Bota esse cabelo pra cima!

Gabi Monteiro. Foto por Derek Mangabeira.

Todos os dias mulheres negras passam por situações humilhantes e constrangedoras que partem de atitudes que não são nada mais do que racistas e ignorantes, de pessoas que não nos aceitam do jeito que nos aceitamos. Mas no caso de Gabriela Monteiro, ela teve a coragem que poucas de nós temos – e eu sei que é difícil ter – ela denunciou.

Gabi não só denunciou os atos racistas que sofreu de professoras no curso de Design de Moda da Universidade da Puc – Rio de Janeiro, prestando queixas de racismo na 12ª DP em Copacabana, como também expôs o caso no seu Facebook – o que exige muita coragem – e deixou claro para todo mundo que não importa o quanto falassem, ela vai continuar sempre botando seu cabelo para cima.

[caption id="attachment_2436" align="alignnone" width="600"]Gabi Monteiro Gabi em foto divulgada em seu perfil no Facebook. Usada para dizer que ela vai sempre “botar o cabelo pra cima” diante do racismo | Foto: Renato Galvão[/caption]

 

Gabi por si só, já é um modelo de empoderamento. No oitavo ano do curso, é a única negra da sala dela, o que demonstra a falta de oportunidade para jovens negros nas universidades do Brasil, mesmo com programas sociais que tentam facilitar o aumento de participação. Ao denunciar o racismo que sofreu na instituição, ela também fez um ato empoderador e emocionante.

Em seu Facebook ela escreveu:
 

“O nó e a angustia que me referi no início do texto é por conta da decisão de tomar uma atitude, não apenas ficar reclamando pro vento, mas buscar meus direitos juridicamente! Primeiro refleti sobre as possíveis retalhações que posso sofrer na própria universidade, já que não existem outras opões de professores para essa matéria, depois veio a dificuldade de encontrar um advogado que estivesse disposto a me orientar, e por último o constrangimento de registrar o caso na delegacia, que definitivamente não está preparada para receber pessoas que sofrem preconceito, eu e minha mãe fomos tratadas de forma grosseira, com descaso por parte do policial que me recebeu.”

 
Foi possível ver minha história em cada linha dos textos de Gabi no Facebook, e tenho certeza de que muitas outras mulheres também se viram ali, mesmo que nossas histórias não sejam exatamente iguais. Foi possível se identificar quando ela fala da dificuldade de se reconhecer negra em função de tantas imposições e padrões vindos da sociedade e a nossa necessidade de se adequar a eles para sobreviver. É possível se identificar quando ela fala da importância do nosso cabelo nesse processo de reconhecimento.

E mais importante: Gabi é um exemplo público de que as premissas de que o crespo ou cacheado são tipos de “cabelo ruim”, e que de por algum motivo é feio diante dos olhos das pessoas, são racistas sim. E parte da ideia de que temos que nos esconder atrás de alisamentos que embranquecem nossa aparência para agradar as outras pessoas. Mostra o quanto isso incomoda quando não deveria, quando estamos sendo apenas nós mesmas em nosso estado natural. E como as pessoas se acham no direito de interferir em nossa aparência só por causa desse incomodo.

Durante meus quatro anos de faculdade, eu ainda usei chapinha, e imaginar que poderia ter passado pelo mesmo que Gabi passou se eu já tivesse meu cabelo assumido foi fácil, mais ainda foi perceber que eu e outras passamos por isso todos os dias em outras situações na vida: Na rua, no trabalho, ou mesmo em casa.

O que foi dito a Gabi foi relatado em seu post no Facebook, e não vale a pena repetir neste texto, pois as falas ofensivas já foram suficientemente repetidas em outras mídias e quem é negra e crespa ou cacheada acaba ouvindo estas repetições por demais também.

Além disso, a intenção aqui – além de pensar no futuro ao apoiar Gabi nessa luta que ainda não terminou, sabendo que ela ainda enfrentará a negação das pessoas que a atingiram e a ignorância de quem não entende a importância de uma denúncia como esta – é também mostrar a força dessa mulher e tê-la como exemplo.

Toda vez que você se sentir para baixo com comentários negativos, não se deixe abater, não obedeça as imposições de esconder o volume e as formas do seu cabelo. Quanto mais comentários racistas e opressores de pessoas que estiverem incomodadas com seu cabelo, mais significa que precisamos continuar mostrando o poder de nossas coroas. Sempre que isso te afetar, responda como a Gabi. Bote seu cabelo pra cima.

Bota seu cabelo pra cima para mostrar que ele é assim e que você o ama. Bota seu cabelo pra cima para ir a delegacia denunciar e saber exigir um bom tratamento. Bota o cabelo pra cima pra lutar contra o racismo.
 

BOTA ESSE CABELO PRA CIMA!

Mais de Karoline Gomes

Box braids e a reafirmação de identidade

“Porque você fez isso no cabelo? Você quer ser negra?”. A pergunta foi feita por um amigo da família, em pleno almoço de Natal, e fez com que as atenções na mesa se voltassem para mim, pois todos realmente esperavam entender meu novo cabelo.

Há dias eu estava respondendo perguntas inconvenientes, uma pessoa até havia cheirado a minha cabeça para tirar uma dúvida crucial: “será que fede?”.

Apesar do constrangimento, me dei o trabalho de responder: “eu sou negra”. É que eu pensei que o assunto se encerraria com esta afirmação, mas, aparentemente, haviam mais argumentos contra isso. “Eu lembro que sua mãe cuidava do seu cabelo quando você era pequena. Depois você alisou e ficou parecendo uma mocinha comportada. E, agora que estávamos nos acostumando com aquele outro cabelo (ele estava se referindo ao meu black power, meu cabelo natural), você vai e faz isso”.
 

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“Bitch, don’t kill my vibe” – meu afro natural

  
Isso que o colega inconveniente estava apontando eram minhas box braids (ou tranças sintéticas), que eu fiz dias antes do Natal. É possível utilizar as tranças por até três meses e eu fiz em dezembro pensando em aproveitá-las durante o verão para facilitar com os cuidados em época na praia, piscina e em viagens. Depois desse período, voltei a utilizar meu cabelo afro natural, como antes.
 

Minhas box braids ♡

 
As tranças foram popularizadas no Brasil lá pelos anos 90, época em que eram conhecidas como “tranças canecalon” e também se usava muito a trança nagô. Mas na verdade, canecalon é o nome de uma das muitas marcas que fabricam o cabelo sintético utilizado para trançar. No meu caso, escolhi um tipo mais leve, chamado jumbo.

As braids são muito bonitas e estilosas sim, por isso ajudam também a elevar a auto-estima e a tornar o período da transição capilar mais fácil de se lidar. Não é a toa que, com o aumento de mulheres negras aderindo a transição, a técnica voltou a ser procurada em salões especializados.

Mas é claro que as box braids significam muito mais do que um método facilitador de cuidados para o cabelo. Esta técnica para trançar nasceu da cultura africana e foi passada e aperfeiçoada de geração em geração.

Ao trançar o cabelo, uma mulher negra assume ainda mais seus traços, completamente ciente das questões da ancestralidade e da representação de suas raízes. E, para mim particularmente, as box braids me obrigaram a reforçar minha identidade e a reviver a estranheza que as pessoas tiveram quando assumi meu cabelo natural, há pouco mais de um ano.

Percebi que eu mesma havia encontrado conforto quando as pessoas mais próximas de mim, como familiares e amigos, haviam parado de me julgar e questionar minha escolha de assumir uma herança afro que eu passei a vida escondendo.

No primeiros meses pós big chop, ouvi muitas críticas, desencorajamento, xingamentos e até pedidos para voltar a alisar o cabelo. Mas logo tudo isso passou. Não sei se começaram a falar pelas minhas costas, não sei se simplesmente aceitaram o fato de que eu não alisaria mais ou talvez tenha sido o que o cara inconveniente apontou: estavam todos se acostumando com minha “nova” aparência.

Toda vez que eu volto para a cidadezinha onde eu morava, ainda percebo e me incomodo com os olhares de desaprovação pelas ruas (mesmo ainda encontrando gente racista e preconceituosa em São Paulo, por aqui a aceitação das pessoas é bem maior). Mas, uma vez que na casa da minha família os insultos tinham acabado, por mim estava tudo bem. Melhor ainda quando minha mãe pôde se sentir segura para começar a transição dela!

Mas ter colocado as tranças me fez perceber que não, não estava tudo bem. Que as pessoas aceitam sua negritude desde que não as ofenda, desde que lhes sejam agradáveis aos olhos.

 

As tranças das brancas

Assim como quando assumi meu cabelo, o período em que utilizei as box braids me fez perceber o quanto eu tinha que justificar escolhas que deveriam ser naturais para mim. Eu não estava fazendo nada de errado em mostrar minha negritude e adaptar uma herança cultural à minha aparência para me sentir empoderada e por todos os outros motivos.

Ainda assim, tais motivos tinham que ser listados quando mais de uma pessoa me perguntava porque eu havia escolhido trançar o meu cabelo, assim como já tive que justificar a minha escolha de largar o alisamento.

Eu entendo e vivi na pele a necessidade de alisar, clarear a pele e buscar qualquer alternativa de branqueamento só para me sentir aceita. Por isso, tento compreender, conversar e encorajar outras pessoas negras a se aceitarem, ao mesmo tempo que sempre tento me mostrar forte diante das ofensas e desaprovação vinda dos brancos, mostrando resistência.

Este é um tipo de postura e responsabilidade que eu assumi por escolha própria, afinal, eu não sou obrigada a ficar me justificando. Sei que posso usar meu black, tranças ou alisar o cabelo como e quando eu quiser. Mas devo confessar que as vezes tudo isso cansa, principalmente quando se nota que todo este esforço mal dá resultados e que ainda existem padrões que são mais aceitos e respeitados.

Não quero entrar em detalhes quanto a apropriação cultural (outro assunto que me cansa de tanto debate, questionamento e discussões sem rumo), mas de fato é doloroso notar que, enquanto eu recebia ofensas, uma mulher branca era destaque na mídia por ter o mesmo penteado que eu.

Mas não precisei ir muito longe para sentir essa diferenciação na pele. Uma prima branca que trançou o cabelo dias depois de mim e estava na mesma comemoração da Natal recebeu reações completamente diferentes. Para todos o cabelo dela era “hippie, estiloso, moderno, diferente”, enquanto eu cheguei até a ser perguntada se estava usando drogas para aderir a um penteado tão ~rebelde~.

Sim. Eu e ela estávamos usando o M-E-S-M-O tipo de trança.

Como em toda conversa sobre apropriação cultural, eu sempre explico que não posso proibir ninguém de aderir a nenhum tipo de cultura afro-brasileira ou africana de raiz. Sei também que minha prima entende a importância do penteado e que ela, particularmente, estava passando por momentos difíceis na transição capilar, o que a levou a aderir às braids.

Mas é um fato inegável e difícil de ignorar que, quando mulheres brancas utilizam as braids e outros elementos, elas não têm que se justificar. A sociedade reage como um fator de moda e estética e fica tudo certo.

Acho que, no fundo, toda essa conversa machuca e cansa, pois tudo o que eu queria é poder ser negra em paz, como as mulheres brancas podem ser.
 

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Ilustração feita com exclusividade por LoveLove6.

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Gabriela Monteiro, ela teve a coragem que poucas de nós temos – e eu sei que é difícil ter – ela denunciou.

Gabi não só denunciou os atos racistas que sofreu de professoras no curso de Design de Moda da Universidade da Puc – Rio de Janeiro, prestando queixas de racismo na 12ª DP em Copacabana, como também expôs o caso no seu Facebook – o que exige muita coragem – e deixou claro para todo mundo que não importa o quanto falassem, ela vai continuar sempre botando seu cabelo para cima.

 

Gabi por si só, já é um modelo de empoderamento. No oitavo ano do curso, é a única negra da sala dela, o que demonstra a falta de oportunidade para jovens negros nas universidades do Brasil, mesmo com programas sociais que tentam facilitar o aumento de participação. Ao denunciar o racismo que sofreu na instituição, ela também fez um ato empoderador e emocionante.

Em seu Facebook ela escreveu:
 

“O nó e a angustia que me referi no início do texto é por conta da decisão de tomar uma atitude, não apenas ficar reclamando pro vento, mas buscar meus direitos juridicamente! Primeiro refleti sobre as possíveis retalhações que posso sofrer na própria universidade, já que não existem outras opões de professores para essa matéria, depois veio a dificuldade de encontrar um advogado que estivesse disposto a me orientar, e por último o constrangimento de registrar o caso na delegacia, que definitivamente não está preparada para receber pessoas que sofrem preconceito, eu e minha mãe fomos tratadas de forma grosseira, com descaso por parte do policial que me recebeu.”

 
Foi possível ver minha história em cada linha dos textos de Gabi no Facebook, e tenho certeza de que muitas outras mulheres também se viram ali, mesmo que nossas histórias não sejam exatamente iguais. Foi possível se identificar quando ela fala da dificuldade de se reconhecer negra em função de tantas imposições e padrões vindos da sociedade e a nossa necessidade de se adequar a eles para sobreviver. É possível se identificar quando ela fala da importância do nosso cabelo nesse processo de reconhecimento.

E mais importante: Gabi é um exemplo público de que as premissas de que o crespo ou cacheado são tipos de “cabelo ruim”, e que de por algum motivo é feio diante dos olhos das pessoas, são racistas sim. E parte da ideia de que temos que nos esconder atrás de alisamentos que embranquecem nossa aparência para agradar as outras pessoas. Mostra o quanto isso incomoda quando não deveria, quando estamos sendo apenas nós mesmas em nosso estado natural. E como as pessoas se acham no direito de interferir em nossa aparência só por causa desse incomodo.

Durante meus quatro anos de faculdade, eu ainda usei chapinha, e imaginar que poderia ter passado pelo mesmo que Gabi passou se eu já tivesse meu cabelo assumido foi fácil, mais ainda foi perceber que eu e outras passamos por isso todos os dias em outras situações na vida: Na rua, no trabalho, ou mesmo em casa.

O que foi dito a Gabi foi relatado em seu post no Facebook, e não vale a pena repetir neste texto, pois as falas ofensivas já foram suficientemente repetidas em outras mídias e quem é negra e crespa ou cacheada acaba ouvindo estas repetições por demais também.

Além disso, a intenção aqui – além de pensar no futuro ao apoiar Gabi nessa luta que ainda não terminou, sabendo que ela ainda enfrentará a negação das pessoas que a atingiram e a ignorância de quem não entende a importância de uma denúncia como esta – é também mostrar a força dessa mulher e tê-la como exemplo.

Toda vez que você se sentir para baixo com comentários negativos, não se deixe abater, não obedeça as imposições de esconder o volume e as formas do seu cabelo. Quanto mais comentários racistas e opressores de pessoas que estiverem incomodadas com seu cabelo, mais significa que precisamos continuar mostrando o poder de nossas coroas. Sempre que isso te afetar, responda como a Gabi. Bote seu cabelo pra cima.

Bota seu cabelo pra cima para mostrar que ele é assim e que você o ama. Bota seu cabelo pra cima para ir a delegacia denunciar e saber exigir um bom tratamento. Bota o cabelo pra cima pra lutar contra o racismo.
 

BOTA ESSE CABELO PRA CIMA!

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