A incrível sensação de ser protagonista

Quando você era criança, quem você queria ser quando crescer? Para você entender o porquê da minha pergunta, vou tentar contar quem eu queria ser quando crescesse.

As primeiras princesas da Disney que fizeram minha mente foram a Branca de Neve e a Cinderella, mas fiquei tão feliz com o lançamento de Mulan. Lembro de ter ido ao cinema ao menos umas oito vezes para assistir. Ela era uma guerreira, uma heroína.

Então eu decidi que queria ser uma guerreira também, e foi natural que na mesma época eu tenha começado a assistir Sailor Moon. Dãr, elas lutam pelo amor e pela justiça… E pela igualdade de gênero!

Eu arrancava as bases das vassouras da minha mãe e fingia ser a Sailor Plutão, minha favorita. Mas só a chave do portal do tempo numa versão vassoura não era suficiente para a imaginação de uma criança, então lá ia eu, vasculhar os armários da casa em busca do lençol mais escuro, e amarra-lo na cabeça para fingir ter um cabelo escuro, longo e… liso.

Mas eis que surge o primeiro filme da franquia Harry Potter no cinema, e lá estava a Hermione e seu cabelo volumoso na telona. Devorei todos os livros pois, além do encantamento com a saga, queria saber o que acontecia com aquela heroína. Dispensei o lençol para mudar meu cabelo, e encontrei um galho qualquer para fingir ser minha varinha mágica, agora eu queria ser uma heroína e uma bruxa quando crescesse.

Com um tempo o faz de conta passou, entendi que não podia ser bruxa (apesar de estar esperando minha carta de Hogwarts até hoje), mas continuei admirando estas personagens e outras que apareceram nessa vasta cultura pop que tanto nos influencia. Por isso, quando Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban foi lançado, decidi que era época de dar um jeito no meu cabelo como todo mundo sugeria… Hermione havia dado um jeito no dela.

Ela agora era adolescente e vaidosa, havia crescido, e sua aparência melhorou. Não era só a Hermione… As cantoras que apareciam na MTV, as personagens e atrizes de outros filmes, todas cresciam e conseguiam o que queriam quando melhoravam a aparência, e isso incluía ter cabelos lisos e longos como os da Sailor Plutão.

Não basta mostrar o cabelo liso como o ideal, tem que mostrar ainda que só aderindo a ele é que ficamos bonitas. Sempre foi assim, e ainda costuma ser. Thanks, Disney!

[caption id="attachment_3737" align="aligncenter" width="499"] Cena de “O Diário de uma Princesa” da Disney Pictures[/caption]

Contei tudo isso para dizer que mesmo com tantas influências girl power, que levo como inspiração até hoje, e que me fortaleceram de algum modo me fazendo continuar buscando por mais inspirações, no fim das contas, eu nunca quis ser eu mesma. Eu nunca tive a ideia de que eu poderia ser uma guerreira, uma heroína ou uma bruxa, sem ter que mudar minha aparência.

Logo esse pensamento é traduzido para a vida real, e me ensinaram que eu não poderia arrumar um namorado (porque isso também parece ser muito importante) ou um emprego com minha aparência natural.

As meninas parecidas comigo mal apareciam na TV, nos livros, nos filmes ou nas revistas. A pouca representatividade que eu conseguia ver na cultura pop já vinha com as alterações nos cabelos ou uma maquiagem que embranquecida, Destiny’s Child que o diga.

Mas essa garotinha da foto abaixo, não. Essa garotinha quer ser ela mesma, e ela sabe que ela pode ser uma heroína sem precisar mudar. E o melhor de tudo, é que ela provavelmente não levou tantos anos para perceber isso como eu precisei. Graças ao filme desse cartaz que ela posa ao lado.

representação

 

Home, a animação que colore a pele

Desculpe demorar tantos parágrafos para chegar ao assunto desse texto; a animação Cada um na sua casa (Nome original, e mais curto para referência: Home) da DreamWorks. Mas me senti na obrigação de dar um exemplo de como é difícil encontrar mulheres negras como protagonistas, heroínas e livres de estereótipos. E eu vivi 22 anos para ver isso no cinema.

Tip foi criada com inspiração na cantora Rihanna, que dá voz a personagem e trilha sonora ao filme. Me senti uma criança ao ver o trailer e depois deixando a sala de cinema, quase virei para minhas primas de 9 e 11 anos de idade que me acompanhavam e engajei aquela velha brincadeira de dizer: “Eu sou a principal”, porque eu realmente sou a principal.

[caption id="attachment_3730" align="aligncenter" width="500"] Cena de “Cada um na sua Casa” da DreamWorks[/caption]

Depois que o Planeta Terra é invadido e os seres humanos abduzidos para darem espaço ao domínio da raça alienígena Boov, Tip, uma sobrevivente da abdução, se empenha em reencontrar sua mãe Lucy, dublada originalmente por Jennifer Lopez.

Tip é uma adolescente que se sente excluída na escola por ser imigrante, (ela e a mãe são de Barbados assim como Rihanna). Ela se junta com um dos invasores da Terra, com o estranho nome Oh, e que também sofre rejeição na sua comunidade e busca por consertar seus erros para conseguir conquistar amizades. No maior estilo Lilo & Stich e E.T – Extraterrestre, os dois constroem um laço importante, enfrentam dificuldades e aventuras juntos, ajudando um ao outro a conquistarem seus sonhos.

[caption id="attachment_3729" align="aligncenter" width="540"]Cena de "Cada um na sua Casa", da DreamWorks Cena de “Cada um na sua Casa”, da DreamWorks[/caption]

A rejeição é uma característica que pode ser facilmente adaptada a uma menina negra por ser a realidade de muitas, o que a torna ainda mais verdadeira. Porém Tip não se apega a estereótipos de cor ou gênero.

Ela se orgulha de ser muito inteligente e da relação que tem com a mãe. Não possui aqueles trejeitos exagerados que vemos em personagens negras, além de ter um corpo natural, com curvas e roupas comuns e nada sexualizadas. Ela é uma garota comum.

Tip é tão real, que eu não conseguia parar de olhar para seu cabelo, de tão parecido com a forma do meu. Mesmo um cacheado tão bonito, tem suas falhas e bagunça, e não tem nada de errado nisso. O cabelo liso foi mostrado por anos como o principal ideal de beleza, e a protagonista de Home foi posta diversas vezes em cenas onde passa a mão e ajeita com orgulho o seu black power.

[caption id="attachment_3727" align="aligncenter" width="540"]home Cena de “Cada um na sua Casa” da DreamWorks[/caption]

Não há “evolução” da personagem por mudança de aparência. Não há alteração em sua aparência para a conquista de seus objetivos. Nada além da imagem de Tip amando seu próprio cabelo cada vez mais.

A animação tem um ritmo bom, e piadas suficientemente agradáveis, e a personagem principal tem como impulsão para seu heroísmo o amor por outra mulher, que é a forma mais linda de amor e que tem rendido boas tramas, como Malévola e Frozen, ambas da Disney, que melhorou no quesito sororidade, porém ainda não no quesito beleza real.

Ainda vemos personagens quase perfeitas nos filmes da produtora, com traços exageradamente finos e cabelos exageradamente perfeitos, além de corpos muito sexualizados.  Aliás, o que foi essa Cinderella super retocada com uma cintura surreal, Disney?

A aposta nos traços que ressaltam a beleza real ou a criação de personagens incríveis mesmo com formas super diferentes, faz a DreamWorks ganhar um espaço muito maior no meu coração quando se trata de animações.

DreamWork

Mas o que torna Home ainda mais valioso é o debate sobre imigração, e respeito as diferenças. As cores dos Boov mudam de acordo com suas emoções, e as dos seres humanos mudam de acordo com a realidade da vida real. Nos momentos em que o filme mostra os habitantes nativos do nosso Planeta, é possível ver uma diversidade de cores, corpos e traços, que não deveria nos impressionar tanto em pleno 2015, mas impressiona.

[caption id="attachment_3733" align="aligncenter" width="600"] Cena de “Cada um na sua Casa” da DreamWorks[/caption]

Só apontaria um problema na dublagem brasileira da animação, que substituiu “brown skin” por “pele morena” numa frase que era para ser tão forte na trama (que eu não vou citar aqui pra não estragar a emoção com spoiler!), porque ainda se acredita que dizer “pele negra” ou “marrom” pode ser ofensivo. Claro que os termos ainda são usados com tom de racismo e desprezo, mas enquanto continuarmos mascarando e os evitando por causa disso, esses paradigmas nunca serão quebrados.

Assista então Home legendado para ouvir as vozes de Rihanna e Jeniffer Lopez na dublagem original. Infelizmente falhei na missão de encontrar um vídeo com o trailer legendado, mas vamos ter o gostinho das vozes dessas mulheres maravilhosas na animação?

Mais de Karoline Gomes

Tudo o que a internet falou sobre Lemonade

A não ser que sua internet seja de outro mundo, você provavelmente já ouviu falar do novo álbum da Beyoncé, intitulado Lemonade. No último sábado, a HBO foi a primeira a transmitir a versão visual das 11 músicas inéditas, além da já conhecida Formation, que a cantora já havia lançado e performado no SuperBowl deste ano.

O resultado é um filme de uma hora com todas as músicas do que já é considerado o melhor e mais biográfico trabalho de Beyoncé. Fato é que o álbum gerou muitas discussões e debates: desde o nome escolhido, até a representação da cantora nos clipes, passando pelas letras significativas e até pela forma como ela escolheu fazer o lançamento… Tudo isso e muito mais foi comentado na web nos últimos dias, desde a madrugada de sábado.

No maior estilo Links da Semana da Ovelha,  preparamos um resumão para linkar as críticas, observações e problematizações mais relevantes sobre Lemonade, assim você não perde nada sobre esse que poderá ser o álbum do ano e o ponto mais alto na carreira de Bey.

 

// O TAL DE TIDAL

Diferente de quando lançou seu último álbum (também de forma visual, com todos os clipes já prontinhos e postados de uma só vez no YouTube), Beyoncé quis preparar o coração dos fãs e avisou que o lançamento seria feito pelo canal HBO no sábado a noite.

#LEMONADE premieres on 4.23 9ET | 6PT HBO

A video posted by Beyoncé (@beyonce) on

Quem já tinha TV por assinatura deu sorte pois, como acontece todos os anos, a HBO estava com o sinal aberto no último fim de semana, em função da estreia da sexta temporada de Game Of Thrones no domingo.

Mas quem não tem TV a cabo, teve que esperar o conteúdo vazar na internet e assistir numa qualidade não muito boa. Isso porque, oficialmente, o álbum visual e as músicas separadamente, só serão disponibilizados para assinantes do serviço de streaming TIDAL para compra em dólar via iTunes.

Considerando que Beyoncé tem falado de racismo e injustiças para pessoas negras nos seus trabalhos mais recentes, seria segregador e elitista disponibilizar o conteúdo com mais custos, sem nem a chance de ouvir gratuitamente como no Spotify, como observou Azaelia Banks (além de outros comentários polêmicos sobre a obra).

 

// O BANHO DE WHITE TEARS

Lemonade

Desde o lançamento de Formation, pessoas brancas (principalmente os americanos) têm se sentido atacadas e (pasme!) não-representadas por Beyoncé em suas novas músicas. Mais uma vez, temos que explicar o óbvio: o debate sobre racismo e feminismo negro, não é para agradar pessoas privilegiadas por cor!

Claro que isso é difícil de ser compreendido, como o Saturday Night Live já ironizou e, depois de Lemonade, claro que a reclamação aumentaria. O senhor Piers Morgan, por exemplo, é mais um branco que saiu por aí dando sua opinião sobre Lemonade sem que ela fosse requisitada e pelo jeito ele esperava que Bey fosse SOMENTE bela, recatada e do lar

Que peninha. Expectativas não alcançadas.

 

// AS REFERÊNCIAS NAS LETRAS

O título já adianta: vai ter debate sobre racismo. Limonada era a bebida que os escravos americanos tomavam achando que teriam suas pelas clareadas (por causa do efeito do limão em tecidos). Em Freedom, música com batidas, vocais e parceria forte (de Kendrick Lamar, que fez uma apresentação absurda de incrível no último Grammy), Beyoncé diz: “Me deram limões, mas eu fiz limonada”, como que em resposta ao embranquecimento que a mídia e as gravadoras incentivaram nela ao longo dos anos e ao fato de que hoje ela chegou a um status em que pode apontar o problema. Na mesma música, ela afirma: “eu quebro as algemas por mim mesmo, não deixarei minha liberdade queimar no inferno”. 
Lemonade

Vale a pena analisar e buscar significados para cada letra na álbum, que entra em questões ainda como solidão e preterimento da mulher negra, auto-estima, família, relacionamentos abusivos, traição e outras questões muito fortes. Para ir além da tradução e detalhar as expressões vai lá no Genius e consulte as letras das canções!

A grandiosidade e genialidade das letras — que inclui versos como “Se é isso mesmo que você quer/ Eu usarei a pele dela sobre a minha /” — não é gratuita. No total, cerca de 72 compositores colaboraram com o álbum! A música Hold Up, por exemplo, foi escrita por 15 pessoas. Tem gente criticando o título de gênio que o trabalho garante à ela, mas considerando que ela é a líder e idealizadora da coisa toda, isso mostra que ela compreendeu que as maiores inovações surgem a partir da colaboração e não do mito do indivíduo criador solitário, e ainda está remunerando essas pessoas pelo trabalho. Isso é moderno e genial.

// O DESABAFO SOBRE TRAIÇÃO

Já que estamos falando sobre as letras de Lemonade, é impossível ignorar o fato de que Beyoncé também fala muito sobre traição. Em alguns momentos, parece que ela se inspira na história dos seus pais, a grande mídia destaca que em boa parte do tempo, parece mesmo que ela está se referindo diretamente ao marido Jay-z.

A timeline da versão visual do álbum mostra Beyoncé passando por diversos estágios e auto descobertas e no seu relacionamento para superar o problema. Dor, depressão, dúvida, negação, raiva…
Lemonade

Até que Lemonade se encerra com uma participação sentimental de Jay-z e a cantora ressaltando a importância da família em sua vida, como já fez outras vezes.
Lemonade

 

// BECKY WITH THE GOOD HAIR

Os rumores sobre a infidelidade de Jay-Z não são novos. Na verdade, já surgiram muitas especulações sobre o envolvimento dele com as cantoras Rihanna e Rita Ora e ainda rolou aquele episódio infeliz da briga no elevador entre Solange (irmã da Bey) e Jay, na saída do MET Gala há dois anos.

Lemonade seria para muitos um atestado de que a traição aconteceu. E é claro que sempre que aparece uma brecha para continuar incentivando a rivalidade entre mulheres, por menor que seja, a mídia menos sofisticada agarra. Desde sábado, o povo segue especulando sobre quem é a tal da “Becky with the good hair”, personagem citada como amante de um marido traidor na faixa Sorry. Vale mencionar que essa expressão é a gíria para o estereótipo arquetípico da mulher branca média na cultura negra norte-americana – que tem “cabelo bom”, liso, em contraste com o cabelo afro, considerado “ruim”.
Lemonade

A primeira aposta é na produtora, socialite e “amiga” do casal de algum tempo, Rachel Roy. Horas depois do lançamento de Lemonade, Roy resolveu vestir a carapuça e postou a indireta “good hair, don’t care” no seu Instagram. Depois de ser atacada online, ela desmentiu a história e agora a mídia ainda busca o famoso e famigerado “pivô” da briga entre Bey e Jay, apostando em Rita Ora novamente.

 

// E O QUE SE PODE APRENDER COM A CITAÇÃO “D’A OUTRA”

Um detalhe da coisa toda é que, mesmo citando a suposta amante, a letra de Sorry foca o tempo todo em desafiar o marido que quebrou os votos do casamento.
Lemonade

O que nos faz pensar que, em meio a toda essa fofoca, este artigo do Huffington Post disse tudo: “Bem, se você está focando na Becky, então você não entendeu nada. O ponto é o seguinte: Lemonade não é sobre com quem Jay-z traiu a Beyoncé. É sobre a força da Beyoncé – e a resiliência de mulheres negras de vários lugares”. 

 

// AS REFERÊNCIAS VISUAIS

Fato é que assim como as letras e as melodias, o visual de Lemonade é forte, lindo e inspirador. O álbum é uma obra de arte também em vídeo e está cheio de referências visuais muito interessantes. Assim como em Formation, que acabou sendo uma prévia do que estaria por vir, a presença de mulheres negras é maioria e significativa. É quase impossível não ser tomada por um feeling de sororidade.
Lemonade

Em meio a toda representatividade, tem referência a Nina Simone, trecho do discurso de Malcom X sobre o tratamento que as mulheres negras recebem nos EUA e ainda, Beyoncé representando Oxum!
Lemonade

 

// AS PARTICIPAÇÕES INCRÍVEIS

Assistindo a Lemonade, você vai perceber participações de mulheres negras incríveis. Só nesta imagem abaixo, temos: A dupla Chloe Bailey e Halle Bailey, que assinaram contrato com a Bey no ano passado; Zendaya; Amandla Stlenger e as gêmeas Lisa-Kaindé Diaz e Naomi Diaz, que juntas formam a banda Ibeyi.
Lemonade

Tem também a presença da incrível tenista Serena Williams como BFF da Bey na música Sorry; a modelo negra Winnie Harlow, além da parte emocionante em que mães e parentes de jovens negros mortos pela polícia americana prestam suas homenagens aos entes queridos.

Nas músicas, tem featuring com Kendrick Lamar, Jack White, James Blake e The Weekend!

 

// FEMINISMO NEGRO

Muito além de representar as mulheres negras, Lemonade fala por elas, explicando algumas singularidades que são difíceis (ou cansativas demais) para nós mesmas colocarmos em palavras.

Mais significativo ainda é o fato de que a mensagem está sendo espalhada e aceita pela crítica como um dos pontos mais altos da nova obra da cantora. Grandes mídias como Huffington Post; The GuardianHollywood Reporter e Billboard classificaram Lemonade como um trabalho de feminismo negro e, por isso, direcionado para mulheres negras principalmente.
bey 12

 

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E pela igualdade de gênero!

Eu arrancava as bases das vassouras da minha mãe e fingia ser a Sailor Plutão, minha favorita. Mas só a chave do portal do tempo numa versão vassoura não era suficiente para a imaginação de uma criança, então lá ia eu, vasculhar os armários da casa em busca do lençol mais escuro, e amarra-lo na cabeça para fingir ter um cabelo escuro, longo e… liso.

Mas eis que surge o primeiro filme da franquia Harry Potter no cinema, e lá estava a Hermione e seu cabelo volumoso na telona. Devorei todos os livros pois, além do encantamento com a saga, queria saber o que acontecia com aquela heroína. Dispensei o lençol para mudar meu cabelo, e encontrei um galho qualquer para fingir ser minha varinha mágica, agora eu queria ser uma heroína e uma bruxa quando crescesse.

Com um tempo o faz de conta passou, entendi que não podia ser bruxa (apesar de estar esperando minha carta de Hogwarts até hoje), mas continuei admirando estas personagens e outras que apareceram nessa vasta cultura pop que tanto nos influencia. Por isso, quando Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban foi lançado, decidi que era época de dar um jeito no meu cabelo como todo mundo sugeria… Hermione havia dado um jeito no dela.

Ela agora era adolescente e vaidosa, havia crescido, e sua aparência melhorou. Não era só a Hermione… As cantoras que apareciam na MTV, as personagens e atrizes de outros filmes, todas cresciam e conseguiam o que queriam quando melhoravam a aparência, e isso incluía ter cabelos lisos e longos como os da Sailor Plutão.

Não basta mostrar o cabelo liso como o ideal, tem que mostrar ainda que só aderindo a ele é que ficamos bonitas. Sempre foi assim, e ainda costuma ser. Thanks, Disney!

Contei tudo isso para dizer que mesmo com tantas influências girl power, que levo como inspiração até hoje, e que me fortaleceram de algum modo me fazendo continuar buscando por mais inspirações, no fim das contas, eu nunca quis ser eu mesma. Eu nunca tive a ideia de que eu poderia ser uma guerreira, uma heroína ou uma bruxa, sem ter que mudar minha aparência.

Logo esse pensamento é traduzido para a vida real, e me ensinaram que eu não poderia arrumar um namorado (porque isso também parece ser muito importante) ou um emprego com minha aparência natural.

As meninas parecidas comigo mal apareciam na TV, nos livros, nos filmes ou nas revistas. A pouca representatividade que eu conseguia ver na cultura pop já vinha com as alterações nos cabelos ou uma maquiagem que embranquecida, Destiny’s Child que o diga.

Mas essa garotinha da foto abaixo, não. Essa garotinha quer ser ela mesma, e ela sabe que ela pode ser uma heroína sem precisar mudar. E o melhor de tudo, é que ela provavelmente não levou tantos anos para perceber isso como eu precisei. Graças ao filme desse cartaz que ela posa ao lado.

representação

 

Home, a animação que colore a pele

Desculpe demorar tantos parágrafos para chegar ao assunto desse texto; a animação Cada um na sua casa (Nome original, e mais curto para referência: Home) da DreamWorks. Mas me senti na obrigação de dar um exemplo de como é difícil encontrar mulheres negras como protagonistas, heroínas e livres de estereótipos. E eu vivi 22 anos para ver isso no cinema.

Tip foi criada com inspiração na cantora Rihanna, que dá voz a personagem e trilha sonora ao filme. Me senti uma criança ao ver o trailer e depois deixando a sala de cinema, quase virei para minhas primas de 9 e 11 anos de idade que me acompanhavam e engajei aquela velha brincadeira de dizer: “Eu sou a principal”, porque eu realmente sou a principal.

Depois que o Planeta Terra é invadido e os seres humanos abduzidos para darem espaço ao domínio da raça alienígena Boov, Tip, uma sobrevivente da abdução, se empenha em reencontrar sua mãe Lucy, dublada originalmente por Jennifer Lopez.

Tip é uma adolescente que se sente excluída na escola por ser imigrante, (ela e a mãe são de Barbados assim como Rihanna). Ela se junta com um dos invasores da Terra, com o estranho nome Oh, e que também sofre rejeição na sua comunidade e busca por consertar seus erros para conseguir conquistar amizades. No maior estilo Lilo & Stich e E.T – Extraterrestre, os dois constroem um laço importante, enfrentam dificuldades e aventuras juntos, ajudando um ao outro a conquistarem seus sonhos.

A rejeição é uma característica que pode ser facilmente adaptada a uma menina negra por ser a realidade de muitas, o que a torna ainda mais verdadeira. Porém Tip não se apega a estereótipos de cor ou gênero.

Ela se orgulha de ser muito inteligente e da relação que tem com a mãe. Não possui aqueles trejeitos exagerados que vemos em personagens negras, além de ter um corpo natural, com curvas e roupas comuns e nada sexualizadas. Ela é uma garota comum.

Tip é tão real, que eu não conseguia parar de olhar para seu cabelo, de tão parecido com a forma do meu. Mesmo um cacheado tão bonito, tem suas falhas e bagunça, e não tem nada de errado nisso. O cabelo liso foi mostrado por anos como o principal ideal de beleza, e a protagonista de Home foi posta diversas vezes em cenas onde passa a mão e ajeita com orgulho o seu black power.

Não há “evolução” da personagem por mudança de aparência. Não há alteração em sua aparência para a conquista de seus objetivos. Nada além da imagem de Tip amando seu próprio cabelo cada vez mais.

A animação tem um ritmo bom, e piadas suficientemente agradáveis, e a personagem principal tem como impulsão para seu heroísmo o amor por outra mulher, que é a forma mais linda de amor e que tem rendido boas tramas, como Malévola e Frozen, ambas da Disney, que melhorou no quesito sororidade, porém ainda não no quesito beleza real.

Ainda vemos personagens quase perfeitas nos filmes da produtora, com traços exageradamente finos e cabelos exageradamente perfeitos, além de corpos muito sexualizados.  Aliás, o que foi essa Cinderella super retocada com uma cintura surreal, Disney?

A aposta nos traços que ressaltam a beleza real ou a criação de personagens incríveis mesmo com formas super diferentes, faz a DreamWorks ganhar um espaço muito maior no meu coração quando se trata de animações.

DreamWork

Mas o que torna Home ainda mais valioso é o debate sobre imigração, e respeito as diferenças. As cores dos Boov mudam de acordo com suas emoções, e as dos seres humanos mudam de acordo com a realidade da vida real. Nos momentos em que o filme mostra os habitantes nativos do nosso Planeta, é possível ver uma diversidade de cores, corpos e traços, que não deveria nos impressionar tanto em pleno 2015, mas impressiona.

Só apontaria um problema na dublagem brasileira da animação, que substituiu “brown skin” por “pele morena” numa frase que era para ser tão forte na trama (que eu não vou citar aqui pra não estragar a emoção com spoiler!), porque ainda se acredita que dizer “pele negra” ou “marrom” pode ser ofensivo. Claro que os termos ainda são usados com tom de racismo e desprezo, mas enquanto continuarmos mascarando e os evitando por causa disso, esses paradigmas nunca serão quebrados.

Assista então Home legendado para ouvir as vozes de Rihanna e Jeniffer Lopez na dublagem original. Infelizmente falhei na missão de encontrar um vídeo com o trailer legendado, mas vamos ter o gostinho das vozes dessas mulheres maravilhosas na animação?

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