Azza Soliman é um nome conhecido no Egito. A advogada e líder feminista tem feito um trabalho significativo na vida de muitas mulheres que vivem em uma cultura que ignora suas vozes. Seu corajoso empenho foi interrompido nesta quarta-feira, dia 7 de dezembro, quando Azza foi levada presa de sua casa no Cairo, capital do Egito.
Sem pronunciamento oficial do governo egípcio, as acusações contra a ativista – se é que existem – ainda não são claras.
Azza Soliman é mais uma entre os muitos ativistas de ONGs que vem sendo perseguidos no Egito. “A prisão de Azza desmascara a animosidade do governo não só com os defensores dos direitos humanos em geral, mas com movimentos feministas independentes no Egito”, disse Mohamed Lofty, da Comissão Egípcia por Direitos e Liberdades, ao The Guardian.
Azza é a fundadora do Centro de Assistência Legal para Mulheres Egípcias (CEWLA, sigla do nome em inglês Center for Egyptian Women’s Legal Assistence), uma organização não governamental fundada em 1995 com o objetivo de ajudar mais ativamente mulheres em casos de violência ou discriminação de gênero.
CEWLA tem como um de seus focos os crimes de honra – crimes cometidos para “limpar a honra da família” –, um tema tratado como tabu em sociedades do Oriente Médio.
A líder feminista já estava sendo perseguida há algum tempo pelo governo militar que rege o país desde a deposição de Mohamed Morsi, em 2013. Depois de testemunhar o assassinato da ativista socialista Shaimaa al-Sabbagh, Azza foi submetida a julgamento.
Shaimaa foi morta a tiros por um policial, enquanto participava de um protesto pacífico em memória das centenas de mortos durante as revoltas da Primavera Árabe que opuseram o governo autoritário de Hosni Mubarak.
No dia 19 de novembro deste ano, Azza foi impedida, já no aeroporto de Cairo, de viajar para fora do país, o que iniciou uma mobilização na internet em sua defesa. Pouco depois, ela descobriu que sua conta pessoal e a de sua organização haviam sido congeladas. Na quarta-feira, dia 7, a ONG tuitou sobre o mandato de prisão contra Azza Soliman.
Horas depois, a ONG publicou no seu Twitter que o juiz do caso havia decidido por um valor de fiança de 20.000 libras egípcias (cerca de 3.640 reais) pela soltura de Azza Soliman.
Não é de hoje que o governo comandado pelas Forças Armadas tenta calar ativistas de direitos humanos. Já temos como exemplo a triste morte de Shaimaa, documentada em fotos e vídeos e testemunhada por policiais que nem sequer chamaram uma ambulância enquanto ela sofria nos braços de seus amigos. Mas além de matar e prender ativistas, o governo vem comandando uma investigação contra várias ONGs que, segundo eles, estariam recebendo fundos de organizações estrangeiras para semear o caos no país.
Com essa desculpa, um tribunal egípcio congelou, em setembro deste ano, os bens de cinco conhecidos ativistas de direitos humanos e três ONGs. Tais ações abrem portas para acusações criminais contra essas corajosas pessoas e até a eventuais condenações a prisão perpétua.
O pior de tudo é que, desde novembro deste ano, uma lei sobre o trabalho de ONGs, aprovada pelo parlamento, dá base legal para a intervenção do Estado no trabalho de organizações. De acordo com a lei, grupos egípcios e estrangeiros estão proibidos de se envolver em ações políticas ou que prejudiquem a segurança nacional, a ordem pública, a moral pública ou a saúde pública. Alguém pode me dizer como é possível fazer avanços em direitos humanos e em direitos das mulheres sem se envolver em questão políticas? A lei é uma clara tentativa de calar opiniões divergentes e manter um conservadorismo político.
A situação de instabilidade política no Egito é um dos motivos que move o trabalho de organizações não governamentais e de ativistas como Azza e Shaimaa. Mas também o motivo para sua perseguição.
Após as revoltas em 2011, o governo autoritário de 30 anos de Hosni Mubarak chegou ao fim. Com as eleições no ano seguinte, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, se tornou o primeiro presidente eleito após a esperada abertura política. Seu governo não durou muito e, em 2013, ele foi deposto do governo por um golpe militar. Durante esses anos de instabilidade, várias ONGs estrangeiras foram fechadas e 45 membros dessas organizações receberam ordem de prisão, incluindo 15 norte-americanos que deixaram o Egito.
Enquanto o mundo ocidental se preocupa com seus próprios problemas – ou vê a questão de direitos humanos como desnecessária ou já resolvida –, no Oriente Médio lutar por direitos humanos virou questão de vida ou morte. A nós resta pedir liberdade para Azza Soliman e torcer para que ela consiga voltar com segurança a fazer seu lindo trabalho pelas mulheres árabes.
Liberdade à Azza Soliman!
*Boa parte das informações para este texto foram tiradas desta matéria do Guardian.
Azza Soliman é um nome conhecido no Egito. A advogada e líder feminista tem feito um trabalho significativo na vida de muitas mulheres que vivem em uma cultura que ignora suas vozes. Seu corajoso empenho foi interrompido nesta quarta-feira, dia 7 de dezembro, quando Azza foi levada presa de sua casa no Cairo, capital do Egito.
Sem pronunciamento oficial do governo egípcio, as acusações contra a ativista – se é que existem – ainda não são claras.
Azza Soliman é mais uma entre os muitos ativistas de ONGs que vem sendo perseguidos no Egito. “A prisão de Azza desmascara a animosidade do governo não só com os defensores dos direitos humanos em geral, mas com movimentos feministas independentes no Egito”, disse Mohamed Lofty, da Comissão Egípcia por Direitos e Liberdades, ao The Guardian.
Azza é a fundadora do Centro de Assistência Legal para Mulheres Egípcias (CEWLA, sigla do nome em inglês Center for Egyptian Women’s Legal Assistence), uma organização não governamental fundada em 1995 com o objetivo de ajudar mais ativamente mulheres em casos de violência ou discriminação de gênero.
CEWLA tem como um de seus focos os crimes de honra – crimes cometidos para “limpar a honra da família” –, um tema tratado como tabu em sociedades do Oriente Médio.
A líder feminista já estava sendo perseguida há algum tempo pelo governo militar que rege o país desde a deposição de Mohamed Morsi, em 2013. Depois de testemunhar o assassinato da ativista socialista Shaimaa al-Sabbagh, Azza foi submetida a julgamento.
Shaimaa foi morta a tiros por um policial, enquanto participava de um protesto pacífico em memória das centenas de mortos durante as revoltas da Primavera Árabe que opuseram o governo autoritário de Hosni Mubarak.
No dia 19 de novembro deste ano, Azza foi impedida, já no aeroporto de Cairo, de viajar para fora do país, o que iniciou uma mobilização na internet em sua defesa. Pouco depois, ela descobriu que sua conta pessoal e a de sua organização haviam sido congeladas. Na quarta-feira, dia 7, a ONG tuitou sobre o mandato de prisão contra Azza Soliman.
Horas depois, a ONG publicou no seu Twitter que o juiz do caso havia decidido por um valor de fiança de 20.000 libras egípcias (cerca de 3.640 reais) pela soltura de Azza Soliman.
Não é de hoje que o governo comandado pelas Forças Armadas tenta calar ativistas de direitos humanos. Já temos como exemplo a triste morte de Shaimaa, documentada em fotos e vídeos e testemunhada por policiais que nem sequer chamaram uma ambulância enquanto ela sofria nos braços de seus amigos. Mas além de matar e prender ativistas, o governo vem comandando uma investigação contra várias ONGs que, segundo eles, estariam recebendo fundos de organizações estrangeiras para semear o caos no país.
Com essa desculpa, um tribunal egípcio congelou, em setembro deste ano, os bens de cinco conhecidos ativistas de direitos humanos e três ONGs. Tais ações abrem portas para acusações criminais contra essas corajosas pessoas e até a eventuais condenações a prisão perpétua.
O pior de tudo é que, desde novembro deste ano, uma lei sobre o trabalho de ONGs, aprovada pelo parlamento, dá base legal para a intervenção do Estado no trabalho de organizações. De acordo com a lei, grupos egípcios e estrangeiros estão proibidos de se envolver em ações políticas ou que prejudiquem a segurança nacional, a ordem pública, a moral pública ou a saúde pública. Alguém pode me dizer como é possível fazer avanços em direitos humanos e em direitos das mulheres sem se envolver em questão políticas? A lei é uma clara tentativa de calar opiniões divergentes e manter um conservadorismo político.
A situação de instabilidade política no Egito é um dos motivos que move o trabalho de organizações não governamentais e de ativistas como Azza e Shaimaa. Mas também o motivo para sua perseguição.
Após as revoltas em 2011, o governo autoritário de 30 anos de Hosni Mubarak chegou ao fim. Com as eleições no ano seguinte, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, se tornou o primeiro presidente eleito após a esperada abertura política. Seu governo não durou muito e, em 2013, ele foi deposto do governo por um golpe militar. Durante esses anos de instabilidade, várias ONGs estrangeiras foram fechadas e 45 membros dessas organizações receberam ordem de prisão, incluindo 15 norte-americanos que deixaram o Egito.
Enquanto o mundo ocidental se preocupa com seus próprios problemas – ou vê a questão de direitos humanos como desnecessária ou já resolvida –, no Oriente Médio lutar por direitos humanos virou questão de vida ou morte. A nós resta pedir liberdade para Azza Soliman e torcer para que ela consiga voltar com segurança a fazer seu lindo trabalho pelas mulheres árabes.
Liberdade à Azza Soliman!
*Boa parte das informações para este texto foram tiradas desta matéria do Guardian.
Ilustração exclusiva de Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)
Azza Soliman é um nome conhecido no Egito. A advogada e líder feminista tem feito um trabalho significativo na vida de muitas mulheres que vivem em uma cultura que ignora suas vozes. Seu corajoso empenho foi interrompido nesta quarta-feira, dia 7 de dezembro, quando Azza foi levada presa de sua casa no Cairo, capital do Egito.
Sem pronunciamento oficial do governo egípcio, as acusações contra a ativista – se é que existem – ainda não são claras.
Azza Soliman é mais uma entre os muitos ativistas de ONGs que vem sendo perseguidos no Egito. “A prisão de Azza desmascara a animosidade do governo não só com os defensores dos direitos humanos em geral, mas com movimentos feministas independentes no Egito”, disse Mohamed Lofty, da Comissão Egípcia por Direitos e Liberdades, ao The Guardian.
Azza é a fundadora do Centro de Assistência Legal para Mulheres Egípcias (CEWLA, sigla do nome em inglês Center for Egyptian Women’s Legal Assistence), uma organização não governamental fundada em 1995 com o objetivo de ajudar mais ativamente mulheres em casos de violência ou discriminação de gênero.
CEWLA tem como um de seus focos os crimes de honra – crimes cometidos para “limpar a honra da família” –, um tema tratado como tabu em sociedades do Oriente Médio.
A líder feminista já estava sendo perseguida há algum tempo pelo governo militar que rege o país desde a deposição de Mohamed Morsi, em 2013. Depois de testemunhar o assassinato da ativista socialista Shaimaa al-Sabbagh, Azza foi submetida a julgamento.
Shaimaa foi morta a tiros por um policial, enquanto participava de um protesto pacífico em memória das centenas de mortos durante as revoltas da Primavera Árabe que opuseram o governo autoritário de Hosni Mubarak.
No dia 19 de novembro deste ano, Azza foi impedida, já no aeroporto de Cairo, de viajar para fora do país, o que iniciou uma mobilização na internet em sua defesa. Pouco depois, ela descobriu que sua conta pessoal e a de sua organização haviam sido congeladas. Na quarta-feira, dia 7, a ONG tuitou sobre o mandato de prisão contra Azza Soliman.
The investigative judge has issued an arrest warrant against @AzzaSoliman1 . She is now on her way to Masr El Gdida Police station
Horas depois, a ONG publicou no seu Twitter que o juiz do caso havia decidido por um valor de fiança de 20.000 libras egípcias (cerca de 3.640 reais) pela soltura de Azza Soliman.
The decision of the judge is bail amounting to 20,000 EGP. Azza Now heading to Masr El Gdeeda police station to finalize the procedures
Não é de hoje que o governo comandado pelas Forças Armadas tenta calar ativistas de direitos humanos. Já temos como exemplo a triste morte de Shaimaa, documentada em fotos e vídeos e testemunhada por policiais que nem sequer chamaram uma ambulância enquanto ela sofria nos braços de seus amigos. Mas além de matar e prender ativistas, o governo vem comandando uma investigação contra várias ONGs que, segundo eles, estariam recebendo fundos de organizações estrangeiras para semear o caos no país.
Com essa desculpa, um tribunal egípcio congelou, em setembro deste ano, os bens de cinco conhecidos ativistas de direitos humanos e três ONGs. Tais ações abrem portas para acusações criminais contra essas corajosas pessoas e até a eventuais condenações a prisão perpétua.
O pior de tudo é que, desde novembro deste ano, uma lei sobre o trabalho de ONGs, aprovada pelo parlamento, dá base legal para a intervenção do Estado no trabalho de organizações. De acordo com a lei, grupos egípcios e estrangeiros estão proibidos de se envolver em ações políticas ou que prejudiquem a segurança nacional, a ordem pública, a moral pública ou a saúde pública. Alguém pode me dizer como é possível fazer avanços em direitos humanos e em direitos das mulheres sem se envolver em questão políticas? A lei é uma clara tentativa de calar opiniões divergentes e manter um conservadorismo político.
A situação de instabilidade política no Egito é um dos motivos que move o trabalho de organizações não governamentais e de ativistas como Azza e Shaimaa. Mas também o motivo para sua perseguição.
Após as revoltas em 2011, o governo autoritário de 30 anos de Hosni Mubarak chegou ao fim. Com as eleições no ano seguinte, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, se tornou o primeiro presidente eleito após a esperada abertura política. Seu governo não durou muito e, em 2013, ele foi deposto do governo por um golpe militar. Durante esses anos de instabilidade, várias ONGs estrangeiras foram fechadas e 45 membros dessas organizações receberam ordem de prisão, incluindo 15 norte-americanos que deixaram o Egito.
Enquanto o mundo ocidental se preocupa com seus próprios problemas – ou vê a questão de direitos humanos como desnecessária ou já resolvida –, no Oriente Médio lutar por direitos humanos virou questão de vida ou morte. A nós resta pedir liberdade para Azza Soliman e torcer para que ela consiga voltar com segurança a fazer seu lindo trabalho pelas mulheres árabes.
Liberdade à Azza Soliman!
*Boa parte das informações para este texto foram tiradas desta matéria do Guardian.
Dentro de um carro pelas ruas de Cairo, capital do Egito, uma mulher de aparência estrangeira (por seus cabelos loiros claros e olhos verdes) olha pela janela, enquanto sua voz ao fundo começa a narrativa em alemão. Alexandra Schneider chegou ao Egito em junho 2011, após os protestos de fevereiro do mesmo ano que tiraram o presidente Hosni Mubarak do poder e deram fim a uma ditadura de 30 anos. Com incertezas e esperanças, os egípcios se preparavam, então, para as primeiras eleições presidenciais depois de anos. Nesse turbilhão de opiniões, demonstrações e debates políticos, a diretora austríaca tinha apenas um objetivo: entender o papel das mulheres na onda de revoluções que tomava o país.
Para isso, ela precisou ouvir diferentes mulheres e entrar em contato com diferentes personagens para construir uma visão sobre a participação das jovens, mulheres egípcias na revolução. E foi aí que ela chegou às quatro protagonistas de seu documentário “Private Revolutions: Youg, Female, Egyptian”, lançado em 2014. Cada uma das quatro mulheres tem histórias diferentes que se assemelham de alguma forma. Pelos preconceitos, pela tradição conservadora ou dificuldades que enfrentam. Como achei todas elas muito fortes e suas histórias incríveis, tentarei fazer uma descrição de cada uma.
Sharbat Abdullah: uma mulher forte e convicta de seus posicionamentos políticos. Ela sempre esteve presente nas demonstrações na Praça Tahrir, mas não sossegou após a queda de Mubarak. Continuou indo às ruas, pedindo o boicote das eleições e mudanças na política egípcia. Sofreu com violência policial, foi presa e viu jovens inocentes morrerem nas ruas pelas mãos dos militares, enquanto protestavam. Mesmo assim, ela não perde a coragem e, apesar da falta de apoio de seu marido, segue militando. Mãe de três meninos, ela faz questão de levar seus filhos para as ruas! Em várias cenas do filme, eles aparecem a ajudando. Seja a distribuindo folhetos ou a defendendo de policiais agressivos – como fez seu filho mais velho antes de apanhar e ser preso pelos mesmos policiais.
Em uma cena muito marcante, ela discute com vários homens na Praça Tahrir, onde divulgava o boicote às eleições de 2012, e explica com muita eloquência seus ideais políticos. Em outro momento, ela conta que seu filho mais novo apanhou da professora na escola por repetir o discurso político da mãe contra Mubarak. Além disso, ela e a família são hostilizados pelos vizinhos do bairro por seu engajamento político – em uma das cenas do filme, a própria equipe de filmagem é quase expulsa do bairro por estar filmando ali. Isso com certeza a abala emocionalmente, mas mesmo assim ela não desiste da luta. Sua esperança de um país melhor para seus filhos e outros jovens egípcios é o que a move. Para mim, ela é um exemplo de que não precisa fazer parte de uma elite intelectual para fazer revolução! Ela é uma mulher indignada com seu país, que se informa e tem coragem. E isso basta. Ela é um baita exemplo de militância!
Fatema Abouzeid: é uma Muslim Sister. Ela é integrante do partido da Irmandade Mulçumana de posição religiosa e política mais radicais. Fatema trabalhou na campanha de Mohamed Morsi durante as eleições de 2012. Entre o trabalho no partido e os afazeres domésticos, ela monta uma rotina: depois de fazer a primeira prece do dia, às 5h30, ela volta a dormir e levanta de novo por volta das 8h para levar os filhos à escola. Quando volta à casa, tem tempo para trabalhar até às 15h. Depois disso se dedica aos três meninos até eles irem dormir. E depois ao marido, quando ele chega em casa. Fatema é uma mulher tradicional que trabalha e estuda para apoiar seu partido – ela se forma mestre em Ciências Políticas e na cerimônia de entrega do diploma agradece ao seu pai e marido, por terem a autorizado a estudar e a apoiado, e à sua mãe, por rezar por ela. Quando as eleições se aproximam, ela começa a passar mais tempo na sede da campanha. As filmagens, que passam a acontecer lá, são interrompidas a pedido de seus chefes. Em uma cena dentro de seu escritório, Fatema pede cordialmente à diretora que a envie o contrato que assinou para autorizar as filmagens, para que mostre a seus supervisores. Alexandra tenta argumentar, sem sucesso, e é obrigada a desligar a câmera. Mesmo fazendo o que os chefes de Fatema pediram, Alaxandra não consegue mais entrar em contato com ela depois desse dia. A jovem desaparece da vida da diretora e do filme…
Amani Eltunsi: essa, foi pra mim, uma das mulheres mais inspiradoras do filme (a segunda foi a Sharbat). Tive a sorte de vê-la e ouvir seus comentários no fsk Kino, em Berlim, onde foi feita uma entrevista com ela e com a diretora após o filme. Amani é uma mulher que escolheu enfrentar certas tradições de sua cultura: ela decidiu não se casar, nem ter filhos; ela decidiu questionar a violência contra a mulher, tanto psicológica quanto física; ela decidiu colocar em questão a tradição que obriga jovens a se casarem, e se manterem casadas, mesmo contra sua vontade. A própria Amani sofreu com uma forma de violência imposta pela tradição: quando criança, passou por uma mutilação genital, processo que amputa o clitóris da mulher. O tema é introduzido no filme de forma sutil, em uma conversa da protagonista com outras duas jovens. Na conversa, ela pergunta se ambas foram “circuncidadas”. Ao que elas respondem que sim e contam suas histórias, Amani diz: “vocês sabem que vocês não são obrigadas a fazer isso com suas filhas… a escolha é de vocês”, ambas respondem que não pretendem deixar as filhas passarem por isso. Amani conta depois à diretora, já com certa naturalidade, como sua mãe a levou ao médico e ele fez o procedimento, enquanto outras mulheres a seguravam em uma maca. Ela não sabia do que se tratava até vê-lo com uma espécie de tesoura em mãos.
Sua história a fez forte e a fez querer mudar o destino de outras mulheres no Egito. A protagonista começou com um programa de rádio online chamado “Só para mulheres” (Banat wa Bas, em árabe), em que dá voz a mulheres para falarem sobre violência doméstica, assédio sexual, questões políticas, etc. Com sua editora, publicou um livro sobre esses temas, tendo histórias de mulheres egípcias como pano de fundo. Infelizmente, as cópias foram queimadas – em um incêndio na sede da editora – após a pose de Morsi, em 2012. Quando a Irmandade Mulçumana é eleita, Amani passa a ser perseguida e tem seu site e páginas no Facebook hackeados e tirados do ar. Sem escolha e com muita dor, resolve ir para Dubai para seguir sua vida e procurar emprego.
May Gah Allah: é talvez uma das mais jovens entre as protagonistas. May faz parte de uma minoria discriminada no Egito: o povo da região da Núbia situada no vale do Rio Nilo. Talvez o preconceito que sofreu durante a vida tenha lhe dado tanta coragem. May larga seu emprego em um banco, motivada em fazer alguma diferença para a sua população. “Eu me perguntei um dia antes de dormir: e se eu morrer amanhã e Deus me perguntar o que eu fiz pelas pessoas, devo dizer a ele que só ganhei dinheiro?”. Com essa questão pessoal, May começa seu projeto. Ela une todos os esforços para construir uma cooperativa para os moradores de sua cidade natal ao sul do Egito. Eu seu projeto de cooperativa, aulas de computação, esportes e atividades de lazer seriam oferecidas a todos – incluindo mulheres e meninas. Em uma das cenas do filme, May, usando uma camiseta com “I love being Black” joga futebol com algumas meninas de sua comunidade e explica como aquilo é novo e importante para elas. Apesar das dificuldades de enfrentar uma tradição muito conservadora com ideias novas, May não desiste e acaba se mudando de volta a sua cidade natal na Núbia para seguir seu sonho.
As histórias das quatro protagonistas vão se intercalando e a diretora também se faz presente, ao aparecer em algumas cenas ou com sua voz nas entrevistas. Achei o filme bom também por esse aspecto, já que diretora, uma austríaca, não tenta fazer o filme como se fosse uma egípcia. Ela reconhece seu papel como outsider e se apresenta como estrangeira tentando conhecer e entender uma realidade nova.
A gravação do filme durou dois anos e, claro, que nesse meio tempo muita coisa aconteceu na política do país e na vida das protagonistas. Sharbat, que reclamava da falta de apoio do marido, pede o divórcio para seguir sua militância sozinha com seus filhos. Amani que foi perseguida e obrigada a se mudar para Dubai consegue retornar ao Egito, em 2013, após a queda de Morsi e da Irmandade Mulçumana. Hoje ela tem uma editora e lançou uma revista chamada “Ladies 1st”. Orgulhosa, ela contou, em sua curta entrevista em Berlim, que terminou recentemente seu PhD,no qual analisou a violência contra a mulher em séries da televisão egípcia.
May se casou com um homem da sua região e que a apoia no seu projeto na comunidade. Alexandra Schneider conta que nunca mais teve notícias de Fatema desde sua última filmagem na sede do partido. Com a queda de Morsi, integrantes da Irmandade Mulçumana passaram a ser perseguidos. Alexandra acredita que depois disso Fatema tenha saído do país, provavelmente.
O filme apresenta personalidades tão fortes com muita sensibilidade. Ele não aborda diretamente questões como violência doméstica, assédio sexual, discriminação ou casamento obrigatório. Mas muitos pontos relevantes para discussões de gênero são problematizados de forma sutil. Como o casamento, por exemplo. Amani e May questionam diversas vezes as visões de suas famílias de que elas precisam se casar o quanto antes. “As mulheres perguntam quem vai cuidar de mim e me sustentar, se eu não tiver um marido?”, relata May sobre o que viveu em sua comunidade. May se casa depois, mas por escolha própria e com alguém que ela também escolheu. Amani decide se focar exclusivamente em sua carreira, o que para algumas mulheres no Oriente Médio ainda é incomum.
Em pequenos detalhes do filme, percebe-se qual a relação da sociedade com a mulher. Quando May vai a um dos ministérios, terminar a papelada da cooperativa, ela é questionada de onde ela conseguiu as doações e o terreno para construção do prédio. Os responsáveis – todos homens – parecem achar um pouco inacreditável que ela tenha recebido tudo como doação, mas ao que ela diz “meu pai conhece muitas pessoas”, a reação muda: “Ah, então foi por causa do seu pai…” É como se uma mulher sozinha não pudesse ter essas conexões. Em outra cena, Amani discute calmamente em uma livraria, onde apresentava seu livro, com alguns homens que parecem contrariados por seu discurso feminista. Para eles, suas esposas têm que fazer o que eles mandam. Amani reage com muita calma – porque já deve ter se acostumado a ouvir coisas assim – e tenta argumentar com os espectadores, mostrando o lado das mulheres.
Ao final do filme, procurei Amani e a perguntei: a situação das mulheres no Egito melhorou de alguma forma? Ela me respondeu rapidamente que não, apenas havia piorado tendo em vista toda a situação política do país – Morsi foi retirado pelas Forças Armadas e condenado à morte, em maio desse ano. Recentemente o Primeiro-Ministro Ibrahim Mahlab pediu demissão e as próximas eleições legislativas estão marcadas para acontecer em outubro. O futuro do Egito parece incerto, e o das egípcias talvez mais ainda.
Por isso a luta continua. Das protagonistas do filme e de muitas outras mulheres no Egito. Até que as revoluções privadas se tornem uma revolução coletiva de todas as mulheres.
Azza é a fundadora do Centro de Assistência Legal para Mulheres Egípcias (CEWLA, sigla do nome em inglês Center for Egyptian Women’s Legal Assistence), uma organização não governamental fundada em 1995 com o objetivo de ajudar mais ativamente mulheres em casos de violência ou discriminação de gênero.
CEWLA tem como um de seus focos os crimes de honra – crimes cometidos para “limpar a honra da família” –, um tema tratado como tabu em sociedades do Oriente Médio.
A líder feminista já estava sendo perseguida há algum tempo pelo governo militar que rege o país desde a deposição de Mohamed Morsi, em 2013. Depois de testemunhar o assassinato da ativista socialista Shaimaa al-Sabbagh, Azza foi submetida a julgamento.
Shaimaa foi morta a tiros por um policial, enquanto participava de um protesto pacífico em memória das centenas de mortos durante as revoltas da Primavera Árabe que opuseram o governo autoritário de Hosni Mubarak.
No dia 19 de novembro deste ano, Azza foi impedida, já no aeroporto de Cairo, de viajar para fora do país, o que iniciou uma mobilização na internet em sua defesa. Pouco depois, ela descobriu que sua conta pessoal e a de sua organização haviam sido congeladas. Na quarta-feira, dia 7, a ONG tuitou sobre o mandato de prisão contra Azza Soliman.
Horas depois, a ONG publicou no seu Twitter que o juiz do caso havia decidido por um valor de fiança de 20.000 libras egípcias (cerca de 3.640 reais) pela soltura de Azza Soliman.
Não é de hoje que o governo comandado pelas Forças Armadas tenta calar ativistas de direitos humanos. Já temos como exemplo a triste morte de Shaimaa, documentada em fotos e vídeos e testemunhada por policiais que nem sequer chamaram uma ambulância enquanto ela sofria nos braços de seus amigos. Mas além de matar e prender ativistas, o governo vem comandando uma investigação contra várias ONGs que, segundo eles, estariam recebendo fundos de organizações estrangeiras para semear o caos no país.
Com essa desculpa, um tribunal egípcio congelou, em setembro deste ano, os bens de cinco conhecidos ativistas de direitos humanos e três ONGs. Tais ações abrem portas para acusações criminais contra essas corajosas pessoas e até a eventuais condenações a prisão perpétua.
O pior de tudo é que, desde novembro deste ano, uma lei sobre o trabalho de ONGs, aprovada pelo parlamento, dá base legal para a intervenção do Estado no trabalho de organizações. De acordo com a lei, grupos egípcios e estrangeiros estão proibidos de se envolver em ações políticas ou que prejudiquem a segurança nacional, a ordem pública, a moral pública ou a saúde pública. Alguém pode me dizer como é possível fazer avanços em direitos humanos e em direitos das mulheres sem se envolver em questão políticas? A lei é uma clara tentativa de calar opiniões divergentes e manter um conservadorismo político.
A situação de instabilidade política no Egito é um dos motivos que move o trabalho de organizações não governamentais e de ativistas como Azza e Shaimaa. Mas também o motivo para sua perseguição.
Após as revoltas em 2011, o governo autoritário de 30 anos de Hosni Mubarak chegou ao fim. Com as eleições no ano seguinte, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, se tornou o primeiro presidente eleito após a esperada abertura política. Seu governo não durou muito e, em 2013, ele foi deposto do governo por um golpe militar. Durante esses anos de instabilidade, várias ONGs estrangeiras foram fechadas e 45 membros dessas organizações receberam ordem de prisão, incluindo 15 norte-americanos que deixaram o Egito.
Enquanto o mundo ocidental se preocupa com seus próprios problemas – ou vê a questão de direitos humanos como desnecessária ou já resolvida –, no Oriente Médio lutar por direitos humanos virou questão de vida ou morte. A nós resta pedir liberdade para Azza Soliman e torcer para que ela consiga voltar com segurança a fazer seu lindo trabalho pelas mulheres árabes.
Liberdade à Azza Soliman!
*Boa parte das informações para este texto foram tiradas desta matéria do Guardian.