Aonde eu vou todo mundo é branco

Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)

No movimento negro nos preocupamos muito com a questão dos jovens nas universidades e a necessidade das cotas. De tanto me preocupar com isso, nunca tinha parado para pensar no que acontece depois que estudamos e tentamos alcançar o mercado de trabalho, por isso fui pega de surpresa pelo mix de sensações de quando alcancei meu emprego dos sonhos.

Eu deveria pensar que era muita sorte para uma mulher negra só. Há pouco mais de seis meses adquiri meu primeiro diploma universitário, abusando de um privilégio que a maioria dos outros jovens negros não têm: uma família com condições de pagar as mensalidades do curso e investir na educação (por mais difícil que tenha sido). Não demorou muito e eu tive que me mudar da cidade em que estava, do bairro de periferia em que deixei meus pais. Era na Capital que as oportunidades estavam e eu consegui uma delas.

Mas tudo bem! Todo mundo na minha velha cidade achava que eu não era praquele lugar mesmo. Que eu tinha uma mente mais aberta e precisava de espaço para crescer. Que eu tinha nascido para a cidade grande. Além disso, eu trabalharia com o que eu sempre quis, com pessoas tão jovens e politizada quanto eu.

Toda essa atitude positiva me acompanhou até eu chegar no meu novo lar… E não me sentir em casa. Até eu conhecer o bairro nobre em que meu novo emprego fica e o fato de que meus companheiros de trabalho vinham dos arredores. Aqui, não importa aonde eu for, todo mundo é branco.

Todo dia tem sido uma luta para não caminhar sem olhar para o chão, intimidada com as posturas sempre confiantes, para ter assunto com pessoas que falam sobre a infância no condomínio ou como aprenderam a cozinhar com a empregada.

Da fila do elevador até o meu setor, passando pelos papos no refeitório. Nem mesmo saindo da empresa e me aventurando em eventos ou conhecendo novos bairros. Ninguém é preto como eu.

Minha impressões de recém chegada e admirações com novas descobertas não importam para tanta gente blasé. Mas não aquele blasé proposital, é aquele blasé meio sem querer, de quem já viu muito na vida e não se surpreende mais. Embora as vezes eu tenha a impressão de que as pessoas podem estar tão assustadas e admiradas quanto eu, mas não demonstram.

Todo dia tem sido uma luta para não caminhar sem olhar para o chão, intimidada com as posturas sempre confiantes, para ter assunto com pessoas que falam sobre a infância no condomínio ou como aprenderam a cozinhar com a empregada.

Na minha antiga cidade meu diferencial profissional era saber falar inglês, principalmente sendo negra. Aqui todo mundo fala inglês e obviamente já morou fora, provavelmente vão perguntar admirados quando souberem que você nunca saiu do país: “mas você nunca viu a neve?!”. Mas claro que todo mundo sustenta um discurso politicamente correto e até decorado, se alegrando ao lembar que agora as viagens são para todos.

No auge do seu estilo despojado chique, agem como se não ligassem para a aparência, mas estão fabulosos diariamente, com cada peça de seus looks escolhidos a dedo, é claro. Como essa peça super tendência foi parar no seu guarda-roupa desencanado?!

Ninguém tem o cabelo igual o meu, mas todos acham incrível que eu assuma minhas raízes… Mas só porque é legal achar isso, pois no fundo, ninguém vive sem chapinha. Imagina sair de casa com frizz e um pouquinho de volume? Iam ficar parecendo… Eu.

Eu nunca tinha me incomodado com feministas brancas até conhecer algumas que dizem querer mudar o mundo, mas não se importam com os relatos de uma negra de periferia, pois acham que todas as mulheres sofrem igualmente com o machismo.

Para mim hoje parece muito irônico que eu não me encaixava na minha cidade natal pois tinha expectativas de vida maiores que a de outras mulheres devido aos meus privilégios, mas também não me pertenço ao lugar onde tais expectativas me levaram, pois saí das sombras da periferia onde as mulheres negras deveriam estar escondidas. Pois deveria estar fingindo que nada de novo me incomoda e que deixei todas as minhas raízes para trás.

No fim das contas, acabo socializando muito mais com a moça da faxina, a balconista da lanchonete ou o porteiro do prédio. Percebendo que nem todo mundo é branco… Algumas pessoas são negras.
 

Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)

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  • Stephie Borges

    Sou mulata e quando comecei a trabalhar tive essa sensação de ser “a única negra” do setor. Porque até havia outras mulheres negras, mas não desempenhando a mesma função, era na recepção, na limpeza, como você também observou. Não durou muito, depois encontrei outras mulheres na mesma situação com empregos semelhantes ao meu (e aí éramos as duas, três negras na área), e na mesma situação de vir de uma família classe média, ser uma das primeiras a fazer faculdade/ curso de inglês e depois se deparar com um ambiente em que a maioria das pessoas são brancas e vieram de uma realidade bem diferente (na maioria das vezes privilegiada), com a qual, num primeiro momento, é difícil de se relacionar. O mais difícil pra mim até hoje não é estar cercada de brancos, mas quando tentam me embranquecer. Quando me dizem que meu black power é superestiloso, mas sou “moreninha”. Quando digo que minha avó era negra e as pessoas soltam um “nem parece” como se fosse um elogio. Mas encare o fato de que você é uma das pessoas que está abrindo caminhos. Não é fácil. No entanto, a sua presença é um exemplo para a estudante cotista que sonha em trilhar uma carreira na qual negros não se destacam, é um exercício de lidar com o outro para quem não teve ainda que lidar com o diferente. Assim como você teve coragem de escrever esse texto, tenha orgulho do que você conquistou e ocupe o seu espaço. :)

    • Débora

      Ei miga, cuidado com o uso de “mulata”, é pejorativo. Mulata vem de “mula” (relacionando ao animal ser híbrido) e na época da colonização era usado para designar as filhas de negros com portugueses.

      • Stephie Borges

        Débora, eu não sabia que o termo vem de mula, mas que é usado para se referir ao que eu sou, que é descendentes de brancos e negros. O que muitas vezes me coloca em uma situação curiosa, porque quando digo que sou negra, tem que diga que não sou tão negra, ou que tenho privilégios por ser mestiça e ter a pele clara.

        • Catia Matos

          Se você é negra você É NEGRA AMOR. Não admita que lhe chamem de clarinha ou algo do tipo. E não use mulata também, mesmo que você ache que seja adequado.

  • Josiane Paganini

    Magú, só tenho que dizer que seu texto é lindo, emocionante e muito honesto. Daqueles que fazem a gente parar pra pensar. Parabéns.

  • Flavia A.

    Magú, o seu texto me fez lembrar de muitas coisas que me aconteceram/acontecem… na minha família sou a única com traços negros mais evidentes, herdei os genes de meus bisavós que eram negros, meus primos tem cabelo liso e pele branca, então sempre tive problemas em todos os ambientes: familia, escola, trabalho. lá pelos meus 22 anos, com ajuda do ambiente universitário (fiz Letras numa faculdade pública), aprendi a me impor e me aceitar mais. Mas, continua sendo difícil…

  • É triste, muito triste. Tem a felicidade de conseguir chegar lá e a tristeza de não ver os outros chegarem.

  • Simone

    Durante o processo de seleção, quando eu fiz a entrevista dinâmica em grupo para o meu atual emprego, perguntaram com quem eu gostaria de trabalhar. Falei que eu queria trabalhar com a única negra que estava na sala, pois pra mim o que importa mesmo é o profissionalismo da pessoa, independente de ser branca ou negra. Ela disputou a vaga comigo até o final. Fico muito triste de ver que esse preconceito ainda existe e insiste em existir. Você merece estar aonde está e não se sinta só. Continue com a cabeça erguida e se orgulhe das suas conquistas, pois quem tem uma base sólida só tem a crescer e ir longe.

  • “No fim das contas, acabo socializando muito mais com a moça da faxina, a balconista da lanchonete ou o porteiro do prédio. Percebendo que nem todo mundo é branco… Algumas pessoas são negras.”
    Sei bem como você se sente rsrsrs. Eu trabalhava em uma empresa no bairro nobre de SP e doía muito ser a única mulher negra ali dentro! As únicas pessoas que eu conversava eram as copeiras.

  • Veronica

    Somente arrepiada com esse texto. Típico texto que faz a gente parar pra refletir o passado e o presente. Parabéns Magú!