Transição Capilar: Nosso cabelo importa

Ilustração por Thais Erre | Ovelha

Por muito tempo o alisamento para cabelos cacheados e crepos foi visto como uma “solução” para características que os acompanham e que são consideradas negativas para uma sociedade racista, que faz de tudo para anular o esforço de qualquer pessoa para escapar de suas amarras e gostos estereotipados. Mas se você notar uma grande movimentação de mulheres assumindo suas raízes e andando por aí com suas coroas volumosas, saiba que não é moda. É a nossa nova alternativa para estas imposições estéticas: empoderamento e transição capilar.

Somos muitas, e todas já protagonizamos ao menos um episódio de preconceito contra nossos cabelos que derruba nossa auto estima e nos fez querer mudar, seja por um dia, seja de forma “definitiva”. Tudo porque uma maioria – e nós inclusas – aprendemos que aquele padrão eurocêntrico é o ideal para nossa aparência.

Quantas vezes você que tem esse tipo de cabelo teve que escovar até prende-lo rente a raiz? Enche-lo de creme para reduzir o volume? Escovar “só para sair” e participar de alguma festa ou evento? Até que finalmente você desiste: se rende a química de alisamento.

O “arrumado”, o “bonito”, e o aceitável é o liso da capa de revista ou da mocinha da novela, sempre foi e ainda é. Os produtos nas prateleiras das lojas de cosméticos mais comuns são para cabelos lisos ou alisados, tamanha a quantidade de mulheres que vivem submetidas a estes processos.

Quando resolvi que não alisaria mais o meu cabelo e assumiria a forma natural dele, não pensei inicialmente na mudança estética que isso me traria, reforçando a minha auto-estima e me fazendo me reconhecer como uma mulher negra e me orgulhar disso. Menos ainda a importância política do ato. A minha primeira motivação na verdade foi parar de gastar dinheiro e horas no salão.

Depois de 11 meses sem alisar com química, eu ainda não tinha alcançado meu objetivo, continuava tendo que fazer chapinha para controlar a bagunça de dois tipos de cabelo na cabeça.

Pesquisando sobre possíveis alternativas, descobri a transição capilar, que é praticamente o que eu estava fazendo: deixar a sua raiz natural crescer até poder fazer o Big Chop, o grande corte que remove todas as partes com química do cabelo, também chamado de BC – muitas mulheres preferem até ficar carecas e começar do zero. A novidade que encontrei naqueles espaços online era que algumas, ao contrário de mim, usavam produtos, técnicas e cronogramas de cuidados, para reativar os cachos e o volume mais rapidamente.

Se o mundo não nos dá representatividade, nós buscamos por ela e assumimos essa responsabilidade.

Ver tantas de nós (como disse, somos muitas) em grupos especializados na internet buscando alternativas para voltar ao seus cabelos naturais, assumir sua identidade e sua beleza real sem se basear no que as revistas ditam a elas me encorajou. Maior ainda foi vê-las encorajando umas as outras, e perceber que a transição capilar era algo real e acontecendo com tantas ao meu redor.

Me fez perceber que mesmo que a sociedade, a mídia e a indústria nos imponham padrões de estética, se uma mulher resiste a eles e luta pelo seu direito de ser ela mesma, outras terão a mesma força, e terão também sua auto-estima reconstruída. Se o mundo não nos dá representatividade, nós buscamos por ela e assumimos essa responsabilidade.

E a partir de hoje eu estarei aqui no Ovelha com essa missão. Porque nosso cabelo também importa.

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  • Karoline, vc já é uma razão a mais para eu amar a OvelhaMag. Também sou cacheada assumida, do tipo que não vê secador e chapinha há anos. Claro que tb já alisei o cabelo e confesso que curto e cuido muito mais do meu cabelo hoje em dia. Cuido com carinho dos meus cachos por dois motivos: para mim que adoro e para inspirar principalmente as crianças cacheadas que, por falta de referências de belos cabelos cacheados, sonham em alisar seus cabelinhos. Um beijo e sucesso. Já estou ansiosa para o próximo texto!

    • Karoline Gomes

      Olá Mariana!
      Também estou ansiosa pra produzir mais conteúdo pra revista Ovelha justamente pelo que você falou, referências e representatividade é muito importante na nossa busca por auto-estima e principalmente para aceitarmos nosso cabelo natural.

      Que bom que gostou! Volte sempre pra acompanhar a gente ;D

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