Sunless Sea e a genderqueerness nos games

Com tantas notícias negativas envolvendo o “lado de fora” dos games (ou seja, sua comunidade), provavelmente é engraçado dizer que algumas das melhores experiências de liberdade queer que já tive foram experimentadas do “lado de dentro” dos games.

Afinal, jogos podem criar universos multidimensionais exploráveis por meio de avatares. Esses universos, regidos por suas próprias regras lógicas, muitas vezes permitem ao usuário um processo de abertura interessante para mundos bastante particulares: por vezes muito distintos do nosso, mas que podemos explorar mais ou menos como exploraríamos o nosso – pouco a pouco, através de ações ou breves estalos de compreensão no qual repentinamente dizemos “ohhh”, e tudo faz repentino sentido.

A ficção, se tiver coragem e vontade, não precisa se curvar às limitações da realidade. Eu desenho uma pantera feita de nuvens, chamo de Miley Cirrus e vou ficar chateada se alguém aleatório me disser que fiz algo errado só porque nuvens não poderiam sustentar formas de vida. Se é plausível incluir dragões, elfos e unicórnios nas minhas narrativas, por que não usar a ficção para criar mais espaços seguros ou de legitimação para grupos que ainda não alcançaram isso no mundo que habitam?

É esse tipo de poder que um jogo como Sunless Sea utiliza enquanto cria um universo complexo, desconcertante e, quem sabe, capaz de respirar quando se observa com o cantinho do olho na hora em que ele pensa que você não está atenta.

 

Capitão! Meu capitão!


 
Em Sunless Sea (Failbetter Games, 2015) você é o capitão de um navio mercante que ganha a vida na subterrânea rede de cavernas que constituem o Unterzee: uma releitura lovecraftiana de Londres, caso tivesse sido subitamente teletransportada para debaixo da terra e fosse cercada de horrores inomináveis.

Aqui, você vai controlar um pequeno barquinho mercante e terá dois recursos principais a ficar de olho: combustível e comida. Perca a mão do combustível e você vai ficar à deriva; calcule errado a comida e sua tripulação vai passar fome e se revoltar. É também necessário ficar atenta à sanidade de seus comandados: manter os faróis do navio acesos diminui o medo, mas consome mais combustível. Portanto, é preciso encontrar uma boa forma de ganhar dinheiro para manter-se seguro, bem alimentado e para atualizar o seu barquinho. No geral, esse não é um jogo fácil, embora não seja injustamente punitivo.

Fora esses momentos de gerenciamento e navegação, boa parte da aventura acontece por meio de textos e ilustrações. Há pouca ação e piruetas além daquelas que você vai ser capaz de imaginar após lê-las, então, por conta disso, é necessário ter ao menos algum conhecimento de língua inglesa para ser capaz de apreciar totalmente o game.

Sunless Sea se passa no mesmo universo do jogo para navegador Fallen London. No entanto, enquanto que em Fallen London toda a jogabilidade era baseada em texto e restringia-se quase que totalmente ao campo da interpretação, Sunless Sea se aproxima mais da experiência “típica” de se jogar videogame: gerencie recursos, controle um barco, lute contra monstros do mar… e sobreviva para contar a história.

Porém, em meio a males sem nome e perigos intensos, há algo de estranhamente acolhedor nesse universo. Saca só essa tela de criação de personagem de Fallen London.

 

Pode nos informar se você é uma dama ou um cavalheiro? () Uma dama () Um cavalheiro () Meu caro senhor, neste exato momento há indivíduos perambulando pelas ruas de Fallen London com cabeças de lula! De lula! Por acaso você pergunta a eles sobre seus gêneros? E, ainda assim, o senhor desperdiça nosso tempo fazendo-me perguntas banais e impertinentes sobre o meu? Isso é somente da minha conta, senhor, e eu lhe desejo um ótimo dia.
 
É engraçado como o mundo criado pela Failbetter é convidativo do momento em que escolhemos como será o nosso capitão protagonista até quando exploramos espaços povoados igualmente por damas, cavalheiros e seres com cabeça de lula. Sim, você provavelmente vai morrer algumas vezes enquanto navega pelo Unterzee. Sim, você talvez enlouqueça após ter pesadelos frequentes com um olho observador e seja morto pela sua tripulação supersticiosa. Sim, você talvez passe fome e seja tentado pelo canibalismo. No entanto, o subtexto permanece inequivocamente aberto e igualitário: sua tripulação é constituída de homens e mulheres, há reis e rainhas tirânicos ou sábios, bandidos e bandidas, e praticamente todos os personagens são pansexuais.

Construir um universo inclusivo para qualquer tipo de ser humano é, como se pode ver, diferente de construir um universo que cheira a rosas.

 

 
Outro exemplo legal está na dinâmica de criação de personagem do próprio Sunless Sea. O jogo te pergunta como você gostaria de ser chamada – My Lady, My Lord, M’am, Sir ou Captain? –, a escolha, entretanto, não define totalitariamente a identidade de seu personagem, que pode apresentar-se como mulher, homem, não binário ou simplesmente “prefiro não dizer”. Por conta disso, situações interessantes podem acontecer:

Em determinado momento, jogando com um capitão apresentado como homem que mantinha um relacionamento com uma moça no porto de Fallen London, o jogo me diz que “alguém” tinha um grande anúncio a fazer. Nesse momento, eu recebi a opção de escolher qual seria o anúncio em questão e quem o faria: a moça no porto poderia estar querendo me envolver num modelo novo de negócios; ou talvez estivesse anunciando uma gravidez. Contudo, mais interessante era que o jogo dava a opção do meu personagem, identificado como homem, ser a pessoa a engravidar. Não é que o jogo não soubesse diferenciar; ele só parece dar de ombros e perguntar: Por que não? A escolha final é sempre do jogador, uma liberdade total de interpretação e decisão num mundo de outra maneira hostil.

 

99% sereia, mas aquele 1% é salamandra

Outros games fizeram isso em maior ou menor grau de maneira interessante. Demon’s Souls, precursor da franquia Dark Souls – famosa por seu alto nível de dificuldade – tem na tela de criação de personagem uma espécie de “barra de gênero”: mesmo após escolher a identificação de seu personagem é possível manipular a barra para mudar sua apresentação. Quer que seu personagem se identifique como mulher, mas tenha traços associados à masculinidade, como barba? Quer criar um personagem perfeitamente andrógino? Uma mulher que se veste de armaduras de 30 quilos, mas que tem a carinha de uma ninfa? Você pode. Infelizmente, no entanto, esse recurso foi removido nos jogos seguintes, sendo substituído pelos botõezinhos binários de masculino e feminino de sempre.

Talvez de forma mais acertada, jogos menores fizeram também experiências com genderqueerness. A ferramenta Twine, por necessitar de pouco conhecimento técnico e ser baseada em texto, possui alguns ótimos exemplos, especialmente por ser porta de entrada para criadores que se identificam como minoria e têm pouca voz em veículos mais tradicionais. Por exemplo, em 3x3x3 de Kayla Unknown uma sereia viaja pelos oceanos enquanto tenta fugir de sua biologia tirana, que lhe impõe que se reproduza quando ela chega aos 30 anos. Em um dos diversos finais do satírico Efft to Newt (Michael Joffe) consolida-se um insólito romance assexuado entre seu personagem (uma salamandra de gênero indefinido) e uma estátua falante. A andrógina alienígena Eden do jogo homônimo de Gaming Pixie instiga o jogador a salvá-la de cientistas e retornar a seu planeta, enquanto rola um crush mútuo entre personagem e protagonista. Em And the Robot Horse You Rode in on, de Anna Anthropy, a face do futuro pós-apocalíptico é um deserto dominado por gangues de cowgirls, todas, ao que tudo indica, mulheres trans poderosíssimas – incluindo sua personagem.

Experiências como essas não só são possíveis nos jogos, como dão certo ar de frescor criativo para a indústria como um todo. Se esse tipo de coisa é algo de que você sente falta talvez Sunless Sea (bem como vários dos jogos citados aqui!) seja para você. Ele está disponível no Gog.com e no Steam, mas se você quiser ter a experiência desse mundo sombrio sem pagar nada, pode também conferir o gratuito Fallen London.

 

 

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Mais de Vanessa Raposo

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