#nossoamigosecreto

MALE TEARS: a carapuça serviu pra muito amigo secreto por aí

A recente campanha #meuamigosecreto tem mobilizado uma série de meninas a denunciar o comportamento incoerente de outros com relação ao preconceito e à discriminação – principalmente o machismo. A hashtag, que você pode acompanhar aqui, me lembrou muito a campanha #PrimeiroAssedio: mais uma vez as mulheres não vão se calar frente aos abusos diários. Mais do que isso, vamos expor tudo o que aguentamos em nossas relações interpessoais. O mais interessante desse fenômeno é o que ele tem levantado sobre exposição nas redes sociais.

Há dois meses eu escrevi um texto expondo um ex-namorado que foi extremamente abusivo comigo. O texto, que quase foi publicado aqui na Ovelha, ganhou uma série de likes, sendo muitos desses vindo de amigos que tenho em comum com esse ex. Também recebi muitas mensagens de apoio e carinho de conhecidos que afirmavam não fazer ideia do que havido acontecido entre nós e o quanto eles sentiam muito por não terem me ajudado. O que isso tem a ver? Meu texto foi feito praticamente da forma que a campanha tem sido estruturada: sem identificação, sem citar nomes, apenas descrição de fatos – que, convenhamos, passam a não ser mais segredo quando eles acontecem em público. O que me entristeceu muito foi o fato de que diversas pessoas questionaram a minha decisão de expô-lo, mas não foram empáticas o suficiente para entender que aquilo não era inédito. Tudo o que eu fiz foi reiterar e retomar fatos que aconteceram na frente de todos, e que todos resolveram ignorar.

Pois bem, o meu ponto principal aqui é o seguinte: nós não devemos temer ao expor um homem que foi abusivo, seja conosco, seja com alguma amiga/conhecida/desconhecida nossa (até porque se não há nomes não é possível dizer que houve de fato uma exposição, certo?). A nossa maior preocupação deve ser não expormos as meninas, que sim devem ser protegidas de retaliações e ainda mais abusos – e me enche de alegria ver CENTENAS de meninas na minha timeline que expuseram suas angústias de maneira concisa e muito, muito poderosa.

Portanto, meninas que se incomodam com a exposição de caras nas redes sociais, será que não vale mais a pena refletir sobre o porquê a moça em questão está fazendo isso, em vez de simplesmente tachá-la de injusta ou exagerada? Exagero já não é o que sofremos diariamente com caras desconhecidos e conhecidos? O abuso no âmbito interpessoal não é tão grave quanto o que não o é? Tenho certeza de que todas nós nos identificamos com cada um dos microrrelatos – tudo poderia ter acontecido com qualquer uma de nós, todas nós temos amigos que poderiam ter feito qualquer uma dessas coisas.

Paremos de ter medo e paremos de defender os homens – eles já têm aparatos demais para isso. Preocupemo-nos em expor as situações para que todos os homens se identifiquem e, de fato, desconstruam seus privilégios e opressões. Cada uma de nós quer se sentir confortável o suficiente com nossos amigos homens (e aqui me refiro ao gênero masculino de modo geral, independentemente da orientação sexual, da etnia e da condição social), o que só irá acontecer quando eles pararem de nos oprimir.

#nossoamigosecreto está precisando baixar a bola e nos respeitar um pouco mais.

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Escrito por
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