Conheça: Mollie Cronin

Entrevistamos a artista por trás da Art Brat Comics sobre suas inspirações, feminismo, e também sobre quem são as mulheres gordas super empoderadas de seus desenhos

Mollie Cronin é uma artista canadense, de 24 anos, que exala feminismo, empoderamento e senso de humor em seu trabalho. É formada em história da arte, mas é no traço meio old school e nos eventos cotidianos que seus autorretratos (e os retratos de outras pessoas) ganham cor e forma, e são divulgados em seu perfil do Instagram, curiosamente intitulado Art Brat Comics.

O que me chamou atenção no trabalho dela, além do fato dos desenhos serem lindos e ela ser muito engraçada, e dialogar profundamente com a realidade de muitas mulheres (e por que não, pessoas?) quando o assunto é dates, crushs e inseguranças, é que todas as figuras desenhadas são gordas. Curvilíneas e lindas. Claramente poderosas e felizes com seus corpos.

Numa sociedade machista e gordofóbica como a nossa, onde o corpo e a mente da mulher não tem espaço para existir se não seguirem os padrões pré-estabelecidos, a arte de Mollie (e ela própria) é uma obra, além de esteticamente graciosa e divertida, de resistência, de apropriação do próprio corpo, de amor ao gênero, e de liberdade de expressão, em evolução, que merece ser compartilhada e divulgada.

A Ovelha bateu um papo sobre arte, feminismo, e inseguranças com a canadense, que ainda se considera peixe pequeno nesse mundão das artes, e o resultado você confere aqui!
 


 

Ovelha: Mollie, quando você começou a desenhar?

Mollie: Eu sempre desenhei, mas nunca me vi fazendo isso como um trabalho. Quer dizer, talvez isso nem seja verdade porque eu queria ser artista quando eu era bem pequena, afinal, era o que os meus pais faziam. Mas ao crescer, me afastei dessa ideia e fui para a faculdade de história da arte (que era um PEQUENO, bem pequeno ato de rebelião). Estava lá estudando arte sem o menor interesse em fazer arte. No verão da minha formatura eu comecei a desenhar cartoons. Eu estava trabalhando nesse lugar onde eu precisava escanear documentos e eu ficava muito tempo esperando enquanto o material era escaneado então comecei a rabiscar. Um dia desenhei esse pequeno personagem de mim mesma e me joguei nisso. Ao chegar em casa, desenhei mais sete cartoons e coloquei online e isso me deu um ótimo feedback. Isso foi há exatamente dois anos.


 

Ovelha: Muitos dos seus desenhos são mulheres super empoderadas e que se parecem bastante com você. É proposital, se sim, por que tantos autorretratos?

Mollie: Muitos deles são autorretratos! E esses são sempre intencionais. Eu nunca fui boa em escrever ficção, sou melhor em identificar piadas em minha própria vida então desenhar cartoons sobre mim mesma foi um passo natural. E também, meu peso flutuou bastante e eu passei a ganhar peso praticamente na mesma época que eu comecei a fazer cartoons, e eu encontrei no autorretrato uma ótima forma de me encontrar e celebrar meu novo corpo. Quando eu era mais magra, lembro de ir à uma aula de desenho com modelos vivos e eu desenhei essa linda e enorme mulher. Aquilo me ensinou a apreciar corpos cheios de carne porque desenhá-los me parecia tão mais interessante do que desenhar uma modelo magra. Então quando me senti incerta sobre a minha própria pele eu comecei a celebrar meu corpo através de desenhos sobre o que me pareciam inseguranças e para ensinar a mim mesma que todas aquelas coisas eram bonitas. E funcionou! E agora eu tento fazer o mesmo por outras pessoas. Os outros cartoons não são especificamente autorretratos, provavelmente eles são autorretratos auto-conscientes, mas não intencionalmente. Acho que desenho o tipo de pessoa que eu gostaria de ser, alguém absolutamente confiante para exibir seus pêlos do corpo e ser completamente tatuada. Eu sempre tive muito medo de fazer essas coisas, mas para mim elas representam tanta autonomia do corpo que eu quis desenhar pessoas que fossem assim. É, provavelmente, um retrato subconsciente da minha mãe também, o nariz fino e o cabelo liso e longo se parecem com ela.

The metallic day wear was very well received, definitely recommend

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Hair's a mess but dress is perf. Crocheted by my grandma Janet in the 70s. Millennial Mable Murple.

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Ovelha: Como você descreveria o seu trabalho?

Mollie: Eu descreveria meu trabalho como uma mistura de desenhos animados semi-autobiográficos, “snotty” (algo como arrogante) e observações inteligentes sobre namoro, mundo da arte, política de gênero e positividade gorda.


 

Ovelha: Por que “art-brat”?

Mollie: Em inglês, nós chamamos alguém que vem de uma família militar de “brat” (algo como pirralho ou fedelho), por exemplo: um pirralho do exército, um pirralho da marinha, um pirralho militar, eu cresci com pais que eram artistas e trabalhavam no mundo artísticos então tive essa experiência única de infância e bem dentro desse mundo das artes, então chamo a mim e minhas irmãs de “art brats” (fedelhas das artes). “Bratty” também significa ser malcriado e imaturo, e eu também sou essas coisas às vezes. Não me arrisquei ainda em falar muito sobre o mundo artístico nos meus cartoons porque eu estou TÃO próxima dele: eu trabalho nele, meus pais trabalham nele, meus amigos trabalham nele… E quando faço piadas sobre certos tipos de homens ou comportamentos eu não fico tão preocupada que as pessoas saibam que é sobre elas, mas o mundo artístico é tão pequeno aqui na minha cidade, e no Canadá que me preocupa que alguém que eu usasse como referência ou piada pudesse saber que se trata dele. Há alguns meses, eu fiz um cartão de bingo de todos os tropos de shows de arte estudantil e teve uma resposta realmente ótima, mas também chateou muitos dos meus amigos que fizeram o tipo de trabalho do qual fiz piada… É complicado, eu ainda estou trabalhando em fazer mais piadas sobre esse mundo, mas eu estou tão perto dele que fica difícil. Walter Scott faz esses cartoons MARAVILHOSO sobre essa jovem mulher no mundo das artes, Wendy. E acho também que ele faz um trabalho tão bom que nem sei o que eu poderia adicionar!

Getting psyched for the BBQT shows this weekend ✌ #number1fan #fangirl #lawnyavawnya2017 #lawnyavawnya

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Ovelha: De todos os desenhos que você já fez até agora, existe um favorito?

Mollie: Isso é tão difícil… Acho que o meu favorito do momento é o que eu fiz para o Sappyfest (um festival de música em Sackville, New Brunswick, uma pequena cidade que fica a duas horas de onde eu moro). Eu amo o Sappyfest e fiquei super animada quando me convidaram para desenhar a camiseta deles. Sappy fica numa cidade pantanal e as pessoas lá fazem muitas piadas sobre viverem atoladas no lodaçal, por isso, desenhei essa garota punk montada num crocodilo. Eu não conseguia parar de rir assim que a desenhei e pensei “isso tá estranho, aposto que não vão querer!”, mas eles quiseram! Normalmente, comissões me estressam um pouco, você tá sempre tentando representar a ideia de outra pessoa, por isso, geralmente, evito fazê-las. Mas essa foi a primeira que realmente amei fazer. Tenho uma cópia do desenho pendurada no meu quarto.

Green, green, spicy bean #sappyfest

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Ovelha: Você se intitule uma “sloppy feminist cartooner” (algo como feminista cartunista descuidada) no seu perfil do Instagram, por quê?

Mollie: Eu me chamo dessas coisas porque acho que estou sempre tentand fazer piadas de mim mesma, então acho que sou descuidada, tanto em algumas maneiras que desenho quanto na minha política. Ainda estou aprendendo, ainda sou descuidada. “Cartooner” não é exatamente uma palavra, é só uma outra maneira de me fazer parecer menos séria. Eu não tenho nenhum treinamento em design gráfico ou em desenho animado, I sou auto didata exceto por algumas aulas de desenho (embora eles não tenham me ensinado a fazer cartoons lá) então escrevi isso como uma forma de me expressar!

Hand drawing these stickers is cute but not that efficient… Dm me if you know a good place to get stickers printed!

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Ovelha: Você sempre se considerou uma feminista?

Mollie: Acho que quando eu era bem mais nova eu reagia completamente contra a palavra “feminista”, eu penso constantemente sobre como a criançada é ensinada que as feministas são essas mulheres ogras horríveis, como algo que você realmente não gostaria de ser, e eu definitivamente comprei essa ideia de que era melhor ser gostada (ou seja, ser complacente, odiar o feminismo, ficar colada no status quo) do que “mexer as penas” (ou seja, ser feminista), mas no ginásio e na universidade eu me separei completamente disso. Mas hoje em dia, feminismo para mim é muito mais sobre interseccionalidade, sobre raça, classe, habilidades e questões trans. Não quero ser alguém que apenas desenha mulheres brancas cisgênero, isso pode ser problemático depois de um tempo. Eu, em geral, me afasto de chamar as pessoas que desenho de mulheres (não que seja um problema caso alguém chame assim!) porque eu não gostaria que pessoas não-binárias, por exemplo, não se identificassem com as pessoas que eu desenho. Eu definitivamente me sinto mais confiante desenhando personagens que se parecem comigo (femininos, brancos) e acho que é bom começar por aquilo que você conhece e o que você pode falar com confiança, mas eu tenho tentado sair da minha zona de conforto. Eu tenho tantas pessoas trans, não-binárias, e negras maravilhosas na minha vida que preciso trabalhar mais para representá-las e ser uma aliada melhor.


 

Ovelha: Como é o seu processo de criação, o que mais te inspira?

Mollie: Eu trabalho num lugar que eu amo, mas que não está relacionado meu trabalho de cartunista então se penso em piadas ou ideias durante o dia elas têm tempo de marinar e descansar comigo até eu chegar em casa e ter tempo de escrevê-las e por isso, passo boa parte das noites criando desenhos. Na maioria eu falo de mim, mas não gosto de ser muito explícita e autobiográfica. Procuro provocar as pessoas que conheço e as experiências que tenho e as escrevo de maneira que elas possam ser relacionáveis a outras pessoas. Eu sempre digo aos artistas que ninguém quer ver os sentimentos deles, para o trabalho ser efetivo o espectador tem que sentir aqueles sentimentos, então eu tento fazer piadas que contém particularidades da minha vida e as torno relacionáveis para outras pessoas. Eu quero que as pessoas vejam e pensem “Ah, eu conheço esse cara!” porque a verdade é todos nós conhecemos pelo menos OITO caras iguais aquele cara…

Happy Monday heres a lil reminder! I'm enjoying my #fattestsummerever

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Ovelha: Você curte ouvir algum som na hora de criar seus desenhos?

Mollie: Em geral, eu assisto Gilmore Girls quando estou desenhando, mas muito porque eu passo o dia ouvindo músicas no trabalho. Mas tenho ouvido muitas bandas locais/canadenses como: Municipality, The Courtneys, Lido Pimienta, Not You, Luka, BBQT, Partner, and Century Egg.
 

Ovelha: Qual é o maior desafio em ser uma jovem artista feminista?

Mollie: Eu não sei muito bem como responder essa pergunta porque não me considero uma artista. Mas minha maior barreira é me expor por aí, me sentir confiante no que produzo a ponto de colocar no mundo, ir além da internet, em muitos sentidos é mais fácil colocar suas coisas online do que aplicar para shows e vendas e outras coisas que fazem parte do mundo real. O fato de eu ter cada vez menos escrúpulos quando o assunto é fazer ilustrações de mim mesma nua, mas estou sempre muito nervosa quanto a ideia de aplicar para shows é provavelmente bem revelador!). Eu estou sempre meio que minimizando o que faço (eu até comecei a responder a essa pergunta dizendo isso), mas acho que também pode ser algo frutífero! Eu fico feliz de não ter começado a fazer livros como muitos me sugeriram, eu estava bastante em dúvida quando comecei a fazer cartoons (e ainda estou, ainda sou descuidada e tudo bem!) mas eu usei esse tempo para trabalhar nos meus desenhos e chegar nesse lugar onde eu sinto que eles são fortes. Mas honestamente, sempre me surpreendo quando as pessoas me levam a sério, estou inclusive tentando trabalhar isso!


 

Ovelha: Você tem alguma dica de artistas inspiradores para sugerir?

Mollie: Alguns artistas que também estão no Instagrame que amo são: @saltandchilli_emma, Louise Reimer @louisereimer, Alisha Davison @alisha_lucia, Anna Taylor @taylormade_xox e Liana Finck @lianafinck. E como disse, eu amo “Wendy” do Walter Scott e um dos meus artistas visuais favoritos do momento é a Christine Sun-Kim.
 

 
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Escrito por
Mais de Marcia Tojal

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  • Ana Beatriz Quinto

    Eu amei! Que entrevista MARAVILHOSA <3