O que importa é o que Beyoncé representa

Toda vez que uma conversa sobre a Beyoncé começa – seja em um coletivo, seja pessoalmente com alguma amiga feminista -, eu já sinto um aperto no peito, um cansaço em relação ao assunto. Simplesmente, porque o que entra em debate é somente o famigerado “feminismo de Beyoncé” e não o que ela faz como mulher ou mesmo o que ela representa como negra.

Essas falas sobre a cantora vêm carregadas de julgamentos e discursos decorados sobre suas falhas de caráter ou comportamento desde o início da carreira até os dias de hoje, quando a palavra “feminist” é estampada com orgulho em seus shows.

 
feminist
 
Muitas vezes, acabo só fazendo gestos positivos com a cabeça pois, sim, concordo com a necessidade da problematização de um ícone tão grande para as mulheres e entendo todo o questionamento imposto nesses discursos sobre ela, mas também porque acabo me cansando de tentar levar um recorte racial e social para o debate e ser ignorada.

Eu acreditava que isso acontecia, pois Beyoncé se tornou um símbolo tão forte e inalcançável, assumindo o perfil de diva – ou deusa – que a indústria e a mídia atribuem a ela. Ou ainda por causa do processo de embranquecimento pelo qual ela passa e que também é alimentado pela mídia. Será que as pessoas não a viam como uma mulher negra? Seria tão difícil assim imaginá-la nesse alto nível que mantém em seu trabalho por causa de sua cor?

 
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Mas, depois de participar de outras conversas sobre representatividade, entendi que o embranquecimento pode atingir a Beyoncé assim como atingiu a mim (“mera mortal”) e também a maioria das mulheres negras. Aprendi, na prática, que não havia compreensão sobre esse tópico nos debates, assim como não havia em relação a outros com relação a Beyoncé e outras mulheres negras.

Foi assim que percebi que existe um feminismo característico de mulheres brancas, que, achando que há igualdade racial, nos exclui e não entende a importância de um ambiente interseccional.

E de repente, não só há mulheres negras se declarando feministas e militando como lhe cabe, como também há esta grande representação que é a Beyoncé. E eu percebi o quanto a imagem de uma mulher negra em destaque – bem sucedida como também é endeusada incomoda.

 
palco
 
É quase como se as feministas brancas esperassem que, como a maioria das mulheres negras, Beyoncé permanecesse na periferia, escondida e não à mostra, se marginalizando para que pudessem problematizar de longe, sem se envolver de verdade. Mas o que ela fez foi conquistar um poder imensurável e influenciar outras mulheres.

Quando se analisa Beyoncé de um ponto de vista feminista, é preciso considerar muito mais do que ela diz que é feminismo ou empoderamento. É preciso ir além e pensar no que ela representa.

Para mim, como mulher negra, assistir a uma apresentação com a voz e movimentos fortes e firmes de Beyoncé a frente de um grupo de dançarinos ou de uma banda composta só por mulheres, como líder do palco inteiro e não como merca antagonista, já seria suficientemente poderoso.

Então, ela declara sua própria independência, se liberta da administração do seu pai, que abusava de seu trabalho com a tradicional desculpa patriarcal de ser o responsável por administrar os negócios da família. 

Mas Beyoncé canta sobre relacionamentos amorosos heteronormativos, dependentes, muitas vezes abusivos, violentos, problemáticos… Eu não esperaria menos de uma mulher negra, que, se não passou por isso na pele, ao menos esteve inserida num ambiente em que, na maioria das vezes, somos vistas, até por homens negros, como objetos sexuais e trocadas por mulheres brancas na hora do compromisso ficar sério. Já ouviu falar na solidão da mulher negra?

Um dos momentos em que eu mais sacudo a cabeça sem paciência para debater, é quando problematizam o amor de Beyoncé por seu marido Jay-Z. “Onde já se viu, uma feminista assumir o nome do homem e ainda usá-lo como título de sua turnê de sucesso?”

E ela não para: canta sobre o quanto gosta de fazer sexo com ele e grava clipe se casando da forma mais tradicional possível. Podemos criticar toda a tradição matrimonial, que é patriarcal e opressora, mas não sem antes saber se você estaria disposta a compreender o quanto aquele vídeo é revolucionário para uma mulher negra, sempre exposta a rejeição. Num mundo onde histórias como as de Nina Simone e Tina Turner – ou até um exemplo mais atual como o de Rihanna, que foi agredida pelo ex – se repetem facilmente nos lares de periferias, considere o que significa ver uma outra se casando em um relacionamento saudável e responsável. Ué, mas preta não é pra casamento!

 

 
A vontade de desqualificar a militância de Bey é tão grande que já cansei de ouvir argumentos em tom de acusação sobre o seu alisamento capilar e uso de perucas. Não que as mudanças constantes ou a química usada pelas americanas não sejam preocupantes para ela e claro que esse é um assunto delicado para mim… Espera aí: eu passei por uma transição capilar, mas também já alisei meu cabelo e sei bem o que é isso.

Será que a pessoa que usa esse argumento não está se importando mais em me fazer ficar “contra” a Beyoncé de alguma forma e menos com a pressão do alisamento nas mulheres negras de forma universal? Só consigo acreditar que sim, uma vez que esses apontamentos só questionam a negritude de Beyoncé e colocam a culpa de seu embranquecimento nela mesma e não na sociedade racista e eurocêntrica em que estamos inseridas.

Escrevi este texto para propor uma reflexão sobre o empoderamento e afirmação de identidade que Beyoncé estimula, sim, em mulheres negras e sobre a necessidade de reconsiderar a cobrança sobre ela e sobre todas nós. Mas, este poderia ser também um convite para uma reflexão interseccional, tão necessária na nossa militância.

Beyoncé me empodera e também me representa, pois eu também estou sujeita a receber críticas e sofrer com um feminismo branco e padronizado. Assim como fazem com ela, você também poderia analisar meu trabalho e a forma como expresso minha identidade, pois eu também erro, também acerto e também cresço na minha militância todos os dias.

Por fim, é isto que me impressiona na Bey: Apesar da construção e cultivo constante dessa figura inalcançável em torno da estrela, sabe-se também que ela está sujeita a erros. Ela tropeça, tem medo, reergue-se e melhora… Como todas nós, todos os dias.

Longe de mim querer colocar Beyoncé no alto desse pedestal em que até ela mesma pisa e livrá-la de qualquer problematização, mas quero deixar bem clara a importância de se poder assimilar a imagem de uma mulher negra a esse tal pedestal. Então all hail Queen B!

Mais de Karoline Gomes

As minas que valem por 100

Assim como Jogos Vorazes e Divergente, franquias de filmes (e séries de livros) ambientadas em futuros distópicos, a série The 100 (que também é baseada em livros!) apresenta como protagonista, uma personagem feminina forte e singular, que se destaca como líder de um grupo em meio a crises e, no futuro, uma guerra.

E, também como os outros exemplos citados, The 100 não se limita somente à representação de Clarke Griffin. Menos ainda mantém o resto da presença feminina na trama de forma secundária.

Com este e outros fatores importantíssimos, a série está encerrando a terceira temporada melhorando a cada episódio.

 

Quem gosta de futuros distópicos?

A sinopse é o seguinte: Em meio a uma guerra nuclear que destruía a civilização e o planeta Terra, uma nave especial chamada Arca foi construída e enviada para o espaço com 400 sobreviventes, para que eles pudessem viver em órbita e manter a existência da raça humana. A ideia era que, um dia, as pesquisas na Arca avançassem e todos poderiam voltar e reabitar o planeta fora do perigo.

Depois de três gerações, a população na Arca já contava com 4 mil pessoas, porém, os recursos iam acabando. Para não arriscar a vida de todos os habitantes, a administração (ou governo) da Arca enviou cem adolescentes criminosos para a Terra (sacou porque chama The 100, né?), para que eles possam testar as condições de habitação e sobrevivência no planeta.

Com a responsabilidade da sobrevivência da raça humana nas mãos, estes jovens precisam chegar a Mount Weather, uma possível fonte de sobrevivência para todos, segundo as pesquisas da Arca. Mas conflitos internos surgem quando um grupo decide negar ajuda à nave em órbita e viver livre na Terra. Só que Os Cem precisam deixar os conflitos internos de lado quando encontram terráqueos selvagens tentando proteger o território. Ah! E, em meio a tudo isso, rola uma disputa política na Arca.

 

Tudo isso aí só na primeira temporada, tá?

 

A questão da representatividade

Apesar de trazer uma crítica social e um gancho político e social para gente grande, o fato de que os personagens centrais de The 100 são adolescentes, acaba atraindo um público na mesma faixa etária como espectadores.

Para as meninas jovens, não faltam exemplos de força feminina. Mas é interessante observar também que os personagens masculinos estão sempre sendo colocados à prova e tendo o conceito de masculinidade e liderança sempre desconstruídos. Nem sempre aquele cara com perfil de herói/príncipe vai cumprir mesmo este papel, ou ainda aquele típico mulherengo precisa corrigir seu comportamento para se provar como líder.

Além da questão da representação feminina, eu sempre busco avaliar o quanto a série (ou filme) valoriza a presença de negros e também personagens queer e LGBT. E até o fim da primeira temporada, estes dois últimos fatores me preocupavam. Mas parece que as coisas estão melhorando…

Ponto positivo para a série ao colocar um homem negro, Thelonious Jaha, como chanceler da Arca e seu filho, Wells Jaha, como um possível líder d’Os Cem. Mas, como dois personagens masculinos, ambos acabam ganhando menos destaque em comparação às garotas. O que me fez questionar: todas são muito singulares e relevantes, mas onde estão as negras, as lésbicas…?

 

[Alerta para trechinho com spoiler a seguir!]

 
A segunda temporada respondeu meu questionamento quando iniciou o romance entre Lexa, a líder dos terráqueos selvagens, e Clarke. Isso  mesmo… A personagem principal se descobre bissexual e é completamente segura quanto a seus desejos e sexualidade. De quebra, ela ainda se envolve com a líder do grupo inimigo, o que apimenta a trama, não é mesmo?

A mesma fase da série também nos presenteia com Indra, guerreira líder do exército de terráqueos selvagens, braço direito da líder Lexa AND mulher negra e badass.

 

 
Claro que, apesar do avanço, a série tem potencial para fornecer muito mais representividade e a adição desses personagens mostra que, aparentemente, é isso que os criadores buscam. O negócio é ficar de olho e esperar por mais.

 

Uma luta (realista) por sobrevivência

Com foco na necessidade de todos os personagens, de todos os grupos, lutarem pela sobrevivência, a série sempre acaba surpreendendo. Por isso, mesmo se passando em uma realidade paralela, todos os personagens têm medos, sofrimentos e reações muito reais.

É fácil observar que as mulheres também são completamente reais e que, apesar de suas inseguranças e fraquezas, elas resistem e são fortes. E elas não são fortes de maneira forçada, por terem sido feitas dessa forma pelos criadores, mas sim por serem perfeitamente capazes de se ajustar à diferentes situações e buscarem por sobrevivência, assim como os homens.

 

[Mais um trechinho com spoiler a seguir!]

 
Entre as surpresas do roteiro, o triângulo amoroso entre Bellamy, Clarke e Lexa acabou sendo uma das coisas que mais me deixaram surpresa. Quando os primeiro indícios surgiram, pensei em todo o drama que poderia se delongar nos episódios seguintes, mas não foi nada disso.

 

 
Acontece que os personagens têm outras preocupações e prioridades, tipo sobreviver num planeta prejudicado por uma guerra nuclear! Logo, o roteiro não força a barra nesse triângulo e deixa as coisas rolarem naturalmente.

E ainda que esta parte da trama não ganhe muito destaque, é fácil ficar envolvida também com a situação de Clarke entre os dois pretendentes (e a situação amorosa de outros personagens também) e até acabar escolhendo lados. Eu por exemplo, mesmo tendo ficado animadíssima com a relação lésbica, acabo ficando no #TeamBellamy por causa de alguns eventos em particular :p.

 

Seis minas que valem por 100

Na série, as mulheres são lideres, guerreiras, médicas, mecânicas… Protagonistas. Todas tão importantes para a trama que, sem estas personagens, haveria buracos e perdas grandes para a história como um todo. A verdade é que elas valem mais do que todo o grupo de cem pessoas que desceu foi enviado para a Terra.

Então lá vai um resuminho sobre algumas das minas de The 100 para você entender do que estou falando e correr para assistir logo.
 

Clarke Griffin

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O motivo pelo qual Clarke Griffin foi presa e, consequentemente, acabou entre os cem jovens enviados à Terra não fica muito explicito na série, mas os conflitos com a mãe, Abby, revelam que muito de sua angústia e mágoas contidas têm a ver com a morte do pai.

Na Terra, ela se faz útil para o grupo em função de suas habilidades medicinais, aprendidas com a mãe. Mas logo se torna uma líder política, aprendendo a negociar com os selvagens e bolando estratégias de sobrevivência. O crescimento de Clarke até a terceira temporada é evidente, quando ela se torna uma figura forte de liderança.
 

Abby Griffin

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Abby é chefe de medicina e costumava fazer parte do conselho da Arca até se envolver em problemas junto com o marido, que também fazia parte do conselho Mesmo afastada, ela continua sendo importante nas decisões da Arca, mesmo que de forma rebelde.
 

Raven Reyes

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Raven não faz parte do grupo de cem rebeldes, mas, ao ver as condições precárias da Arca, acaba fugindo da unidade espacial sozinha, graça as suas habilidades mecânicas e químicas, e pousando na Terra para se tornar muito útil à equipe. A pobrezinha sofre muito na série, mas sua resistência é simplesmente inspiradora.
 

Octavia Blake

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No episódio piloto, Octavia é apresentada como a irmã mais nova e bonitinha de Bellamy, ambos muito populares entre Os Cem.  Quem vê Octavia na terceira temporada nem consegue imaginar como aquela mocinha do primeiro episódio pode ser a mesma pessoa! Pode esperar pelo desenvolvimento de uma grande guerreira ao longo da série, viu?
 

Lexa

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Ela é a comandante geral de todos os 12 clãs compostos pelos terráqueos. Apesar de ser uma líder firme em suas decisões, é possível notar que a feminilidade de Lexa é sempre colocada por seus guerreiros, como uma questão problemática e enfraquecedora. Por isso, ela precisa sempre se provar como uma boa líder.
 

Indra

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Como já adiantei nesse post, Indra é líder e treinadora de um exército inteiro de terráqueos. Muitas vezes, a sobrevivência e regras de conduta dos guerreiros fica na mão dela, mas sua prioridade é sempre proteger os interesses do clã, decididos por Lexa.

 


 

Corre assistir!

 

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Muitas vezes, acabo só fazendo gestos positivos com a cabeça pois, sim, concordo com a necessidade da problematização de um ícone tão grande para as mulheres e entendo todo o questionamento imposto nesses discursos sobre ela, mas também porque acabo me cansando de tentar levar um recorte racial e social para o debate e ser ignorada.

Eu acreditava que isso acontecia, pois Beyoncé se tornou um símbolo tão forte e inalcançável, assumindo o perfil de diva – ou deusa – que a indústria e a mídia atribuem a ela. Ou ainda por causa do processo de embranquecimento pelo qual ela passa e que também é alimentado pela mídia. Será que as pessoas não a viam como uma mulher negra? Seria tão difícil assim imaginá-la nesse alto nível que mantém em seu trabalho por causa de sua cor?

 
angel gif
 
Mas, depois de participar de outras conversas sobre representatividade, entendi que o embranquecimento pode atingir a Beyoncé assim como atingiu a mim (“mera mortal”) e também a maioria das mulheres negras. Aprendi, na prática, que não havia compreensão sobre esse tópico nos debates, assim como não havia em relação a outros com relação a Beyoncé e outras mulheres negras.

Foi assim que percebi que existe um feminismo característico de mulheres brancas, que, achando que há igualdade racial, nos exclui e não entende a importância de um ambiente interseccional.

E de repente, não só há mulheres negras se declarando feministas e militando como lhe cabe, como também há esta grande representação que é a Beyoncé. E eu percebi o quanto a imagem de uma mulher negra em destaque – bem sucedida como também é endeusada incomoda.

 
palco
 
É quase como se as feministas brancas esperassem que, como a maioria das mulheres negras, Beyoncé permanecesse na periferia, escondida e não à mostra, se marginalizando para que pudessem problematizar de longe, sem se envolver de verdade. Mas o que ela fez foi conquistar um poder imensurável e influenciar outras mulheres.

Quando se analisa Beyoncé de um ponto de vista feminista, é preciso considerar muito mais do que ela diz que é feminismo ou empoderamento. É preciso ir além e pensar no que ela representa.

Para mim, como mulher negra, assistir a uma apresentação com a voz e movimentos fortes e firmes de Beyoncé a frente de um grupo de dançarinos ou de uma banda composta só por mulheres, como líder do palco inteiro e não como merca antagonista, já seria suficientemente poderoso.

Então, ela declara sua própria independência, se liberta da administração do seu pai, que abusava de seu trabalho com a tradicional desculpa patriarcal de ser o responsável por administrar os negócios da família. 

Mas Beyoncé canta sobre relacionamentos amorosos heteronormativos, dependentes, muitas vezes abusivos, violentos, problemáticos… Eu não esperaria menos de uma mulher negra, que, se não passou por isso na pele, ao menos esteve inserida num ambiente em que, na maioria das vezes, somos vistas, até por homens negros, como objetos sexuais e trocadas por mulheres brancas na hora do compromisso ficar sério. Já ouviu falar na solidão da mulher negra?

Um dos momentos em que eu mais sacudo a cabeça sem paciência para debater, é quando problematizam o amor de Beyoncé por seu marido Jay-Z. “Onde já se viu, uma feminista assumir o nome do homem e ainda usá-lo como título de sua turnê de sucesso?”

E ela não para: canta sobre o quanto gosta de fazer sexo com ele e grava clipe se casando da forma mais tradicional possível. Podemos criticar toda a tradição matrimonial, que é patriarcal e opressora, mas não sem antes saber se você estaria disposta a compreender o quanto aquele vídeo é revolucionário para uma mulher negra, sempre exposta a rejeição. Num mundo onde histórias como as de Nina Simone e Tina Turner – ou até um exemplo mais atual como o de Rihanna, que foi agredida pelo ex – se repetem facilmente nos lares de periferias, considere o que significa ver uma outra se casando em um relacionamento saudável e responsável. Ué, mas preta não é pra casamento!

 

 
A vontade de desqualificar a militância de Bey é tão grande que já cansei de ouvir argumentos em tom de acusação sobre o seu alisamento capilar e uso de perucas. Não que as mudanças constantes ou a química usada pelas americanas não sejam preocupantes para ela e claro que esse é um assunto delicado para mim… Espera aí: eu passei por uma transição capilar, mas também já alisei meu cabelo e sei bem o que é isso.

Será que a pessoa que usa esse argumento não está se importando mais em me fazer ficar “contra” a Beyoncé de alguma forma e menos com a pressão do alisamento nas mulheres negras de forma universal? Só consigo acreditar que sim, uma vez que esses apontamentos só questionam a negritude de Beyoncé e colocam a culpa de seu embranquecimento nela mesma e não na sociedade racista e eurocêntrica em que estamos inseridas.

Escrevi este texto para propor uma reflexão sobre o empoderamento e afirmação de identidade que Beyoncé estimula, sim, em mulheres negras e sobre a necessidade de reconsiderar a cobrança sobre ela e sobre todas nós. Mas, este poderia ser também um convite para uma reflexão interseccional, tão necessária na nossa militância.

Beyoncé me empodera e também me representa, pois eu também estou sujeita a receber críticas e sofrer com um feminismo branco e padronizado. Assim como fazem com ela, você também poderia analisar meu trabalho e a forma como expresso minha identidade, pois eu também erro, também acerto e também cresço na minha militância todos os dias.

Por fim, é isto que me impressiona na Bey: Apesar da construção e cultivo constante dessa figura inalcançável em torno da estrela, sabe-se também que ela está sujeita a erros. Ela tropeça, tem medo, reergue-se e melhora… Como todas nós, todos os dias.

Longe de mim querer colocar Beyoncé no alto desse pedestal em que até ela mesma pisa e livrá-la de qualquer problematização, mas quero deixar bem clara a importância de se poder assimilar a imagem de uma mulher negra a esse tal pedestal. Então all hail Queen B!

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