O amor segundo Spike Jonze

Já assistiu?

Este texto discorre sobre as sensações que o curta-metragem provoca em quem assiste e, por isso, contém spoilers. Dedique 30 minutinhos para assistir antes de ler (;
 
Num universo lúdico, e ainda assim, sério e comprometido com os nossos sentimentos mais íntimos e delicados Spike Jonze traz a história de um casal de robôs, isso mesmo, robôs que vivem um romance. Tratando de uma temática simples – as relações amorosas – o filme é capaz de nos causar questionamentos sobre gestos que pensamos serem bonitos e devotos, mas que podem vir disfarçados de muita insegurança. É como se a gente pudesse sentar no lugar da outra pessoa e de fora ter a capacidade de ver quão perdidos e sem referência ficamos algumas vezes. Quem nunca se perdeu de si mesmo, todavia nunca notou?

Bom, não se perca. Volte pra cá!
 
Spike Jonze | I'm Here
 
Parece ser uma ideia inusitada e um tanto inovadora. Parece, mas conforme a história foi se desenrolando me perguntei se seria capaz de coisas que só os robôs podem fazer, por exemplo, encaixar e desencaixar partes do corpo assim como faz Sheldon, o personagem principal. Ui! Aí, eu te pergunto: – Se você pudesse, arrancaria um braço para substituir o membro que falta no seu grande amor? – Sem pânico! Não vamos discorrer sobre as respostas, afinal, estamos longe de julgar uns aos outros. Fazendo esta pergunta quero chegar a um ponto que perdemos grandiosamente quando estamos apaixonados, nós mesmos. O filme mostra o quanto perdemos a noção de tudo o que é importante no que diz respeito aos nossos limites. Já deixamos de fazer coisas por nós para que nosso parceiro estivesse feliz e pudesse viver o que desejava, mas muitas vezes nem sabíamos mais o que pertencia a nós e ao outro.
 
Spike Jonze | I'm Here
 
O filme tem uma fotografia delicada com um ar melancólico de fazer sentir claramente que estar sozinho é uma situação que os personagens não consideram permanente. Ao mesmo tempo, enquanto assistia, senti em algumas cenas aquela sensação de solidão acompanhada, que como disse a Clarice Lispector “Amor será dar de presente ao outro a própria solidão? Pois é a última coisa que se pode dar de si”.

O final me deixou com um ponto de interrogação enorme sobre a cabeça que ainda me faz questionar: – Quando a gente “perde a mão” na hora de doar e receber? Vale a pena assistir, nem que seja para refletir no quanto a solidão ainda pode ser vista como um sentimento positivo.

Escrito por
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