamente masculino).
Thais Picarte: A pior é sempre a associação preconceituosa que fazem, entre a opção esportiva e sua sexualidade. Em nosso país, as mulheres são subestimadas e sofrem coma desigualdade em diversas áreas. E quanto a melhor, quando eu comecei a jogar no clube, o pai de uma amiga me pediu um autógrafo e me disse que um dia ele iria valer muito, que eu seria uma grande goleira e que chegaria a seleção. Nunca esqueci aquele meu primeiro autógrafo e realmente cheguei a seleção e sou reconhecida na minha modalidade.
Ovelha: Vocês trabalham exclusivamente com futebol ou tem outro emprego? Se sim, qual?
Nayara Perone: Sou webdesigner, o futebol é meu hobbie. Tenho um time fixo, bem iniciante que joga campeonatos amadores e organizo um campeonato para meninas de todos os níveis, mas principalmente as que nunca jogaram e decidiram começar a jogar por causa dele.
Angélica Souza: Eu trabalho em uma agência de content marketing na área de esporte. O dibradoras é um projeto que toco paralelamente.
Maiara Beckrich: Eu colaboro com o Dibradoras, página que busca dar visibilidade para o futebol feminino, mas também trata de qualquer esporte onde hajam mulheres resistindo e praticando, apesar de todas as dificuldades. Mas não vivo disso, trabalho com mídia.
Thais Picarte: Trabalho somente com futebol, tenho a sorte de trabalhar em um clube que me dá o respaldo financeiro para que eu possa viver do futebol.
Ovelha: Como você vê o futuro do futebol feminino?
Nayara Perone: Vejo com bons olhos. Acredito que falar sempre no assunto ajuda a dar mais visibilidade e inserir o futebol feminino como algo do cotidiano, aceito e incentivado. Quanto mais gente jogando, mais meninas se sentirão a vontade e motivadas e saberão em quem se espelhar para continuar. Há muitos passos ainda, o abismo para o masculino ainda é imenso, mas ainda assim tenho esperanças boas no futebol feminino. Sobre campeonatos: obviamente precisam de mais campeonatos para as meninas. Não gosto da idéia dos campeonatos mistos, mas é o que temos para hoje. Temos que ter uma modalidade desenvolvida o suficiente para que tenham o mínimo de times para disputar campeonatos. Até incentivar os pais e meninas/mulheres nesse sentido, para que hajam mais times e por consequência mais quórum para disputas.
Angélica Souza: Vejo com um futuro promissor, mas ainda carente de investimento e pessoas dispostas a investir e acreditar nas mulheres não só atletas, mas também como gestoras esportivas.
Maiara Beckrich: Vejo um futuro complicado, pois poucas ações efetivas e duradouras estão sendo tomadas atualmente para elevar o futebol feminino brasileiro a um lugar de desempenho de alto nível. Hoje em dia, é quase uma utopia uma garota pensar em seguir uma carreira no futebol, sabendo de todas as dificuldades que vai enfrentar no caminho. Sabemos de atletas que têm que manter um emprego a parte para conseguir se bancar no futebol, de atletas que ficam sem clube durante meses e depois tem que defender a seleção brasileira, totalmente fora de ritmo. Descaso dos clubes, falta de incentivo, uniformes que sobraram do masculino, falta de ambulância, luz e vestiário adequados quando têm jogo. Enfim, caso completo. Alguma coisa melhorou com a criação da Seleção Permanente e algumas outras iniciativas pontuais, mas infelizmente ainda é muito pouco e sabemos que essas medidas quase nunca duram por muito tempo. O pior é que sabemos que com um mínimo de investimento já se poderia avançar um mundo. Falta interesse. Acho que muito porque a ideia da mulher como protagonista de qualquer coisa que seja no país que a gente vive fere a lógica patriarcal na qual estamos inseridas.
Thais Picarte: Acredito que o futuro da mulher como profissional, de um modo geral é muito promissor. Mas caminhamos a passos muito curtos, representamos uma fatia muito grande da sociedade para seguir no anonimato. Merecemos e devemos assumir mais responsabilidades e posições de maior reconhecimento e respeito.
Ovelha: Deixe aqui o nome da associação em que você joga, do seu time, quem você gostaria de dar visibilidade, o que quiserem, de verdade!
Nayara Perone: Meu time chama Miga FC, é um time basicamente de meninas que treinam pouco mas querem estar lá jogando e se divertindo. Gostaria de citar a Copa Trifon Ivanov, a copa sem fins lucrativos da qual faço a organização do campeonato feminino (temos o masculino e o feminino) e onde conheci além de pessoas incríveis, meninas que nunca sequer tinham corrido com uma bola e hoje jogam semanalmente e fizeram grandes laços de amizade.
Angélica Souza:Dibradoras, não é onde jogo, mas é onde procuro dar visibilidade ao futebol feminino.
Maiara Beckrich: Gostaria de valorizar qualquer pessoa ou associação que faça esse trabalho de formiga que é dar visibilidade à questão do futebol feminino, mas tenho um carinho especial por duas. O Pelado Real, onde eu jogo, que eu acredito que se configurou como uma grande referência para a mulherada que quer jogar futebol, tenha o nível que tenha. É um trabalho sem precedentes que eu acredito ser essencial e maravilhoso. Também gostaria de ressaltar o trabalho das dibradoras, que em muito pouco tempo (mais ou menos desde a Copa do Mundo feminina do ano passado) conseguiu se transformar uma plataforma sensacional para tratar da questão de gênero dentro da esfera do esporte. Tenho muito orgulho de poder trabalhar com essas minas e sei que o caminho ainda é muito longo. Mas a gente não desiste. Ah, mas não desiste mesmo.
Thais Picarte: Jogo no São José Esporte Clube. E sou embaixadora do Guerreiras Project. Gostaria que falasse um pouco sobre nossos ideias.
Pois bem, agora estamos a menos de 7 dias das Olimpíadas (mas os jogos de futebol começam antes!) e por ser um evento que confere mundialmente todos os esportes, muito provavelmente o futebol feminino deva ser bem televisionado e bem transmitido. O que você me diz? Vou te apresentar aqui o nosso time brasileiro, a escalação para os jogos, o cronograma dos jogos, os grupos em que cada time caiu. Vamos acompanhar? A Ovelha pretende produzir um podcast depois dos jogos para conversarmos sobre os os jogos e os ~ impedimentos ~ de ser mulher e jogar futebol no Brasil e no mundo. Convidadas especiais serão chamadas para participar com a gente e esperamos que vocês curtam muito!
Nossa escalação para as Olimpíadas está assim:
Para vocês terem uma noção do sexismo envolvendo as instituições, no próprio site da C.B.F., há um trecho do treinador da seleção feminina, Vadão, que diz o seguinte:
Aos 58 anos, o experiente Vadão, como é conhecido, deixou uma carreira consolidada, em que pôde estimular o crescimento de jogadores como Rivaldo e revelar talentos como o de Kaká, para incentivar uma modalidade menos favorecida no país e dar o passo definitivo rumo à excelência tanto na Copa do Mundo Feminina da FIFA quanto no torneio olímpico.
[Essa boçalidade que você leu aí em cima se encontra aqui]
Quer dizer, enaltece o treinador por ter trabalhado em clubes masculinos e parece que ele é o bom samaritano por abrir mão dessa carreira para incentivar uma modalidade menos favorecida. Dá vontade de mandar pra aquele lugar? Dá sim, porém aquele lugar é bom, então realmente fica apenas minha indignação sobre esse trecho. Também quero estar atenta a comentários de narradores como “jogo bonito de se ver” fazendo alusão a estética corporal das mulheres ao invés do jogo em si. ESTAREMOS DE OLHO, VIU? Voltemos à programação normal.
Os grupos estão organizados dessa forma e nosso primeiro jogo é no dia 3 de agosto com a China. O futebol oriental é fortíssimo, já vamos estrear com desafios!
Para facilitar a nossa vida, também fizemos uma tabela com o cronograma dos jogos femininos da primeira fase. Assim não tem desculpa para não acompanhar, a não ser claro, o horário de trabalho. Mas, podemos pedir para os chefes liberarem uma televisãozinha por bens maiores, não é mesmo?
Para piorar o quadro das mulheres profissionais, ainda rolou essa notícia bombástica. CBF não cumpre promessa e deixa jogadoras sem carteira assinada e benefícios. Vocês podem imaginar que no masculino os caras nem ganham pra estar na seleção, é pelo prestígio? Mas as mulheres precisam sair de seus times no extrangeiro, que é onde pagam melhor (melhor, vulgo, conseguem se sustentar, mandar um dinheiro pra família, etc.), para vestirem a camisa canarinho e ainda assim não são levadas a sério. Há muita coisa pelo que lutarmos. Vamos acompanhar nossa seleção feminina, vamos dar valor e visibilidade a essas mulheres que já tem títulos melhores que craques masculinos.
Segue o jogo.
P.S.: Quero fazer um agradecimento às mulheres incríveis que concederam a entrevista e a Nadja Marin, uma das cabeças do Guerreira Project, que por ela, pude fazer as conexões! <3
Em uma reportagem num certo jornal de São Paulo, que prefiro não dar ibope (risos), tinha uma matéria sobre um time feminino, sub-14, Centro Olímpico. A matéria se referia ao time ter sido aceito para jogar o campeonato masculino chamado ~ Copa Moleque Travesso ~ e as meninas foram campeãs do campeonato. Fico triste em pensar que tiveram que ser aceitas para jogar porque não há muitos campeonatos para times femininos. De forma que, o que aconteceu com essas meninas nos estabeleceram dois pontos positivos. O primeiro, a visibilidade do problema em questão e o segundo, somos muito mais capazes do que a maioria imagina.
[caption id="attachment_11509" align="aligncenter" width="829"] Parabéns meninas do Centro Olímpico! <3[/caption]
Como a diferença física é bem grande, a gente propôs entrar com um time um ano mais velho e eles aceitaram, só uma equipe se opôs. A maioria dos times super apoiou a ideia, disse que tinha que permitir a integração das meninas” – Lucas Piccinato, técnico
Mas será que tamanho é documento? Sabemos de muitos jogadores homens e franzinos (forma estereotipada da qual enxergam uma mulher que seja jogadora de futebol) são considerados super craques.
Mas no fim é sempre isso, sempre segregam a mulher de forma que ela precise estar às margens quando há algo que homens façam majoritariamente (por causa de misoginia histórica). No futebol, há sempre uma falta de incentivo e essa história tem um porquê. Sabemos que o estereótipo da mulher é de ser dependente e frágil, e durante a ditadura, em 1964, foi deliberado: Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo, halterofilismo e beisebol”. Essas práticas foram proibidas com o propósito das mulheres não se debilitarem diante a maternidade, função que se considerava inerente a todas nós. Impressionantemente, essa decisão só foi anulada em ~ pasmem ~ 1981, e ainda assim a profissionalização não era possível. O futebol feminino já começou muito atrasado mas como contra cultura, transgressor, popular e não-elitista.
Falta competição feminina no Brasil. A gente tem dificuldades de achar torneios em todas as idades, ainda mais no sub-11, sub-13 e sub-15. Sempre acharam que entrar em torneios masculinos era uma desvantagem. Agora, a gente mostrou que não é. Tomara que no ano que vem nos permitam jogar de novo.” – jogadora do Campo Olímpico
O tempo passou e o Brasil continuou sendo o país do futebol (masculino). Por pior que sejam as condições de qualquer criança brasileira para se entrar e profissionalizar em qualquer esporte, e deixo claro meus recortes de cor e classe aqui, o espaço no futebol entre meninas/mulheres e meninos/homens, é abissal. Atualmente é muito difícil uma jogadora profissional conseguir um bom salário, a maioria das jogadoras da nossa seleção brasileira de futebol joga fora do país. Não só por prestígio, mas porque em outros lugares elas podem fazer uma carreira, uma profissão. Pouquíssimas jogadoras com bastante visibilidade, como nossa querida Marta e Formiga, podem ““““se dar o luxo”””” de jogarem no Brasil.
[caption id="attachment_11528" align="aligncenter" width="2000"] Projeto Guerreiras, 2014. Photo: Daniel Kfouri[/caption]
Ano passado aconteceu a Copa do Mundo de futebol feminino. Você ficou sabendo? Você soube qual emissora cobriria os jogos? Quem ganhou? Pois é, a maioria não soube, e quem estava ligado, não tinha onde assistir porque foi muito pouco falado, divulgado e transmitido. De forma que, a Copa do Mundo ano passado foi no Canadá, e ainda assim, mesmos sendo um evento enorme, não deram campo de grama para as mulheres jogarem. Elas tiveram que jogar todos os jogos em campo sintético. Você deve se perguntar o que tem a ver, certo? Pode deixar que eu te mostro:
[caption id="attachment_11613" align="aligncenter" width="500"] a norte-americana Sydney Leroux e a australiana Samantha Kerr publicaram fotos de arranhões e queimaduras causados pela grama sintética[/caption]
Para muito além de canelas roxas e pernas queimadas, a atleta Caitlin Fisher destaca a importância da problematização. A questão pode parecer inocente, mas é cheia de machismo e questões de inferiorização do gênero feminino no esporte. O texto abaixo foi originalmente publicado pela Al Jazeera EUA e adaptado para o site Donna:
“No dia 21 de janeiro de 2015 um grupo de mais de 40 jogadoras de futebol abriu um processo de discriminação de gênero contra a FIFA e a Associação Canadense de Futebol. A queixa fora apresentada em outubro do ano anterior, e se opunha à decisão de realizar a Copa do Mundo de Futebol Feminino em gramado sintético, não natural. O campeonato masculino nunca foi jogado em gramado artificial. Mas o simbolismo de oferecer um gramado inferior para atletas do sexo feminino é mais profundo do que o que ocorre na superfície de um campo de futebol. Ao realizar a Copa do Mundo de Futebol Feminino em campos inferiores, a instituição responsável pelo rumo da modalidade reforça uma mensagem que vem sendo enviada para atletas mulheres há anos: o seu jogo é de segunda classe. Esta é a mesma mensagem subliminar enviada para meninas e mulheres em todos os lugares, todos os dias: ‘vocês merecem menos’. Ainda mais prejudicialmente, torcedores, administradores, familiares, treinadores e professores parecem estar confortáveis com o fato de as mulheres ficarem com menos. Aceitar que as mulheres devem jogar em campos precários é o mesmo que aceitar a diferença salarial entre gêneros.”
Nasceu no Brasil, um projeto incrível chamado Guerreiras Project. Formado por mulheres brasileiras e gringas. O projeto tem a incrível função de tratar sobre a desigualdade de gênero trazendo o futebol como ferramenta principal e prática. As mulheres atuam desde 2010 e começaram a fazer documentários maravilhosos sobre como era ser uma jogadora de futebol em um país em que homens são jogadores. Além de atuar fisicamente em comunidades e outras incríveis intervenções. Deixo aqui um dos vídeos incríveis, da nossa queridinha, Formiga:
Por meio deste incrível projeto, entrei em contato com as organizadoras que me concederam contatos de jogadoras amadoras e profissionais (além de fotos incríveis) para realizarem uma pequena entrevista. Assim podemos dar lugar de fala pra quem realmente vive na pele o dia a dia de ser uma jogadora de futebol, segue pequena entrevista:
Ovelha: Qual seu nome, idade e de que estado vocês são?
R: Nayara Perone – São Paulo, SP – 29 anos. Angélica Souza, 3 anos, São Paulo. Maiara Beckrich, 28 anos, SP. Thais Picarte, São Paulo.
Ovelha: Com quantos anos começaram a jogar futebol?
Nayara Perone: Comecei aos 26 anos treinando diariamente, na escola era só de vez em quando.
Angélica Souza: Não sei precisar, talvez com 5 ou 6 anos.
Maiara Beckrich: Não me lembro de antes de jogar futebol (risos).
Thais Picarte: Comecei a jogar de forma mais organizada em um clube onde era associada, em Santo André, minha cidade natal. Tinha 10 anos e até então só havia jogado com meninos na escola, na rua.
Ovelha: Jogam amadora ou profissionalmente? Qual é a frequência dos treinos?
Nayara Perone: Amadora, jogo pelo menos 1 vez por semana.
Angélica Souza: Amadora. Hoje, uma vez por mês.
Maiara Beckrich: Amadora, estou parada agora devido a uma lesão, mas costumo jogar duas vezes por semana.
Thais Picarte: Sou atetla profissional de futebol há mais de quinze anos. Treino cinco dias na semana, os dois períosos, temos um ou dois jogos na semana e geralmente um dia de folga.
Ovelha: Quais os piores obstáculos, se é que tiveram, para que pudessem jogar futebol?
Nayara Perone: Ensino. Lá só era permitido meninos jogarem futebol, meninas tinham que jogar vôlei ou queimada. As meninas que jogavam ouviam todo tipo de absurdo, eram constantemente ridicularizadas e ofendidas. Os professores nunca tiveram iniciativa de ensinar.
Angélica Souza: Encontrar um grupo exclusivamente feminino. Mas com o Pelado Real, o obstáculo foi superado.
Maiara Beckrich: Falta de lugar para jogar com outras meninas sempre foi o principal. Além é claro do machismo de homens que assediam a gente enquanto a gente joga. Ou tiram onda, desestimulando a prática do esporte, dizendo que a gente não sabe jogar ou não deveria estar ali.
Thais Picarte: A falta de recursos financeiros e de estrutura dos clubes. Normalmente, esta é a maior dificuldade para meninas que sonham em viver do futebol.
Ovelha: Qual foi a pior coisa que ouviram por ser mulher e jogar futebol? E a melhor?
Nayara Perone: A pior coisa é diária: homem mexendo, enchendo do lado de fora da quadra, coisas como “futebol é coisa de homem” e etc. A melhor foi recentemente, quando um amigo mudou um artigo para “22 pessoas correndo atrás de uma bola” em vez de “22 homens” pq disse que sempre lembra que eu falo bastante do futebol feminino.
Angélica Souza: Pior: Isso não é esporte para mulher, por isso você se machuca tanto (do meu ortopedista). Melhor: Vocês são mulheres à frente do seu tempo.
Maiara Beckrich: Difícil dizer qual foi a pior coisa. No meu caso é uma somatória de pequenas opressões pelas quais passei durante toda a vida que, inclusive, às vezes vêm disfarçadas de elogios. Como: “nossa, joga melhor do que muito menino.” Ou quando os homens acham qualquer coisa que você faz o máximo, por ser incrível na cabeça deles pensar que uma mulher consegue fazer alguma coisa bem (ainda mais uma coisa do universo pretensamente masculino).
Thais Picarte: A pior é sempre a associação preconceituosa que fazem, entre a opção esportiva e sua sexualidade. Em nosso país, as mulheres são subestimadas e sofrem coma desigualdade em diversas áreas. E quanto a melhor, quando eu comecei a jogar no clube, o pai de uma amiga me pediu um autógrafo e me disse que um dia ele iria valer muito, que eu seria uma grande goleira e que chegaria a seleção. Nunca esqueci aquele meu primeiro autógrafo e realmente cheguei a seleção e sou reconhecida na minha modalidade.
Ovelha: Vocês trabalham exclusivamente com futebol ou tem outro emprego? Se sim, qual?
Nayara Perone: Sou webdesigner, o futebol é meu hobbie. Tenho um time fixo, bem iniciante que joga campeonatos amadores e organizo um campeonato para meninas de todos os níveis, mas principalmente as que nunca jogaram e decidiram começar a jogar por causa dele.
Angélica Souza: Eu trabalho em uma agência de content marketing na área de esporte. O dibradoras é um projeto que toco paralelamente.
Maiara Beckrich: Eu colaboro com o Dibradoras, página que busca dar visibilidade para o futebol feminino, mas também trata de qualquer esporte onde hajam mulheres resistindo e praticando, apesar de todas as dificuldades. Mas não vivo disso, trabalho com mídia.
Thais Picarte: Trabalho somente com futebol, tenho a sorte de trabalhar em um clube que me dá o respaldo financeiro para que eu possa viver do futebol.
Ovelha: Como você vê o futuro do futebol feminino?
Nayara Perone: Vejo com bons olhos. Acredito que falar sempre no assunto ajuda a dar mais visibilidade e inserir o futebol feminino como algo do cotidiano, aceito e incentivado. Quanto mais gente jogando, mais meninas se sentirão a vontade e motivadas e saberão em quem se espelhar para continuar. Há muitos passos ainda, o abismo para o masculino ainda é imenso, mas ainda assim tenho esperanças boas no futebol feminino. Sobre campeonatos: obviamente precisam de mais campeonatos para as meninas. Não gosto da idéia dos campeonatos mistos, mas é o que temos para hoje. Temos que ter uma modalidade desenvolvida o suficiente para que tenham o mínimo de times para disputar campeonatos. Até incentivar os pais e meninas/mulheres nesse sentido, para que hajam mais times e por consequência mais quórum para disputas.
Angélica Souza: Vejo com um futuro promissor, mas ainda carente de investimento e pessoas dispostas a investir e acreditar nas mulheres não só atletas, mas também como gestoras esportivas.
Maiara Beckrich: Vejo um futuro complicado, pois poucas ações efetivas e duradouras estão sendo tomadas atualmente para elevar o futebol feminino brasileiro a um lugar de desempenho de alto nível. Hoje em dia, é quase uma utopia uma garota pensar em seguir uma carreira no futebol, sabendo de todas as dificuldades que vai enfrentar no caminho. Sabemos de atletas que têm que manter um emprego a parte para conseguir se bancar no futebol, de atletas que ficam sem clube durante meses e depois tem que defender a seleção brasileira, totalmente fora de ritmo. Descaso dos clubes, falta de incentivo, uniformes que sobraram do masculino, falta de ambulância, luz e vestiário adequados quando têm jogo. Enfim, caso completo. Alguma coisa melhorou com a criação da Seleção Permanente e algumas outras iniciativas pontuais, mas infelizmente ainda é muito pouco e sabemos que essas medidas quase nunca duram por muito tempo. O pior é que sabemos que com um mínimo de investimento já se poderia avançar um mundo. Falta interesse. Acho que muito porque a ideia da mulher como protagonista de qualquer coisa que seja no país que a gente vive fere a lógica patriarcal na qual estamos inseridas.
Thais Picarte: Acredito que o futuro da mulher como profissional, de um modo geral é muito promissor. Mas caminhamos a passos muito curtos, representamos uma fatia muito grande da sociedade para seguir no anonimato. Merecemos e devemos assumir mais responsabilidades e posições de maior reconhecimento e respeito.
Ovelha: Deixe aqui o nome da associação em que você joga, do seu time, quem você gostaria de dar visibilidade, o que quiserem, de verdade!
Nayara Perone: Meu time chama Miga FC, é um time basicamente de meninas que treinam pouco mas querem estar lá jogando e se divertindo. Gostaria de citar a Copa Trifon Ivanov, a copa sem fins lucrativos da qual faço a organização do campeonato feminino (temos o masculino e o feminino) e onde conheci além de pessoas incríveis, meninas que nunca sequer tinham corrido com uma bola e hoje jogam semanalmente e fizeram grandes laços de amizade.
Angélica Souza:Dibradoras, não é onde jogo, mas é onde procuro dar visibilidade ao futebol feminino.
Maiara Beckrich: Gostaria de valorizar qualquer pessoa ou associação que faça esse trabalho de formiga que é dar visibilidade à questão do futebol feminino, mas tenho um carinho especial por duas. O Pelado Real, onde eu jogo, que eu acredito que se configurou como uma grande referência para a mulherada que quer jogar futebol, tenha o nível que tenha. É um trabalho sem precedentes que eu acredito ser essencial e maravilhoso. Também gostaria de ressaltar o trabalho das dibradoras, que em muito pouco tempo (mais ou menos desde a Copa do Mundo feminina do ano passado) conseguiu se transformar uma plataforma sensacional para tratar da questão de gênero dentro da esfera do esporte. Tenho muito orgulho de poder trabalhar com essas minas e sei que o caminho ainda é muito longo. Mas a gente não desiste. Ah, mas não desiste mesmo.
Thais Picarte: Jogo no São José Esporte Clube. E sou embaixadora do Guerreiras Project. Gostaria que falasse um pouco sobre nossos ideias.
[caption id="attachment_11526" align="aligncenter" width="2000"] Projeto Guerreiras, 2014. Foto de Daniel Kfouri.[/caption]
Pois bem, agora estamos a menos de 7 dias das Olimpíadas (mas os jogos de futebol começam antes!) e por ser um evento que confere mundialmente todos os esportes, muito provavelmente o futebol feminino deva ser bem televisionado e bem transmitido. O que você me diz? Vou te apresentar aqui o nosso time brasileiro, a escalação para os jogos, o cronograma dos jogos, os grupos em que cada time caiu. Vamos acompanhar? A Ovelha pretende produzir um podcast depois dos jogos para conversarmos sobre os os jogos e os ~ impedimentos ~ de ser mulher e jogar futebol no Brasil e no mundo. Convidadas especiais serão chamadas para participar com a gente e esperamos que vocês curtam muito!
Nossa escalação para as Olimpíadas está assim:
Para vocês terem uma noção do sexismo envolvendo as instituições, no próprio site da C.B.F., há um trecho do treinador da seleção feminina, Vadão, que diz o seguinte:
Aos 58 anos, o experiente Vadão, como é conhecido, deixou uma carreira consolidada, em que pôde estimular o crescimento de jogadores como Rivaldo e revelar talentos como o de Kaká, para incentivar uma modalidade menos favorecida no país e dar o passo definitivo rumo à excelência tanto na Copa do Mundo Feminina da FIFA quanto no torneio olímpico.
[Essa boçalidade que você leu aí em cima se encontra aqui]
Quer dizer, enaltece o treinador por ter trabalhado em clubes masculinos e parece que ele é o bom samaritano por abrir mão dessa carreira para incentivar uma modalidade menos favorecida. Dá vontade de mandar pra aquele lugar? Dá sim, porém aquele lugar é bom, então realmente fica apenas minha indignação sobre esse trecho. Também quero estar atenta a comentários de narradores como “jogo bonito de se ver” fazendo alusão a estética corporal das mulheres ao invés do jogo em si. ESTAREMOS DE OLHO, VIU? Voltemos à programação normal.
Os grupos estão organizados dessa forma e nosso primeiro jogo é no dia 3 de agosto com a China. O futebol oriental é fortíssimo, já vamos estrear com desafios!
Para facilitar a nossa vida, também fizemos uma tabela com o cronograma dos jogos femininos da primeira fase. Assim não tem desculpa para não acompanhar, a não ser claro, o horário de trabalho. Mas, podemos pedir para os chefes liberarem uma televisãozinha por bens maiores, não é mesmo?
[caption id="attachment_11608" align="aligncenter" width="1089"] Clica na imagem para ver maior (;[/caption]
Para piorar o quadro das mulheres profissionais, ainda rolou essa notícia bombástica. CBF não cumpre promessa e deixa jogadoras sem carteira assinada e benefícios. Vocês podem imaginar que no masculino os caras nem ganham pra estar na seleção, é pelo prestígio? Mas as mulheres precisam sair de seus times no extrangeiro, que é onde pagam melhor (melhor, vulgo, conseguem se sustentar, mandar um dinheiro pra família, etc.), para vestirem a camisa canarinho e ainda assim não são levadas a sério. Há muita coisa pelo que lutarmos. Vamos acompanhar nossa seleção feminina, vamos dar valor e visibilidade a essas mulheres que já tem títulos melhores que craques masculinos.
Segue o jogo.
P.S.: Quero fazer um agradecimento às mulheres incríveis que concederam a entrevista e a Nadja Marin, uma das cabeças do Guerreira Project, que por ela, pude fazer as conexões! <3
Achei necessário escrever um texto sobre minha experiência com essa crise de ansiedade que tem assolado muitas pessoas. Muitos amigos vêm me perguntar sobre ela, apelidei ‘carinhosamente’ de orgasmo do terror. Porque chega devagar, tem um ápice horroso e quando acaba te deixa esgotadx. Mas vamos lá, é terror sem susto, prometo. Haha!
Há três anos e meio, tomei uma grande decisão, me mudaria de volta para a cidade em que nasci depois de viver 16 anos em São Paulo. Havia tomado uma outra grande decisão, sair do mercado da publicidade de vez, mercado esse que me deixava extremamente estressada, frustrada, desmotivada com a vida, seres humanos, futuro, passado, fauna e flora (tema pra outro texto).
Cheguei então no Rio de Janeiro (uhúuuu), eu e meu namorado decidimos morar juntos e eu fui trabalhar num albergue pra dar uma desintoxicada da publicidade. Seis meses depois, arranjei alguns clientes e fiquei trabalhando como designer freelancer, mas como eu havia pegado coisas que pagavam pouco de muita gente, eu trabalhava muito, muito mesmo, e não tinha tempo pra mais nada, comia mal, dormia mal, o aluguel era muito alto e eu ia dormir fazendo contas.
Um belo dia, eu estava me sentindo super estranha na frente do computador, mas continuei trabalhando normal, o Ivan (meu companheiro) me chamou pra comer alguma coisa na lanchonete que tinha embaixo do nosso prédio e lá fomos nós. Assim que eu dei a última mordida no meu sanduíche, bateu uma sensação muito forte de que eu fosse desmaiar, começou um formigamento nas mãos, nos pés, taquicardia, eu coloquei sal na boca achando que fosse pressão baixa, uma tremedeira que não passava, levantei, joguei água no rosto e não passava, era uma sensação de que eu ir ter um treco, um desmaio, um derrame, uma sensação horrorosa da qual eu fui tomada por medo, muito medo.
Ivan perguntou se eu queria ir pro hospital e eu disse que sim, achei que eu pudesse estar tendo um pré-ataque-de-alguma-coisa que eu não sabia explicar. Minha sogra demorou um pouco, mas acabou nos levando num hospital que eu era segurada na época. Fui atendida por uma médica super simpática que mediu minha pressão e disse que todos os sinais vitais estavam perfeitos, não havia com o que eu me preocupar. Eu pensei estar ficando maluca, saí do hospital e cheguei em casa num estado completamente esgotado, de como se o corpo tivesse ficado tão tenso por um tempo que agora eu não tinha forças pra mais nada. Resolvi não contar nada pro meu pai porque ele ainda morava e mora em São Paulo, eu não queria deixar ele alarmado com alguma coisa que não tinha nem nome ainda!
Os dias seguintes foram de um pouco de medo, medo de não saber o que tinha acontecido, medo de acontecer de novo, de não saber o porquê tinha acontecido, mas os dias foram passando e eu voltei normalmente à minha rotina ~ da pesada. Na semana seguinte a esse episódio, eu comecei a me sentir estranha da mesma forma que eu tinha estado no dia do primeiro piripaque, essa sensação é difícil de expor, é uma sensação da qual parece que você está desconfortável dentro de você mesma, tem alguma coisa de errado e você sabe. Eu estava trabalhando na frente do computador quando e comecei a sentir a sensação chegando, achei melhor então interromper e ir dormir (já era tarde, na madruga boladona). Desliguei o computador, escovei os dentes e deitei.
Perguntei pro Ivan: “Amor, você sabe o número do SAMU? É 192, tá? Caso aconteça alguma coisa comigo.”
Eu não queria assustar ele, mas como eu senti a parada chegando e já era tarde, achei melhor avisar. Acho que não deu nem 5 segundos depois que eu fiz a pergunta e um novo piripaque começou. Foi bem intenso, eu pedia socorro, achava que ia morrer, as mãos e os pés estavam novamente formigando e suando a taquicardia muito forte, a cabeça parecia que ia explodir, e eu não desmaiava, meu corpo não desligava, eu não sabia o que estava acontecendo, Ivan ficou desesperado sem saber muito o que fazer. E lá fomos nós para o hospital mais uma vez. Dessa vez fui atendida por um homem que estava um pouco impaciente (pregs), era de madrugada, viu meus sinais vitais e me disse que estavam perfeitos e queria me dar um calmante, mas eu não estava nervosa, fiquei ofendida e quis voltar pra casa. Mais uma vez, a sensação de desgate completo, exaustão.
Eu estava com medo. Eu queria um diagnóstico e não um remédio pra dormir.
Resolvi então ligar para o meu pai para dizer que alguma coisa estava acontecendo e eu não sabia o que era. Já tinham acontecido dois piripaques comigo e pelo visto eu tinha alguma coisa que não sabia o que era. Achei que eu pudesse chegar com um diagnóstico, mas infelizmente não tinha nenhum. Liguei e abri o jogo, contei o que tinha acontecido, contei que já tinha acontecido antes quando meu pai, após uma pausa dramática me falou:
“Filha, o que você tem é Síndrome do Pânico, convivo com isso desde os meus 28 anos. Estou indo para o Rio agora para te ajudar, mas fique tranquila que é possível viver numa boa com isso, eu vou te ajudar a passar por isso.”
Me senti uma completa ignorante. Como meu pai tem isso desde antes de eu nascer e eu não tinha ideia do que era ou melhor, de como era? Eu tinha uma imagem na minha cabeça dessa Síndrome de que era uma pessoa que tinha medo de sair de casa, que ficasse num canto com medo, eu não sabia que era assim! Quanta falta de informação, imagina quanta coisa a gente pinta na nossa cabeça por pura ignorância. Mas porra, bota no google imagens ‘síndrome do pânico’ pra vocês verem o que aparece! Hahaha.
Meu pai chegou no Rio e me confortou muito, me ensinou algumas técnicas de respiração para interromper a evolução do piripaque, que agora eu chamava de crise, me falou da importância de começar a fazer terapia, de ir a um médico pra saber de eu precisaria tomar remédios ou não. Me deixou tranquila, disse que no começo seria difícil mas que as coisas iriam se normalizar. E se normalizaram mesmo.
☻ Não há um perfil exato de pessoas com pânico, não tem um porquê exato dele se manifestar, podem ser muitos fatores, traumas, estresse, mudanças bruscas, situações, é muito importante procurar tratamento, fazer terapia, pra que possamos entender a causa das crises e aprender a lidar melhor com isso.
☻ O nosso corpo tem muitas válvulas de escape, nós somatizamos, nós temos gastrites nervosas e temos crises de ansiedade. A Síndrome do Pânico nada mais é quando o nosso corpo vai acumulando adrenalina e de repente tem uma descarga muito forte dela, seja onde você estiver. É como se naturalmente fossemos acumulando um copinho de adrenalina no cérebro e a crise é quando esse copinho entorna e vaza. Quando isso acontece, os sintomas são de morte iminente, sudorese, palpitações, taquicardia, pressão na cabeça, falta de ar, tontura, náusea, formigamento, tremedeira, etc. :( Basicamente você acha que vai ter um treco. Acha não, você tem certeza de que vai ter um treco.
☻ O esgotamento que sentimos depois das crises é por causa da tensão em que o corpo se mantém durante, é um exercício físico e mental muito pesado.
☻ Meu pai me passou uma série de respirações que relaxam os músculos do corpo e eu consegui interromper todas as futuras crises, só experienciando o princípio da crise, isso até hoje. Resumidamente, no começo, ele pedia pra que eu deitasse no chão e respirasse em tempos, aspira em 3 tempos e expira em 6, fazendo com que mais ar saia do seu corpo. Por que no chão? Porque você consegue sentir o seu corpo tensionado e consegue concentrar onde tem que relaxar, se você está num colchão macio é mais difícil de perceber os músculos tensionados.
☻ Eu escolhi não tomar remédio porque eu pude escolher, mas por favor, não se enganem, eu consegui interromper o ciclo do medo, mas mudei completamente a minha rotina, passei a ter hora pra acordar, pra trabalhar, pra comer, comia mais saudável, parei de beber por um tempo, praticava esportes, comecei a fazer yoga e terapia. Mas ainda assim tem gente que precisa sim tomar remédio pra que isso aconteça, então por favor, vá num médico de confiança, e se não tiver um, como é o meu caso, vá em mais de um até se sentir confortável com alguém que acredite em você, te entenda e queira te ajudar.
☻ Não seja duro com você mesmo, demorei mais de seis meses pra poder me sentir um pouco segura de fazer as coisas normais de novo, demora um pouco mas é de pessoa pra pessoa. Acredite que você pode ser uma pessoa completamente normal e conviver com a Síndrome. Eu ainda tenho alguns princípios de crise, mas nunca mais tive nenhuma crise. Conheço muitas pessoas que nunca mais tiveram nem princípio de crise, então acredite, podemos sair dessa! :)
É isso, galeura. Coloquei muitos gifs pra tentar passar a informação de forma mais bem humorada possível mesmo sabendo que é um assunto delicado. Gosto de lidar com meus problemas dessa forma, me ajuda a tornar as experiências mais leves. Espero que essa minha experiência possa servir de ajuda pra alguém. Se ainda precisarem saber alguma coisa, podem deixar comentários que eu vou ter o maior prazer de ajudar, se for possível. Beixota. ♡
jornal de São Paulo, que prefiro não dar ibope (risos), tinha uma matéria sobre um time feminino, sub-14, Centro Olímpico. A matéria se referia ao time ter sido aceito para jogar o campeonato masculino chamado ~ Copa Moleque Travesso ~ e as meninas foram campeãs do campeonato. Fico triste em pensar que tiveram que ser aceitas para jogar porque não há muitos campeonatos para times femininos. De forma que, o que aconteceu com essas meninas nos estabeleceram dois pontos positivos. O primeiro, a visibilidade do problema em questão e o segundo, somos muito mais capazes do que a maioria imagina.
Como a diferença física é bem grande, a gente propôs entrar com um time um ano mais velho e eles aceitaram, só uma equipe se opôs. A maioria dos times super apoiou a ideia, disse que tinha que permitir a integração das meninas” – Lucas Piccinato, técnico
Mas será que tamanho é documento? Sabemos de muitos jogadores homens e franzinos (forma estereotipada da qual enxergam uma mulher que seja jogadora de futebol) são considerados super craques.
Mas no fim é sempre isso, sempre segregam a mulher de forma que ela precise estar às margens quando há algo que homens façam majoritariamente (por causa de misoginia histórica). No futebol, há sempre uma falta de incentivo e essa história tem um porquê. Sabemos que o estereótipo da mulher é de ser dependente e frágil, e durante a ditadura, em 1964, foi deliberado: Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo, halterofilismo e beisebol”
. Essas práticas foram proibidas com o propósito das mulheres não se debilitarem diante a maternidade, função que se considerava inerente a todas nós. Impressionantemente, essa decisão só foi anulada em ~ pasmem ~ 1981, e ainda assim a profissionalização não era possível. O futebol feminino já começou muito atrasado mas como contra cultura, transgressor, popular e não-elitista.
Falta competição feminina no Brasil. A gente tem dificuldades de achar torneios em todas as idades, ainda mais no sub-11, sub-13 e sub-15. Sempre acharam que entrar em torneios masculinos era uma desvantagem. Agora, a gente mostrou que não é. Tomara que no ano que vem nos permitam jogar de novo.” – jogadora do Campo Olímpico
O tempo passou e o Brasil continuou sendo o país do futebol (masculino). Por pior que sejam as condições de qualquer criança brasileira para se entrar e profissionalizar em qualquer esporte, e deixo claro meus recortes de cor e classe aqui, o espaço no futebol entre meninas/mulheres e meninos/homens, é abissal. Atualmente é muito difícil uma jogadora profissional conseguir um bom salário, a maioria das jogadoras da nossa seleção brasileira de futebol joga fora do país. Não só por prestígio, mas porque em outros lugares elas podem fazer uma carreira, uma profissão. Pouquíssimas jogadoras com bastante visibilidade, como nossa querida Marta e Formiga, podem ““““se dar o luxo”””” de jogarem no Brasil.
Ano passado aconteceu a Copa do Mundo de futebol feminino. Você ficou sabendo? Você soube qual emissora cobriria os jogos? Quem ganhou? Pois é, a maioria não soube, e quem estava ligado, não tinha onde assistir porque foi muito pouco falado, divulgado e transmitido. De forma que, a Copa do Mundo ano passado foi no Canadá, e ainda assim, mesmos sendo um evento enorme, não deram campo de grama para as mulheres jogarem. Elas tiveram que jogar todos os jogos em campo sintético. Você deve se perguntar o que tem a ver, certo? Pode deixar que eu te mostro:
Para muito além de canelas roxas e pernas queimadas, a atleta Caitlin Fisher destaca a importância da problematização. A questão pode parecer inocente, mas é cheia de machismo e questões de inferiorização do gênero feminino no esporte. O texto abaixo foi originalmente publicado pela Al Jazeera EUA e adaptado para o site Donna:
“No dia 21 de janeiro de 2015 um grupo de mais de 40 jogadoras de futebol abriu um processo de discriminação de gênero contra a FIFA e a Associação Canadense de Futebol. A queixa fora apresentada em outubro do ano anterior, e se opunha à decisão de realizar a Copa do Mundo de Futebol Feminino em gramado sintético, não natural. O campeonato masculino nunca foi jogado em gramado artificial. Mas o simbolismo de oferecer um gramado inferior para atletas do sexo feminino é mais profundo do que o que ocorre na superfície de um campo de futebol. Ao realizar a Copa do Mundo de Futebol Feminino em campos inferiores, a instituição responsável pelo rumo da modalidade reforça uma mensagem que vem sendo enviada para atletas mulheres há anos: o seu jogo é de segunda classe. Esta é a mesma mensagem subliminar enviada para meninas e mulheres em todos os lugares, todos os dias: ‘vocês merecem menos’. Ainda mais prejudicialmente, torcedores, administradores, familiares, treinadores e professores parecem estar confortáveis com o fato de as mulheres ficarem com menos. Aceitar que as mulheres devem jogar em campos precários é o mesmo que aceitar a diferença salarial entre gêneros.”
Nasceu no Brasil, um projeto incrível chamado Guerreiras Project. Formado por mulheres brasileiras e gringas. O projeto tem a incrível função de tratar sobre a desigualdade de gênero trazendo o futebol como ferramenta principal e prática. As mulheres atuam desde 2010 e começaram a fazer documentários maravilhosos sobre como era ser uma jogadora de futebol em um país em que homens são jogadores. Além de atuar fisicamente em comunidades e outras incríveis intervenções. Deixo aqui um dos vídeos incríveis, da nossa queridinha, Formiga:
Por meio deste incrível projeto, entrei em contato com as organizadoras que me concederam contatos de jogadoras amadoras e profissionais (além de fotos incríveis) para realizarem uma pequena entrevista. Assim podemos dar lugar de fala pra quem realmente vive na pele o dia a dia de ser uma jogadora de futebol, segue pequena entrevista:
Ovelha: Qual seu nome, idade e de que estado vocês são?
R: Nayara Perone – São Paulo, SP – 29 anos. Angélica Souza, 3 anos, São Paulo. Maiara Beckrich, 28 anos, SP. Thais Picarte, São Paulo.
Ovelha: Com quantos anos começaram a jogar futebol?
Nayara Perone: Comecei aos 26 anos treinando diariamente, na escola era só de vez em quando.
Angélica Souza: Não sei precisar, talvez com 5 ou 6 anos.
Maiara Beckrich: Não me lembro de antes de jogar futebol (risos).
Thais Picarte: Comecei a jogar de forma mais organizada em um clube onde era associada, em Santo André, minha cidade natal. Tinha 10 anos e até então só havia jogado com meninos na escola, na rua.
Ovelha: Jogam amadora ou profissionalmente? Qual é a frequência dos treinos?
Nayara Perone: Amadora, jogo pelo menos 1 vez por semana.
Angélica Souza: Amadora. Hoje, uma vez por mês.
Maiara Beckrich: Amadora, estou parada agora devido a uma lesão, mas costumo jogar duas vezes por semana.
Thais Picarte: Sou atetla profissional de futebol há mais de quinze anos. Treino cinco dias na semana, os dois períosos, temos um ou dois jogos na semana e geralmente um dia de folga.
Ovelha: Quais os piores obstáculos, se é que tiveram, para que pudessem jogar futebol?
Nayara Perone: Ensino. Lá só era permitido meninos jogarem futebol, meninas tinham que jogar vôlei ou queimada. As meninas que jogavam ouviam todo tipo de absurdo, eram constantemente ridicularizadas e ofendidas. Os professores nunca tiveram iniciativa de ensinar.
Angélica Souza: Encontrar um grupo exclusivamente feminino. Mas com o Pelado Real, o obstáculo foi superado.
Maiara Beckrich: Falta de lugar para jogar com outras meninas sempre foi o principal. Além é claro do machismo de homens que assediam a gente enquanto a gente joga. Ou tiram onda, desestimulando a prática do esporte, dizendo que a gente não sabe jogar ou não deveria estar ali.
Thais Picarte: A falta de recursos financeiros e de estrutura dos clubes. Normalmente, esta é a maior dificuldade para meninas que sonham em viver do futebol.
Ovelha: Qual foi a pior coisa que ouviram por ser mulher e jogar futebol? E a melhor?
Nayara Perone: A pior coisa é diária: homem mexendo, enchendo do lado de fora da quadra, coisas como “futebol é coisa de homem” e etc. A melhor foi recentemente, quando um amigo mudou um artigo para “22 pessoas correndo atrás de uma bola” em vez de “22 homens” pq disse que sempre lembra que eu falo bastante do futebol feminino.
Angélica Souza: Pior: Isso não é esporte para mulher, por isso você se machuca tanto (do meu ortopedista). Melhor: Vocês são mulheres à frente do seu tempo.
Maiara Beckrich: Difícil dizer qual foi a pior coisa. No meu caso é uma somatória de pequenas opressões pelas quais passei durante toda a vida que, inclusive, às vezes vêm disfarçadas de elogios. Como: “nossa, joga melhor do que muito menino.” Ou quando os homens acham qualquer coisa que você faz o máximo, por ser incrível na cabeça deles pensar que uma mulher consegue fazer alguma coisa bem (ainda mais uma coisa do universo pretensamente masculino).
Thais Picarte: A pior é sempre a associação preconceituosa que fazem, entre a opção esportiva e sua sexualidade. Em nosso país, as mulheres são subestimadas e sofrem coma desigualdade em diversas áreas. E quanto a melhor, quando eu comecei a jogar no clube, o pai de uma amiga me pediu um autógrafo e me disse que um dia ele iria valer muito, que eu seria uma grande goleira e que chegaria a seleção. Nunca esqueci aquele meu primeiro autógrafo e realmente cheguei a seleção e sou reconhecida na minha modalidade.
Ovelha: Vocês trabalham exclusivamente com futebol ou tem outro emprego? Se sim, qual?
Nayara Perone: Sou webdesigner, o futebol é meu hobbie. Tenho um time fixo, bem iniciante que joga campeonatos amadores e organizo um campeonato para meninas de todos os níveis, mas principalmente as que nunca jogaram e decidiram começar a jogar por causa dele.
Angélica Souza: Eu trabalho em uma agência de content marketing na área de esporte. O dibradoras é um projeto que toco paralelamente.
Maiara Beckrich: Eu colaboro com o Dibradoras, página que busca dar visibilidade para o futebol feminino, mas também trata de qualquer esporte onde hajam mulheres resistindo e praticando, apesar de todas as dificuldades. Mas não vivo disso, trabalho com mídia.
Thais Picarte: Trabalho somente com futebol, tenho a sorte de trabalhar em um clube que me dá o respaldo financeiro para que eu possa viver do futebol.
Ovelha: Como você vê o futuro do futebol feminino?
Nayara Perone: Vejo com bons olhos. Acredito que falar sempre no assunto ajuda a dar mais visibilidade e inserir o futebol feminino como algo do cotidiano, aceito e incentivado. Quanto mais gente jogando, mais meninas se sentirão a vontade e motivadas e saberão em quem se espelhar para continuar. Há muitos passos ainda, o abismo para o masculino ainda é imenso, mas ainda assim tenho esperanças boas no futebol feminino. Sobre campeonatos: obviamente precisam de mais campeonatos para as meninas. Não gosto da idéia dos campeonatos mistos, mas é o que temos para hoje. Temos que ter uma modalidade desenvolvida o suficiente para que tenham o mínimo de times para disputar campeonatos. Até incentivar os pais e meninas/mulheres nesse sentido, para que hajam mais times e por consequência mais quórum para disputas.
Angélica Souza: Vejo com um futuro promissor, mas ainda carente de investimento e pessoas dispostas a investir e acreditar nas mulheres não só atletas, mas também como gestoras esportivas.
Maiara Beckrich: Vejo um futuro complicado, pois poucas ações efetivas e duradouras estão sendo tomadas atualmente para elevar o futebol feminino brasileiro a um lugar de desempenho de alto nível. Hoje em dia, é quase uma utopia uma garota pensar em seguir uma carreira no futebol, sabendo de todas as dificuldades que vai enfrentar no caminho. Sabemos de atletas que têm que manter um emprego a parte para conseguir se bancar no futebol, de atletas que ficam sem clube durante meses e depois tem que defender a seleção brasileira, totalmente fora de ritmo. Descaso dos clubes, falta de incentivo, uniformes que sobraram do masculino, falta de ambulância, luz e vestiário adequados quando têm jogo. Enfim, caso completo. Alguma coisa melhorou com a criação da Seleção Permanente e algumas outras iniciativas pontuais, mas infelizmente ainda é muito pouco e sabemos que essas medidas quase nunca duram por muito tempo. O pior é que sabemos que com um mínimo de investimento já se poderia avançar um mundo. Falta interesse. Acho que muito porque a ideia da mulher como protagonista de qualquer coisa que seja no país que a gente vive fere a lógica patriarcal na qual estamos inseridas.
Thais Picarte: Acredito que o futuro da mulher como profissional, de um modo geral é muito promissor. Mas caminhamos a passos muito curtos, representamos uma fatia muito grande da sociedade para seguir no anonimato. Merecemos e devemos assumir mais responsabilidades e posições de maior reconhecimento e respeito.
Ovelha: Deixe aqui o nome da associação em que você joga, do seu time, quem você gostaria de dar visibilidade, o que quiserem, de verdade!
Nayara Perone: Meu time chama Miga FC, é um time basicamente de meninas que treinam pouco mas querem estar lá jogando e se divertindo. Gostaria de citar a Copa Trifon Ivanov, a copa sem fins lucrativos da qual faço a organização do campeonato feminino (temos o masculino e o feminino) e onde conheci além de pessoas incríveis, meninas que nunca sequer tinham corrido com uma bola e hoje jogam semanalmente e fizeram grandes laços de amizade.
Angélica Souza:Dibradoras, não é onde jogo, mas é onde procuro dar visibilidade ao futebol feminino.
Maiara Beckrich: Gostaria de valorizar qualquer pessoa ou associação que faça esse trabalho de formiga que é dar visibilidade à questão do futebol feminino, mas tenho um carinho especial por duas. O Pelado Real, onde eu jogo, que eu acredito que se configurou como uma grande referência para a mulherada que quer jogar futebol, tenha o nível que tenha. É um trabalho sem precedentes que eu acredito ser essencial e maravilhoso. Também gostaria de ressaltar o trabalho das dibradoras, que em muito pouco tempo (mais ou menos desde a Copa do Mundo feminina do ano passado) conseguiu se transformar uma plataforma sensacional para tratar da questão de gênero dentro da esfera do esporte. Tenho muito orgulho de poder trabalhar com essas minas e sei que o caminho ainda é muito longo. Mas a gente não desiste. Ah, mas não desiste mesmo.
Thais Picarte: Jogo no São José Esporte Clube. E sou embaixadora do Guerreiras Project. Gostaria que falasse um pouco sobre nossos ideias.
Pois bem, agora estamos a menos de 7 dias das Olimpíadas (mas os jogos de futebol começam antes!) e por ser um evento que confere mundialmente todos os esportes, muito provavelmente o futebol feminino deva ser bem televisionado e bem transmitido. O que você me diz? Vou te apresentar aqui o nosso time brasileiro, a escalação para os jogos, o cronograma dos jogos, os grupos em que cada time caiu. Vamos acompanhar? A Ovelha pretende produzir um podcast depois dos jogos para conversarmos sobre os os jogos e os ~ impedimentos ~ de ser mulher e jogar futebol no Brasil e no mundo. Convidadas especiais serão chamadas para participar com a gente e esperamos que vocês curtam muito!
Nossa escalação para as Olimpíadas está assim:
Para vocês terem uma noção do sexismo envolvendo as instituições, no próprio site da C.B.F., há um trecho do treinador da seleção feminina, Vadão, que diz o seguinte:
Aos 58 anos, o experiente Vadão, como é conhecido, deixou uma carreira consolidada, em que pôde estimular o crescimento de jogadores como Rivaldo e revelar talentos como o de Kaká, para incentivar uma modalidade menos favorecida no país e dar o passo definitivo rumo à excelência tanto na Copa do Mundo Feminina da FIFA quanto no torneio olímpico.
[Essa boçalidade que você leu aí em cima se encontra aqui]
Quer dizer, enaltece o treinador por ter trabalhado em clubes masculinos e parece que ele é o bom samaritano por abrir mão dessa carreira para incentivar uma modalidade menos favorecida. Dá vontade de mandar pra aquele lugar? Dá sim, porém aquele lugar é bom, então realmente fica apenas minha indignação sobre esse trecho. Também quero estar atenta a comentários de narradores como “jogo bonito de se ver” fazendo alusão a estética corporal das mulheres ao invés do jogo em si. ESTAREMOS DE OLHO, VIU? Voltemos à programação normal.
Os grupos estão organizados dessa forma e nosso primeiro jogo é no dia 3 de agosto com a China. O futebol oriental é fortíssimo, já vamos estrear com desafios!
Para facilitar a nossa vida, também fizemos uma tabela com o cronograma dos jogos femininos da primeira fase. Assim não tem desculpa para não acompanhar, a não ser claro, o horário de trabalho. Mas, podemos pedir para os chefes liberarem uma televisãozinha por bens maiores, não é mesmo?
Para piorar o quadro das mulheres profissionais, ainda rolou essa notícia bombástica. CBF não cumpre promessa e deixa jogadoras sem carteira assinada e benefícios. Vocês podem imaginar que no masculino os caras nem ganham pra estar na seleção, é pelo prestígio? Mas as mulheres precisam sair de seus times no extrangeiro, que é onde pagam melhor (melhor, vulgo, conseguem se sustentar, mandar um dinheiro pra família, etc.), para vestirem a camisa canarinho e ainda assim não são levadas a sério. Há muita coisa pelo que lutarmos. Vamos acompanhar nossa seleção feminina, vamos dar valor e visibilidade a essas mulheres que já tem títulos melhores que craques masculinos.
Segue o jogo.
P.S.: Quero fazer um agradecimento às mulheres incríveis que concederam a entrevista e a Nadja Marin, uma das cabeças do Guerreira Project, que por ela, pude fazer as conexões! <3