Duas diretoras e um rastro de lama

Aline Lata e Helena Wolfenson se conheciam de vista em São Paulo. Mas 15 dias depois do rompimento da barragem de resíduos de minério da Samarco/Vale/BHP, em novembro do ano passado em Minas, elas pegaram carona com uma amiga em comum rumo à Mariana e subdistritos. A ideia inicial era ajudar os locais como pudessem, com trabalho voluntário e tirando fotos.

Foto: Helena Wolfenson
Foto: Helena Wolfenson
Foto: Helena Wolfenson
Foto: Helena Wolfenson
Foto: Helena Wolfenson
Foto: Helena Wolfenson

E foi isso que elas fizeram. Ajudaram a resgatar animais e conversaram com as pessoas por lá. Dois deles foram Ricardo e Marlon, jovens moradores de Bento Rodrigues, primeiro subdistrito atingido pela onda de lama. Foi preciso esforço para conseguir que eles dessem entrevista “Para mim, foi melhor que ficar imaginando de longe porque personifiquei aquela coisa e conheci as pessoas que estavam vivendo ali”, diz Helena.

Juntos, pegaram uma rota alternativa até Bento – que estava fechada para o público – e visitaram a casa deles e de conhecidos pela primeira vez depois da tragédia. Eles perderam não só todos os bens, mas também um lugar de memória de gerações que nasceram e cresceram naquele vale rural, cercado de um minério precioso. Ainda sim, encararam com humor. “Eles falaram: ‘se a Samarco fodeu com a nossa vida, vamos jogar bola na lama!’. Tinha umas piadas, uma beleza, que foram fazendo tudo ter mais sentido, diferente de uma certa passividade que eu vinha vendo lá”, conta Helena.

Aline Lata fotografa um dos meninos | Foto: Helena Wolfenson
Aline Lata fotografa um dos meninos | Foto: Helena Wolfenson
Marlon e Ricardo olham sua cidade atingida pela lama | Foto: Helena Wolfenson
Marlon e Ricardo olham sua cidade atingida pela lama | Foto: Helena Wolfenson
Foto: Helena Wolfenson
Foto: Helena Wolfenson

Dessa experiência, Aline e Helena tiveram a ideia de fazer o documentário Rastro de Lama, que contará a história de personagens que vivem na região atingida. Editaram o material que fizeram na ocasião e fizeram um teaser.

O plano agora é conseguir mais dinheiro para voltar à região no próximo mês, coletar mais material e arcar com os custos de finalização do filme. Para isso, estão fazendo uma campanha de financiamento coletivo, que termina no dia 18 de março. É tudo ou nada! A meta é arrecadar 50 650 reais. Se não conseguirem juntar a grana, o dinheiro volta integralmente para os doadores. É possível doar qualquer valor, mas a partir de 25 reais, é possível receber algumas recompensas como fotos e livros de artistas que estão colaborando com o projeto. Por isso, pedimos sua ajuda para ajudar esse projeto tão importante encabeçado por duas mulheres. Não podemos deixar que o maior crime ambiental do país seja esquecido.

Foto: Aline Lata
Foto: Aline Lata
Marlon e Ricardo olham sua cidade atingida pela lama | Foto: Helena Wolfenson
Marlon e Ricardo olham sua cidade atingida pela lama | Foto: Helena Wolfenson

A ideia é levantar as questões que rodeiam o caso, como a exploração do minério no país afeta a história de pessoas que têm relação direta com essa esfera da economia, até as responsabilidades que deveriam ser cumpridas pela empresa, a fiscalização de obras, obrigatoriedade de planos de emergência e a parte que cabe aos governos Estadual e Federal. Ricardo e Marlon, e outros habitantes do subdistrito, vivem com a promessa da construção de uma Nova Bento Rodrigues. Que cidade será essa? Que futuro os espera? Será essa promessa cumprida? “O documentário precisa existir, para acompanhar de perto essas respostas e não deixar que essa promessa seja abandonada”, afirma a diretora Helena Wolfenson.

Foto: Aline Lata
Foto: Aline Lata
Foto: Aline Lata
Foto: Aline Lata
Ovelha – Qual o diferencial desse filme?

Aline Lata – Acho que o que diferença desse filme para outros que estão sendo feitos é a história do Marlon e do Ricardo, e a relação deles com a tragédia, a experiência deles é única, mas também se torna universal, quando se trata da relação entre grandes corporações com muito poder e pessoas que não tem voz na sociedade.
Helena – Acho que a nossa história parte muito de um ponto de vista subjetivo. Tanto do que nos tocou profundamente lá, o encontro com os meninos, quanto da história deles em si.

Ovelha – Sentiram alguma dificuldade/receio sendo mulheres lá? Ou viram alguma vantagem nisso?

Helena – Eu senti ser mulher em varias situações, portas se abrindo, fechando, abrindo por linhas tortas. Isso é muito presente sempre no Brasil, ainda mais no interior e sendo fotógrafa.

RASTRO DE LAMA

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