História de uma passista além do samba

Tuane Rocha é uma passista de escola de samba no Rio de Janeiro. Foi a profissão que escolheu para sustentar sua filha, que teve ainda muito jovem. Para executar seu trabalho, ela se prepara minuciosamente. Coloca sua fantasia de penas e cria asas que a levam de um extremo a outro das passarelas de samba. Sua pele se transforma na pele de um elegante pássaro.

Com seu curta documental “Pele de Pássaro” (ou “Bird Skin”), Clara Peltier lança um olhar sobre o que há além dos passos de samba, do corpão e da quase completa nudez do corpo de uma dançarina de samba. Ela tenta explorar o lado mais pessoal e subjetivo dessa personagem do carnaval carioca, uma mulher que é vista frequentemente com preconceitos – racistas e machistas – e é percebida muitas vezes apenas como um elemento carnavalesco.

A diretora carioca viu Tuane pela primeira vez na competição da Musa do Carnaval do Caldeirão do Huck, em que a,  na época, representante da Unidos da Vila Isabel foi entrevistada por Luciano Huck. Como todas as competidoras, Tuane também é invasivamente questionada pelo ~engraçadinho~ apresentador sobre sua vida pessoal. É incrível como ele acha que tem o direito de fazer trocadilhos e perguntas de duplo sentido para tentar constranger as candidatas.  Mas Tuane não leva para o lado da brincadeira – afinal, não deveria ser né! – e responde a tudo de forma direta e sem medo.  Clara diz que a sambista chamou sua atenção pela firmeza e coragem que demonstrou em suas respostas: “Tuane foi mãe aos 13 anos, e entrou cedo no carnaval para sustentar a filha. Tenho muita admiração pela trajetória dela, é uma história de luta mas também de amor, ao samba, à cultura brasileira, às nossas origens”.

Ao contrário do (ridículo) apresentador do Caldeirão, Clara é cuidadosa ao abordar a vida pessoal de Tuane em frente às câmeras. Ela monta um curta documental bastante subjetivo: sem perguntas, sem muitas falas, só a passista e a câmera que a segue em casa, no camarim e no palco. “Desde o princípio imaginei o filme como um mergulho sensorial no universo da Tuane, captando a emoção, o êxtase, o vazio, a solidão, os contrastes que coexistem na rotina dela. Acho que a força do filme vem daí. Se escolhesse explicar quem ela é, o filme perderia a subjetividade e o espectador ficaria preso a ideias, não embarcaria na dor e na beleza de se viver do samba”, me explicou Clara em entrevista, algumas semanas depois de seu filme ter sido exibido na Semana de Cinema Feminista de Berlim. “Pele de Pássaro” foi uma das três produções cinematográficas brasileiras escolhidas para entrar no festival. Junto com  “ISTO”, de Mariana Collares e Mother of Pearl” (Madrepérola), de Deise Hauenstein.

No filme, Tuane aparece concentrada em frente ao espelho colocando sua maquiagem, roupa, enfim, montando sua fantasia. A câmera chega tão perto que é possível ouvir sua respiração. Depois da preparação, ela aparece em diferentes eventos: festas de casamento, festas de escola de samba e, por fim, no carro alegórico no desfile de carnaval. Tive a impressão de que ela se tornava outra personagem quando começava a sambar. No camarim e em casa, ela é séria, concentrada e tem até um ar de solitária. Já quando começa a dançar, aparece sorridente, cantante e cheia de pessoas a sua volta a admirando.

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Talvez o que mais tenha me impressionado foram os comentários pós-filme. Assisti em um cinema em Berlim, portanto a maior parte do público eram europeus, muitos dos quais haviam vistos passistas em apenas uma situação: no desfile de carnaval do Rio pela televisão. Lembro que quando o filme terminou perguntei a uma amiga francesa o que ela tinha achada do curta. Ela me disse que achou a fotografia muito bonita, mas o filme em si muito triste. “Ué, mas o filme não tem uma história triste…”, argumentei; “Bom, mas é triste a forma como essa mulher é vista como um animal, ou um objeto, que as pessoas acham que podem tocar, agarrar, apertar onde quiserem…”

De fato, em diferentes momentos a câmera supreende pessoas (até muitas mulheres) olhando para as curvas de Tuane e pedindo para tirar fotos, pegando na sua bunda ou nos seus peitos. O que minha amiga da França viu como algo muito triste e desrespeitoso, Clara explica como curiosidade: “Confesso que fiquei surpresa quando começamos a filmar e registramos esses momentos. Existem mulheres que não veem problema em apalpar o corpo de uma passista. Decidi incluir isso no filme para levantar a questão, uma passista pode ser vista como um objeto ou como a grande estrela do show. Passistas com uma longa carreira no carnaval, como a Tuane, encaram isso apenas como uma curiosidade das mulheres pelo corpo delas”.

Essas críticas que o filme faz são interessantes, mas acabam sendo pouco trabalhadas. Acho que faltou algo no curta, como incluir mais a voz de Tuane, no sentido de dar voz a ela mesma para contar sua história e mostrar sua personalidade. No final, o espectador conclui coisas sobre ela, mas ainda superficialmente. Em nenhum momento ficou clara a paixão de Tuane pelo samba ou sua trajetória de vida difícil, dos quais a diretora fala. Há cenas em que realmente a gente fica se questionando o que se passa na cabeça dela, mas essas questões não são levadas adiante.

Concordo com a minha amiga que disse que há momentos em que o filme revela uma certa tristeza. Em uma das cenas, ela está em frente a um espelho e retira os apliques do cabelo. Aos poucos ela revela a Tuane natural, verdadeira, sem maquiagem, fantasias e de cabelo crespo. Sem a pele de pássaro. Sem essa pele, ela anda pelas ruas como qualquer outra pessoa, sem chamar a atenção, receber olhares curiosos ou elogios.

Nesse momento o filme acaba – talvez sem querer – por levantar outra questão bem profunda: a da imagem da mulher negra e o estereótipo em torno dela. Com seus lindos cachos, seu corpão de “mulata do carnaval” e seu samba no pé, Tuane recebe olhares de todos os lados, de admiração, curiosidade, de desejo. Quando retira sua fantasia, revela seu cabelo natural e seu rosto sem maquiagem, Tuane continua sendo uma mulher maravilhosa, mas não recebe os mesmos tipos de olhares como quando era “a grande estrela do show”. Pensando sobre a cena, me pareceu que a mulher negra chama atenção positiva facilmente se associada a estereótipos relacionados a seu corpo e sensualidade. Quando não corresponde a esses estereótipos, parece ser vista como menos interessante por não remeter tão claramente à ideia do exótico. Mas em todos os casos, a mulher negra sofre assédios – muitas vezes influenciados pela hiperssexualição de sua imagem.

Tirando a minha crítica sobre a falta de voz de Tuane no filme, achei o curta interessante por oferecer um olhar feminino e de outro ângulo sobre uma passista de escola de samba e por te fazer pensar sobre a imagem da mulher sambista, da mulher negra e da mulher brasileira.

//FILMES SOBRE MULHERES 

A diretora Clara Peltier também é sócia-fundadora da produtora Eterna Filmes que surgiu em 2013. De forma independente, as componentes da Eterna têm como objetivo desenvolver filmes com temáticas femininas. “Buscamos histórias sobre mulheres brasileiras nos dias de hoje, que inspiram e revelam a força do feminino, sem perder de vista o prazer de ser mulher”, explica Clara.

Outro filme de Clara é o curta “Graça” que conta a história de uma jovem atleta de nado sincronizado. O próximo projeto da diretora carioca é um longa-metragem de ficção baseado em “Pele de Pássaro”.

Assista ao trailer.

Créditos das imagens: ETERNA FILMES
 

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Mais de Débora Backes

A perseguição de ativistas no Egito

Azza Soliman é um nome conhecido no Egito. A advogada e líder feminista tem feito um trabalho significativo na vida de muitas mulheres que vivem em uma cultura que ignora suas vozes. Seu corajoso empenho foi interrompido nesta quarta-feira, dia 7 de dezembro, quando Azza foi levada presa de sua casa no Cairo, capital do Egito.

Sem pronunciamento oficial do governo egípcio, as acusações contra a ativista – se é que existem – ainda não são claras.

Azza Soliman é mais uma entre os muitos ativistas de ONGs que vem sendo perseguidos no Egito. “A prisão de Azza desmascara a animosidade do governo não só com os defensores dos direitos humanos em geral, mas com movimentos feministas independentes no Egito”, disse Mohamed Lofty, da Comissão Egípcia por Direitos e Liberdades, ao The Guardian.

Azza é a fundadora do Centro de Assistência Legal para Mulheres Egípcias (CEWLA, sigla do nome em inglês Center for Egyptian Women’s Legal Assistence), uma organização não governamental fundada em 1995 com o objetivo de ajudar mais ativamente mulheres em casos de violência ou discriminação de gênero.

CEWLA tem como um de seus focos os crimes de honra – crimes cometidos para “limpar a honra da família” –, um tema tratado como tabu em sociedades do Oriente Médio.

A líder feminista já estava sendo perseguida há algum tempo pelo governo militar que rege o país desde a deposição de Mohamed Morsi, em 2013. Depois de testemunhar o assassinato da ativista socialista Shaimaa al-Sabbagh, Azza foi submetida a julgamento.

Shaimaa foi morta a tiros por um policial, enquanto participava de um protesto pacífico em memória das centenas de mortos durante as revoltas da Primavera Árabe que opuseram o governo autoritário de Hosni Mubarak.

No dia 19 de novembro deste ano, Azza foi impedida, já no aeroporto de Cairo, de viajar para fora do país, o que iniciou uma mobilização na internet em sua defesa. Pouco depois, ela descobriu que sua conta pessoal e a de sua organização haviam sido congeladas. Na quarta-feira, dia 7, a ONG tuitou sobre o mandato de prisão contra Azza Soliman.

Horas depois, a ONG publicou no seu Twitter que o juiz do caso havia decidido por um valor de fiança de 20.000 libras egípcias (cerca de 3.640 reais) pela soltura de Azza Soliman.

Não é de hoje que o governo comandado pelas Forças Armadas tenta calar ativistas de direitos humanos. Já temos como exemplo a triste morte de Shaimaa, documentada em fotos e vídeos e testemunhada por policiais que nem sequer chamaram uma ambulância enquanto ela sofria nos braços de seus amigos. Mas além de matar e prender ativistas, o governo vem comandando uma investigação contra várias ONGs que, segundo eles, estariam recebendo fundos de organizações estrangeiras para semear o caos no país.

Com essa desculpa, um tribunal egípcio congelou, em setembro deste ano, os bens de cinco conhecidos ativistas de direitos humanos e três ONGs. Tais ações abrem portas para acusações criminais contra essas corajosas pessoas e até a eventuais condenações a prisão perpétua.

O pior de tudo é que, desde novembro deste ano, uma lei sobre o trabalho de ONGs, aprovada pelo parlamento, dá base legal para a intervenção do Estado no trabalho de organizações. De acordo com a lei, grupos egípcios e estrangeiros estão proibidos de se envolver em ações políticas ou que prejudiquem a segurança nacional, a ordem pública, a moral pública ou a saúde pública. Alguém pode me dizer como é possível fazer avanços em direitos humanos e em direitos das mulheres sem se envolver em questão políticas? A lei é uma clara tentativa de calar opiniões divergentes e manter um conservadorismo político.

A situação de instabilidade política no Egito é um dos motivos que move o trabalho de organizações não governamentais e de ativistas como Azza e Shaimaa. Mas também o motivo para sua perseguição.

Após as revoltas em 2011, o governo autoritário de 30 anos de Hosni Mubarak chegou ao fim. Com as eleições no ano seguinte, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, se tornou o primeiro presidente eleito após a esperada abertura política. Seu governo não durou muito e, em 2013, ele foi deposto do governo por um golpe militar. Durante esses anos de instabilidade, várias ONGs estrangeiras foram fechadas e 45 membros dessas organizações receberam ordem de prisão, incluindo 15 norte-americanos que deixaram o Egito.

Enquanto o mundo ocidental se preocupa com seus próprios problemas – ou vê a questão de direitos humanos como desnecessária ou já resolvida –, no Oriente Médio lutar por direitos humanos virou questão de vida ou morte. A nós resta pedir liberdade para Azza Soliman e torcer para que ela consiga voltar com segurança a fazer seu lindo trabalho pelas mulheres árabes.

Liberdade à Azza Soliman!

 

*Boa parte das informações para este texto foram tiradas desta matéria do Guardian.

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Semana de Cinema Feminista de Berlim. “Pele de Pássaro” foi uma das três produções cinematográficas brasileiras escolhidas para entrar no festival. Junto com  “ISTO”, de Mariana Collares e Mother of Pearl” (Madrepérola), de Deise Hauenstein.

No filme, Tuane aparece concentrada em frente ao espelho colocando sua maquiagem, roupa, enfim, montando sua fantasia. A câmera chega tão perto que é possível ouvir sua respiração. Depois da preparação, ela aparece em diferentes eventos: festas de casamento, festas de escola de samba e, por fim, no carro alegórico no desfile de carnaval. Tive a impressão de que ela se tornava outra personagem quando começava a sambar. No camarim e em casa, ela é séria, concentrada e tem até um ar de solitária. Já quando começa a dançar, aparece sorridente, cantante e cheia de pessoas a sua volta a admirando.

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Talvez o que mais tenha me impressionado foram os comentários pós-filme. Assisti em um cinema em Berlim, portanto a maior parte do público eram europeus, muitos dos quais haviam vistos passistas em apenas uma situação: no desfile de carnaval do Rio pela televisão. Lembro que quando o filme terminou perguntei a uma amiga francesa o que ela tinha achada do curta. Ela me disse que achou a fotografia muito bonita, mas o filme em si muito triste. “Ué, mas o filme não tem uma história triste…”, argumentei; “Bom, mas é triste a forma como essa mulher é vista como um animal, ou um objeto, que as pessoas acham que podem tocar, agarrar, apertar onde quiserem…”

De fato, em diferentes momentos a câmera supreende pessoas (até muitas mulheres) olhando para as curvas de Tuane e pedindo para tirar fotos, pegando na sua bunda ou nos seus peitos. O que minha amiga da França viu como algo muito triste e desrespeitoso, Clara explica como curiosidade: “Confesso que fiquei surpresa quando começamos a filmar e registramos esses momentos. Existem mulheres que não veem problema em apalpar o corpo de uma passista. Decidi incluir isso no filme para levantar a questão, uma passista pode ser vista como um objeto ou como a grande estrela do show. Passistas com uma longa carreira no carnaval, como a Tuane, encaram isso apenas como uma curiosidade das mulheres pelo corpo delas”.

Essas críticas que o filme faz são interessantes, mas acabam sendo pouco trabalhadas. Acho que faltou algo no curta, como incluir mais a voz de Tuane, no sentido de dar voz a ela mesma para contar sua história e mostrar sua personalidade. No final, o espectador conclui coisas sobre ela, mas ainda superficialmente. Em nenhum momento ficou clara a paixão de Tuane pelo samba ou sua trajetória de vida difícil, dos quais a diretora fala. Há cenas em que realmente a gente fica se questionando o que se passa na cabeça dela, mas essas questões não são levadas adiante.

Concordo com a minha amiga que disse que há momentos em que o filme revela uma certa tristeza. Em uma das cenas, ela está em frente a um espelho e retira os apliques do cabelo. Aos poucos ela revela a Tuane natural, verdadeira, sem maquiagem, fantasias e de cabelo crespo. Sem a pele de pássaro. Sem essa pele, ela anda pelas ruas como qualquer outra pessoa, sem chamar a atenção, receber olhares curiosos ou elogios.

Nesse momento o filme acaba – talvez sem querer – por levantar outra questão bem profunda: a da imagem da mulher negra e o estereótipo em torno dela. Com seus lindos cachos, seu corpão de “mulata do carnaval” e seu samba no pé, Tuane recebe olhares de todos os lados, de admiração, curiosidade, de desejo. Quando retira sua fantasia, revela seu cabelo natural e seu rosto sem maquiagem, Tuane continua sendo uma mulher maravilhosa, mas não recebe os mesmos tipos de olhares como quando era “a grande estrela do show”. Pensando sobre a cena, me pareceu que a mulher negra chama atenção positiva facilmente se associada a estereótipos relacionados a seu corpo e sensualidade. Quando não corresponde a esses estereótipos, parece ser vista como menos interessante por não remeter tão claramente à ideia do exótico. Mas em todos os casos, a mulher negra sofre assédios – muitas vezes influenciados pela hiperssexualição de sua imagem.

Tirando a minha crítica sobre a falta de voz de Tuane no filme, achei o curta interessante por oferecer um olhar feminino e de outro ângulo sobre uma passista de escola de samba e por te fazer pensar sobre a imagem da mulher sambista, da mulher negra e da mulher brasileira.

//FILMES SOBRE MULHERES 

A diretora Clara Peltier também é sócia-fundadora da produtora Eterna Filmes que surgiu em 2013. De forma independente, as componentes da Eterna têm como objetivo desenvolver filmes com temáticas femininas. “Buscamos histórias sobre mulheres brasileiras nos dias de hoje, que inspiram e revelam a força do feminino, sem perder de vista o prazer de ser mulher”, explica Clara.

Outro filme de Clara é o curta “Graça” que conta a história de uma jovem atleta de nado sincronizado. O próximo projeto da diretora carioca é um longa-metragem de ficção baseado em “Pele de Pássaro”.

Assista ao trailer.

Créditos das imagens: ETERNA FILMES
 

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