Fuma aqui, bate uma lá: Garota Siririca

Garota Siririca, por Gabriela Masson (a.k.a. Lovelove6) | Ovelha

Um pouco antes de bater a minha siririca diária, resolvi dar um pega pra ver um filme quando lembrei que tinha ganhado a HQ da Garota Siririca feita pela quérida lovelove6, de aniversário. Essa é basicamente a minha rotina entre freelas, então quando no começo de 2014, eu descobri as tiras da Garota Siririca na Revista Samba (existem desde 2013) fiquei com aquela típica queimação interna, quando a gente sente que ‘deu merda’, achando que tinha vazado alguma coisa sobre mim na internet, tamanha identificação. Juro.

 
Garota Siririca
 
Porém, comecei a acompanhar a história e percebi que nada se tratava sobre mim (ufa!), mas sobre as aventuras de uma mina que tem uma relação bem íntima com seu corpo, com a masturbação e que não tem problema algum em adorar o cheiro da sua xereca e testar diversos brinquedos sexuais, especialmente os vendidos pela sua amiga Xoxola. Fiquei feliz de ter me identificado tanto, espero que cada vez mais mulheres possam ter uma relação mais íntima e libertadora com seu próprio corpo, desde os nossos deliciosos cheiros às nossas texturas, pêlos e ciclos.

Para minha grande surpresa, no final da HQ ainda tem uma homenagem à banda feminista Belicosa, do Rio de Janeiro. Sou um pouco suspeita pra falar porque a dupla é bastante minha amiga, adoro mesmo. E apesar de já saber que elas têm uma música que se chama Garota Siririca, não tinha ideia que rolaria essa inserção na HQ. “Era uma surpresa!”, me disseram. E foi mesmo, das melhores.
 

 
A HQ foi financiada via Catarse e conseguiu não só bater sua meta como ultrapassar o necessário para que fosse lindamente produzida. Isso significa que tem público querendo consumir esse tipo de leitura, e isso significa que os materiais independentes têm ganhado uma força bem grande no cenário nacional e isso é excelente! Mostra que não necessitamos ser reféns de um sistema hermético de publicações.

Garota Siririca

Além de ter amado a HQ pelo tema que me é caro, tenho muito orgulho de ver uma mina nova como a Gabi laçando uma livra extremamente bem feita, bem colorida, bem acabada. É muito empoderador, é sentir que as mulheres estão definindo seus contornos no mercado de HQ nacional, em vista a proporção que tomou o importante e providencial encontro Lady Comics em outubro do ano passado.

Ainda não está na aba do sex shop (FIKDIK) mas você vai poder comprar sua HQ Garota Siririca online logo mais. Dá pra ler em uma dedada. Ou uma sentada, o que você preferir. Agora só preciso pedir um autógrafo pra Gabi.

2djyr74

Tags relacionadas
, , , ,
Mais de Bárbara Gondar

Mujeres Creando: Um dos coletivos mais importantes da América Latina

Em uma breve passagem pela cidade de São Paulo no ano passado, visitei a Bienal de Arte, uma das mais importantes exposições/encontros de arte da América Latina. Logo na entrada, me deparei com uma instalação chamada Espaço para Abortar, uma estrutura de arame com 7 cabines que formam sete úteros. Essa instalação foi criada pelo núcleo e coletivo feminista boliviano Mujeres Creando.

Mandei um email despretensioso para o coletivo que me respondeu prontamente aceitando fazer uma pequena entrevista. Inicialmente minha ideia era falar sobre a peça na Bienal, mas tive outras prioridades quando me encontrei na posição de estar ‘de frente’ com um coletivo feminista de 22 anos que tem uma enorme e inspiradora história de luta. Segue então a conversa que tivemos por email:
 

 
OVELHA: No domingo do dia 5 de outubro (de 2014), aconteceu o primeiro turno das eleições brasileiras para presidência da república. Eram 3 candidatas mulheres disputando a presidência, mas só uma com agenda feminista e que contemplavam os requisitos das minorias. Como é a situação política feminista na Bolívia (esqueci completamente de dizer que eu me referia a Luciana Genro e não à Dilma)?

MUJERES CREANDO: Começarei a te dizer que não acredito que Dilma Roussef represente um agenda feminista clara, não acredito na forma que ela alcançou o poder se garantindo a partir de alianças com as igrejas fundamentalistas cristãs, a não intenção de descriminalização do aborto no Brasil e a criminalização da pobreza. A organização de grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas e a política policial de eliminação dos pobres. Eu não acredito que essa seja uma agenda feminista. Não acredito que deveríamos nos resignar e nos contentar com um mal menor. Acredito que é importante como movimento, nos manter à claridade de nossas agendas, a claridade do horizontes e de nossas lutas e que não nos deixemos levar pela ‘oferta’ do mercado eleitoral como único universo de referência política. Na Bolívia, a situação é dramática, se implementou totalmente a paridade e alternância de sexo nas listas eleitorais, mas isso não significa a revisão do papel das mulheres na política, muito menos uma agenda feminista. O movimento ao socialismo do presidente Evo Morales é um projeto popular que tem se endireitado (no sentido de ser menos de esquerda e mais de direita), ao mesmo tempo o perfil tão machista dos candidatos exacerba o discurso das mulheres objeto, ao ponto que temos Miss Rainhas de Beleza como aliadas políticas mais importantes do partido de governo porque exaltam a virilidade destes personagens. A descriminalização do aborto nem sequer entrou em debate e a campanha eleitoral é um desperdício de promessas populistas vinculadas com as graves condições de vida das pessoas.
 
Mujeres Creando
 
OVELHA: Apesar de estarmos muito próximos geograficamente, (infelizmente) pelas diferenças culturais e linguísticas, o Brasil se distancia muito da unidade latino americana. Como você acha que poderíamos nos aproximar em vista que as lutas das mulheres permeiam as mesmas causas?

MUJERES CREANDO: Eu creio que tínhamos um cenário latino americano comum nos encontros feministas latino americanos e que lamentavelmente a partir dos anos 90 entraram em uma grave crise devido a cooptação da cooperação internacional destes cenários, que se tornaram cenários exclusivos de uma elite de trabalhadoras de organizações não governamentais (ongs). Acredito que devemos construir o intercâmbio e procurar a partir da cultura como cenário. Nós temos duas casas, uma em La Paz e outra em Santra Cruz (de La Sierra) e ali estamos dispostas a receber companheiras que querem vir e fazer intercâmbio cultural. Creio que isso é fundamental.
 

 
OVELHA: A militância feminista é tão maravilhosa quanto é pesada, fico extremamente feliz de ver que vocês estão juntas há 22 anos. Com qual frequência se reúnem? Vocês fazem algum tipo de apoio interno para membros do coletivo?

MUJERES CREANDOO que acontece com o Mujeres Creando é muito original em todo continente. Sabe, nós não entendemos o feminismo como a construção de um grupo ou como um passatempo, mas como um modo de vida e de luta cotidiana. Temos duas casas em diferentes cidades e a partir da gestão dessas casas desenvolvemos formas de política concreta com a sociedade. Sempre estamos atuando de forma contínua e direta com os temas que preocupam a gente e isso cria uma dinâmica muito intensa dentro do movimento. Ao mesmo tempo temos pequenas cooperativas que vão surgindo e que vão gerando formas de auto sustentação econômica para muitas mulheres. Isso é fabuloso porque gera coesão, gera trabalho contínuo, gera capacidade de resposta social imediata a todo tempo, gera produção de teoria de ideias e de conhecimento a todo o tempo e produção cultural contínua também.
 

 
OVELHA: Às vezes para passarmos uma mensagem é preciso dialogar com partes que nos são adversas. Como por exemplo, a instituição de arte da Bienal de São Paulo. Vi que vocês fizeram uma carta aberta em repúdio ao logo do estado de Israel (ato do qual apoio integralmente) que estava nos apoios do evento. Quanto podemos nos permitir dialogar com certas instituições para que possamos passar a mensagem para frente?

MUJERES CREANDO: Olha, nós não temos uma visão maniqueísta de onde qualificamos o de fora como limpo e válido e toda instituição como podre. Cremos que temos que estar com nosso próprio discurso e com suas próprias condições em todos os lugares, seja na rua, até na televisão, passando por um cenário como a Bienal de Arte de São Paulo. Não se trata de se submeter à instituição, não se trata de absorver seus códigos, quase sem diálogo. Se trata de tornar a instituição como qualquer outro espaço possível e se instalar ali com a mesma lógica de invasão, como a qual em que o mendigo se instala na porta de uma igreja. Logo creio que as próprias instituições tem muitíssimas contradições e que temos que aproveitar. A arte, a universidade, o estado estão em crise, não se trata de ser uma catarse para sua crise mas sim de aproveitar esses espaços de crise para expandir ideias propostas, desacatos, desobediências. Há pouco tempo o vice presidente da Bolívia me chamou para uma entrevista. Eu repudio sua política e poderia ter dito que não, ao invés disso, decidi ir de encontro ao diálogo com ele mas sem me auto censurar, sem nenhum tipo de reverência grave ao encontro e foi uma bomba até hoje.
 
Mujeres Creando
 
OVELHA:  Como se dá a resistência feminista das Cholas? Há um movimento de contrapartida camponês?

MUJERES CREANDO: O movimento campesino na Bolívia está cooptado pelo governo e sofre um momento de inércia e complacência. São os clientes privilegiados pelo governo, mas se trata de uma aliança só com os líderes do movimento embora as bases também se alegrem com essa aliança. Em nosso movimento há muitas que são cholas, parte porque não construímos um movimento homogêneo branco urbano, mas são literalmente e metaforicamente putas e lésbicas, juntas e revoltas e geminadas como irmãs.
 

Fiquei muitíssimo tocada com as respostas fortes da Maria Galindo (uma das representantes do coletivo), me lembrei muito da nossa musa brasileira Indianara Siqueira que tem uma história sólida de militância há anos e pela qual tenho muita admiração. Agradeço muitíssimo o coletivo Mujeres Creando por ceder uma entrevista, e a Maria Galindo. Viva las que luchan!
 

 
Nota: A entrevista foi concedida à página xereca no dia 06/10/2014 e foi elaborada e traduzida por Bárbara Gondar.

Leia mais
lovelove6, de aniversário. Essa é basicamente a minha rotina entre freelas, então quando no começo de 2014, eu descobri as tiras da Garota Siririca na Revista Samba (existem desde 2013) fiquei com aquela típica queimação interna, quando a gente sente que ‘deu merda’, achando que tinha vazado alguma coisa sobre mim na internet, tamanha identificação. Juro.

 
Garota Siririca
 
Porém, comecei a acompanhar a história e percebi que nada se tratava sobre mim (ufa!), mas sobre as aventuras de uma mina que tem uma relação bem íntima com seu corpo, com a masturbação e que não tem problema algum em adorar o cheiro da sua xereca e testar diversos brinquedos sexuais, especialmente os vendidos pela sua amiga Xoxola. Fiquei feliz de ter me identificado tanto, espero que cada vez mais mulheres possam ter uma relação mais íntima e libertadora com seu próprio corpo, desde os nossos deliciosos cheiros às nossas texturas, pêlos e ciclos.

Para minha grande surpresa, no final da HQ ainda tem uma homenagem à banda feminista Belicosa, do Rio de Janeiro. Sou um pouco suspeita pra falar porque a dupla é bastante minha amiga, adoro mesmo. E apesar de já saber que elas têm uma música que se chama Garota Siririca, não tinha ideia que rolaria essa inserção na HQ. “Era uma surpresa!”, me disseram. E foi mesmo, das melhores.
 

 
A HQ foi financiada via Catarse e conseguiu não só bater sua meta como ultrapassar o necessário para que fosse lindamente produzida. Isso significa que tem público querendo consumir esse tipo de leitura, e isso significa que os materiais independentes têm ganhado uma força bem grande no cenário nacional e isso é excelente! Mostra que não necessitamos ser reféns de um sistema hermético de publicações.

Garota Siririca

Além de ter amado a HQ pelo tema que me é caro, tenho muito orgulho de ver uma mina nova como a Gabi laçando uma livra extremamente bem feita, bem colorida, bem acabada. É muito empoderador, é sentir que as mulheres estão definindo seus contornos no mercado de HQ nacional, em vista a proporção que tomou o importante e providencial encontro Lady Comics em outubro do ano passado.

Ainda não está na aba do sex shop (FIKDIK) mas você vai poder comprar sua HQ Garota Siririca online logo mais. Dá pra ler em uma dedada. Ou uma sentada, o que você preferir. Agora só preciso pedir um autógrafo pra Gabi.

2djyr74

" />