Box braids e a reafirmação de identidade

Ilustração feita com exclusividade por LoveLove6

“Porque você fez isso no cabelo? Você quer ser negra?”. A pergunta foi feita por um amigo da família, em pleno almoço de Natal, e fez com que as atenções na mesa se voltassem para mim, pois todos realmente esperavam entender meu novo cabelo.

Há dias eu estava respondendo perguntas inconvenientes, uma pessoa até havia cheirado a minha cabeça para tirar uma dúvida crucial: “será que fede?”.

Apesar do constrangimento, me dei o trabalho de responder: “eu sou negra”. É que eu pensei que o assunto se encerraria com esta afirmação, mas, aparentemente, haviam mais argumentos contra isso. “Eu lembro que sua mãe cuidava do seu cabelo quando você era pequena. Depois você alisou e ficou parecendo uma mocinha comportada. E, agora que estávamos nos acostumando com aquele outro cabelo (ele estava se referindo ao meu black power, meu cabelo natural), você vai e faz isso”.
 

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“Bitch, don’t kill my vibe” – meu afro natural

  
Isso que o colega inconveniente estava apontando eram minhas box braids (ou tranças sintéticas), que eu fiz dias antes do Natal. É possível utilizar as tranças por até três meses e eu fiz em dezembro pensando em aproveitá-las durante o verão para facilitar com os cuidados em época na praia, piscina e em viagens. Depois desse período, voltei a utilizar meu cabelo afro natural, como antes.
 

Minhas box braids ♡

 
As tranças foram popularizadas no Brasil lá pelos anos 90, época em que eram conhecidas como “tranças canecalon” e também se usava muito a trança nagô. Mas na verdade, canecalon é o nome de uma das muitas marcas que fabricam o cabelo sintético utilizado para trançar. No meu caso, escolhi um tipo mais leve, chamado jumbo.

As braids são muito bonitas e estilosas sim, por isso ajudam também a elevar a auto-estima e a tornar o período da transição capilar mais fácil de se lidar. Não é a toa que, com o aumento de mulheres negras aderindo a transição, a técnica voltou a ser procurada em salões especializados.

Mas é claro que as box braids significam muito mais do que um método facilitador de cuidados para o cabelo. Esta técnica para trançar nasceu da cultura africana e foi passada e aperfeiçoada de geração em geração.

Ao trançar o cabelo, uma mulher negra assume ainda mais seus traços, completamente ciente das questões da ancestralidade e da representação de suas raízes. E, para mim particularmente, as box braids me obrigaram a reforçar minha identidade e a reviver a estranheza que as pessoas tiveram quando assumi meu cabelo natural, há pouco mais de um ano.

Percebi que eu mesma havia encontrado conforto quando as pessoas mais próximas de mim, como familiares e amigos, haviam parado de me julgar e questionar minha escolha de assumir uma herança afro que eu passei a vida escondendo.

No primeiros meses pós big chop, ouvi muitas críticas, desencorajamento, xingamentos e até pedidos para voltar a alisar o cabelo. Mas logo tudo isso passou. Não sei se começaram a falar pelas minhas costas, não sei se simplesmente aceitaram o fato de que eu não alisaria mais ou talvez tenha sido o que o cara inconveniente apontou: estavam todos se acostumando com minha “nova” aparência.

Toda vez que eu volto para a cidadezinha onde eu morava, ainda percebo e me incomodo com os olhares de desaprovação pelas ruas (mesmo ainda encontrando gente racista e preconceituosa em São Paulo, por aqui a aceitação das pessoas é bem maior). Mas, uma vez que na casa da minha família os insultos tinham acabado, por mim estava tudo bem. Melhor ainda quando minha mãe pôde se sentir segura para começar a transição dela!

Mas ter colocado as tranças me fez perceber que não, não estava tudo bem. Que as pessoas aceitam sua negritude desde que não as ofenda, desde que lhes sejam agradáveis aos olhos.

 

As tranças das brancas

Assim como quando assumi meu cabelo, o período em que utilizei as box braids me fez perceber o quanto eu tinha que justificar escolhas que deveriam ser naturais para mim. Eu não estava fazendo nada de errado em mostrar minha negritude e adaptar uma herança cultural à minha aparência para me sentir empoderada e por todos os outros motivos.

Ainda assim, tais motivos tinham que ser listados quando mais de uma pessoa me perguntava porque eu havia escolhido trançar o meu cabelo, assim como já tive que justificar a minha escolha de largar o alisamento.

Eu entendo e vivi na pele a necessidade de alisar, clarear a pele e buscar qualquer alternativa de branqueamento só para me sentir aceita. Por isso, tento compreender, conversar e encorajar outras pessoas negras a se aceitarem, ao mesmo tempo que sempre tento me mostrar forte diante das ofensas e desaprovação vinda dos brancos, mostrando resistência.

Este é um tipo de postura e responsabilidade que eu assumi por escolha própria, afinal, eu não sou obrigada a ficar me justificando. Sei que posso usar meu black, tranças ou alisar o cabelo como e quando eu quiser. Mas devo confessar que as vezes tudo isso cansa, principalmente quando se nota que todo este esforço mal dá resultados e que ainda existem padrões que são mais aceitos e respeitados.

Não quero entrar em detalhes quanto a apropriação cultural (outro assunto que me cansa de tanto debate, questionamento e discussões sem rumo), mas de fato é doloroso notar que, enquanto eu recebia ofensas, uma mulher branca era destaque na mídia por ter o mesmo penteado que eu.

garotas brancas são consideradas estilosas por usarem box braids
garotas brancas são consideradas estilosas por usarem box braids

Mas não precisei ir muito longe para sentir essa diferenciação na pele. Uma prima branca que trançou o cabelo dias depois de mim e estava na mesma comemoração da Natal recebeu reações completamente diferentes. Para todos o cabelo dela era “hippie, estiloso, moderno, diferente”, enquanto eu cheguei até a ser perguntada se estava usando drogas para aderir a um penteado tão ~rebelde~.

Sim. Eu e ela estávamos usando o M-E-S-M-O tipo de trança.

Como em toda conversa sobre apropriação cultural, eu sempre explico que não posso proibir ninguém de aderir a nenhum tipo de cultura afro-brasileira ou africana de raiz. Sei também que minha prima entende a importância do penteado e que ela, particularmente, estava passando por momentos difíceis na transição capilar, o que a levou a aderir às braids.

Mas é um fato inegável e difícil de ignorar que, quando mulheres brancas utilizam as braids e outros elementos, elas não têm que se justificar. A sociedade reage como um fator de moda e estética e fica tudo certo.

Acho que, no fundo, toda essa conversa machuca e cansa, pois tudo o que eu queria é poder ser negra em paz, como as mulheres brancas podem ser.
 

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Ilustração feita com exclusividade por LoveLove6.

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  • barbarrá

    <3

  • florita

    é foda q tu passou por isso, mas p tu não se sentir melhor ou sei la, eu ja vi MT preconceito com minas brancas com cabelo crespo tipo: “alisa o teu cabelo tu ia ficar tão bonita” “tranças (por que braids é incomum pelo menos aqui) e em cidades de interior ou capital o preconceito com seu cabelo, mesmo com a pele branca era o mesmo, sendo ela tbm com seus traços negros. Será q esse tipo de prejulgamento seria apenas so com os negros #pas

  • Alicia Fonseca

    Sempre amei essas tranças mas tenho muito medo de confundirem o meu gosto com a vontade de aparecer ou de apropriação cultural, sou branca mas tenho descendência africana,mas tenho muita vontade de fazer braids box <3