Jogue: Toren

A Torre: as bases

Há pouco mais de dois anos, a então Ministra da Cultura, Marta Suplicy, disse em uma palestra que não considerava jogos eletrônicos como produtos culturais. A fala (que respondia ao porquê dos games não estarem inseridos no projeto do vale-cultura) foi duramente criticada pela Associação Comercial, Industrial e Cultural de Games (Acigames) na época, e entre os jogadores sempre ficou aquele gosto meio amargo de história mal contada.

O curioso é que, pouco antes dessa fala movimentar todo aquele bafafá sobre a legitimação dos games como “coisa séria”, produtores comemoravam a aprovação de Toren sob as asas da Lei Rouanet de incentivo à cultura. Trata-se de uma lei de 1991 que garante que incentivadores que apoiarem projetos culturais tenham parte de seus impostos abatidos.

Estive ansiosa por Toren desde então.

Como acontece com qualquer produção relativamente grande, demorou um pouco para que o game se concretizasse na imaterialidade de meu laptop. O tempo só fez crescer meu hype. Veja só: um game no mesmo espírito de ICO – um dos meus favoritos de todos os tempos –, com uma arte de cair o queixo, temática da passagem do tempo, uma garota como protagonista, indie e ainda por cima nacional? Estavam tentando me matar, só pode! Era quase como se fosse bom demais para ser verdade.

De certa forma, era mesmo. Talvez eu tenha ido com sede demais ao pote. Meu hype foi mesmo meio injusto, embora justificado, se é que isso faz sentido – o que torna um aviso necessário antes de começar a falar sobre o game: Toren é uma ideia maravilhosa e emocionante. Não é um game perfeito; não acho que poderia ser. Mas estou feliz por ele existir. E acredito que você também ficará depois de conhecer.
 

A Sacerdotisa: o que vale a pena

 
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A narrativa de Toren vai se desmembrando aos poucos conforme a jogamos. Você é a Moonchild (Criança/Filha da Lua), uma divindade que precisará escalar a belíssima torre Toren, onde está aprisionada, e enfrentar o dragão que a vigia a fim de dar cabo do ciclo de destruição e morte ao qual não só Moonchild, mas toda a humanidade, estão presas.

A primeira coisa que chama a atenção são as escolhas visuais do game. Embora os gráficos estejam aquém do que a geração atual de videogames pode produzir, suas texturas e efeitos capricham numa paleta de cores intensas que dão um espírito sonhador ao game: a árvore da vida no centro de Toren que se retorce e floresce até o topo; o céu estrelado emoldurado por chamas de uma tocha fumacenta; a própria Moonchild, que sempre “renasce” de poças de sangue ou de altares de sacrifício suspeitos. Há algo de inquietante nas pequenas violências que aparecem sem contradizer a direção de arte belíssima que nos transporta sem esforço para a merecida fantasia mágica. Completando com chave de ouro esse hall de delícias sensoriais, vem a trilha sonora fantástica. Claramente inspirada em outro clássico do Team ICO, Shadow of the Colossus, ela faz valer 110% a experiência de se jogar de fones de ouvido.

Focada na premissa do ciclo da vida e do amadurecimento de nossa protagonista (que vemos crescer de bebezinha indefesa até uma imponente divindade de cabelos brancos e pintada para a guerra), a história faz até lembrar de outro game sobre o qual falamos recentemente, o Child of Light. Porém, se esteticamente Child of Light é como a poesia delicada e lúdica de um conto infantil, Toren está mais para uma alegoria milenar contada ao redor da fogueira, na qual beleza e violência vivem um affair com poucas chances de final feliz – porque é assim que as lendas funcionam.

A narrativa é interessante e eficiente, embora de vez em quando pareça um pouco mal encaixada no fluxo geral da história. Há uma série de boas ideias que garantem diversos momentos memoráveis, porém. Em especial as fases na qual Moonchild medita para reencontrar suas lembranças são um deleite para a imaginação. Nada é explicado com todas as palavras, deixando à jogadora a tarefa de criar um sentido. A fase da busca da Verdade, por exemplo, é uma aula de bom uso das mecânicas para se levar alguém a uma conclusão.

A parte menos bonita do game, porém, é que esses momentos poderiam ser um pouco mais frequentes.
 

O Dragão: o que podíamos passar sem

 
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De maneira geral, Toren sofre com a falta de polimento do produto final. A gente vê um monte coisa legal que, faltou isso aqui, só um tiquinho, para que se encaixassem perfeitamente. É como se houvesse uma série de boas ideias flutuando ao redor de Toren o tempo inteiro (metáforas de crescimento, a espada mágica, o cavaleiro do sol, uso de fogo para sobrevivência…) mas elas nunca decolassem por completo, ficando quase sempre planando timidamente sobre esquemas pouco empolgantes.

Pessoalmente (e aqui é a parte onde relembro que estive com um hype muito elevado até então), o que mais me desapontou foi o quão pouco relevante – mecanicamente – é o crescimento da Moonchild para a história. Ela cresce, sim, e fica visualmente mais irada, sem dúvida, mas não há uma sensação real de crescimento: não é como a Aurora (Child of Light), que a partir de certo momento duplica sua árvore de pontos de experiência; ou como Link (no saudoso The Legend of Zelda: Ocarina of Time) que consegue usar mais itens em sua forma adolescente; ou até mesmo como Simba, no clássico O Rei Leão de Master System (olha eu entregando a idade!), que, depois que crescia, além de tirar o dobro de dano, podia afugentar inimigos apenas com seu rugido. Mecanicamente, Moonchild é a mesma personagem – não há a sensação de força e capacidade crescente, exceto na própria narrativa criada pelos desenvolvedores. Isso provavelmente não faria tanta falta se essa questão não fizesse parte de uma das premissas centrais do game.

Num plano mais técnico, há também o problema dos bugs. Dei a sorte de não pegar nenhuma falha crítica que me obrigasse a reiniciar o computador, mas uma série de pequenos problemas ficam visíveis o tempo inteiro, em especial relacionados com a câmera. Além disso, é recomendado ter um joystick para jogar, uma vez que os controles no teclado são pouco agradáveis.
 

O Sol: o veredito

 
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Toren é um jogo relativamente fácil, o que neste caso faz todo o sentido. Dificuldade alta e frustrante é ótima para certos tipos de games, mas não para os que são focados na nossa experiência com a história (vamos combinar que a gente costuma a ficar com o entendimento da narrativa comprometido quando estamos ocupadas jogando o computador pela janela).

O game é curto também (o que, para mim, é um ponto positivo). Provavelmente você vai terminá-lo entre 2 e 3 horas e vale a pena se zerar de uma vez. Sim, eu digo que vale a pena porque vale, apesar dos defeitinhos. Toren tem momentos que ressonam com nossas experiências universais e sua ousadia é louvável, principalmente considerando o panorama nacional. O final, principalmente, me causa arrepios e talvez seja nesse ponto que devamos repousar nossas memórias: mais no que sentimos do que no que compreendemos.

Toren está disponível para Playstation 4 e para PC.
 

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  • Fiquei com mais vontade ainda de jogar! Ótima resenha, Vanessa!

  • Vitória Sattler

    Quero review do Never Alone eim XD Pra variar estou no aguardo da promoção da steam, mas estou quase comprando por ser um jogo completamente brasileiro, embora o dinheiro não vai ser todo revertido para brasileiros, realmente, vou esperar uma promoção.

    • Never Alone já tá na lista dos Preciso-Jogar-pra-Ontem, Vitória! XD
      São tantos, tantos jogos legais ao mesmo tempo!