Elza Soares is Now

O documentário “My Name is Now”, da diretora Elizabete Martins Campos, conta a história da deusa do samba Elza Soares

“É como a Elza falou, os pensamentos das pessoas vão fazendo elas se encontrarem”, diz Elizabete Martins Campos no início da nossa conversa sobre seu documentário My Name is Now (Meu nome é agora, na tradução) sobre a deusa do samba Elza Soares. Elizabete explica depois o porquê de me dizer isso quando a perguntei sobre a ideia para o filme.

A diretora mineira, da cidade de Betim, estava sozinha nos Estados Unidos e andava pelas ruas sem agenda, sem compromissos pela primeira vez após muito tempo, quando se lembrou de uma frase de seu cineasta brasileiro preferido, Nelson Pereira dos Santos. Ele dizia que, nessas situações, o melhor era pedir um cigarro a um estranho como desculpa para uma conversa. Foi o que Elizabete fez. Pediu um cigarro a três estranhos e chegou a um grego com quem conversou sobre o Brasil. “Vocês brasileiros não conhecem o seu país”, lhe disse o tal grego. Ele acreditava que nosso país tem tanta criatividade, mas não a potencializa.

Elizabete pensou nisso e tudo ficou claro quando viu, pela primeira vez, a deusa do samba cantar. De acordo com Elizabete, Elza era exatamente isso: uma criatividade, uma força. A diferença é que naquela época, em 2008, Elza não tinha o reconhecimento que conquistou atualmente. “Eu fiquei encantada em como ela, com um palco enorme, sem figurino e sem uma grande produção, conseguia fazer a gente chorar, rir, se emocionar”, conta a diretora.

[caption id="attachment_13251" align="aligncenter" width="800"] Foto de Paolo Giron[/caption]

A perplexidade em Elizabete a fez imaginar em como seria um filme com essa força toda de Elza Soares. “Comecei a pensar que ela com uma câmera no rosto já era um filme”. Com isso na cabeça, a jornalista fez um documentário que foi se montando com a condução natural da protagonista.  Aquele formato de perguntas e respostas, tradicional de filmes documentais, foi deixado de lado pela diretora. Ela decidiu criar um conceito mais abstrato e menos linear, no qual a voz de Elza é a única que fala, que canta, que grita e se expressa.

Em My Name is Now, Elza aparece cantando hits clássicos e músicas inéditas feitas para o filme. O scat singing, uma marca da cantora, também aparece em muitas das cenas em que Elza está com o microfone nas mãos. Nelas, a cantora de samba parece se metamorfosear em um instrumento musical.

Além da música, foi no carnaval, no futebol e no samba que Elizabete buscou os elementos para revelar Elza como ela a via com seus próprios olhos: como um símbolo da identidade brasileira. “Eu tentei construir ela como um ícone de uma nação, um ícone de uma cultura, com os elementos que ela traz do samba, da mulher de periferia. É um retrato do Brasil que ela traz nela”, explica.

Com esse ideal em sua obra, Elizabete mostra a movimentação de Elza nesses diferentes elementos da cultura brasileira. Elza é de origem humilde, nasceu da favela, casou e teve seu primeiro filho ainda adolescente. Ela é a mulher da periferia que equilibrava a lata d’água na cabeça. Não é à toa que a música faz parte do repertório do filme.

O carnaval, esse elemento cultural que influencia e se deixa influenciar por Elza, marca o filme com a música Zelão de Sérgio Ricardo, interpretada pela cantora carioca. Tudo começa com aquelas cenas de desfiles, penas coloridas, samba e Elza com sua fantasia majestosa. A sequência foi feita com imagens de três diferentes locações de festas de carnaval, com sambistas, negros, mulheres, travestis, enfim, a diversidade do povo brasileiro se divertindo nessa festa nacional. “Eu falei pra equipe: olha, eu vejo a Elza em todas essas forças, então fomos procurar imagens que mostrassem isso”, conta Elizabete.

Combinado às imagens, a diretora pegou sons de berimbau, um grito da Elza aqui, um som scat singing ali e montou uma espécie de transe. De repente, a lua brilhante no céu acaba com o auê carnavalesco que dá lugar ao “todo mundo entendeu quando Zelão chorou, ninguém riu nem brincou e era carnaval”. Essa é a história de Elza metaforizada na história de uma das maiores festas brasileiras. “(No final dessa cena) está tudo muito triste, mas tu já viu não ter carnaval? Esse carnaval vai continuar”, conta Elizabete. Assim como o carnaval, a cantora sempre volta e volta mais forte, como quando conseguiu retomar sua vida após a morte de Garrinchinha, seu filho com o jogador de futebol Garrincha. “Ela é uma fênix!”. Define a diretora mineira – com razão.

O espelho de Elza

O filme tem várias cenas impressionantes, como essa do carnaval, ou quando Elza é massageada em sua cama por seu terapeuta com a música A Carne ao fundo. Mas acho que o que mais ficou na minha cabeça foi a performance com o espelho de maquiagem. Nela, Elza fala com a câmera, com batom e espelho na mão. A deusa do samba nos encara, e seu rosto marcado por uma vida dura e pelo talento musical expressa falas sem palavras.

[caption id="attachment_13250" align="alignnone" width="800"] Foto de Tatiana Tonucci[/caption]

Sem rodeios e desbocada, Elza provoca e fala de racismo, de preconceito, de ser mulher, fazendo alusões a momentos de sua vida. “De que planeta você veio?”, nos pergunta Elza, como Ary Barroso a questionou em sua primeira aparição em um programa de calouros da Rádio Tupi. Mas a resposta que aquela jovem humilde deu à tentativa de chacota do apresentador na época não aparece no filme. A cantora prefere se focar no agora, não em tais experiências de seu passado. Elza Soares is now.

Essa personalidade de respostas afiadas enfrenta o público e nos deixa em uma posição de desconforto necessário. Pensei o tempo todo que ela poderia estar falando para os espectadores do filme. Ela poderia estar falando para qualquer um e essa é a sacada da cena do espelho que se repete várias vezes ao longo do documentário, como um fio condutor.

“Logo no começo, eu fui escrevendo as palavras que são, pra mim, os signos ‘Elza’ pra conversar com a minha equipe de produção de arte e uma palavra frequente era a palavra espelho”, diz Elizabete. A diretora gravou essa cena central perto do final da produção que levou cinco anos para ser concluída. Elizabete queria dar à cantora e sua amiga uma licença poética. “A preocupação maior não era fazer algo que fosse necessariamente aprovado por ela, mas que fosse feito junto com ela”. Após conversas sobre o rumo e o significado do trabalho para as duas, Elza se despiu brevemente do papel de cantora e vestiu o figurino de atriz para encarar a câmera.

A ideia de Elizabete era fazer de seu primeiro longa um laboratório, em que ela pudesse ter a liberdade de testar e de não se ater necessariamente a um roteiro. O repertório de Elza foi outro grande condutor, além da própria protagonista. E o resultado é uma produção artística que revela todo o rosto marcante da música brasileira.

Além da satisfação com seu lindo trabalho, a convivência com Elza foi outro presente à diretora. As duas passaram muito tempo juntas antes de completar as mais de 50 horas de gravação. Elas se conheceram em uma entrevista que Elizabete fazia para a emissora em que trabalhava na época e foram se aproximando. A ideia do filme veio quase que de ambas e, a partir daí, a relação estreitou. Elizabete acompanhava a cantora em suas turnês pelo país e o convívio as fez amigas. “Foi como conviver com uma sábia, que me deu essa oportunidade de pesquisá-la muito de perto e que confiou em mim”. A diretora passou a não se considerar mais uma documentarista, mas uma parceira e define: “Não foi só uma experiência de vida, mas uma experiência artística”.

O filme foi feito completamente de forma independente e exigiu muito da dedicação de Elizabete. Atualmente, a diretora está atrás de patrocinadores para fazer a distribuição e fazer com que sua obra chegue até nós, fãs e admiradores de Elza Soares e de bom cinema.

Escrito por
Mais de Débora Backes

Mulheres jornalistas contra o assédio

Mais uma vez as mulheres mostraram que não irão se calar diante de assédios justificados como “brincadeirinhas”. Muito menos no exercício de sua profissão. Ontem à noite, um grupo de mulheres jornalistas lançou um vídeo com relatos de assédios sofridos durante o trabalho. O vídeo de quase dois minutos faz parte da campanha Jornalistas Contra O Assédio, uma ação em solidariedade à repórter do portal iG assediada pelo cantor Biel.

Depois de ouvir frases machistas como “se te pego, te quebro no meio” e ser chamada de “gostosinha” durante entrevista com o MC sobre seu novo álbum, a repórter foi demitida da redação. Sim, isso mesmo. Como se já não bastasse o abalo emocional, a jornalista perdeu seu emprego pelo simples fato de tomar coragem e denunciar machinho misógino que se considera super star na Delegacia da Mulher de São Paulo.

Para provar que a repórter do iG não está sozinha e revelar o machismo presente nas redações, jornalistas criaram a fanpage no Facebook “Jornalistas Contra o Assédio”. No vídeo divulgado ontem à noite na página, são muitas as declarações bizarras de entrevistados e colegas de trabalho que as profissionais relatam ter escutado. Não são só declarações de cunho sexual ou referentes à aparência física, mas também frases que subestimavam sua competência profissional. “Ali eu escutei que as mulheres faziam as matérias mais lights, de comportamento, previsão do tempo, de bichinhos. E os homens faziam as matérias mais aprofundadas, de política e economia”, relata uma das jornalistas no vídeo.

Até o término desse texto, o vídeo já havia sido compartilhado 965 vezes. Muitos dos compartilhamentos contém relatos de outras profissionais escutaram coisas absurdas. Para quem pensava que o jornalismo é um lugar de gente cool, de mente aberta e sem preconceitos, essas histórias são um tapa na cara. Mas é um tapa na cara pra acordar essa gente e mostrar que se mexeu com uma, mexeu com todas!

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