Às 8h46min ela se sentava perto da máquina de café e se debruçava no balcão, diariamente.
Conforme ordens do meu patrão, eu ligava a vitrola com o vinil dos Stones exatamente as 9h. Enquanto a música não começava a tocar ela se mantinha imóvel, como se tivesse semeado ali mesmo há uns 10 anos. Algumas vezes cheguei a observar pelo máximo de tempo que eu conseguisse sem piscar, assim não perderia nenhum movimento, entretanto, ela permanecia como árvore sem vento.
Às 9h34min começava a tocar “All about you”, ainda no lado A. Então, finalmente ela erguia a cabeça com os olhos inchados e marejados e pedia chá de jasmim numa xícara grande e dois guardanapos, sem torrões de açúcar. Esse ritual foi constante durante os cinco anos que trabalhei naquele café. Ela se fazia tão concreta e pontual em minha rotina que já me peguei pensando no dia em que ela não aparecesse.
No dia 30 de março de 1984 acordei com náusea, dores e um mundo gigantesco e pesado sobre meus ombros. Definitivamente, não sairia de casa. Liguei no café para avisar que não trabalharia e no fim da ligação enfatizei: – Aurora, não se esqueça de ligar a vitrola. Nove horas, entendeu? Nove horas! – Ela respondeu com uma afirmação. Voltei a deitar e depois de quinze minutos estava em pé, vestido e com as chaves na mão. Parti as 8h32min, cheguei no café as 8h58min, liguei a vitrola e voltei pra casa. Antes de sair, me despedi com algumas palavras no segundo guardanapo, aquele que ela nunca usava, mas passava a música inteira a olhá-lo até que eu mudava para o lado B e ela se despedia com um aceno.
Rolling Stones – All About You
Well if you call this a life
Why must I spend it with you?
If the show must go on
Let it go on without you
So sick and tired hanging around with jerks like you
Who’ll tell me those lies
And let me think they’re true?
What am I to do
You want it, I got it too
Though the lies might be true
That’s just cause the joke’s about you
I’m so sick and tired hanging around with dogs like you
You’re the first to get blamed, always the last bitch to get paid
Oh, tell me those lies
Let me think they’re true
I heard one or two
They weren’t about me, they weren’t about her
They were all about you
I may miss you
But missing me just isn’t you
I’m so sick and tired hanging around with dogs like you
Tell me those lies
Let me think they’re true
I heard one or two, and they weren’t about me, they weren’t about her
They’re all about you
I’m so sick and tired
What should I do
You want it, you get it…
So how come I’m still in love with you?
(imagem: Cena do filme “My Blueberry Nights”)
Às 8h46min ela se sentava perto da máquina de café e se debruçava no balcão, diariamente.
Conforme ordens do meu patrão, eu ligava a vitrola com o vinil dos Stones exatamente as 9h. Enquanto a música não começava a tocar ela se mantinha imóvel, como se tivesse semeado ali mesmo há uns 10 anos. Algumas vezes cheguei a observar pelo máximo de tempo que eu conseguisse sem piscar, assim não perderia nenhum movimento, entretanto, ela permanecia como árvore sem vento.
Às 9h34min começava a tocar “All about you”, ainda no lado A. Então, finalmente ela erguia a cabeça com os olhos inchados e marejados e pedia chá de jasmim numa xícara grande e dois guardanapos, sem torrões de açúcar. Esse ritual foi constante durante os cinco anos que trabalhei naquele café. Ela se fazia tão concreta e pontual em minha rotina que já me peguei pensando no dia em que ela não aparecesse.
No dia 30 de março de 1984 acordei com náusea, dores e um mundo gigantesco e pesado sobre meus ombros. Definitivamente, não sairia de casa. Liguei no café para avisar que não trabalharia e no fim da ligação enfatizei: – Aurora, não se esqueça de ligar a vitrola. Nove horas, entendeu? Nove horas! – Ela respondeu com uma afirmação. Voltei a deitar e depois de quinze minutos estava em pé, vestido e com as chaves na mão. Parti as 8h32min, cheguei no café as 8h58min, liguei a vitrola e voltei pra casa. Antes de sair, me despedi com algumas palavras no segundo guardanapo, aquele que ela nunca usava, mas passava a música inteira a olhá-lo até que eu mudava para o lado B e ela se despedia com um aceno.
Rolling Stones – All About You
Well if you call this a life
Why must I spend it with you?
If the show must go on
Let it go on without you
So sick and tired hanging around with jerks like you
Who’ll tell me those lies
And let me think they’re true?
What am I to do
You want it, I got it too
Though the lies might be true
That’s just cause the joke’s about you
I’m so sick and tired hanging around with dogs like you
You’re the first to get blamed, always the last bitch to get paid
Oh, tell me those lies
Let me think they’re true
I heard one or two
They weren’t about me, they weren’t about her
They were all about you
I may miss you
But missing me just isn’t you
I’m so sick and tired hanging around with dogs like you
Tell me those lies
Let me think they’re true
I heard one or two, and they weren’t about me, they weren’t about her
They’re all about you
I’m so sick and tired
What should I do
You want it, you get it…
So how come I’m still in love with you?
Às 8h46min ela se sentava perto da máquina de café e se debruçava no balcão, diariamente.
Conforme ordens do meu patrão, eu ligava a vitrola com o vinil dos Stones exatamente as 9h. Enquanto a música não começava a tocar ela se mantinha imóvel, como se tivesse semeado ali mesmo há uns 10 anos. Algumas vezes cheguei a observar pelo máximo de tempo que eu conseguisse sem piscar, assim não perderia nenhum movimento, entretanto, ela permanecia como árvore sem vento.
Às 9h34min começava a tocar “All about you”, ainda no lado A. Então, finalmente ela erguia a cabeça com os olhos inchados e marejados e pedia chá de jasmim numa xícara grande e dois guardanapos, sem torrões de açúcar. Esse ritual foi constante durante os cinco anos que trabalhei naquele café. Ela se fazia tão concreta e pontual em minha rotina que já me peguei pensando no dia em que ela não aparecesse.
No dia 30 de março de 1984 acordei com náusea, dores e um mundo gigantesco e pesado sobre meus ombros. Definitivamente, não sairia de casa. Liguei no café para avisar que não trabalharia e no fim da ligação enfatizei: – Aurora, não se esqueça de ligar a vitrola. Nove horas, entendeu? Nove horas! – Ela respondeu com uma afirmação. Voltei a deitar e depois de quinze minutos estava em pé, vestido e com as chaves na mão. Parti as 8h32min, cheguei no café as 8h58min, liguei a vitrola e voltei pra casa. Antes de sair, me despedi com algumas palavras no segundo guardanapo, aquele que ela nunca usava, mas passava a música inteira a olhá-lo até que eu mudava para o lado B e ela se despedia com um aceno.
Rolling Stones – All About You
Well if you call this a life
Why must I spend it with you?
If the show must go on
Let it go on without you
So sick and tired hanging around with jerks like you
Who’ll tell me those lies
And let me think they’re true?
What am I to do
You want it, I got it too
Though the lies might be true
That’s just cause the joke’s about you
I’m so sick and tired hanging around with dogs like you
You’re the first to get blamed, always the last bitch to get paid
Oh, tell me those lies
Let me think they’re true
I heard one or two
They weren’t about me, they weren’t about her
They were all about you
I may miss you
But missing me just isn’t you
I’m so sick and tired hanging around with dogs like you
Tell me those lies
Let me think they’re true
I heard one or two, and they weren’t about me, they weren’t about her
They’re all about you
I’m so sick and tired
What should I do
You want it, you get it…
So how come I’m still in love with you?
Num universo lúdico, e ainda assim, sério e comprometido com os nossos sentimentos mais íntimos e delicados Spike Jonze traz a história de um casal de robôs, isso mesmo, robôs que vivem um romance. Tratando de uma temática simples – as relações amorosas – o filme é capaz de nos causar questionamentos sobre gestos que pensamos serem bonitos e devotos, mas que podem vir disfarçados de muita insegurança. É como se a gente pudesse sentar no lugar da outra pessoa e de fora ter a capacidade de ver quão perdidos e sem referência ficamos algumas vezes. Quem nunca se perdeu de si mesmo, todavia nunca notou?
Bom, não se perca. Volte pra cá!
Parece ser uma ideia inusitada e um tanto inovadora. Parece, mas conforme a história foi se desenrolando me perguntei se seria capaz de coisas que só os robôs podem fazer, por exemplo, encaixar e desencaixar partes do corpo assim como faz Sheldon, o personagem principal. Ui! Aí, eu te pergunto: – Se você pudesse, arrancaria um braço para substituir o membro que falta no seu grande amor? – Sem pânico! Não vamos discorrer sobre as respostas, afinal, estamos longe de julgar uns aos outros. Fazendo esta pergunta quero chegar a um ponto que perdemos grandiosamente quando estamos apaixonados, nós mesmos. O filme mostra o quanto perdemos a noção de tudo o que é importante no que diz respeito aos nossos limites. Já deixamos de fazer coisas por nós para que nosso parceiro estivesse feliz e pudesse viver o que desejava, mas muitas vezes nem sabíamos mais o que pertencia a nós e ao outro.
O filme tem uma fotografia delicada com um ar melancólico de fazer sentir claramente que estar sozinho é uma situação que os personagens não consideram permanente. Ao mesmo tempo, enquanto assistia, senti em algumas cenas aquela sensação de solidão acompanhada, que como disse a Clarice Lispector “Amor será dar de presente ao outro a própria solidão? Pois é a última coisa que se pode dar de si”.
O final me deixou com um ponto de interrogação enorme sobre a cabeça que ainda me faz questionar: – Quando a gente “perde a mão” na hora de doar e receber? Vale a pena assistir, nem que seja para refletir no quanto a solidão ainda pode ser vista como um sentimento positivo.
Às 8h46min ela se sentava perto da máquina de café e se debruçava no balcão, diariamente.
Conforme ordens do meu patrão, eu ligava a vitrola com o vinil dos Stones exatamente as 9h. Enquanto a música não começava a tocar ela se mantinha imóvel, como se tivesse semeado ali mesmo há uns 10 anos. Algumas vezes cheguei a observar pelo máximo de tempo que eu conseguisse sem piscar, assim não perderia nenhum movimento, entretanto, ela permanecia como árvore sem vento.
Às 9h34min começava a tocar “All about you”, ainda no lado A. Então, finalmente ela erguia a cabeça com os olhos inchados e marejados e pedia chá de jasmim numa xícara grande e dois guardanapos, sem torrões de açúcar. Esse ritual foi constante durante os cinco anos que trabalhei naquele café. Ela se fazia tão concreta e pontual em minha rotina que já me peguei pensando no dia em que ela não aparecesse.
No dia 30 de março de 1984 acordei com náusea, dores e um mundo gigantesco e pesado sobre meus ombros. Definitivamente, não sairia de casa. Liguei no café para avisar que não trabalharia e no fim da ligação enfatizei: – Aurora, não se esqueça de ligar a vitrola. Nove horas, entendeu? Nove horas! – Ela respondeu com uma afirmação. Voltei a deitar e depois de quinze minutos estava em pé, vestido e com as chaves na mão. Parti as 8h32min, cheguei no café as 8h58min, liguei a vitrola e voltei pra casa. Antes de sair, me despedi com algumas palavras no segundo guardanapo, aquele que ela nunca usava, mas passava a música inteira a olhá-lo até que eu mudava para o lado B e ela se despedia com um aceno.
Rolling Stones – All About You
Well if you call this a life
Why must I spend it with you?
If the show must go on
Let it go on without you
So sick and tired hanging around with jerks like you
Who’ll tell me those lies
And let me think they’re true?
What am I to do
You want it, I got it too
Though the lies might be true
That’s just cause the joke’s about you
I’m so sick and tired hanging around with dogs like you
You’re the first to get blamed, always the last bitch to get paid
Oh, tell me those lies
Let me think they’re true
I heard one or two
They weren’t about me, they weren’t about her
They were all about you
I may miss you
But missing me just isn’t you
I’m so sick and tired hanging around with dogs like you
Tell me those lies
Let me think they’re true
I heard one or two, and they weren’t about me, they weren’t about her
They’re all about you
I’m so sick and tired
What should I do
You want it, you get it…
So how come I’m still in love with you?