Feminismo na China: conheça Hooligan Sparrow

Ser ativista pelos direitos das mulheres não é fácil em canto nenhum. Mas em países em ditadura, o negócio fica inimaginavelmente mais complicado. É o caso da China e suas feministas. Eu nem tinha ideia de como era o feminismo na China até assistir “Hooligan Sparrow”, da diretora chinesa que vive em Nova York, Nanfu Wang.

O documentário, que foi exibido no Berlin Feminist Film Week 2017, é focado na ativista Ye Haiyan (a.k.a. Sparrow) que ficou conhecida por defender direitos de profissionais do sexo e melhores condições de prevenção contra DSTs. Em 2012, Haiyan posou em um quarto de um bordel de baixo custo, ao lado de um cartaz que dizia “Serviços sexuais fornecidos de graça”. O seu comprometimento com a causa foi tão longe que ela chegou a ter relações sexuais com clientes pra sentir na pele em que condições prostitutas de bordéis baratos trabalham.

[caption id="attachment_14396" align="aligncenter" width="768"] Ativista chinesa trabalhou por um dia de graça em bordel[/caption]

Nanfu Wang acompanhou a ativista e outras mulheres engajadas em causas feministas em um protesto na província de Hainan. Em 2013, um diretor de uma escola local foi acusado de levar seis de suas alunas do Ensino Fundamental para um hotel, onde elas foram estupradas por ele e outros homens. Mas para não serem acusados de estupro quando o caso veio à tona – o que poderia resultar, inclusive, em pena de morte –, os envolvidos alegaram que pagaram as meninas pelo sexo. Com isso, foram acusados “apenas” de prostituição infantil.

O caso polêmico mobilizou pessoas como Ye Haiyan que foram até Hainan para protestar contra o diretor e as pessoas que o estavam apoiando. Durante o protesto, Sparrow segura um cartaz em que se lê “Ei: diretor: pegue um quarto comigo e deixe as crianças em paz”. Nos dias seguintes, várias pessoas postaram fotos nas redes sociais chinesas, segurando cartazes com as mesmas palavras.

[caption id="attachment_14398" align="aligncenter" width="608"] Cartaz diz: “Ei, diretor: pegue um quarto comigo e deixe as crianças em paz!”[/caption]

 

Por essas e outras ações, Haiyan é vigiada, monitorada e perseguida pelo governo chinês e por cidadãos que não concordam com seus atos. Um dia, um grupo de homens, aparentemente civis, aparecem à porta de seu apartamento para lhe agredir. Ao que Haiyan chama a polícia para levar os homens, ela mesma é levada presa, supostamente por agredir os homens com um facão (as provas parecem ter sido plantadas pela polícia). Quando Sparrow volta da prisão, a mesma coisa de novo: vizinhos (todos homens) fazem um coro em frente a seu prédio, a chamando de puta e dizendo para que deixe a cidade. A polícia é contatada dessa vez pela advogada de Haiyan, mas quando chega ao local, as duas mulheres e outros ativistas são os que são reprimidos e ameaçados de prisão.

Pouco tempo depois, Sparrow, sua filha e seu namorado, são expulsos do apartamento e começam uma jornada em que são jogadas de uma cidade a outra. Ninguém os quer por perto. Ninguém quer problema com o governo e a polícia.

[caption id="attachment_14399" align="aligncenter" width="723"] Haiyan e sua filha depois de terem sido despejadas de seu apartamento mais uma vez[/caption]

E assim segue o documentário e a rotina de Ye Haiyan e de outras ativistas, como a de sua advogada Wung Yu que também aparece várias vezes no filme. Com o governo cercando de todos os lados, a polícia na cola, uma mídia censurada e o conservadorismo da população, as feministas chinesas quase não conseguem agir e temem por sua segurança.

Durante o documentário de Nanfu Wang, a ameaça às ativistas fica clara e a própria diretora é perseguida. Nanfu é interrogada pela Polícia de Segurança Nacional chinesa – com um gravador escondido com que documenta toda a conversa – e é forçada a se esconder quando familiares e amigos começam a ser procurados para responder perguntas sobre ela.

[caption id="attachment_14400" align="aligncenter" width="676"] A diretora Nanfu Wang fala sobre a perseguição pela polícia chinesa.[/caption]

Nanfu Wang aparece várias vezes frente a câmera para relatar seu medo em perder o material das filmagens e sua liberdade. Nas gravações que compõe “Hooligan Sparrow”, ela é hostilizada e fotografada por estranhos na rua – provavelmente policiais à paisana. Sem a opção de enviar o material digitalmente ou por correio – até o FedEx que sai da China é fiscalizado –, ela acaba tendo quase que contrabandear seus vídeos para fora do país.

O filme chega a ser angustiante, pela tensão das duas, mas dá uma felicidade em saber que há mulheres assim em diferentes cantos do mundo. As duas mulheres, diretora e protagonista, correm riscos o tempo todo para divulgar sua mensagem e levá-la para fora dos muros da China. E tudo isso sem se abalar ou desistir…

Escrito por
Mais de Débora Backes

Ouça: Angel Haze

Pensa em uma mulher f*. Com uma história de vida pesada. Agora a imagine com um microfone na mão, fazendo rap sobre sua infância e adolescência violentas. Essa é Angel Haze, uma rapper americana, com origens indígena e africana, que nos presenteia com letras marcantes e questionadoras.

Batizada Raeen Angel Wilson, a rapper nasceu em Detroit em 1991, depois que seu pai, envolvido em diferentes gangues, morreu com um tiro no estômago numa briga. Sua mãe era uma índia Cherokee que começou a se relacionar com um pastor da Greater Apostolic Faith, uma vertente americana da igreja pentecostal cristã.

Em um artigo sobre Angel Haze, o jornalista Tom Lamont, do Guardian, descreve essa religião como uma que admite que os homens que estão dentro dela se comportem de forma extravagante. Como no caso do padrasto de Haze, que tinha outra esposa e filhos, mas dizia que Deus queria que a família Wilson fosse morar com eles.

Até os 14 anos, Angel Haze viveu nessa comunidade religiosa e cresceu com a ideia de que poderia morrer espontaneamente caso não se comportasse adequadamente.

Foi também ali que a rapper foi abusada sexualmente quando tinha apenas sete anos. O homem que a atacou era um amigo da família que tinha livre acesso a casa e as crianças. Ela fala explicitamente sobre isso na sua releitura de “Cleaning Up my Closet”, de Eminem.

“E aconteceu em uma casa
Onde todos sabiam (…)
Uma noite ele chegou em casa e eu estava dormindo na minha cama.
Ele subiu em cima de mim e se forçou entre minhas pernas
E ele disse, ei Ray, eu vi que você gosta de picolés
Então coloca a boca no meu pau e engole essa porra
(…) Imagine ter sete anos e ver porra na sua calcinha
Eu sei que é desagradável, mas às vezes eu até sangro pela bunda
Nojento, não é? Agora deixa esse sentimento te tocar fundo”

A letra toda é explícita, sem segredos, e nos faz encarar seus traumas como menina e como mulher. Em sua entrevista para o Guardian, a rapper diz que, antes da música, não conseguia ficar no mesmo espaço consiga mesma sem se ver sendo arrastada para o fundo por suas experiências de vida. Mas com a música, ela consegue colocar isso pra fora e “vomitar demônios pra todos os lados”.

O clipe do single Battle Cry parece ser outra forte referência ao seu passado. Nele, um pastor parece tirar os demônios de uma garotinha em um culto, enquanto sua mãe e um segundo homem observam. Depois disso, ela é colocada no carro com esse homem, enquanto chora pela mãe. Haze passa pela cena e canta: “Mas um dia você será mais forte do que tudo isso./ Você será./ E então você poderá dizer/ Não há dinheiro que possa comprar/Todo o amor que está aqui, esta noite”.

Seu passado e seu presente de superação são temas recorrentes em suas letras, como em A Tribe Called Red, Black Dahlia e Black Synagoge, todas do álbum Dirty Gold, de 2013. O seu mais recente álbum é Black To The Woods, de 2015.

Vale lembrar que Angel Haze ficou também conhecida por seu relacionamento com a modelo Ireland Baldwin, filha de Alec Baldwin e Kim Basinger. Mas a rapper não gosta de se definir como gay, bi ou hetero, apenas como ela mesma, Angel Haze, um vulcão em erupção depois de anos sendo oprimido.

O seu mais recente single é exatamente sobre isso. Sobre ressurgir como uma fênix. É lindo e ficamos felizes em ver que Haze sobreviveu ao seu passado.

Para conferir mais sobre essa monstra detonadora do rap, dá uma conferida na sua página do Facebook, Spotify, Instagram e YouTube.

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Berlin Feminist Film Week 2017, é focado na ativista Ye Haiyan (a.k.a. Sparrow) que ficou conhecida por defender direitos de profissionais do sexo e melhores condições de prevenção contra DSTs. Em 2012, Haiyan posou em um quarto de um bordel de baixo custo, ao lado de um cartaz que dizia “Serviços sexuais fornecidos de graça”. O seu comprometimento com a causa foi tão longe que ela chegou a ter relações sexuais com clientes pra sentir na pele em que condições prostitutas de bordéis baratos trabalham.

Nanfu Wang acompanhou a ativista e outras mulheres engajadas em causas feministas em um protesto na província de Hainan. Em 2013, um diretor de uma escola local foi acusado de levar seis de suas alunas do Ensino Fundamental para um hotel, onde elas foram estupradas por ele e outros homens. Mas para não serem acusados de estupro quando o caso veio à tona – o que poderia resultar, inclusive, em pena de morte –, os envolvidos alegaram que pagaram as meninas pelo sexo. Com isso, foram acusados “apenas” de prostituição infantil.

O caso polêmico mobilizou pessoas como Ye Haiyan que foram até Hainan para protestar contra o diretor e as pessoas que o estavam apoiando. Durante o protesto, Sparrow segura um cartaz em que se lê “Ei: diretor: pegue um quarto comigo e deixe as crianças em paz”. Nos dias seguintes, várias pessoas postaram fotos nas redes sociais chinesas, segurando cartazes com as mesmas palavras.

 

Por essas e outras ações, Haiyan é vigiada, monitorada e perseguida pelo governo chinês e por cidadãos que não concordam com seus atos. Um dia, um grupo de homens, aparentemente civis, aparecem à porta de seu apartamento para lhe agredir. Ao que Haiyan chama a polícia para levar os homens, ela mesma é levada presa, supostamente por agredir os homens com um facão (as provas parecem ter sido plantadas pela polícia). Quando Sparrow volta da prisão, a mesma coisa de novo: vizinhos (todos homens) fazem um coro em frente a seu prédio, a chamando de puta e dizendo para que deixe a cidade. A polícia é contatada dessa vez pela advogada de Haiyan, mas quando chega ao local, as duas mulheres e outros ativistas são os que são reprimidos e ameaçados de prisão.

Pouco tempo depois, Sparrow, sua filha e seu namorado, são expulsos do apartamento e começam uma jornada em que são jogadas de uma cidade a outra. Ninguém os quer por perto. Ninguém quer problema com o governo e a polícia.

E assim segue o documentário e a rotina de Ye Haiyan e de outras ativistas, como a de sua advogada Wung Yu que também aparece várias vezes no filme. Com o governo cercando de todos os lados, a polícia na cola, uma mídia censurada e o conservadorismo da população, as feministas chinesas quase não conseguem agir e temem por sua segurança.

Durante o documentário de Nanfu Wang, a ameaça às ativistas fica clara e a própria diretora é perseguida. Nanfu é interrogada pela Polícia de Segurança Nacional chinesa – com um gravador escondido com que documenta toda a conversa – e é forçada a se esconder quando familiares e amigos começam a ser procurados para responder perguntas sobre ela.

Nanfu Wang aparece várias vezes frente a câmera para relatar seu medo em perder o material das filmagens e sua liberdade. Nas gravações que compõe “Hooligan Sparrow”, ela é hostilizada e fotografada por estranhos na rua – provavelmente policiais à paisana. Sem a opção de enviar o material digitalmente ou por correio – até o FedEx que sai da China é fiscalizado –, ela acaba tendo quase que contrabandear seus vídeos para fora do país.

O filme chega a ser angustiante, pela tensão das duas, mas dá uma felicidade em saber que há mulheres assim em diferentes cantos do mundo. As duas mulheres, diretora e protagonista, correm riscos o tempo todo para divulgar sua mensagem e levá-la para fora dos muros da China. E tudo isso sem se abalar ou desistir…

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