Aceita que dói menos, linda

Ilustração por Fernanda Garcia (Kissy)
Ilustração por Fernanda Garcia (Kissy)

A insatisfação com o próprio corpo está tão óbvia quanto afirmar que todos temos um corpo. Ou você é gordo demais ou magro demais, com curva demais ou curva de menos. As revistas, a internet, programas de TV matutinos dizem que a barriga negativa, os seios pequenos, a bunda grande está na moda. Mas espera lá, como a forma natural de uma pessoa pode estar na moda?

O corpo não é como uma roupa que você compra uma peça nessa estação e se desfaz dela na próxima. Apesar de algumas clínicas de estética e médicos prometerem mundos e fundos para tornar isso possível, não é saudável para o corpo e para a mente. E se você não tiver dinheiro para ter o corpo perfeito igual ao da fulana na capa da revista? Então seja infeliz, não é mesmo? Não!

Sabe aquela coisa de que “representatividade importa”? É a mais pura verdade.

O ‘body positivity’ é um movimento lindo que vai contra essa perfeição. Ele tem como premissa o amor pelo próprio corpo, todos os tipos de corpos. Ou seja, são pessoas amando suas singularidades e enxergando a beleza aí, no que não é igual a ninguém, em cada marca e em cada pedacinho dele.
 
[caption id="attachment_3918" align="aligncenter" width="700"]Ilustração por Fernanda Garcia (Kissy) Ilustração por Fernanda Garcia (Kissy)[/caption]

Meu corpo sempre foi fora de qualquer padrão “aceitável” . Quadril muito largo, bunda muito grande, peitos grandes, coxas muito grossas, rosto muito redondo e braços grossos. Ser cheia de curvas e ter traços nada delicados fazia com que eu me sentisse um peixe fora d’água. Sempre me vi como a menina gorda, feia e que nunca ninguém vai amar.

Esse pensamento veio da escola, ou melhor, dos meninos que estudaram comigo. Era o dia inteiro escutando piadas sobre a minha aparência. Nunca me abalei a ponto de chorar. Eu revidava do meu jeito. Apesar de usar roupas tamanho M ou 40, me achava a menina mais feia do mundo. E sabe como são essas coisas, você ouve tanto e acaba acreditando.

Depois de algumas decepções amorosas, que eu julgava ser culpa da minha aparência e não do cara ser um babaca, fim da adolescência, faculdade, um namoro saudável que já dura quase 5 anos e a introdução ao feminismo, comecei a repensar isso.

Sabe aquela coisa de que “representatividade importa”? É a mais pura verdade. Eu cresci no final dos anos 90, começo dos anos 2000. Um período de super models, nada fácil para as gordas. Em todos os programas de televisão, filmes, etc., a gorda sempre era a infeliz, a zoada, a relaxada, a preguiçosa e a sem auto-estima.
 

 
Isso foi uma verdade na minha vida até conhecer uma pessoinha maravilhosa chamada Lena Dunham, em uma série igualmente maravilhosa. Vê-la feliz, nua, se amando e sendo um ser sexual explodiu minha cabeça. Me agarrei com unhas e dentes a série e a Lena. Comecei a ver e ler todas as entrevistas, tudo o que ela falava sobre amar o próprio corpo me enchia de alegria.

Depois dela vieram muitas outras maravilhosas. Começaram a surgir personagens gordas e emponderadas all over the place. Lena Dunham (Girls), Mindy Kaling (The Mindy Project), Melissa McCarthy (Mike & Molly), Tasha Jefferson (Orange is the New Black), Rebel Wilson (A Escolha Perfeita) e muitas outras lindas.

Apontar as diferenças como defeitos é idiotice.

Porém, o mundo ainda vive um momento em que uma dobrinha fora do lugar, uma gordurinha, qualquer coisa que não seja o padrão de beleza photoshopado das capas de revistas, é feio, errado. É só abrir o Instagram de qualquer cantora, atriz ou famosa para ver a quantidade de ódio gratuito. E ser cruel atrás da tela de um computador é bem mais fácil.

O impressionante é que até com as mais magras acontece a fiscalização da gordura. Nas últimas semanas, Kelly Clarkson, Britney Spears, Selena Gomez e Pink foram os principais alvos. Porque claro, é inaceitável uma mulher famosa, que é magra e sexy, ter um pneuzinho quando está sentada ou que tenha engordado porque não está preocupada em fazer dieta ou seja lá qual for o motivo (essa frase contém ironia).

Apontar as diferenças como defeitos é idiotice. Nós precisamos cada vez mais ter corpos e formas de todos os tipos na televisão, na internet, nas revistas, onde quer que seja, porque a representatividade importa, o ‘body positivity’ ou a aceitação do corpo importa. E sabe por que? Porque todos temos corpos, convivemos com ele diariamente, é o que nos move e irá se transformar de mil e uma maneiras diferentes no decorrer de nossas vidas.

Ser confiante, ter amor próprio, elevar a auto-estima, nada disso é fácil, mas você pode procurar pessoas que estão em situações parecidas ou pessoas que já passaram por isso. E acredite, sua vida será mais feliz do jeitinho e da forma que ela é.
 
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Para inspirar

O Tumblr é um lugar lindo cheio de gente com muito amor para dar. Esses são alguns dos meus preferidos, que postam fotos de muita gente incrível e ilustrações maravilhosas para usar como mantra nessa caminhada de aceitação.
 

Fuck Yeah Body Positivity

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Chubby Bunnies

cb
 

Curve Appeal

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Curvy Woman

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Ilustração exclusiva por Fernanda Garcia (Kissy)

Mais de Raphaella Salles

Assista: A Escolha Perfeita 2

As Barden Bellas voltaram tão maravilhosas quanto no primeiro longa de A Escolha Perfeita. A sequência estreou este mês nos cinemas brasileiros e conta com o mesmo elenco principal, mas agora com a direção e produção de Elizabeth Banks, que também interpreta Gail Abernathy-McKadden, a comentarista de campeonatos de a capella.

O filme continua a história das Bellas, que depois de uma humilhante performance entram em uma competição internacional, onde nunca um grupo americano foi campeão, para recuperar a reputação e o direito de se apresentar. Olhando a sinopse parece um filme bobo, dá uma preguicinha. Confesso que demorei para assistir o primeiro por puro preconceito. Pensava quer era só um besteirol, mais do mesmo e que iria odiar. Mas me enganei.

A graça existe do começo ao fim e é recheada de ironia e referências pop. Acho que foi por isso me apaixonei tanto pelos filmes. São piadas inesperadas, com malícia e que te fazem gargalhar. As personagens não são nada convencionais e são diferentes umas das outras. Cada uma com sua particularidade e talento.
 

 

Who run the world?

Ambos os filmes giram em torno de um grupo de mulheres e que precisa ser uma equipe eficiente. E isso só é possível com a sororidade construída. Elas se apoiam, ajudam umas as outras e aceitam as diferenças que as tornam tão completas.

 
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Claro que existem desentendimentos na história, afinal são DEZ meninas tentando se organizar, mas nada como uma conversa, ou uma intervenção para ajudar. As lições de que precisamos umas das outras e que juntas somos mais fortes é maravilhosa. É impressionante como o filme consegue passar essas mensagem de uma maneira descontraída. É muito girl power envolvido.

 
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Rebel Wilson

Como não amar a melhor integrante do grupo de a capella americano que na verdade é australiana? Sim, Fat Amy (ou seria Fat Patricia?), interpretada por Rebel Wilson, é uma das melhores personagem do filme. Com certeza está no topo da minha lista.

 
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As piadas irônicas, o ego extremamente inflado, as histórias bizarras, o jeito que ela leva a vida, é tudo maravilhoso. Rebel conquistou meu coração de uma maneira inexplicável tanto com sua personagem, como na vida real.

 
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A atriz conseguiu construir uma personagem emponderada ao extremo. Ela é gorda e isso é apenas uma característica que não a incomoda de maneira nenhuma. É sinônimo de beleza. Quando o assunto sobre a forma física é abordado, nunca é um big deal e sempre vem dela.
 

 

Machismo dentro e fora da tela

O humor irônico está principalmente ligado às críticas ao machismo. São dois os personagens extremamente misóginos. O também comentarista de competições de a capella, John Smith, interpretado por John Michael Higgins, e o Bumper, integrante de outro grupo da universidade, interpretado por Adam DeVine.

 
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Os dois são machistas e odeiam as Bellas. Não aceitam que elas são talentosas e boas no que fazem. Durante todo o filme eles não admitem isso e soltam as piores frases misóginas que se pode ouvir da maneira mais normal possível, como se não fosse nada demais. Porém, as personagens da Elizabeth Banks e de Rebel Wilson dão as melhores respostas para essas atrocidades.

Sabe o que é mais engraçado disso tudo? Eles são os mais burros de todo o filme.

 
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E o sexismo não fica apenas dentro da tela. No começo do ano, a diretora, produtora e atriz de A Escolha Perfeita falou que se sentiu “obrigada” a mudar o foco de sua carreira graças ao machismo de Hollywood. “Eu definitivamente senti que estava insatisfeita e um pouco entediada com as coisas que estavam vindo para minha mesa. Acho que em um certo ponto, eu estava tipo, ‘Eu sou vibrante e vital e interessada. Eu ainda consigo fazer isso’”, disse ao site Deadline

Elizabeth bateu o recorde de bilheteria de diretores iniciantes no final de semana de estreia e sua empresa de produção já está trabalhando loucamente no terceiro filme da série.

 

A Escolha Perfeita 2 está em cartaz e vale a pena assistir, seja pelas risadas ou pelo emponderamento.

 

Leia mais

 
Isso foi uma verdade na minha vida até conhecer uma pessoinha maravilhosa chamada Lena Dunham, em uma série igualmente maravilhosa. Vê-la feliz, nua, se amando e sendo um ser sexual explodiu minha cabeça. Me agarrei com unhas e dentes a série e a Lena. Comecei a ver e ler todas as entrevistas, tudo o que ela falava sobre amar o próprio corpo me enchia de alegria.

Depois dela vieram muitas outras maravilhosas. Começaram a surgir personagens gordas e emponderadas all over the place. Lena Dunham (Girls), Mindy Kaling (The Mindy Project), Melissa McCarthy (Mike & Molly), Tasha Jefferson (Orange is the New Black), Rebel Wilson (A Escolha Perfeita) e muitas outras lindas.

Apontar as diferenças como defeitos é idiotice.

Porém, o mundo ainda vive um momento em que uma dobrinha fora do lugar, uma gordurinha, qualquer coisa que não seja o padrão de beleza photoshopado das capas de revistas, é feio, errado. É só abrir o Instagram de qualquer cantora, atriz ou famosa para ver a quantidade de ódio gratuito. E ser cruel atrás da tela de um computador é bem mais fácil.

O impressionante é que até com as mais magras acontece a fiscalização da gordura. Nas últimas semanas, Kelly Clarkson, Britney Spears, Selena Gomez e Pink foram os principais alvos. Porque claro, é inaceitável uma mulher famosa, que é magra e sexy, ter um pneuzinho quando está sentada ou que tenha engordado porque não está preocupada em fazer dieta ou seja lá qual for o motivo (essa frase contém ironia).

Apontar as diferenças como defeitos é idiotice. Nós precisamos cada vez mais ter corpos e formas de todos os tipos na televisão, na internet, nas revistas, onde quer que seja, porque a representatividade importa, o ‘body positivity’ ou a aceitação do corpo importa. E sabe por que? Porque todos temos corpos, convivemos com ele diariamente, é o que nos move e irá se transformar de mil e uma maneiras diferentes no decorrer de nossas vidas.

Ser confiante, ter amor próprio, elevar a auto-estima, nada disso é fácil, mas você pode procurar pessoas que estão em situações parecidas ou pessoas que já passaram por isso. E acredite, sua vida será mais feliz do jeitinho e da forma que ela é.
 

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O Tumblr é um lugar lindo cheio de gente com muito amor para dar. Esses são alguns dos meus preferidos, que postam fotos de muita gente incrível e ilustrações maravilhosas para usar como mantra nessa caminhada de aceitação.
 

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