Terceirização: uma pauta das mulheres

Terceirização? Não! | Ovelha

Estamos em uma época de cada vez mais precarização das condições de trabalho. E adivinhem quem são as principais vítimas do trabalho precário? Sim, nós, mulheres. Em especial  mulheres negras, imigrantes e/ou pobres.

O amplo uso da terceirização, que agora estão procurando ampliar mais ainda, é um fator hiper importante nesse jogo de te fazer trabalhar cada vez mais com cada vez menos garantias, proteções ou direitos.

Mas vamos olhar, rapidamente, a história desse problema.

A partir dos anos 1970 deu-se inicio a uma série de mudanças nos modelos de produção, o que se intensificou ainda mais nos anos 1990. Sendo bastante reducionista, os novos modelos perceberam que as pessoas operárias não eram extensões burras das máquinas repetindo movimentos mecânicos eternamente sem pensar, precisando de capatazes para trabalhar direito, mas tinham uma senhora inteligência no seu fazer. Afinal, conhece a produção aquele que produz, conhece o trabalho – verdadeiramente – aquele que o realiza. Decidiu-se, então, envolver mais as pessoas trabalhadoras no processo de trabalho e sua elaboração – desde, é claro, que esse envolvimento fosse a serviço da produção, da empresa.

Percebeu-se, também, que os processos de trabalho não precisavam ser feitos todos num mesmo grande local: você podia montar cada peça em um lugar e depois brincar de quebra-cabeça que estava tudo bem.  Você pode montar sua coleção de roupas e ter cada peça costurada em uma micro-empresa diferente, por exemplo. E, o melhor, você não precisa cuidar dos direitos, da segurança ou da saúde dessas pessoas. Não é tua empresa, não é problema seu!

Além disso, quem está na sua empresa não precisaria desempenhar apenas uma função, mas muitas (lembra de todo aquele saber delas que você não usava antes? Então!) – o que significa, claro, que você não precisa de tantos funcionários: pode demitir uma galera, fazer uma pessoa trabalhar por duas, três, cinco… reduzir custos!  Aumentar, mais ainda, o lucro! Opa, olha que alegria, não?

Com a redução de vagas, tem muita, mas muita gente precisando de emprego e de olho no seu, muitas vezes pronto a se submeter a salários menores e maior número de funções.

Ok, fim da ironia, pra pessoa trabalhadora isso significa que o trabalho dela está SEMPRE em risco. Afinal, com a redução de vagas, tem muita, mas muita gente precisando de emprego e de olho no seu, muitas vezes pronto a se submeter a salários menores e maior número de funções. Isso reduz, em muito, o poder da pessoa que trabalha de se recusar a fazer horas extras, de não aderir a práticas antiéticas, de não se submeter a metas abusivas, etc. Significa que, a qualquer momento, seu trabalho com direitos em uma grande empresa pode ser substituído por um trabalho mais barato, com menos direitos, numa empresa menor ou na garagem de alguém. E que, em algum momento, você pode ser a pessoa trabalhando por menos na garagem de alguém, é claro. Ou não trabalhando em lugar nenhum.

Agora pense essa situação sendo mulher: se você está no emprego, a sua situação é ainda mais instável. Você já recebe menos do que seus colegas homens e seus compromissos de mãe e dona de casa – impostos socialmente a você – produzem uma jornada ainda maior e um aumento de riscos a perda de emprego. Você, uma hora ou outra, por exemplo, pode precisar tomar a decisão de levar seu filho com febre no hospital ou manter seu trabalho.

A maioria das mulheres, porém, não está no emprego qualificado e polivalente das empresas “centrais”, mas está nos pedaços terceirizados e menos cuidados da produção. Ou seja, contam com ainda menos proteções.

Não é à toa, portanto, que vemos de novo e de novo nas notícias costureiras submetidas a situações análogas à escravidão, produzindo peças para grandes empresas, que se protegem sob o argumento do trabalho terceirizado e, portanto, fora de seu controle.

Estamos submetidas a jornadas exaustivas, sob o medo constante de perdermos o emprego.

Numa pesquisa com mulheres trabalhadoras na produção de sapatos em Franca, por Taísa Junqueira Prazeres, orientada por Vera Navarro, aquelas que trabalhavam terceirizadas, seja em bancas ou em seus domicílios, se encontravam em situações muito mais negligenciadas: tinham acesso apenas a equipamentos mais baratos, antigos e de menor qualidade e, portanto, menos seguros, trabalhando também sob condições mais insalubres, com ambientes de trabalho improvisados, e por muito mais horas que suas companheiras nas fábricas, ainda que todas vivessem condições de trabalho produtoras de sofrimento.

Helena Hirata, socióloga, traz em um de seus artigos que “há uma marcada divisão sexual da precariedade do trabalho, visto que as mulheres são mais numerosas do que os homens tanto no trabalho informal quanto no trabalho em tempo parcial, com um número inferior de horas trabalhadas e também níveis mais baixos na escala de qualificação formal”, além disso a autora coloca que “na evolução paradoxal do trabalho, as mulheres são mais atingidas pela tendência à precariedade e à imposição das tarefas, e menos pela tendência ao investimento e à iniciativa”.

É fundamental lembrar, ainda, que trabalhos precários e intensificados significam trabalhos mais adoecedores, afinal, além de contarem com menos proteções –como por exemplo menor ventilação, equipamentos antigos ou impróprios, maior dificuldade de fiscalização, etc.– são trabalhos  mais intensos, com menor possibilidade do descanso necessário à sua realização, e com muito mais pressão.

Não é à toa que, cada vez mais, os adoecimentos mentais relacionados ao trabalho têm afastado tantas trabalhadoras de seus postos. Estamos submetidas a jornadas exaustivas, sob o medo constante de perdermos o emprego – nosso meio de sobrevivência e fator importante à nossa identidade-, exigindo cada vez mais de nós mesmas a partir de múltiplas funções e tarefas, submetidas a metas de produção, de venda ou de atendimento cada vez maiores e fora do nosso controle – o que exige que façamos tudo também em uma velocidade muito maior, tentando manter a qualidade que exigiria prazos maiores.  Competimos cada vez mais com as pessoas que são nossas colegas, dificultando o estabelecimento de relações saudáveis e de confiança com as mesmas, tornando-nos cada vez mais solitárias.

… saber para que seu trabalho serve, ver utilidade no mesmo, trabalhar em um lugar do qual você se orgulha, ter seu trabalho reconhecido (…) isso tudo é importante pra sua saúde mental.

Muitos trabalhos, ainda, perdem cada vez mais seu sentido, como atendentes de telemarketing que, terceirizadas, tentam resolver problemas a cuja solução elas não tem acesso, para empresas das quais não fazem parte e que muitas vezes precisam defender. Ou mesmo as próprias costureiras, que ao invés de dizerem orgulhosas que trabalham para uma empresa de nome, reconhecida, são reduzidas a algumas costuras para uma empresa desconhecida, num trabalho completamente desvalorizado, ainda que vá ser, no fim, dinheiro no bolso da empresa final, valorizada. Esse é o sonho de muitas trabalhadoras terceirizadas: serem trabalhadoras das empresas para as quais, no fim das contas, já trabalham. Porque saber para que seu trabalho serve, ver utilidade no mesmo, trabalhar em um lugar do qual você se orgulha, ter seu trabalho reconhecido – por pessoas da chefia, colegas, por sua família e pela sociedade – isso tudo é importante pra sua saúde mental. Trabalho é onde muitas passamos a maior parte da nossa vida e, portanto, super importante pra nossa identidade – especialmente em uma sociedade que super-valoriza estas questões.

É por isso que a luta contra a terceirização e contra a precarização do trabalho é uma pauta das mulheres e uma pauta feminista. Porque somos nós as principais esmagadas por suas consequências – e estamos adoecendo por elas, vivendo depressões, estresses pós-traumáticos, doenças osteoarticulares, cânceres e acidentes.  Além disso, as mulheres mais vulneráveis a esse processo são aquelas que já lutam contra diversas dificuldade de serem absorvidas pelo mercado de trabalho formal: mulheres negras, mulheres trans, mulheres pobres e/ou com pouco acesso à escolaridade.

Queremos trabalho para todas as pessoas, mas trabalho digno, seguro e saudável, no qual nosso potencial criativo e produtivo não seja utilizado para nos massacrar, mas para produzir mudanças positivas no mundo.

Escrito por
Mais de Cacau Birdmad

As multiplicidades da Selfie

É muito difícil falar de selfie. É um tema polêmico, que mexe com as nossas entranhas de um jeito esquisito, seja doce ou amargo. É um tema que nos visita nas nossas timelines, dashboards e nos mais diversos cantinhos de nossos lares virtuais.

Como eu já falei aqui antes, as selfies tiveram um papel importante no resgate da minha autoestima. Eu cresci ouvindo que era feia – vindo das mais diversas pessoas e das mais diversas formas – e me forcei minha aparência goela abaixo, uma foto de cada vez. Se eu não gostava do meu perfil, fotografava-o. Uma, duas, infinitas vezes – o necessário até eu aceitar aquela parte de mim. Fui me gostando e me criando nessas fotos – que, na época, iam parar no fotolog.

Numa sociedade em que nossa aparência é constantemente escrutinada, uma foto pode significar um mergulho em direção ao amor próprio.

Compartilhar, para mim, era um desafio. Uma coragem de me colocar na frente do mundo, quando eu estava tão acostumada a me esconder. Hoje minha autoestima está bem melhor e a relação com a câmera certamente teve papel nisso.

Partindo da minha própria experiência eu vejo possibilidades incrivelmente empoderadoras na selfie. Numa sociedade em que nossa aparência é constantemente escrutinada, uma foto pode significar um mergulho em direção ao amor próprio. Um aceitar não precisar ser [ INSIRA NOME DE ATRIZ CONSIDERADA GATA AQUI ] para ser válida. É ter a coragem de se sentir bonita quando se é criada para receber essa validação de outros.

Além disso, a selfie permite que mulheres se vejam. Permite que tenhamos contato com outras possibilidades de beleza e expressão. A linda @hantisedeloubli, por exemplo, é uma constante inspiração de estilo. Negra e gorda, nós dificilmente a veríamos na mídia tradicional. No tumblr e instagram, porém, ela segue nos fazendo indagar padrões.

Por mais que eu ache a selfie uma ferramenta poderosa acredito que não podemos nos fechar em apenas um de seus aspectos. Virar a câmera para si não é uma fórmula mágica de empoderamento e, numa sociedade na qual cada vez mais somos motivadas a nos tornar uma marca para o consumo de outrem nas mídias sociais, a selfie pode ser um passo em direção ao esvaziamento.

Pausa para dizer que não acho a internet ou as redes sociais malignas, advindas das profundezas do inferno para destruir as relações interpessoais, o “todo poderoso” olho no olho (ugh), yada yada. Quem me conhece pessoalmente sabe que eu sou apaixonada por tecnologia e por sua miríade de possibilidades – e que eu tenho profundo ódio pela punhetagem nostalgica. Acho é que nossa discussão das tecnologias tende a ser maniqueísta, preconceituosa e – desculpem a arrogância e agressividade – meio burra, reduzindo sem número de portas a uma.

Ferramentas tem essa característica versatilidade. São o que a gente faz delas. E tem uma caralhada de gente pra fazer. Zero sentido, então, defini-las em uma única coisa. Especialmente quando boa parte dessas definições do que, afinal, é a tecnologia nas nossas vidas, vem de gente com contato limitado com elas.

Não esqueço do meu professor  no último ano de psicologia fazendo um ode às cartas e demonstrando seu desprezo pelas novas tecnologias de comunicação. Ele mal sabia usar e-mail – o que dizia com orgulho! – revelando estar criticando algo por uma fração minúscula que ele mal conhece. Parabéns, brother. Assim mesmo que se faz.

Por mais que eu ache a selfie uma ferramenta poderosa acredito que não podemos nos fechar em apenas um de seus aspectos. Virar a câmera para si não é uma fórmula mágica de empoderamento (…)

Mas ok, voltando para o assunto selfie!

Uma das possibilidades que eu vejo nas redes sociais é a de transformar pessoas em marcas. Isso acontece com diversas celebridades, que tem sua humanidade dissolvida para que possamos consumi-los como entretenimento.  Algo exigido muitas vezes, inclusive, de pessoas que ganham a repentina atenção ou fama por um viral qualquer: que se comportem como se tivessem toda uma equipe de relações públicas ou morram apedrejadas por tweets. Que mantenham sua imagem imaculada àquilo que foi associada, pronta a ser julgada a qualquer desvio ou tropeço. Que deixem de ser gente e virem uma coca-cola.

Não quero discutir a cultura de celebridades, mas é importante entender que elas influenciam pessoas e comportamentos e, portanto, incluo aí comportamentos virtuais. Vejo que às vezes arriscamos mimetizar esse “ser-marca”. E mimetizar a selfie como algo “agregador” à marca.

Entrar nisso pode ter diversas origens. Pode ser uma necessidade movida pelo receio de ter sua vida invadida e vasculhada por patrões ou potenciais empregadores, tornando importante construir certa imagem nas redes. Pode ser movida pela ansiedade de que a crush vai olhar seu perfil e você precisa parecer “perfeita”. Pode ser movida por querer ser um dia uma dessas celebridades virtuais, oras. Pode ser movida por qualquer angústia que se imponha como barreira à autenticidade.

E aí me vem outra possibilidade da selfie: sintoma. Ela deixa de ser ferramenta empoderadora, de apropriar-se de si, para afastar dessa apropriação, construindo um você artificial para silenciar alguma dor ou desejo.

A selfie pode ser um escudo às nossas vulnerabilidades. Àquilo que não gostamos. Às nossas fragilidades. Pode ser revelarmos apenas o nosso melhor, não porque queremos aprender a enxergá-lo, mas porque não suportamos que outros vejam qualquer outra parte nossa.

Há uma pessoa na minha vida que ilustra isso claramente. Essa pessoa não é muito interessada em arte ou museus. Sempre que acompanha sua amiga a esses locais, fica profundamente irritada. Mal olha as obras.

Sempre, porém, fotografa uma obra. A mais icônica, de preferência. Posta então nas redes sociais com alguma citação de alguém importante. Diz ter amado o passeio. Quem a acompanha sempre fica um pouco confusa: amou onde?

A foto ali, que poderia ser uma selfie, tanto faz, vem agregar à marca da pessoa. Nas redes, ela é outra – porque precisa ser. Porque há uma imagem a ser construída, mantida. Por que quem conhece uma pessoa intelectual que não gosta de arte? – Porque a autenticidade ali a tornaria vulnerável.

A selfie pode ser um escudo às nossas vulnerabilidades. Àquilo que não gostamos. Às nossas fragilidades. Pode ser revelarmos apenas o nosso melhor, não porque queremos aprender a enxergá-lo, mas porque não suportamos que outros vejam qualquer outra parte nossa.

E, por mais que eu esteja falando de selfie aqui, essa questão da insegurança, da angústia e da “marca” pode estar presente nas mais diversas fotos e comportamentos online.

Outro lado “negativo” da selfie é que ela pode impor novos padrões de beleza e perfeição. Padrões esses por vezes mais cruéis, por serem construídos por pessoas ‘reais’, que, em teoria, não tem auxílio de estúdios ou de photoshop profissional. Que representam algo “atingível”.

Volta e meia vejo alguma garota que sigo no instagram postar fotos sem maquiagem para acalmar suas seguidoras que dizem que gostariam de ser “perfeitas” como elas. Ou revelarem editar suas imagens, pelo mesmo motivo.

“Calma” – elas dizem – “eu também não sou perfeita”.

Ainda com todos os receios e possibilidades negativas que rondam as selfies, eu gostaria de dizer que acredito sermos capazes de construir mais caminhos positivos do que negativos com elas.

O próprio fato de diversas mulheres revelarem suas imperfeições quando os outros não as enxergam – de dizerem também não serem ideais – revela uma solidariedade na busca por amor próprio, bem como maiores possibilidades de desconstruir padrões e ideais (ao revelar que são apenas construções, maquiagens e edições), o que a mídia tradicional ainda tem bastante dificuldade em fazer. A selfie está na mão de pessoas – de gente – e isso abre muito mais portas para que humanidades escapem e se revelem.

Vejo a selfie, portanto, como uma multiplicidade que está em constante construção e descontrução. Algo que estamos fazendo, montando, descobrindo. Algo sem direção definida. Imperfeita, cheia de riscos, mas cheia de potências. Não a discutamos, portanto, por prismas que a limitam – seja a aspectos apenas positivos, seja (o mais comum) a aspectos apenas negativos.

O importante é, ao virarmos a câmera para nós, compreendermos e nos abrirmos àquilo que queremos nos dizer e dizer aos outros.

Então sorria e diga: “selfie!”

 

Ilustração feita com exclusividade por Julia Balthazar.

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Numa pesquisa com mulheres trabalhadoras na produção de sapatos em Franca, por Taísa Junqueira Prazeres, orientada por Vera Navarro, aquelas que trabalhavam terceirizadas, seja em bancas ou em seus domicílios, se encontravam em situações muito mais negligenciadas: tinham acesso apenas a equipamentos mais baratos, antigos e de menor qualidade e, portanto, menos seguros, trabalhando também sob condições mais insalubres, com ambientes de trabalho improvisados, e por muito mais horas que suas companheiras nas fábricas, ainda que todas vivessem condições de trabalho produtoras de sofrimento.

Helena Hirata, socióloga, traz em um de seus artigos que “há uma marcada divisão sexual da precariedade do trabalho, visto que as mulheres são mais numerosas do que os homens tanto no trabalho informal quanto no trabalho em tempo parcial, com um número inferior de horas trabalhadas e também níveis mais baixos na escala de qualificação formal”, além disso a autora coloca que “na evolução paradoxal do trabalho, as mulheres são mais atingidas pela tendência à precariedade e à imposição das tarefas, e menos pela tendência ao investimento e à iniciativa”.

É fundamental lembrar, ainda, que trabalhos precários e intensificados significam trabalhos mais adoecedores, afinal, além de contarem com menos proteções –como por exemplo menor ventilação, equipamentos antigos ou impróprios, maior dificuldade de fiscalização, etc.– são trabalhos  mais intensos, com menor possibilidade do descanso necessário à sua realização, e com muito mais pressão.

Não é à toa que, cada vez mais, os adoecimentos mentais relacionados ao trabalho têm afastado tantas trabalhadoras de seus postos. Estamos submetidas a jornadas exaustivas, sob o medo constante de perdermos o emprego – nosso meio de sobrevivência e fator importante à nossa identidade-, exigindo cada vez mais de nós mesmas a partir de múltiplas funções e tarefas, submetidas a metas de produção, de venda ou de atendimento cada vez maiores e fora do nosso controle – o que exige que façamos tudo também em uma velocidade muito maior, tentando manter a qualidade que exigiria prazos maiores.  Competimos cada vez mais com as pessoas que são nossas colegas, dificultando o estabelecimento de relações saudáveis e de confiança com as mesmas, tornando-nos cada vez mais solitárias.

… saber para que seu trabalho serve, ver utilidade no mesmo, trabalhar em um lugar do qual você se orgulha, ter seu trabalho reconhecido (…) isso tudo é importante pra sua saúde mental.

Muitos trabalhos, ainda, perdem cada vez mais seu sentido, como atendentes de telemarketing que, terceirizadas, tentam resolver problemas a cuja solução elas não tem acesso, para empresas das quais não fazem parte e que muitas vezes precisam defender. Ou mesmo as próprias costureiras, que ao invés de dizerem orgulhosas que trabalham para uma empresa de nome, reconhecida, são reduzidas a algumas costuras para uma empresa desconhecida, num trabalho completamente desvalorizado, ainda que vá ser, no fim, dinheiro no bolso da empresa final, valorizada. Esse é o sonho de muitas trabalhadoras terceirizadas: serem trabalhadoras das empresas para as quais, no fim das contas, já trabalham. Porque saber para que seu trabalho serve, ver utilidade no mesmo, trabalhar em um lugar do qual você se orgulha, ter seu trabalho reconhecido – por pessoas da chefia, colegas, por sua família e pela sociedade – isso tudo é importante pra sua saúde mental. Trabalho é onde muitas passamos a maior parte da nossa vida e, portanto, super importante pra nossa identidade – especialmente em uma sociedade que super-valoriza estas questões.

É por isso que a luta contra a terceirização e contra a precarização do trabalho é uma pauta das mulheres e uma pauta feminista. Porque somos nós as principais esmagadas por suas consequências – e estamos adoecendo por elas, vivendo depressões, estresses pós-traumáticos, doenças osteoarticulares, cânceres e acidentes.  Além disso, as mulheres mais vulneráveis a esse processo são aquelas que já lutam contra diversas dificuldade de serem absorvidas pelo mercado de trabalho formal: mulheres negras, mulheres trans, mulheres pobres e/ou com pouco acesso à escolaridade.

Queremos trabalho para todas as pessoas, mas trabalho digno, seguro e saudável, no qual nosso potencial criativo e produtivo não seja utilizado para nos massacrar, mas para produzir mudanças positivas no mundo.

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