Eu sei que existe padrão de beleza. Ai, eu sei muito bem. Eu sei que o tal padrão é reforçado diariamente com notícias em sites de fofoca, na moda, no cinema, na música, no todo. Também sei que por eles pessoas modificam drasticamente sua natureza: passam chapa quente e formol no cabelo, arrancam cada pelo do corpo, fazem cirurgias invasivas, procedimentos sangrentos, exercícios intensos, anemia, bulimia, anorexia. A gente se acostuma com a dor e com essa insanidade facilmente. Somos masoquistas atrás de um ideal que não vai existir. O problema é nosso.
A doença está nos outros, a exigência inalcançável do impossível não pode passar pra você. Porque é uma doença perigosa.
Realmente, não é fácil se sentir bem com nosso corpo. Eu não me sinto bem no meu corpo, acho que me sentia aos 18, talvez. Sempre fui magra, branquela, peituda, perna fina, nariz comprido (igual de bruxa). Hoje, depois dos 30 anos e de 2 filhos, meu corpo responde de outra maneira. Existem quilos a mais que me incomodam de uma maneira quase dolorida. Eu devia me importar? Talvez não, mas me importo, eu quero ser bonita e faço o que acho que deve ser feito. Há um limite? Sim, há. Eu sei o meu e não atravesso. Passar fome, não passo. Exercícios? Faço quando dá, prometo fazer mais assim que meu filho bebê começar a ir pra escola. Gastar dinheiro com isso? Não gasto mesmo, meus filhos estão em primeiro lugar sempre. Exemplo que tento dar a eles? Comam bem, se amem, se gostem, se respeitem, se cuidem. E o principal: Saibam seus limites. Não se pode tirar a responsabilidade que temos sobre nós mesmos. A decisão de seguir ou não um comportamento é toda sua. E se tal comportamento se começa a beirar o insano, aí é melhor tratar da cabeça e não da estética. A doença está nos outros, a exigência inalcançável do impossível não pode passar pra você. Porque é uma doença perigosa.
Usar o véu da ‘sociedade me fez isso’ pra amenizar sua irresponsabilidade é sinal de grande falta de auto-consciência.
Até que ponto o que está à sua volta pode te obrigar a ser incoerente? A não questionar nada de maneira racional? A não parar pra pensar “calma, isso aí já é demais?”. Como uma pessoa tem noção que certas coisas não são normais? É como se eu tomasse 6 cápsulas de laxante de uma vez pra emagrecer e tivesse uma falha renal. O mundo fez isso comigo? Eu não sei que se eu fizer isso posso morrer de falência renal? Eu li a bula? Eu ao menos me informei sobre isso? Não, eu enfiei 6 cápsulas de laxante goela abaixo pra me sentir magra. Se fiz isso, fui imbecil e irresponsável.
Temos responsabilidade sobre nossas escolhas, somos feitos dessas escolhas e pairar o insano é nossa responsabilidade também. Como é difícil assumir que fazemos coisas imbecis! Pois fazemos. E arcamos com consequências. É pura matemática existencial – nada do que fazemos a nós mesmos passa incólume. Assumir essa responsabilidade individual é ainda mais complicado. Usar o véu da ‘sociedade me fez isso’ pra amenizar sua irresponsabilidade é sinal de grande falta de auto-consciência. E de infantilizar nossas escolhas como algo que não controlamos. Somos adultos, e se beiramos a loucura para sermos perfeitos aos olhos dos outros, temos uma doença.
Oras, se não somos responsáveis por nós – somos iguais às plantas, que se não chove morrem secas? Não meu bem: eu e você, adultos conscientes, se sentimos sede bebemos água, sozinhos. Somos esses seres um tanto mais evoluídos que os vegetais, sabe? Só evoluímos como seres vivos porque aprendemos a controlar o nosso meio e, ainda bem, graças ao conhecimento dentro do nosso cabeção de homo sapiens, aprendemos a controlar a nós mesmos. Pare, respire, controle-se. E pense. É isso que nos diferencia dos outros animais.
Imagens do curta-metragem “Supervenus”, de Frederic Doazan
Eu sei que existe padrão de beleza. Ai, eu sei muito bem. Eu sei que o tal padrão é reforçado diariamente com notícias em sites de fofoca, na moda, no cinema, na música, no todo. Também sei que por eles pessoas modificam drasticamente sua natureza: passam chapa quente e formol no cabelo, arrancam cada pelo do corpo, fazem cirurgias invasivas, procedimentos sangrentos, exercícios intensos, anemia, bulimia, anorexia. A gente se acostuma com a dor e com essa insanidade facilmente. Somos masoquistas atrás de um ideal que não vai existir. O problema é nosso.
A doença está nos outros, a exigência inalcançável do impossível não pode passar pra você. Porque é uma doença perigosa.
Realmente, não é fácil se sentir bem com nosso corpo. Eu não me sinto bem no meu corpo, acho que me sentia aos 18, talvez. Sempre fui magra, branquela, peituda, perna fina, nariz comprido (igual de bruxa). Hoje, depois dos 30 anos e de 2 filhos, meu corpo responde de outra maneira. Existem quilos a mais que me incomodam de uma maneira quase dolorida. Eu devia me importar? Talvez não, mas me importo, eu quero ser bonita e faço o que acho que deve ser feito. Há um limite? Sim, há. Eu sei o meu e não atravesso. Passar fome, não passo. Exercícios? Faço quando dá, prometo fazer mais assim que meu filho bebê começar a ir pra escola. Gastar dinheiro com isso? Não gasto mesmo, meus filhos estão em primeiro lugar sempre. Exemplo que tento dar a eles? Comam bem, se amem, se gostem, se respeitem, se cuidem. E o principal: Saibam seus limites. Não se pode tirar a responsabilidade que temos sobre nós mesmos. A decisão de seguir ou não um comportamento é toda sua. E se tal comportamento se começa a beirar o insano, aí é melhor tratar da cabeça e não da estética. A doença está nos outros, a exigência inalcançável do impossível não pode passar pra você. Porque é uma doença perigosa.
Usar o véu da ‘sociedade me fez isso’ pra amenizar sua irresponsabilidade é sinal de grande falta de auto-consciência.
Até que ponto o que está à sua volta pode te obrigar a ser incoerente? A não questionar nada de maneira racional? A não parar pra pensar “calma, isso aí já é demais?”. Como uma pessoa tem noção que certas coisas não são normais? É como se eu tomasse 6 cápsulas de laxante de uma vez pra emagrecer e tivesse uma falha renal. O mundo fez isso comigo? Eu não sei que se eu fizer isso posso morrer de falência renal? Eu li a bula? Eu ao menos me informei sobre isso? Não, eu enfiei 6 cápsulas de laxante goela abaixo pra me sentir magra. Se fiz isso, fui imbecil e irresponsável.
Temos responsabilidade sobre nossas escolhas, somos feitos dessas escolhas e pairar o insano é nossa responsabilidade também. Como é difícil assumir que fazemos coisas imbecis! Pois fazemos. E arcamos com consequências. É pura matemática existencial – nada do que fazemos a nós mesmos passa incólume. Assumir essa responsabilidade individual é ainda mais complicado. Usar o véu da ‘sociedade me fez isso’ pra amenizar sua irresponsabilidade é sinal de grande falta de auto-consciência. E de infantilizar nossas escolhas como algo que não controlamos. Somos adultos, e se beiramos a loucura para sermos perfeitos aos olhos dos outros, temos uma doença.
Oras, se não somos responsáveis por nós – somos iguais às plantas, que se não chove morrem secas? Não meu bem: eu e você, adultos conscientes, se sentimos sede bebemos água, sozinhos. Somos esses seres um tanto mais evoluídos que os vegetais, sabe? Só evoluímos como seres vivos porque aprendemos a controlar o nosso meio e, ainda bem, graças ao conhecimento dentro do nosso cabeção de homo sapiens, aprendemos a controlar a nós mesmos. Pare, respire, controle-se. E pense. É isso que nos diferencia dos outros animais.
Imagens do curta-metragem “Supervenus”, de Frederic Doazan
Eu sei que existe padrão de beleza. Ai, eu sei muito bem. Eu sei que o tal padrão é reforçado diariamente com notícias em sites de fofoca, na moda, no cinema, na música, no todo. Também sei que por eles pessoas modificam drasticamente sua natureza: passam chapa quente e formol no cabelo, arrancam cada pelo do corpo, fazem cirurgias invasivas, procedimentos sangrentos, exercícios intensos, anemia, bulimia, anorexia. A gente se acostuma com a dor e com essa insanidade facilmente. Somos masoquistas atrás de um ideal que não vai existir. O problema é nosso.
A doença está nos outros, a exigência inalcançável do impossível não pode passar pra você. Porque é uma doença perigosa.
Realmente, não é fácil se sentir bem com nosso corpo. Eu não me sinto bem no meu corpo, acho que me sentia aos 18, talvez. Sempre fui magra, branquela, peituda, perna fina, nariz comprido (igual de bruxa). Hoje, depois dos 30 anos e de 2 filhos, meu corpo responde de outra maneira. Existem quilos a mais que me incomodam de uma maneira quase dolorida. Eu devia me importar? Talvez não, mas me importo, eu quero ser bonita e faço o que acho que deve ser feito. Há um limite? Sim, há. Eu sei o meu e não atravesso. Passar fome, não passo. Exercícios? Faço quando dá, prometo fazer mais assim que meu filho bebê começar a ir pra escola. Gastar dinheiro com isso? Não gasto mesmo, meus filhos estão em primeiro lugar sempre. Exemplo que tento dar a eles? Comam bem, se amem, se gostem, se respeitem, se cuidem. E o principal: Saibam seus limites. Não se pode tirar a responsabilidade que temos sobre nós mesmos. A decisão de seguir ou não um comportamento é toda sua. E se tal comportamento se começa a beirar o insano, aí é melhor tratar da cabeça e não da estética. A doença está nos outros, a exigência inalcançável do impossível não pode passar pra você. Porque é uma doença perigosa.
Usar o véu da ‘sociedade me fez isso’ pra amenizar sua irresponsabilidade é sinal de grande falta de auto-consciência.
Até que ponto o que está à sua volta pode te obrigar a ser incoerente? A não questionar nada de maneira racional? A não parar pra pensar “calma, isso aí já é demais?”. Como uma pessoa tem noção que certas coisas não são normais? É como se eu tomasse 6 cápsulas de laxante de uma vez pra emagrecer e tivesse uma falha renal. O mundo fez isso comigo? Eu não sei que se eu fizer isso posso morrer de falência renal? Eu li a bula? Eu ao menos me informei sobre isso? Não, eu enfiei 6 cápsulas de laxante goela abaixo pra me sentir magra. Se fiz isso, fui imbecil e irresponsável.
Temos responsabilidade sobre nossas escolhas, somos feitos dessas escolhas e pairar o insano é nossa responsabilidade também. Como é difícil assumir que fazemos coisas imbecis! Pois fazemos. E arcamos com consequências. É pura matemática existencial – nada do que fazemos a nós mesmos passa incólume. Assumir essa responsabilidade individual é ainda mais complicado. Usar o véu da ‘sociedade me fez isso’ pra amenizar sua irresponsabilidade é sinal de grande falta de auto-consciência. E de infantilizar nossas escolhas como algo que não controlamos. Somos adultos, e se beiramos a loucura para sermos perfeitos aos olhos dos outros, temos uma doença.
Oras, se não somos responsáveis por nós – somos iguais às plantas, que se não chove morrem secas? Não meu bem: eu e você, adultos conscientes, se sentimos sede bebemos água, sozinhos. Somos esses seres um tanto mais evoluídos que os vegetais, sabe? Só evoluímos como seres vivos porque aprendemos a controlar o nosso meio e, ainda bem, graças ao conhecimento dentro do nosso cabeção de homo sapiens, aprendemos a controlar a nós mesmos. Pare, respire, controle-se. E pense. É isso que nos diferencia dos outros animais.
Imagens do curta-metragem “Supervenus”, de Frederic Doazan
Descobri que estava grávida em dezembro de 2010. Não foi no susto, não me choquei. Já tinha quase 30 anos e morava com meu futuro marido. Minha maior ansiedade era saber o sexo do bebê. Claro que eu queria um filho saudável, era minha prioridade – parei de fumar, de beber, de comer junk food (ok, de comer com frequência).
Mas meu maior medinho era ter uma menina. É, pois é.
Fui e sou aquele ‘tipinho’ de mulher que teve sempre mais amigos homens do que mulheres. Que preferia estar entre homens do que entre mulheres. Desde a juventude eu sentia que minha turma de amigas revolvia muito no que elas sentiam umas pelas outras, tudo era dramático e trabalhoso demais. A própria relação era estranha, amigas tinham ciúmes das outras e isso me irritava, eu me afastava. Talvez eu tenha tido o azar de conhecer poucas meninas legais na vida? Cidade do interior era – e ainda deve ser – difícil.
Eu tinha medo de ter uma filha mulher. Eu tinha medo de não saber lidar com ela, de não conseguir ensiná-la a ser forte.
E eu tenho um irmão que é o irmão mais legal do mundo, juro, ele é o sujeito mais legal que eu conheço no universo desde que eu nasci. E andava o dia todo com ele. Fazíamos as mesmas coisas, nos divertíamos lutando de espada, lendo gibis, ouvindo música, assistindo filmes de terror e ficção científica. Eu era amiga de seus amigos da escola e da vizinhança. Nunca rolava “ah, menina não pode”. Eu podia.
Continuei tendo mais amigos homens na vida adulta, o que causava certa estranheza para namorados/ficantes/bofinhos. Ouvia sempre as perguntas:
“mas você só anda com homem?”
“só tem nome de homem no seu celular?”
“pra que tanto amigo homem, você já deu pra todos eles… ao mesmo tempo?“
Aprendi a responder “talvez eu tenha tenha trepado com todos, talvez não. Mas isso não é problema seu”.
Mesmo andando com homens pra cima e pra baixo eu já era extremamente feminista na juventude, estudava o assunto, lia Simone Beauvoir e derivados – aos 15 anos queria entender sobre sexualidade, liberdade sexual feminina – era um tema que me agradava e ainda agrada porque eu gosto muito de ser mulher. Mas eu tinha medo de ter uma filha mulher. Eu tinha medo de não saber lidar com ela, de não conseguir ensiná-la a ser forte.
O dia que descobri o sexo do meu bebê foi esquisito. A maioria dos casais prefere menina – meu obstetra achava engraçado meu medo de ter menina: “Mas 99% das mães que vêm aqui querem menina! Não tenha medo, você vai ter uma menina”.
– “É MENINA?” arregalei os olhos pra telinha do ultra-som
– “MENINÍSSIMA!” ele respondeu.
Ok, minha filha arreganhou bastante as pernas pra mostrar pra mamãe aqui que o destino é assim mesmo.
Como é, pra mim, ser mãe de menina? Me pego medindo palavras o tempo inteiro. Me olho no espelho e digo ao vento: “Aff, tô gorda”. E ela olha pra mim: “Gorda mamãe? Por quê?”. Respondo envergonhada “Nada não filha, a mamãe fala umas bobagens”.
Outro dia eu ia sair e tive que raspar as pernas correndo durante o banho, ela olhou e queria saber porque eu tinha que tirar os pêlos. Eu disse que não gosto de ser peluda mas isso é gosto pessoal, papai é peludo, ele gosta. Nunca digo “mulher não pode ser peluda” apenas digo que ‘eu’ não gosto. Não deixo de ser exemplo pra ela. Nunca. Que responsabilidade enorme é vencer minhas fraquezas pra ensiná-la a ter coragem.
Eu vou errar e vou errar com ela por perto. O importante é saber lidar com isso. Estou aprendendo também. Eu e minha menina estamos juntas nessa bagunça que é aprender a existir.
Entendi que o meu medo em criar uma menina era esse mesmo, de não me ver forte para torná-la forte. Mas isso é bobagem. Basta ensinar que a força é adquirida ao longo da vida, e que como eu, ela vai aprender todos os dias um pouco mais sobre sua independência, liberdade e respeito próprio. E que medo a gente tem, é normal. Não adianta eu de repente virar uma mulher super bem resolvida destemida, sensacional, mãe e profissional – militante ferrenha do poder feminino só pra ela ver. Eu vou errar e vou errar com ela por perto. O importante é saber lidar com isso. Estou aprendendo também. Eu e minha menina estamos juntas nessa bagunça que é aprender a existir.
PS: quando minha filha completou um ano descobri que estava grávida de novo. Dessa vez nasceu menino. E olha, estou criando igualzinho a ela. Amo o fato de ter um homem e uma mulher em casa, crescendo juntos. A ideia é mostrar que mesmo havendo a individualidade de cada um, embaixo do meu teto, somos todos iguais. (Ou quase né: ela já entendeu que o irmão tem um biluzinho e ela tem uma pequeca – ela que nomeou mesmo. Ela adora inventar nomes para as coisas #orgulho)
Temos responsabilidade sobre nossas escolhas, somos feitos dessas escolhas e pairar o insano é nossa responsabilidade também. Como é difícil assumir que fazemos coisas imbecis! Pois fazemos. E arcamos com consequências. É pura matemática existencial – nada do que fazemos a nós mesmos passa incólume. Assumir essa responsabilidade individual é ainda mais complicado. Usar o véu da ‘sociedade me fez isso’ pra amenizar sua irresponsabilidade é sinal de grande falta de auto-consciência. E de infantilizar nossas escolhas como algo que não controlamos. Somos adultos, e se beiramos a loucura para sermos perfeitos aos olhos dos outros, temos uma doença.
Oras, se não somos responsáveis por nós – somos iguais às plantas, que se não chove morrem secas? Não meu bem: eu e você, adultos conscientes, se sentimos sede bebemos água, sozinhos. Somos esses seres um tanto mais evoluídos que os vegetais, sabe? Só evoluímos como seres vivos porque aprendemos a controlar o nosso meio e, ainda bem, graças ao conhecimento dentro do nosso cabeção de homo sapiens, aprendemos a controlar a nós mesmos. Pare, respire, controle-se. E pense. É isso que nos diferencia dos outros animais.
Imagens do curta-metragem “Supervenus”, de Frederic Doazan