Guia simples do vibrador para iniciantes

Ilustração feita com exclusividade por Bárbara Malagoli (Baby.C)
Qual vibrador comprar? Que tipo, que marca, que material? Um pequeno guia para ajudar você a descobrir qual será seu próximo sex toy

Recentemente, eu tive uma experiência de trabalho na área de marketing de um sex shop de luxo. Lá eu aprendi um monte de coisas, mas provavelmente a mais importante delas é que a vida sexual da mulher brasileira ainda é um tédio maçante. Eu conversei com mulheres que achavam ridículo se masturbar e homens que pensam que clitóris é algum tipo de medicamento.

Não que isso seja nossa culpa: inseridas numa sociedade de cultura cristã, ainda somos as emissárias do pecado e da culpa. A vagina ainda é tratada como coisa suja, que deve ser lavada, perfumada, depilada e aparentar 16 anos de idade para ser digna do toque masculino. Prazer sexual não é visto como algo da nossa natureza. Ele é reservado aos homens e à mulheres de conduta moralmente duvidosa (você sabe, as vadias).

Mas eu não escrevi esse texto pra problematizar (muito, rs). Acontece que eu sou uma dessas ~vadias promíscuas~ que ama sexo e tudo relacionado a ele. Comprei meu primeiro vibrador aos 15 e não parei desde então. Por causa da minha devassidão precoce, muitas amigas sempre me perguntaram qual vibrador deveria ser o primeiro. Que tipo, que marca, que material, pilha ou bateria, etc. Resolvi transformar isso em um pequeno guia, que talvez ajude você, recente bem aventurada no mercado erótico, a tomar uma decisão. Segue aqui um breve manual de como achar um sex toy incrível pra você:

 

1 — Masturbe-se

Parece óbvio, mas você ficaria assustada com a quantidade de mulheres que não se masturba (e ainda mais com a quantidade que não experimenta orgasmos). Relaxe, deite na cama e mãos à obra (com o perdão do trocadilho). Descubra os estímulos que você gosta mais. Se já é perita nessa etapa, convide seu(sua) companheiro(a) para experimentar sensações novas, simultâneas, diferentes… só vai, gata. Dessa forma você pode identificar quais são suas sensações preferidas e achar um vibrador que satisfaça suas expectativas. Lembre-se de que o vibrador não é um santo milagreiro, ele é um meio. Se você ainda não experimentou um orgasmo, ele pode ajudar (e muito!), mas gozar é muito mais um estado de espírito do que uma estimulação mecânica.

 

2 — Conheça os tipos de vibrador

Existem vários diferentes. Vamos lá:

  • Penetradores — como o nome já diz, ele é feito para penetrar. Perfeito pras que gostam muito de sexo PIV*, o penetrador geralmente é aquele vibrador de formato mais óbvio (fálico). As grossuras são variadas. Você pode escolher um realístico ou se achar pinto uma coisa meio estranha, existem diversos modelos coloridos e bonitinhos criados por designers mais requintados que a mãe natureza. Se você gostar de variedade, pode comprar um modelo liso e várias capas penianas para colocar nele, com texturas diferentes.
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  • Ponto G — quase idêntico ao penetrador, o vibrador de ponto G tem a ponta (ou a uma parte de seu comprimento) curvada, para alcançar aquela porção vaginal que gera orgasmos incríveis.
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  • Rabbits — popularizado pela série Sex and the City, o rabbit é o melhor dos dois mundos: estimulação clitoriana junto com penetração. Ele é uma aposta segura para orgasmos deliciosos. Procure sempre pelos que possuem dois motores (um para cada extremidade). Mas devo alertar, cuidado com o tamanho: alguns rabbits possuem uma distância bem maior do que a anatômica entre o estimulador clitoriano e o penetrador — o que significa que ele pode alcançar o fundo da sua vagina enquanto o estimulador não chega onde deve. Frustrante, pra dizer o mínimo.
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  • Lay on— lindinhos e discretos, os lay ons geralmente são pequenos e fáceis de esconder. Seu contorno é feito pra acompanhar a curvatura pubiana, de maneira que ele se encaixa sobre o clitóris e fica lá te fazendo feliz. Um querido.
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  • Bullets — também da turma da discrição, o bullet é super pequeno e pode ser levado na menor das bolsas sem problemas. O nome vem do fato de que seu tamanho e formato se assemelham ao de uma bala de arma. Parte chata: a maioria funciona com aquelas baterias redondinhas de relógio. Mas existem opções com controle remoto. Também mais legal pra estimulação clitoriana.
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  • Tripla estimulação — pra quem quer tudo ao mesmo tempo. Mais difíceis de achar, esses vibradores estimulam vagina, clitóris e ânus, tudo ao mesmo tempo.
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  • Anal — menor e mais fino, o vibrador anal geralmente é bem parecido com os bullets, mas tem uma argola ou protuberância em uma das pontas pra deixá-lo encaixadinho, não permitindo que ele entre totalmente no reto e se perca lá. Existem também plugs anais vibratórios, cujo tamanho é ótimo pra iniciantes. Alguns penetradores também podem ser utilizados como anais, só verifique se o material é seguro pra isso.
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  • Pulsador — causando o maior bafafá na gringa (onde foram lançados), os pulsadores imitam o movimento de penetração, graças a um peso que possuem na parte interior. Sensacionais, mas costumam ser bem caros. Se você morar fora ou tiver a chance de comprar um produto estrangeiro, dá uma olhada nos pulsadores da Fun Factory.
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  • Simulador de Cavalgada — se você é daquelas que descobriu o clitóris cavalgando o travesseiro, esse é o vibrador dos seus sonhos. Ele é basicamente uma superfície anatômica que você senta em cima. Puro júbilo.
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  • Magic Wand – quando a Hitachi lançou esse massageador corporal, provavelmente não sabia que ele se tornaria um clássico dos sex toys. Hoje é fabricado por várias marcas, tem tamanhos diversos, mas o princípio é o mesmo: um estimulador cilíndrico, super potente e de fácil manipulação por terceiros. A maior parte deles é grandinha, então ele é uma opção melhor pra quem mora sozinha ou sem gente bisbilhoteira.

 

3 — Conheça como eles funcionam

Vibradores podem ser movidos por pilhas, baterias recarregáveis ou ligados na tomada. Cada um tem suas vantagens. A bateria recarregável é uma super mão na roda, mas os brinquedos feitos assim são mais caros. A pilha é chata porque você precisa comprar, mas não vai viciar a longo prazo como a bateria. Os que ligam na tomada tem uma vida útil maior, mas te prendem eternamente aos soquetes e o fio pode ser inconveniente. Aí vai de você escolher quais potenciais perrengues você acha ok ou quanto você quer investir no brinquedo.

Uma boa parte dos vibradores é à prova d’água, mas fique atenta aos perniciosos avisos nas caixas. Muitos deles são apenas à prova de respingos e não aguentam uma boa chuveirada ou submersão. Não que você vá usar na banheira, mas na hora de lavar é uma mão na roda.

 

4 — Conheça os materiais

Importantíssimo! Infelizmente, alguns sex toys são feitos de materiais que podem ser tóxicos para o seu corpo ou de rápida deterioração. Independente do material, você sempre deve lavá-los com água e sabão neutro antes e após o uso. Se for usar um lubrificante, use sempre os que são a base de água, já que aqueles a base de óleo podem danificar os vibradores. Os mais comuns vou listar aqui:

  • Silicone — luz, raio, estrela e luar. O silicone previne alergias, é atóxico, não poroso (o que evita a proliferação de bactérias) e fácil de limpar. Os mais novos no mercado costumam ter uma textura aveludada divina.
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  • Jelly — por fora, bela viola, conhece essa história? O jelly é um tipo de borracha molinha, flexível e bonitinha, toda colorida e fofa. Mas é tóxica e pode derreter com o tempo. Sim, é sério. A vantagem é que são mais baratos e a textura é legal. Se você não pode bancar um brinquedo de outro material, coloque uma camisinha nele e lave bem sempre que usar.
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  • CyberSkin — feito para imitar a pele humana, a melhor vantagem desse material é sua capacidade de se adaptar à temperatura corporal, dando uma sensação super realista. Mas você precisa sempre polvilhar talco sobre ele depois de lavar, senão vira uma coisa gosmenta que gruda pó e fiapos. Chatinho.
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  • Vidro e aço — são raros no Brasil, mas além de serem esteticamente lindos, podem ser esterilizados por temperatura e também não são porosos. E não, os de vidro não vão quebrar. Ah, estes estão liberados para uso com lubrificantes que não sejam a base de água.
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  • Acrílico e plásticos rígidos — na maior parte das vezes são atóxicos (sempre procure essa informação na embalagem) e fáceis de limpar, mas zero flexibilidade.
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  • Elastômero — costuma ser um nome bonitinho pra PVC. Material de pouca flexibilidade e geralmente bem rígido. Sempre bom colocar uma camisinha neles para usar.

 


Depois desse grande textão do vibrador, espero que você tenha conhecimento pra escolher o seu sozinha. Mas em todo caso tem mais dúvidas? Quer indicação de lugares pra comprar seu vibrador? Tem vergonha? Fala comigo! :)

*sexo PIV – penis in vagina. Sigla para o ato sexual penetrativo com pênis dentro da vagina.
 
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Ilustração feita com exclusividade por Bárbara Malagoli (Baby.C)

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Representatividade e femvertising nas telas

Dois filmes super aguardados, duas protagonistas femininas, duas histórias cujas tramas não são temperadas pelo cheiro de naftalina de um damsel in distress, duas bilheterias fartas— mas será que chegamos lá mesmo?

Não sei vocês, mas eu assisti Mad Max duas vezes no cinema, a primeira delas em Imax, e saí da sala absolutamente extasiada. Que mina foda. Que história cheia de metáforas incríveis. Que cenas de ação pra deixar qualquer um colado na cadeira. Absolutamente sensacional.

O novo Star Wars, então? Mesmo sendo uma Trekker, o filme teve seu apelo comigo. Esperando pouco, entrei na sala do cinema e fui surpreendida por uma protagonista feminina independente, forte e bem preparada (acompanhada por um stormtrooper rebelde de pontaria inesperadamente precisa — interpretado por um homem negro). Encerrei 2015 com a certeza de que esse foi um dos melhores anos no quesito representatividade para mulheres.

Só que depois me encontrei até os joelhos na inevitável sina das feministas: a problematização. Rey, Furiosa, tudo muito legal, tudo muito lindo, mas senti cheiro de corporações se aproveitando de assuntos em voga para lançar filmes que engordam os bolsos de seus CEO’s sem ter nenhuma preocupação em trazer toda essa representatividade para dentro de suas empresas. E aqui entra a explicação do termo usado no título: femvertising é a palavra usada para se referir à prática de atrair o mercado feminino e/ou feminista para a sua marca/produto/serviço com discursos empoderadores e que exaltam a competência das mulheres. Exemplos? A campanha Like a Girl, de Always. #AerieReal. Dove Real Beauty Sketches.

Injuriada com a possibilidade de todo esse girl power cinematográfico não passar de uma belíssima camada de Verniz do Empoderamento™, fui pesquisar. Não deu outra: descobri que Charlize Theron, a maravilhosa Imperator Furiosa, teve que armar o barraco pra ganhar o mesmo que Chris Hemsworth em mais um remake de contos de fadas ocidentais. E ela, ao contrário dele, enfeita sua sala com uma estatueta dourada que atesta sua grande competência nas telas.

Carrie Fisher, a eterna Princesa Leia, foi alvo de críticas ferrenhas por não ter “envelhecido bem”. Respondeu dizendo que não havia percebido que, ao assinar o contrato para ser a pinup de 25 anos dos geeks, ela havia assinado também um contrato de que deveria ter aquela mesma cara para sempre. Destruidora, né?

Tratando-se de um revival de uma franquia famosa, lembremos que ela não era a única atriz das antigas no casting: Harrison Ford, que interpretou Han Solo, descolou algo especulado entre dez e vinte milhões de dólares — mais do que John Boyega (Finn), Daisy Ridley (Rey) e a colega Carrie juntos. Sobre potenciais críticas ao fato de Ford também ter envelhecido (bem ou mal), deixarei que as leitoras adivinhem se houve alguma.

E pra fechar com chave de ouro, os brinquedos da franquia não incluíam Rey — a protagonista. Monopoly edição especial? Sem Rey. Kit com a Millennium Falcon? Sem Rey (e ela que pilota essa droga). Algumas pessoas justificaram a Hasbro e outros fabricantes dizendo que incluir a Rey, especialmente com um sabre de luz, seria dar spoilers do filme, mas vale lembrar que os kits de Guardiões da Galáxia também não tinham Gamora e os de Vingadores não tinham a Viúva Negra.

Então foi com essas informações que encerrei o ano: é sim uma delícia ir ao cinema e ver ali na tela uma personagem principal com quem você se identifica — ou até mesmo uma personagem feminina que não tenha sua existência orbitando homens. Mas a gente tem que se lembrar de que o sistema está aprendendo a nos enxergar, para o bem e para o mal.

 



Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (Kissy)

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