Representatividade e femvertising nas telas

Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (Kissy)

Dois filmes super aguardados, duas protagonistas femininas, duas histórias cujas tramas não são temperadas pelo cheiro de naftalina de um damsel in distress, duas bilheterias fartas— mas será que chegamos lá mesmo?

Não sei vocês, mas eu assisti Mad Max duas vezes no cinema, a primeira delas em Imax, e saí da sala absolutamente extasiada. Que mina foda. Que história cheia de metáforas incríveis. Que cenas de ação pra deixar qualquer um colado na cadeira. Absolutamente sensacional.

O novo Star Wars, então? Mesmo sendo uma Trekker, o filme teve seu apelo comigo. Esperando pouco, entrei na sala do cinema e fui surpreendida por uma protagonista feminina independente, forte e bem preparada (acompanhada por um stormtrooper rebelde de pontaria inesperadamente precisa — interpretado por um homem negro). Encerrei 2015 com a certeza de que esse foi um dos melhores anos no quesito representatividade para mulheres.

Só que depois me encontrei até os joelhos na inevitável sina das feministas: a problematização. Rey, Furiosa, tudo muito legal, tudo muito lindo, mas senti cheiro de corporações se aproveitando de assuntos em voga para lançar filmes que engordam os bolsos de seus CEO’s sem ter nenhuma preocupação em trazer toda essa representatividade para dentro de suas empresas. E aqui entra a explicação do termo usado no título: femvertising é a palavra usada para se referir à prática de atrair o mercado feminino e/ou feminista para a sua marca/produto/serviço com discursos empoderadores e que exaltam a competência das mulheres. Exemplos? A campanha Like a Girl, de Always. #AerieReal. Dove Real Beauty Sketches.

Injuriada com a possibilidade de todo esse girl power cinematográfico não passar de uma belíssima camada de Verniz do Empoderamento™, fui pesquisar. Não deu outra: descobri que Charlize Theron, a maravilhosa Imperator Furiosa, teve que armar o barraco pra ganhar o mesmo que Chris Hemsworth em mais um remake de contos de fadas ocidentais. E ela, ao contrário dele, enfeita sua sala com uma estatueta dourada que atesta sua grande competência nas telas.

Carrie Fisher, a eterna Princesa Leia, foi alvo de críticas ferrenhas por não ter “envelhecido bem”. Respondeu dizendo que não havia percebido que, ao assinar o contrato para ser a pinup de 25 anos dos geeks, ela havia assinado também um contrato de que deveria ter aquela mesma cara para sempre. Destruidora, né?

Tratando-se de um revival de uma franquia famosa, lembremos que ela não era a única atriz das antigas no casting: Harrison Ford, que interpretou Han Solo, descolou algo especulado entre dez e vinte milhões de dólares — mais do que John Boyega (Finn), Daisy Ridley (Rey) e a colega Carrie juntos. Sobre potenciais críticas ao fato de Ford também ter envelhecido (bem ou mal), deixarei que as leitoras adivinhem se houve alguma.

E pra fechar com chave de ouro, os brinquedos da franquia não incluíam Rey — a protagonista. Monopoly edição especial? Sem Rey. Kit com a Millennium Falcon? Sem Rey (e ela que pilota essa droga). Algumas pessoas justificaram a Hasbro e outros fabricantes dizendo que incluir a Rey, especialmente com um sabre de luz, seria dar spoilers do filme, mas vale lembrar que os kits de Guardiões da Galáxia também não tinham Gamora e os de Vingadores não tinham a Viúva Negra.

Então foi com essas informações que encerrei o ano: é sim uma delícia ir ao cinema e ver ali na tela uma personagem principal com quem você se identifica — ou até mesmo uma personagem feminina que não tenha sua existência orbitando homens. Mas a gente tem que se lembrar de que o sistema está aprendendo a nos enxergar, para o bem e para o mal.

 



Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (Kissy)

Mais de Débora Nisenbaum

O inevitável espelho da mulher bissexual

Chegamos na casa de Joana*, já naquela ansiedade de quem sabe o que vem a seguir. Ela me levou pro quarto. Deitei seu corpo na cama, beijando seu pescoço. Uns amassos a mais e umas roupas a menos, ela diz

apaga a luz.

Como assim, apaga a luz?

tô feia, não me sinto confortável.

Joana é uma das mulheres mais maravilhosas que eu já conheci. Inteligente, independente, estilosa, linda de qualquer ângulo e em todos os detalhes. E eu ia transar com ela de luz apagada porque aparentemente eu era a única pessoa naquele quarto que enxergava tudo isso.

Ser bissexual e mulher é uma experiência muito complexa e surpreendente. Das vivências que tive, a que mais me marcou foi a oportunidade de enxergar as mulheres com quem eu me relacionei como um reflexo daquilo que eu mesma sou. Claro que é possível notar isso sendo lésbica, mas a bissexualidade acaba permitindo que a gente perceba as discrepâncias quando nos relacionamos com gêneros diferentes. E infelizmente elas são assustadoras.

Nos meus relacionamentos com homens, a socialização masculina era bastante evidente. Dava pra perceber que eles sempre tentavam se mostrar fortes, independentes, pragmáticos. Mas se eles falhavam em assinalar todos os quadradinhos da ficha de Cabra Macho™ essa falha não impedia que eles se relacionassem e também não fazia com que eles tivessem um mau juízo de si mesmos. Vida que segue, bola pra frente, na maior parte das vezes ninguém vê essa ausência da performance do machão como um defeito. Se ele chora, é sensível. Se não é fortão, é porque é inteligente. Se é gordo, tem um super senso de humor. Para as mulheres, não é bem assim. Lembra daquela pesquisa que diz que o maior medo dos homens quando encontram uma mulher que conheceram pela internet é de que ela seja gorda? Pras minas, o maior medo é de que o cara seja um assassino.

Prioridades, né.

Voltando à Joana: ela era uma pessoa muito mais fascinante do que a grande maioria dos homens com quem eu já saí. E ela se achava feia. Esquisita. Praticamente não saía de casa sem maquiagem, não gostava de tirar foto. Era, como grande parte das mulheres, extremamente preocupada com seu peso, embora não parecesse estar cinco quilos acima do que é considerado ideal. E isso me doía de um jeito horrível — em parte porque rasga a gente por dentro ver uma pessoa querida com baixa autoestima. Em parte porque… bom, porque eu sabia que já fui, sou, ou serei a Joana de alguém.

Num relacionamento, seja ele qual for, a gente devagarzinho vai notando os traumas, as feridas, os pontos mais sensíveis de quem a gente gosta. A diferença, quando você é mulher e se relaciona com mulheres, é que você percebe um monte desses machucados como resultantes de um contínuo e inescrupuloso esmagamento sistemático da nossa autoestima. Desde que somos pequenas, somos criadas para acreditar que nunca estamos bonitas e nunca somos suficientes. E somos diariamente bombardeadas com mensagens que continuam reiterando essa perspectiva apodrecida de nós mesmas — e alterando a nossa percepção acerca de como deveríamos ser.

Nenhum dos homens com quem me relacionei me pediu pra apagar a luz — e uma boa parte deles não tinha um corpo padrãozinho. Nenhum tinha vergonha do seu cabelo, das espinhas no rosto, do formato dos genitais. Isso sequer era assunto com eles. E isso não é um problema, isso é ótimo. Só me dói que não seja assim com as mulheres. Me dói que não seja assim com a Joana. Me dói que não seja assim comigo.

*Nome fictício.
 

Ilustração feita com exclusividade por Thais Cortez a.k.a. Emily

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Dois filmes super aguardados, duas protagonistas femininas, duas histórias cujas tramas não são temperadas pelo cheiro de naftalina de um damsel in distress, duas bilheterias fartas— mas será que chegamos lá mesmo?

Não sei vocês, mas eu assisti Mad Max duas vezes no cinema, a primeira delas em Imax, e saí da sala absolutamente extasiada. Que mina foda. Que história cheia de metáforas incríveis. Que cenas de ação pra deixar qualquer um colado na cadeira. Absolutamente sensacional.

O novo Star Wars, então? Mesmo sendo uma Trekker, o filme teve seu apelo comigo. Esperando pouco, entrei na sala do cinema e fui surpreendida por uma protagonista feminina independente, forte e bem preparada (acompanhada por um stormtrooper rebelde de pontaria inesperadamente precisa — interpretado por um homem negro). Encerrei 2015 com a certeza de que esse foi um dos melhores anos no quesito representatividade para mulheres.

Só que depois me encontrei até os joelhos na inevitável sina das feministas: a problematização. Rey, Furiosa, tudo muito legal, tudo muito lindo, mas senti cheiro de corporações se aproveitando de assuntos em voga para lançar filmes que engordam os bolsos de seus CEO’s sem ter nenhuma preocupação em trazer toda essa representatividade para dentro de suas empresas. E aqui entra a explicação do termo usado no título: femvertising é a palavra usada para se referir à prática de atrair o mercado feminino e/ou feminista para a sua marca/produto/serviço com discursos empoderadores e que exaltam a competência das mulheres. Exemplos? A campanha Like a Girl, de Always. #AerieReal. Dove Real Beauty Sketches.

Injuriada com a possibilidade de todo esse girl power cinematográfico não passar de uma belíssima camada de Verniz do Empoderamento™, fui pesquisar. Não deu outra: descobri que Charlize Theron, a maravilhosa Imperator Furiosa, teve que armar o barraco pra ganhar o mesmo que Chris Hemsworth em mais um remake de contos de fadas ocidentais. E ela, ao contrário dele, enfeita sua sala com uma estatueta dourada que atesta sua grande competência nas telas.

Carrie Fisher, a eterna Princesa Leia, foi alvo de críticas ferrenhas por não ter “envelhecido bem”. Respondeu dizendo que não havia percebido que, ao assinar o contrato para ser a pinup de 25 anos dos geeks, ela havia assinado também um contrato de que deveria ter aquela mesma cara para sempre. Destruidora, né?

Tratando-se de um revival de uma franquia famosa, lembremos que ela não era a única atriz das antigas no casting: Harrison Ford, que interpretou Han Solo, descolou algo especulado entre dez e vinte milhões de dólares — mais do que John Boyega (Finn), Daisy Ridley (Rey) e a colega Carrie juntos. Sobre potenciais críticas ao fato de Ford também ter envelhecido (bem ou mal), deixarei que as leitoras adivinhem se houve alguma.

E pra fechar com chave de ouro, os brinquedos da franquia não incluíam Rey — a protagonista. Monopoly edição especial? Sem Rey. Kit com a Millennium Falcon? Sem Rey (e ela que pilota essa droga). Algumas pessoas justificaram a Hasbro e outros fabricantes dizendo que incluir a Rey, especialmente com um sabre de luz, seria dar spoilers do filme, mas vale lembrar que os kits de Guardiões da Galáxia também não tinham Gamora e os de Vingadores não tinham a Viúva Negra.

Então foi com essas informações que encerrei o ano: é sim uma delícia ir ao cinema e ver ali na tela uma personagem principal com quem você se identifica — ou até mesmo uma personagem feminina que não tenha sua existência orbitando homens. Mas a gente tem que se lembrar de que o sistema está aprendendo a nos enxergar, para o bem e para o mal.

 



Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (Kissy)

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