Ouça: Laura Mvula

Laura Mvula é uma mulher negra poderosa e orgulhosa de suas origens. E isso se reflete nas suas letras, sua melodia e na estética de seus clipes.

A cantora britânica de ascendência caribenha tem estilo único, voz suave e sinuosa. Em seus dois álbuns, ela traz músicas animadas, com misturas incomuns de ritmos, e algumas músicas que lembram uma prece cantada, como que em um coral – talvez uma marca por ter crescido em uma família muito religiosa em Birmingham.

Em Sing to Moon (2013), álbum que alavancou sua carreira, Laura Mvula apresenta uma combinação um tanto estranha de orquestrações e melodias ondulantes. Minha música favorita dele é Green Garden, que já apresentamos pra vocês aqui na lista de Ouça Mulheres Negras de 2014.

É mais uma baladinha, com ritmos infantis, como de uma brincadeira.

Outra muito boa, de melodia mais dramática, é a que dá nome ao seu primeiro álbum. Nessa versão ao vivo, ela canta acompanhada pelo som de um arpa e um violoncelo, que dão o tom necessário para uma atmosfera que a música quer construir.

Em uma entrevista ao jornal Guardian, antes de lançar seu segundo álbum em 2016, The Dreaming Room, Laura revelou que, praticamente desde o início de sua carreira, vinha sofrendo de ataques de ansiedade.

O desencadeador foi a separação dos pais, depois veio a pressão de fazer a turnê do primeiro álbum, depois um divórcio. Laura chegou ao ponto de precisar que alguém estivesse sempre com ela o tempo todo, inclusive nos momentos em que compunha suas canções.

Mas ela conseguiu. Mesmo com os frequentes ataques de pânico, terminou seu segundo álbum, outro sucesso. Nele está a minha música preferida dela: Overcome (muito apropriado o título), em parceria com Nile Rodgers. É impossível não se arrepiar com esse clipe!

Outra imperdível dela é Phenomenal Woman. A letra é empoderadora e achei super simbólico ver o vídeo dessa música sendo protagonizado especialmente por mulheres negras. Em todos os clipes que vi de Laura Mvula, ela convida dançarinos negros, mas neste, a presença dessas mulheres mostrando todo seu poder deu um significado a mais à letra.

Para escutar mais músicas dessa mulher, acesse seu canal no Spotify ou no SoundCloud. Também a siga aqui:

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Mais de Débora Backes

Gênero fala de todo mundo

Em meio a discussões sobre programa Escola Sem Partido, cresce também a tentativa de colocar o debate sobre gênero no fundo de uma gaveta e trancá-lo a sete chaves. Exatamente para tirar ele dessas profundezas e mostrar que gênero não é algo associado apenas à comunidade LBGT, mas a todos nós, foi que a Anis – Instituto Bioética lançou a semana especial “Gênero fala de todo mundo”. Na ação, a organização postou em suas redes sociais, entre os dias 18 e 22 de julho, textos e infográficos para esclarecer o que significa, afinal, debater gênero.

Vivemos em um contexto cheio de equívocos e tabus, em que se classifica educação sobre gênero como propaganda. Muito se acredita que uma criança possa se tornar gay, lésbica, bi ou trans só pelo fato de ter conhecimento sobre isso, já que a falta de consciência para diferenciar “o certo do errado” a deixa mais vulnerável a escolher o caminho tido como errado, ou seja, o da não tradição de família. “Percebemos que a população confunde muito o conceito de gênero com questões específicas da comunidade LGBT, quando não muito com perversões sexuais das mais bizarras. Decidimos, portanto, produzir um material bem didático para mostrar que gênero é importante, sim, de se discutir nas escolas porque fala de um regime político de poder, que inclui todos”, explicou a jornalista da Anis, Raisa Pina.

Tendo isso em mente, foram publicados seis infográficos coloridos e didáticos e cinco textos assinados pelas pesquisadoras da Anis, Sinara Gumieri, Raisa Pina, Luciana Brito, Debora Diniz e Gabriela Rondon. Cada dia um texto em um veículo diferente para fazer a mensagem chegar mais longe. O material traz desde questões bastante básicas como o que é, afinal, gênero, até desconstruções da tal “apologia gayzista” ou da ideia de “ideologia de gênero”.

 
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A advogada Sinara Gumiere abriu a série explicando que gênero tem muito mais a ver com política e poder do que com anatomia. “Para nós, o gênero, assim com artigo definido e no singular, é um regime político, isto é, uma forma de organizar a vida, com regras e estruturas de poder. Diferentes formas de entender gênero têm em comum a compreensão de que a forma como habitamos os corpos não gera destinos: não há experiências que sejam obrigatórias ou necessárias por causa de nossas anatomias”, escreve.

Ou seja, ninguém é obrigado a seguir ideias fixas de gênero só por causa do corpo com o qual nasceu. “Não há isso de natureza masculina, a qual condiciona homens com pênis a serem provedores, fortões ou gostar de mulher; ou, então, natureza feminina, que condiciona mulheres com vagina a serem mães, delicadas e boas esposas de homens”, argumenta a psicóloga Luciana Brito.

 
escola genero
 
Ela segue essa linha de raciocínio para dizer que, se há argumentos que ninguém nasce mulher, mas se torna mulher, então pode-se dizer que ninguém nasce homofóbico, transfóbico ou agressor de mulheres, mas são feitos assim por uma sociedade que não aceita diferenças e ignora diversidades. Que melhor lugar para mudar essa base social intolerante do que pelas mentes jovens nas escolas?13738241_1142638305809100_2000562794690069599_o

Não se trata de ensinar ideologias nas escolas, mas conversar sobre experiências e vivências diferentes daquelas que cada um conhece, como explica a antropóloga Debora Diniz. “Não há livro sagrado que diga como devem viver os homens e as mulheres na intimidade de suas escolhas, e por isso gênero fala de todo mundo. Não é ideologia de gênero, mas vidas vividas no gênero”. Tampouco de fazer uma “apologia gayzista”, como mostra a série com o texto de Raisa Pina. Falar de gênero nada tem a ver com propaganda. Até porque ninguém vai virar gay por achar legal dois caras se beijando na novela ou porque ouviu falar de homossexualismo. “Acreditem: esses são todos comentários reais, “argumentos” em defesa da não discussão sobre gênero nas escolas. Muito me espanta o quanto as pessoas pensam que suas posições são frágeis: falar sobre algo significaria se tornar esse algo”, escreve Pina.

 
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É simples. Discutir gênero é conversar sobre diferenças que existem no mundo. É ensinar respeito. Foi graças a esse tipo de discussão que mulheres conseguiram avançar no processo de igualdade, com direito ao voto, a frequentar universidades, a trabalhar fora de casa, assim como homens ganharam direito à licença-paternidade.

São grandes avanços, mas ainda não são suficientes. A advogada Gabriela Rondon lembra há quem argumente contra a educação sobre gênero nas escolas porque isso já seria desnecessário. Aparentemente para essas pessoas já vivemos em um paraíso, onde todos vivem em harmonia de mãos dadas (mas só entre homem e mulher, obviamente).  Claro que as coisas mudaram nos últimos 50 anos, mas a igualdade de direitos é um processo lento. “Não acontece do dia para a noite nem é um processo acabado. Ainda precisamos falar sobre gênero”.

 
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Sim, precisamos! E muito. Casos de violência contra mulher e homossexuais são realidade ainda no Brasil e querer igualdade de direitos para esses grupos não significa estar atrás de privilégios. Significa querer liberdade e respeito, valores que não vão fazer o mundo ficar pior – muito pelo contrário – se ensinados desde cedo, em sala de aula.

 

As ilustrações foram feitas por Valentina Fraiz e foram feitas exclusivamente para a ação da Anis.
 

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Laura Mvula é uma mulher negra poderosa e orgulhosa de suas origens. E isso se reflete nas suas letras, sua melodia e na estética de seus clipes.

A cantora britânica de ascendência caribenha tem estilo único, voz suave e sinuosa. Em seus dois álbuns, ela traz músicas animadas, com misturas incomuns de ritmos, e algumas músicas que lembram uma prece cantada, como que em um coral – talvez uma marca por ter crescido em uma família muito religiosa em Birmingham.

Em Sing to Moon (2013), álbum que alavancou sua carreira, Laura Mvula apresenta uma combinação um tanto estranha de orquestrações e melodias ondulantes. Minha música favorita dele é Green Garden, que já apresentamos pra vocês aqui na lista de Ouça Mulheres Negras de 2014.

É mais uma baladinha, com ritmos infantis, como de uma brincadeira.

Outra muito boa, de melodia mais dramática, é a que dá nome ao seu primeiro álbum. Nessa versão ao vivo, ela canta acompanhada pelo som de um arpa e um violoncelo, que dão o tom necessário para uma atmosfera que a música quer construir.

Em uma entrevista ao jornal Guardian, antes de lançar seu segundo álbum em 2016, The Dreaming Room, Laura revelou que, praticamente desde o início de sua carreira, vinha sofrendo de ataques de ansiedade.

O desencadeador foi a separação dos pais, depois veio a pressão de fazer a turnê do primeiro álbum, depois um divórcio. Laura chegou ao ponto de precisar que alguém estivesse sempre com ela o tempo todo, inclusive nos momentos em que compunha suas canções.

Mas ela conseguiu. Mesmo com os frequentes ataques de pânico, terminou seu segundo álbum, outro sucesso. Nele está a minha música preferida dela: Overcome (muito apropriado o título), em parceria com Nile Rodgers. É impossível não se arrepiar com esse clipe!

Outra imperdível dela é Phenomenal Woman. A letra é empoderadora e achei super simbólico ver o vídeo dessa música sendo protagonizado especialmente por mulheres negras. Em todos os clipes que vi de Laura Mvula, ela convida dançarinos negros, mas neste, a presença dessas mulheres mostrando todo seu poder deu um significado a mais à letra.

Para escutar mais músicas dessa mulher, acesse seu canal no Spotify ou no SoundCloud. Também a siga aqui:

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