Chicas na luta contra a exploração sexual

Ao ler um jornal tradicional de Madri, a diretora espanhola Mabel Lozano se deparou com um estranho anúncio: “Chicas Nuevas 24 horas”. Já era claro do que se tratava. Esses tipos de anúncios não são incomuns nas páginas de jornais espanhóis. Era um bordel que oferecia a seus clientes a possibilidade de encontrar ali meninas jovens, disponíveis a qualquer hora do dia.

Depois do breve choque – afinal, qual mulher não se sentiria chocada a ver esse tipo de anúncio no seu jornal diário? –, Mabel teve uma ideia para um novo documentário sobre tráfico de mulheres. Foi daí que começou a surgir o filme “Chicas Nuevas 24 horas”, exibido durante a Semana de Cinema Feminista de Berlim de 2016.

A diretora espanhola já é engajada com o tema desde 2007, quando lançou o seu primeiro longa documental “Voces contra la trata de mujeres” (Vozes contra o tráfico de mulheres, em português), em que denuncia a compra e venda de mulheres e meninas com fins de exploração sexual. No último documentário, Mabel quis abordar a prática criminosa desde sua fonte, ou seja, desde o rapto de jovens em cidades pobres na América Latina até a chegada à Europa.

Segundo dados revelados em “Chicas Nuevas 24 horas”, Madri é o terceiro lugar do mundo em que mais se paga por sexo, somente atrás de cidades na Tailândia e Porto Rico. Muitas das prostitutas nesses lugares foram trazidas até ali contra a vontade. Estima-se que o tráfico de pessoas gera só na Espanha 5 milhões de euros por dia. No mundo, é o terceiro negócio ilícito mais lucrativo, depois da venda de armas e do contrabando de drogas.

Chicas Nuevas 24 horas 3

A diretora compara o tráfico de pessoas com qualquer outro comércio lucrativo para explicar como seu funcionamento se assemelha ao de uma grande empresa. O documentário começa com uma cena ficcional. Em uma sala de reuniões, uma palestrante ensina aos ouvintes os segredos para montar um negócio que possa gerar US$ 32 bilhões ao ano – estimativa do que o tráfico de pessoas gera ao ano no mundo todo. O primeiro passo é pensar como transformar o produto bruto (jovens vulneráveis) em produto de consumo (escravas em bordeis europeus). A mesma palestrante aparece várias vezes ao longo do documentário e toca em pontos importantes para montar um negócio de sucesso: agradar o cliente, fazer boa propaganda, fazer a mercadoria render ao máximo e descartá-la quando houver defeito, afinal esses objetos são substituíveis.

As cenas ficcionais constróem a narrativa para a entrada das entrevistas e dados. A diretora percorreu países sul americanos, como Peru, Colômbia, Argentina e Paraguai e entrevistou vítimas atuais e recuperadas, integrantes de ONGs, Ministérios e Secretárias, policiais, jornalistas… Enfim, gente que também trabalha para dar um fim ao tráfico de pessoas.

As histórias dos entrevistados revelam aos poucos o sistema complexo por trás da prostituição de meninas jovens: o convencimento de jovens que precisam de dinheiro para suas famílias, o transporte dessas garotas, a chegada, a pressão para que vendam seus corpos e o “descarte”, quando já não conseguem mais trabalhar. Tudo funciona muito bem interligado, em uma rede que conta muito com a corrupção de autoridades tanto nos países “fontes” quanto nos “receptores”.

Algumas das vítimas conseguem retornar – deportadas ou escapando – a seus países de origem, mas ali sofrem com preconceitos, são criminalizadas por terem se prostituído e culpadas por terem se deixado cair nessa armadilha. Algumas conseguem fugir, mas não conseguem voltar para casa, pela falta de dinheiro ou por dívidas que ainda tem que pagar nos países de origem – dívidas, inclusive, às pessoas que lhes pagaram a passagem para a Europa.

[caption id="attachment_9965" align="aligncenter" width="449"]Chicas Nuevas 24 horas_Mabel Diretora Mabel Lozano luta desde 2007 contra o tráfico de pessoas, principalmente na Espanha e Europa[/caption]

4,5 milhões de mulheres e crianças são vítimas desse negócio por ano. Na União Europeia, só em 2014, foram identificadas 30 mil vítimas do tráfico sexual. O conceito “mulher objeto” é levado ao pé da letra no tratamento dessas mulheres e meninas. Elas são como mercadorias que se valorizam conforme cresce o desejo dos clientes. Estes que querem chicas nuevas à sua disposição 24 horas por dia. É a lei de oferta e procura aplicada à venda de seres humanos.

Sobre a diretora

Antes de fazer filmes, Mabel Lozano trabalhava como atriz, mas decidiu mudar sua carreira de rumo ao conhecer Irena, uma mulher que vivia na Espanha e havia sido vítima desse grande business que se tornou o tráfico de mulheres e meninas. Irena foi atraída por seu namorado da época até Madri. Lá, ele a levou a um lugar onde a trocou por um envelope cheio de dinheiro. Irena entendeu, então, que havia sido vendida e foi obrigada a se prostituir.

Essa triste história inspirou Mabel a fazer seu primeiro documentário e a se engajar na causa contra o tráfico de mulheres. Seus documentários e outros trabalhos de curta-metragem são usados por organizações públicas e não governamentais na conscientização sobre o problema. Recentemente a diretora ganhou o prêmio Mujeres em Unión na 25ª premiação da Unión de Actores e Actrices, promovido pelo sindicado de atores e atrizes em Madri.

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Mais de Débora Backes

Feminismo na China: conheça Hooligan Sparrow

Ser ativista pelos direitos das mulheres não é fácil em canto nenhum. Mas em países em ditadura, o negócio fica inimaginavelmente mais complicado. É o caso da China e suas feministas. Eu nem tinha ideia de como era o feminismo na China até assistir “Hooligan Sparrow”, da diretora chinesa que vive em Nova York, Nanfu Wang.

O documentário, que foi exibido no Berlin Feminist Film Week 2017, é focado na ativista Ye Haiyan (a.k.a. Sparrow) que ficou conhecida por defender direitos de profissionais do sexo e melhores condições de prevenção contra DSTs. Em 2012, Haiyan posou em um quarto de um bordel de baixo custo, ao lado de um cartaz que dizia “Serviços sexuais fornecidos de graça”. O seu comprometimento com a causa foi tão longe que ela chegou a ter relações sexuais com clientes pra sentir na pele em que condições prostitutas de bordéis baratos trabalham.

Nanfu Wang acompanhou a ativista e outras mulheres engajadas em causas feministas em um protesto na província de Hainan. Em 2013, um diretor de uma escola local foi acusado de levar seis de suas alunas do Ensino Fundamental para um hotel, onde elas foram estupradas por ele e outros homens. Mas para não serem acusados de estupro quando o caso veio à tona – o que poderia resultar, inclusive, em pena de morte –, os envolvidos alegaram que pagaram as meninas pelo sexo. Com isso, foram acusados “apenas” de prostituição infantil.

O caso polêmico mobilizou pessoas como Ye Haiyan que foram até Hainan para protestar contra o diretor e as pessoas que o estavam apoiando. Durante o protesto, Sparrow segura um cartaz em que se lê “Ei: diretor: pegue um quarto comigo e deixe as crianças em paz”. Nos dias seguintes, várias pessoas postaram fotos nas redes sociais chinesas, segurando cartazes com as mesmas palavras.

 

Por essas e outras ações, Haiyan é vigiada, monitorada e perseguida pelo governo chinês e por cidadãos que não concordam com seus atos. Um dia, um grupo de homens, aparentemente civis, aparecem à porta de seu apartamento para lhe agredir. Ao que Haiyan chama a polícia para levar os homens, ela mesma é levada presa, supostamente por agredir os homens com um facão (as provas parecem ter sido plantadas pela polícia). Quando Sparrow volta da prisão, a mesma coisa de novo: vizinhos (todos homens) fazem um coro em frente a seu prédio, a chamando de puta e dizendo para que deixe a cidade. A polícia é contatada dessa vez pela advogada de Haiyan, mas quando chega ao local, as duas mulheres e outros ativistas são os que são reprimidos e ameaçados de prisão.

Pouco tempo depois, Sparrow, sua filha e seu namorado, são expulsos do apartamento e começam uma jornada em que são jogadas de uma cidade a outra. Ninguém os quer por perto. Ninguém quer problema com o governo e a polícia.

E assim segue o documentário e a rotina de Ye Haiyan e de outras ativistas, como a de sua advogada Wung Yu que também aparece várias vezes no filme. Com o governo cercando de todos os lados, a polícia na cola, uma mídia censurada e o conservadorismo da população, as feministas chinesas quase não conseguem agir e temem por sua segurança.

Durante o documentário de Nanfu Wang, a ameaça às ativistas fica clara e a própria diretora é perseguida. Nanfu é interrogada pela Polícia de Segurança Nacional chinesa – com um gravador escondido com que documenta toda a conversa – e é forçada a se esconder quando familiares e amigos começam a ser procurados para responder perguntas sobre ela.

Nanfu Wang aparece várias vezes frente a câmera para relatar seu medo em perder o material das filmagens e sua liberdade. Nas gravações que compõe “Hooligan Sparrow”, ela é hostilizada e fotografada por estranhos na rua – provavelmente policiais à paisana. Sem a opção de enviar o material digitalmente ou por correio – até o FedEx que sai da China é fiscalizado –, ela acaba tendo quase que contrabandear seus vídeos para fora do país.

O filme chega a ser angustiante, pela tensão das duas, mas dá uma felicidade em saber que há mulheres assim em diferentes cantos do mundo. As duas mulheres, diretora e protagonista, correm riscos o tempo todo para divulgar sua mensagem e levá-la para fora dos muros da China. E tudo isso sem se abalar ou desistir…

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“Chicas Nuevas 24 horas”, exibido durante a Semana de Cinema Feminista de Berlim de 2016.

A diretora espanhola já é engajada com o tema desde 2007, quando lançou o seu primeiro longa documental “Voces contra la trata de mujeres” (Vozes contra o tráfico de mulheres, em português), em que denuncia a compra e venda de mulheres e meninas com fins de exploração sexual. No último documentário, Mabel quis abordar a prática criminosa desde sua fonte, ou seja, desde o rapto de jovens em cidades pobres na América Latina até a chegada à Europa.

Segundo dados revelados em “Chicas Nuevas 24 horas”, Madri é o terceiro lugar do mundo em que mais se paga por sexo, somente atrás de cidades na Tailândia e Porto Rico. Muitas das prostitutas nesses lugares foram trazidas até ali contra a vontade. Estima-se que o tráfico de pessoas gera só na Espanha 5 milhões de euros por dia. No mundo, é o terceiro negócio ilícito mais lucrativo, depois da venda de armas e do contrabando de drogas.

Chicas Nuevas 24 horas 3

A diretora compara o tráfico de pessoas com qualquer outro comércio lucrativo para explicar como seu funcionamento se assemelha ao de uma grande empresa. O documentário começa com uma cena ficcional. Em uma sala de reuniões, uma palestrante ensina aos ouvintes os segredos para montar um negócio que possa gerar US$ 32 bilhões ao ano – estimativa do que o tráfico de pessoas gera ao ano no mundo todo. O primeiro passo é pensar como transformar o produto bruto (jovens vulneráveis) em produto de consumo (escravas em bordeis europeus). A mesma palestrante aparece várias vezes ao longo do documentário e toca em pontos importantes para montar um negócio de sucesso: agradar o cliente, fazer boa propaganda, fazer a mercadoria render ao máximo e descartá-la quando houver defeito, afinal esses objetos são substituíveis.

As cenas ficcionais constróem a narrativa para a entrada das entrevistas e dados. A diretora percorreu países sul americanos, como Peru, Colômbia, Argentina e Paraguai e entrevistou vítimas atuais e recuperadas, integrantes de ONGs, Ministérios e Secretárias, policiais, jornalistas… Enfim, gente que também trabalha para dar um fim ao tráfico de pessoas.

As histórias dos entrevistados revelam aos poucos o sistema complexo por trás da prostituição de meninas jovens: o convencimento de jovens que precisam de dinheiro para suas famílias, o transporte dessas garotas, a chegada, a pressão para que vendam seus corpos e o “descarte”, quando já não conseguem mais trabalhar. Tudo funciona muito bem interligado, em uma rede que conta muito com a corrupção de autoridades tanto nos países “fontes” quanto nos “receptores”.

Algumas das vítimas conseguem retornar – deportadas ou escapando – a seus países de origem, mas ali sofrem com preconceitos, são criminalizadas por terem se prostituído e culpadas por terem se deixado cair nessa armadilha. Algumas conseguem fugir, mas não conseguem voltar para casa, pela falta de dinheiro ou por dívidas que ainda tem que pagar nos países de origem – dívidas, inclusive, às pessoas que lhes pagaram a passagem para a Europa.

4,5 milhões de mulheres e crianças são vítimas desse negócio por ano. Na União Europeia, só em 2014, foram identificadas 30 mil vítimas do tráfico sexual. O conceito “mulher objeto” é levado ao pé da letra no tratamento dessas mulheres e meninas. Elas são como mercadorias que se valorizam conforme cresce o desejo dos clientes. Estes que querem chicas nuevas à sua disposição 24 horas por dia. É a lei de oferta e procura aplicada à venda de seres humanos.

Sobre a diretora

Antes de fazer filmes, Mabel Lozano trabalhava como atriz, mas decidiu mudar sua carreira de rumo ao conhecer Irena, uma mulher que vivia na Espanha e havia sido vítima desse grande business que se tornou o tráfico de mulheres e meninas. Irena foi atraída por seu namorado da época até Madri. Lá, ele a levou a um lugar onde a trocou por um envelope cheio de dinheiro. Irena entendeu, então, que havia sido vendida e foi obrigada a se prostituir.

Essa triste história inspirou Mabel a fazer seu primeiro documentário e a se engajar na causa contra o tráfico de mulheres. Seus documentários e outros trabalhos de curta-metragem são usados por organizações públicas e não governamentais na conscientização sobre o problema. Recentemente a diretora ganhou o prêmio Mujeres em Unión na 25ª premiação da Unión de Actores e Actrices, promovido pelo sindicado de atores e atrizes em Madri.

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