Daniela e o povo Tupinambá

E se você fosse responsável por trazer visibilidade aos invisíveis? Daniela Alarcon, antropóloga e jornalista, trabalha desde 2010 com o povo indígena Tupinambá de Olivença. Junto com a cinegrafista e documentarista Fernanda Ligabue, elas estão na reta final da captação de recursos no Catarse para conseguir realizar um documentário sobre a luta desse povo por sua terra, na tentativa de por um holofote em uma situação que a maioria dos brasileiros desconhece.

A jornalista Anna Carolina Rodrigues, colaboradora Ovelha, entrevistou Daniela para saber um pouco mais sobre sua experiência e envolvimento com a causa Tupinambá.
 

 

Como surgiu seu interesse pelo tema indígena e Tupinambá?

Tive contato com esse grupo dos Tupinambá em 2010. Sou formada em Jornalismo, mas tava mudando um pouco de área. Estava muito interessada em Antropologia e História e queria trabalhar com algum tema relacionado à questão indígena contemporânea. Bem naquela época, a situação dos Tupinambá tava muito complicada. Três lideranças foram presas na aldeia onde eu pesquiso, no sul da Bahia, perto do município de Ilhéus. Tava tendo ataque da Polícia Federal direto, então o caso ficou meio conhecido. Eu estava procurando temas de pesquisa para um mestrado e a situação deles estava muito em evidência e acabei indo para lá conhecê-los. Fiz mestrado em Ciências Sociais, na Universidade de Brasília. Eles também tinham interesse no estudo que eu queria desenvolver e aí rolou.

 
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Mas como você foi parar lá?

Na época da graduação eu fazia Jornalismo e cursei outras disciplinas fora, na História, Antropologia, Letras. Acho que comecei a me aproximar desse tema pela literatura, porque comecei a ler alguns autores peruanos, bolivianos, que tem a questão indígena muito presente. Acho que foi por aí. Um de que eu gosto muito, peruano, é o Arguedas. Ele era antropólogo também e isso aparece muito na obra dele. Acho que para os escritores ali da região andina, é difícil escapar desse tema. É muito forte essa identidade. Depois comecei a viajar, a me interessar. O contato no Brasil veio um pouco depois. Fui para Brasília trabalhar na Secretaria de Políticas para Mulheres e lá eu trabalhava com mulheres ribeirinhas, indígenas, quilombolas. E foi aí que eu realmente comecei a ter um contato com a vida real dessas populações no Brasil hoje. Antes eu só lia sobre isso.

 
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Que lugares você visitou?

A trabalho pela Secretaria eu fui pro sul da Bahia. Não só com os Tupinambá, mas também com os Pataxó hã hã hãe.  Além disso, visitei outras regiões, Roraima, por exemplo, que tem a Raposo Serra do Sol, uma terra indígena bem grande na fronteira com a Guiana e com a Venezuela. Fui lá participar de um encontro de mulheres e comecei a me aproximar mais, a entender quais são os principais conflitos que acontecem hoje, quais os direitos indígenas e o que está rolando do ponto de vista político.

 
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O que você viu de mais impressionante em relação à figura feminina nesses povos?

Uma coisa que acho importante e que percebi em diversos contextos é que a violência da entrada do branco nos territórios indígenas atinge as mulheres de uma forma bem particular. Se por um lado atinge o povo inteiro, porque todo mundo perde a terra e o acesso à sua forma de vida. As mulheres são sempre vítimas de estupros, de casamentos indesejados, muitas vezes são levadas para ser empregadas domésticas… Então a condição delas como mulheres faz com que elas sejam vítimas de uma dupla violência. E ao mesmo tempo, hoje tem várias lideranças femininas e mulheres indígenas que se destacam e que estão fazendo um debate de gênero, só que em outros termos. Muitas delas não são mulheres urbanas, é outro contexto. Mas em todos os lugares, vi que elas tentavam construir uma forma própria de lidar com a questão de gênero. Às vezes, mais interessante do que talvez a nossa.

Existe o debate. Tem machismo? Tem… mas ao mesmo tempo, acho que seria bastante autoritário e pouco eficaz que eu, como uma mulher branca, do lado de quem expropriou e roubou a terra, invadiu tudo, impusesse minha visão do que eu acho que são os papéis de gênero, do que é o certo e errado. Acho que é muito mais interessante a gente ter esse diálogo para que as mulheres construam a partir da experiência delas. Até porque elas tem experiências super interessantes. Às vezes, em algumas comunidades o cuidado dos filhos é muito mais partilhado do que na nossa, sabe?  Nos próprios Tupinambá, essa figura da mãe solteira que tem que se “matar” e cuidar do filho sozinha e passa o maior perrengue não existe nessa aldeia que eu pesquiso. A criança é vista como uma responsabilidade de todo mundo. Esse cuidado é muito mais dividido. Essas mulheres trabalham, tem essas atividades comunitárias. É super comum ver homens, um tio, primo, ou irmão, cuidando de um bebê de formas que a gente não costuma ver por aqui.

 

 

Qual história te marcou?

Tem uma história que vamos abordar no filme. Um senhor me contou uma vez que ele estava engajado nesse processo por causa da mãe dele. Ela era nascida e criada ali e ele ainda encontrava na mata ramas de gengibre que ela tinha plantado. Mesmo ela já tendo morrido há alguns anos, aquilo ainda estava ali. Eu achei essa história muito significativa porque a conexão dele com aquela terra passava por esse trabalho da mãe dele ali na mata. Era algo que ainda continuava fazendo uma ligação afetiva dele com o território e que empurrava ele para a luta. A mãe dele tinha sido espacanda por políciais quando ainda era nova. Nos anos 30, houve uma revolta indígena na região que foi bem reprimida. A polícia acabou agredindo a mãe desse senhor enquanto buscava os principais líderes. Essa é só uma das histórias que eu sempre ouço de mulheres que são tidas como figuras que resistiram, apesar de terem sofrido muito. Ficaram na área e são lembradas o tempo todo.

 
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Você disse que as mulheres desenvolvem maneiras próprias de lidar. Pode me dar alguns exemplos?

A memória das mulheres, por exemplo, é muito acionada. Nessa região do sul da Bahia teve uma penetração muito grande de não índios a partir do século 19, porque era região do cacau. Entraram muitos homens brancos ou negros e alguns deles acabaram se casando, ficando por lá e se tornando um povo misturado. Mas geralmente a origem indígena tá no lado materno e isso é muito forte. Isso concede às mulheres que estão lá hoje um papel na sociedade, um peso na condição delas. Como se fossem meio que guardiãs da memória, que foram herdando das mães, avós e bisavós vários conhecimentos tradicionais. Isso coloca elas em uma posição de importância na aldeia. Por exemplo, lá na Serra do Padeiro, tanto a diretora quanto a vice-diretora da escola são mulheres indígenas. São cargos de poder ocupados por mulheres. Não sei sinceramente se todo mundo está de acordo, mas elas são muito respeitadas e conseguiram virar referência. Embora o cacique nessa aldeia seja um homem.

 

 

Por que você decidiu fazer o filme?

Eu já estava trabalhando na região desde 2010. Como eu tinha essa formação anterior de jornalista, eu sempre fazia um esforço de escrever um artigo ou de tentar pautar algum colega para olhar para o que está acontecendo lá. Isso para a gente não ficar falando só na Academia e nos Congressos. Agora, a demarcação lá está parada e a conjuntura da política indigenista brasileira está muito ruim. O Leonardo Sakamoto, da Repórter Brasil, que eu já conhecia da época da USP, tinha comentado de fazer um documentário. Eu tinha achado uma ótima ideia, mas nunca tínhamos tempo, até que de 2013 para 2014 o governo Dilma mandou o exército para lá e fez uma ocupação militar da área dos Tupinambá. A gente, então, achou que era a hora de filmar, que não dava para esperar mais. Queríamos que mais gente soubesse o que estava acontecendo.

 
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Por que fazer sobre os Tupinambá e não sobre outro povo?

Simplesmente porque eu trabalho com eles. Mas o Brasil inteiro é cheio de situações que mereceriam mais visibilidade. Vários outros filmes deveriam ser feitos sobre a questão indígena hoje. Essa situação de expropriação e não garantia de direitos acontece em toda parte.

 

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Quais seus próximos passos?

Estou morando no Rio de Janeiro há três anos e estou começando um doutorado em antropologia social no Museu Nacional, na UFRJ. Vou continuar estudando a questão dos Tupinambá. No mestrado eu pesquisei as retomadas de terra, dos índios ocuparem as fazendas em regiões que tinham sido tomadas. Eu tinha começado a refletir sobre essa forma de luta e agora quero ler mais teoria, ir pra lá de novo. O que me interessa mais são essas maneiras de luta que os povos indígenas desenvolvem para tentar recuperar o próprio território.

 


 
A captação de recursos no Catarse está na reta final. O projeto tem somente até domingo para conseguir pelo menos mais R$ 1300. Contamos com sua ajuda para doar ou divulgar o documentário.

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