Uma mulher bengalesa contra a tradição

Um grupo de mulheres trabalha tirando pedras e tijolos do que parecem ser escombros e os levam em cestas equilibradas sobre as cabeças. Enquanto isso, outras mulheres trabalham em uma fábrica têxtil, concentradas em suas máquinas de costuras. Em um apartamento de classe média, uma mulher dança em frente ao espelho, enquanto outra limpa as janelas da sacada, ouvindo assobios de um operário do prédio da frente. É um prédio em construção, como tantos outros na cidade de Daca, capital de Bangladesh.

“Under Construction” é o segundo filme de Rubaiyat Hossain, uma das poucas mulheres diretoras e roteiristas de Bangladesh, e teve sua estreia na Semana de Cinema Feminista de Berlim. Sem exageros, posso dizer que foi um dos melhores filmes de temática feminista que vi nos últimos tempos. O filme é incrível pela fotografia, roteiro e pela forma como monta críticas à sociedade de Bangladesh de uma perspectiva feminina. A personagem te envolve na história e faz com que você fique querendo saber o que vai acontecer nos diferentes âmbitos de sua vida.

Roya (interpretada pela linda atriz indiana Shahana Goswami) é uma mulher de classe média que tem uma vida confortável em um grande apartamento, uma jovem empregada chamada Monya e um marido que ganha muito bem. Ela é atriz de teatro e atua em “Rakta Karabi” ou “The Red Oleanders”, do dramaturgo Rabindranath Tagore, uma peça bastante tradicional da cultura bengalesa. Roya é Nandini, principal personagem da obra, mas se vê prestes a ser substituída por uma atriz mais jovem. Isso a revolta profundamente.

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Seu marido pouco se importa com seu trabalho no teatro. Quando o tema aparece durante o jantar, ele apenas diz que eles deveriam ter um filho e vê isso como decidido, apesar de Roya não expressar nenhum desejo pela maternidade. Fora da vida de casal, a mãe de Roya também a pressiona para que tenha filhos, cuide do marido e esqueça seu trabalho como atriz. A mãe é uma senhora tradicional muçulmana que, em certo momento do filme, chega a dizer à filha que atrizes são putas.

Diante de toda essa pressão, Roya se vê em um conflito consigo mesma e com a sociedade em que vive. A primeira maneira que encontra para colocar isso para fora é tentar mudar as coisas na companhia de teatro. Eles se preparam para receber a visita do grande diretor Imtiaz que gostaria de levar “The Red Oleanders” em uma turnê europeia, mas, para isso, devem deixar a peça mais moderna. Quando questionada sobre como poderiam mudá-la, Roya responde: “Nandini não é uma mulher real, ela é muito perfeita. Nenhuma mulher bengalesa é assim”. Todos seus colegas acham aquilo absurdo. Afinal, como alguém poderia reinterpretar algo tão tradicional como Tagore? Mas Roya não desiste de suas ideias. Ela quer recriar a tradição.

Assim como sua recriação de Nandini, a personagem de Roya também não é a mulher perfeita. Ela continua sendo uma mulher que depende do marido financeiramente, que tem uma empregada e que pode trabalhar como atriz, enquanto muitas outras mulheres em Daca precisam trabalhar em construções ou fábricas têxteis para sobreviver.

Rubaiyat Hossain não esconde que sua personagem pode ser um pouco mimada e mostra suas imperfeições várias vezes durante o longa. Em uma das cenas na casa da mãe de Roya, as duas discutem. Roya argumenta com a senhora que a vida de uma mulher não deve ser voltada somente ao marido e aos filhos. A mãe a confronta dizendo que ela mesma trabalhou para ganhar seu próprio dinheiro e que muitas outras mulheres de sua classe faziam e fazem a mesma coisa. “E você? Você tem boa educação, por que não consegue um emprego de verdade?”. Nesse momento, o mito da heroína que os espectadores viam em Roya se desmonta.

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Numa conversa com o público, após a exibição do filme, Rubaiyat explica o porquê de montar sua personagem dessa forma. “Acho que Roya representa a mulher bengalesa contemporânea. Muitas mulheres hoje em dia estão tendo esse tipo de conflito pessoal e com a tradição em Bangladesh em suas cabeças. Roya é uma mulher que está passando por um processo de construção, assim como outras mulheres em Bangladesh”, explica a diretora que escolheu o título “Under Construction” exatamente por isso.

Para a surpresa da jovem diretora, que fez Women Studies e South Asian Studies nos Estados Unidos, a recepção de seu filme foi muito positiva em Bangladesh, principalmente entre as mulheres. “Fizemos uma sessão só para mulheres em Daca e, no final do filme, muitas vieram até mim para dizer como tinham se identificado com Roya”, conta Rubaiyat. Claro que as críticas, principalmente da ala masculina, não deixaram de aparecer. Ela conta que a maioria dos homens saiu em defesa da personagem da mãe de Roya – uma mulher tradicional que trabalhou duro na vida e que acreditava que sua filha deveria se dedicar ao marido, a ter filhos e à religião.

[caption id="attachment_9793" align="aligncenter" width="648"]Atriz Shahana Goswami e diretora Rubaiyat Hossain falam sobre o filme na Semana de Cinema Feminista de Berlim Atriz Shahana Goswami e diretora Rubaiyat Hossain falam sobre o filme na Semana de Cinema Feminista de Berlim[/caption]

Não é fácil ser mulher

A diretora foi questionada pela organizadora do evento, Karin Fornander, como era ser uma cineasta em Bangladesh. “Bom, não é difícil ser uma diretora mulher em Bangladesh, é difícil ser mulher em Bangladesh!”, respondeu. E isso fica bem claro no filme.

Além de toda a tradição machista que constantemente é jogada na cara de Roya, outras situações deixam bem claro o quão difícil é viver no país sul asiático como mulher. Nas primeiras cenas do filme, a jovem empregada Monya é assediada com assobios e palavras de um operário do prédio da frente, enquanto está dentro de casa, limpando a sacada. Em outro momento, Monya se vira para Roya e diz “você tem sorte de ter um bom marido. Ele não bate em você”. Só isso fazia dele um marido maravilhoso.

Mais adiante, outra referência à frequente violência doméstica sofrida por mulheres no país. Monya engravida e vai viver com o novo marido em um bairro muito pobre em Daca, onde Roya vai visitá-la. Enquanto conversam, as duas ouvem gritos e choros. “O vizinho bate na esposa todos os dias”, diz Monya.

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Violência contra mulheres é um caso mais sério em Bangladesh, sendo um dos países com alto número de vítimas femininas de ataques com ácido. Segundo a organização Acid Survivors Foundation, de 1999 até 2015 foram 3.303 casos registrados de ataques com ácido no país. Além disso, mulheres e meninas sofrem com casamentos precoces, violência e assédio sexual, condições inadequadas de trabalho para grávidas… Realmente não é fácil ser mulher por lá.

Bangladesh é lembrado pelo grande número de fábricas têxteis, em que a maior parte dos trabalhadores são mulheres. Segundo a Human Rights Watch, a maioria dos supervisores dessas fábricas são homens, que muitas vezes assediam as funcionárias com comentários de cunho sexual. Pela situação precária para trabalhadoras nessa indústria, seria impossível não fazer referência a ela no filme.

Em vários momentos, as fábricas têxteis aparecem em pano de fundo. Quando Roya caminha pelas ruas de Daca, ela vê homens indo em direção às construções e mulheres em direção às fábricas. No centro da cidade, se vê um anúncio com uma mulher em uma máquina de costura e os dizeres “Maiores colaboradores para a economia nacional”. Mas a referência mais importante é quando Roya está em casa e vê no noticiário o desespero das pessoas diante do colapso do Rana Plaza, tragédia que ocorreu no dia 24 de abril de 2013 e matou mais de 1,1 mil pessoas. Rubaiyat pegou cenas de notícias reais que saíram na época nos canais de TV.

Na minha opinião, a diretora quis, além de criticar tantos aspectos machistas de seu país, atingir o Ocidente, que tanto se beneficia do trabalho de milhares de mulheres nessas fábricas. É difícil não sentir um aperto no peito ao ver as personagens trabalhando em máquinas de costura e, logo depois, o Rana Plaza desmoronando com tantos funcionários lá dentro.

“Under Construction” me surpreendeu positivamente. Há tempos não via um filme que quase não me deixasse piscar diante da tela. Os gestos e expressões faciais de Roya revelam uma mulher em conflito e em um processo complexo de  reconstrução. As falas dos personagens, as situações e referências apresentam o machismo de uma cultura oriental que por vezes se assemelha e se afasta do machismo que conhecemos no Ocidente. Finalmente, o filme cumpre seu papel: dar voz às mulheres de Bangladesh.

Escrito por
Mais de Débora Backes

O paraíso feminista não existe (ainda)

Desde que o mundo era dividido entre metrópoles e colônias o velho continente era visto (ou se apresentava) como “os civilizados”, “os evoluídos”. Enquanto isso, nós, do outro lado do Oceano, éramos “os selvagens”. Essa divisão permaneceu, apesar das guerras de independência e revoluções, não só na mentalidade europeia pós-colonialista, mas também na nossa eterna síndrome de vira-lata. Ainda olhamos para o quintal do vizinho e o vemos como o mais florido, o mais bonito e, nesse caso específico, o mais evoluído em absolutamente tudo.

Durante os meus três anos morando na Alemanha cansei de escutar de brasileiros – moradores daqui ou do Brasil – que as feministas alemãs são “exageradas”, afinal as mulheres por aqui já são completamente emancipadas. Entre os que olham para a Europa como um paraíso, há uma ideia de que machismo, racismo e ódio não existem por aqui. Para essas mentes iludidas, o feminismo já foi vitorioso da Noruega à Grécia, enquanto o machismo assombra apenas países “não civilizados” na América Latina, na África, na Ásia…

Todo esse discurso é muito perigoso. Ele não só é usado para minimizar e desacreditar os movimentos feministas europeus, que ainda lutam por melhorias na legislação de proteção às mulheres, como também criminaliza estrangeiros e refugiados e contribui para um discurso de ódio. Como a Europa sempre foi vista como essa terra maravilhosa em que mulheres, teoricamente, não sofreriam com violência sexual e de gênero, a culpa de qualquer caso recente de abuso tem caído direto na conta dos estrangeiros que chegaram aqui há pouco tempo. Partidos de extrema direita, como a AfD (Alternativa para a Alemanha, na tradução da sigla para o português) tem usado isso como justificativa para conseguir votos e implantar futuramente uma política anti-imigração no país (sim, o mesmo país que por décadas teve políticas cruéis contra estrangeiros parece estar revivendo aos poucos essa história…). A chefe do partido, senhora Frauke Petry, chegou a dizer, em agosto deste ano, que o ideal seria enviar todos refugiados a uma ilha fora da Europa…  A cada caso de violência – sexual ou não – que aparece na mídia e aterroriza cidadãos alemães, a AfD faz questão de se manifestar rapidamente, buscando um jeito de culpar especialmente muçulmanos…

Claro que casos como os abusos na noite do ano novo em Colônia e o estupro da estudante de 19 anos por um refugiado afegão em Freiburg (saiba mais aqui), no Sul da Alemanha, são horríveis e completamente condenáveis. Mas não se pode cair na ilusão de que tudo era perfeito até a chegada dos refugiados e de que crimes como esses são praticados somente por eles.

A Europa nunca esteve livre do machismo e ainda não está! Uma prova disso é o resultado da pesquisa sobre violência de gênero divulgada em novembro deste ano pela União Europeia. De acordo com ela, mais de um quarto dos 30 mil cidadãos europeus entrevistados acreditam que estupro é justificável em certos casos.

Vinte e sete por cento dos entrevistados responderam que forçar alguém a ter relações sexuais seria aceitável em uma das seguintes circunstâncias: se a pessoa estivesse drogada, ou alcoolizada, ou estivesse usando roupas provocantes, ou estivesse caminhando sozinha para casa ou tivesse aceitado ir para casa com o agressor. Mais detalhadamente, 12% disseram que estupro seria aceitável em caso da mulher ter consumido drogas ou álcool; e 10% consideram aceitável se a vítima não demostrou resistência física ou não disse claramente que não.

Os países em que mais se acha que estupro é justificável em certos casos são Romênia e Hungria, enquanto os que tiveram mais repostas negativas para essa pergunta foram Espanha e Suécia. Vale ressaltar que a pesquisa foi feita com cidadãos da União Europeia, e não simplesmente com moradores da União Europeia.

O artigo que li no Independent sobre isso foi bombardeado por comentários incrédulos quanto aos resultados. Os leitores acusavam a pesquisa de falsificação de dados. Essa negação faz parte de uma característica europeia de ver somente o que está errado com o outro e não enxergar os próprios erros. É uma mentalidade pós-colonialista de ver o resto do mundo como os selvagens. Afinal, como assim a Europa não é melhor em tudo? Nem na Europa a igualdade de gênero é perfeita? Não! E é por isso que existe feminismo por aqui.  Pra quem dúvida, os resultados completos da pesquisa estão no site da Comissão Europeia (os apresentados aqui estão na página 5 do relatório em inglês ;-) ).

A pesquisa também mostrou outros dados que destroem o castelinho do conto de fadas: de uma a cada cinco pessoas concordam que mulheres, muitas vezes, inventam ou exageram em acusações de abuso sexual ou estupro, e 17% acreditam que casos de violência contra mulheres pode ser, muitas vezes, culpa da vítima.

Outro dado importante, que já se sabia, mas foi citado novamente pelo relatório, é que uma a cada três mulheres na União Europeia já viveu uma situação de violência física e/ou sexual desde os seus 15 anos de idade, enquanto uma a cada dez já disseram ter sofrido abuso sexual ou perseguições em plataformas virtuais.

Todos esses novos fatos podem parecer difíceis de acreditar, se olharmos somente para o superficial, ou seja, apenas para o jardim do vizinho e não para o seu porão.

Vou usar a Alemanha como exemplo, que é o caso que mais conheço. Por aqui, até 1997, um estupro que acontecesse dentro de um casamento não era considerado crime. Ou seja, não era considerado estupro, se o marido forçasse sua esposa a ter relações sexuais com ele. A discussão sobre a reforma na lei durou 25 anos (!) até que as mulheres parlamentares conseguiram ser ouvidas. Se pensarmos bem e considerarmos a longa história do feminismo europeu, 1997 não foi há tanto tempo assim…

Outra grande vitória pelos direitos das mulheres na Alemanha aconteceu apenas (mas antes tarde do que nunca!) em julho deste ano. O Parlamento alemão finalmente aprovou uma reforma na lei que pune violência sexual. Com a reforma “Nein heißt nein” (Não significa não), um estupro pode ser considerado estupro legalmente, mesmo se a vítima não reagir ativamente a agressão (tentando se defender fisicamente ou dizendo “não”). Até então, um caso de estupro só era condenável se o agressor tivesse feito uso de ameaças e/ou violência física para forçar uma relação sexual, ou se a vítima pudesse provar ter dito claramente “não”. Acredita-se que, por causa disso, somente 8% dos casos registrados de estupros no país resultam na condenação do agressor.

Pode ser sim que aqui as coisas caminhem mais rápido do que no Brasil. Aqui na Alemanha, por exemplo, as mulheres já conquistaram o direito ao aborto até os três meses de gestação há tempos e pegar metrô ou ônibus de roupa curta talvez não seja tão assustador para nós como é no Brasil.

Mas pensar que tudo é perfeito só barra as batalhas ainda lutadas por nossas companheiras. Lembrando que nem na Islândia, considerado melhor país para se ser mulher, as coisas são uma maravilha: lá, as funcionárias mulheres recebem até 14% a menos que os homens. Pois é, nem lá…

Não faço esse texto pra desmotivar vocês. Faço para dizer que o feminismo ainda tem que ser levado a sério EM TODO LUGAR e pra lembrar que não estamos sozinhas. E essa deve ser nossa motivação.

Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)

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“Under Construction” é o segundo filme de Rubaiyat Hossain, uma das poucas mulheres diretoras e roteiristas de Bangladesh, e teve sua estreia na Semana de Cinema Feminista de Berlim. Sem exageros, posso dizer que foi um dos melhores filmes de temática feminista que vi nos últimos tempos. O filme é incrível pela fotografia, roteiro e pela forma como monta críticas à sociedade de Bangladesh de uma perspectiva feminina. A personagem te envolve na história e faz com que você fique querendo saber o que vai acontecer nos diferentes âmbitos de sua vida.

Roya (interpretada pela linda atriz indiana Shahana Goswami) é uma mulher de classe média que tem uma vida confortável em um grande apartamento, uma jovem empregada chamada Monya e um marido que ganha muito bem. Ela é atriz de teatro e atua em “Rakta Karabi” ou “The Red Oleanders”, do dramaturgo Rabindranath Tagore, uma peça bastante tradicional da cultura bengalesa. Roya é Nandini, principal personagem da obra, mas se vê prestes a ser substituída por uma atriz mais jovem. Isso a revolta profundamente.

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Seu marido pouco se importa com seu trabalho no teatro. Quando o tema aparece durante o jantar, ele apenas diz que eles deveriam ter um filho e vê isso como decidido, apesar de Roya não expressar nenhum desejo pela maternidade. Fora da vida de casal, a mãe de Roya também a pressiona para que tenha filhos, cuide do marido e esqueça seu trabalho como atriz. A mãe é uma senhora tradicional muçulmana que, em certo momento do filme, chega a dizer à filha que atrizes são putas.

Diante de toda essa pressão, Roya se vê em um conflito consigo mesma e com a sociedade em que vive. A primeira maneira que encontra para colocar isso para fora é tentar mudar as coisas na companhia de teatro. Eles se preparam para receber a visita do grande diretor Imtiaz que gostaria de levar “The Red Oleanders” em uma turnê europeia, mas, para isso, devem deixar a peça mais moderna. Quando questionada sobre como poderiam mudá-la, Roya responde: “Nandini não é uma mulher real, ela é muito perfeita. Nenhuma mulher bengalesa é assim”. Todos seus colegas acham aquilo absurdo. Afinal, como alguém poderia reinterpretar algo tão tradicional como Tagore? Mas Roya não desiste de suas ideias. Ela quer recriar a tradição.

Assim como sua recriação de Nandini, a personagem de Roya também não é a mulher perfeita. Ela continua sendo uma mulher que depende do marido financeiramente, que tem uma empregada e que pode trabalhar como atriz, enquanto muitas outras mulheres em Daca precisam trabalhar em construções ou fábricas têxteis para sobreviver.

Rubaiyat Hossain não esconde que sua personagem pode ser um pouco mimada e mostra suas imperfeições várias vezes durante o longa. Em uma das cenas na casa da mãe de Roya, as duas discutem. Roya argumenta com a senhora que a vida de uma mulher não deve ser voltada somente ao marido e aos filhos. A mãe a confronta dizendo que ela mesma trabalhou para ganhar seu próprio dinheiro e que muitas outras mulheres de sua classe faziam e fazem a mesma coisa. “E você? Você tem boa educação, por que não consegue um emprego de verdade?”. Nesse momento, o mito da heroína que os espectadores viam em Roya se desmonta.

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Numa conversa com o público, após a exibição do filme, Rubaiyat explica o porquê de montar sua personagem dessa forma. “Acho que Roya representa a mulher bengalesa contemporânea. Muitas mulheres hoje em dia estão tendo esse tipo de conflito pessoal e com a tradição em Bangladesh em suas cabeças. Roya é uma mulher que está passando por um processo de construção, assim como outras mulheres em Bangladesh”, explica a diretora que escolheu o título “Under Construction” exatamente por isso.

Para a surpresa da jovem diretora, que fez Women Studies e South Asian Studies nos Estados Unidos, a recepção de seu filme foi muito positiva em Bangladesh, principalmente entre as mulheres. “Fizemos uma sessão só para mulheres em Daca e, no final do filme, muitas vieram até mim para dizer como tinham se identificado com Roya”, conta Rubaiyat. Claro que as críticas, principalmente da ala masculina, não deixaram de aparecer. Ela conta que a maioria dos homens saiu em defesa da personagem da mãe de Roya – uma mulher tradicional que trabalhou duro na vida e que acreditava que sua filha deveria se dedicar ao marido, a ter filhos e à religião.

Não é fácil ser mulher

A diretora foi questionada pela organizadora do evento, Karin Fornander, como era ser uma cineasta em Bangladesh. “Bom, não é difícil ser uma diretora mulher em Bangladesh, é difícil ser mulher em Bangladesh!”, respondeu. E isso fica bem claro no filme.

Além de toda a tradição machista que constantemente é jogada na cara de Roya, outras situações deixam bem claro o quão difícil é viver no país sul asiático como mulher. Nas primeiras cenas do filme, a jovem empregada Monya é assediada com assobios e palavras de um operário do prédio da frente, enquanto está dentro de casa, limpando a sacada. Em outro momento, Monya se vira para Roya e diz “você tem sorte de ter um bom marido. Ele não bate em você”. Só isso fazia dele um marido maravilhoso.

Mais adiante, outra referência à frequente violência doméstica sofrida por mulheres no país. Monya engravida e vai viver com o novo marido em um bairro muito pobre em Daca, onde Roya vai visitá-la. Enquanto conversam, as duas ouvem gritos e choros. “O vizinho bate na esposa todos os dias”, diz Monya.

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Violência contra mulheres é um caso mais sério em Bangladesh, sendo um dos países com alto número de vítimas femininas de ataques com ácido. Segundo a organização Acid Survivors Foundation, de 1999 até 2015 foram 3.303 casos registrados de ataques com ácido no país. Além disso, mulheres e meninas sofrem com casamentos precoces, violência e assédio sexual, condições inadequadas de trabalho para grávidas… Realmente não é fácil ser mulher por lá.

Bangladesh é lembrado pelo grande número de fábricas têxteis, em que a maior parte dos trabalhadores são mulheres. Segundo a Human Rights Watch, a maioria dos supervisores dessas fábricas são homens, que muitas vezes assediam as funcionárias com comentários de cunho sexual. Pela situação precária para trabalhadoras nessa indústria, seria impossível não fazer referência a ela no filme.

Em vários momentos, as fábricas têxteis aparecem em pano de fundo. Quando Roya caminha pelas ruas de Daca, ela vê homens indo em direção às construções e mulheres em direção às fábricas. No centro da cidade, se vê um anúncio com uma mulher em uma máquina de costura e os dizeres “Maiores colaboradores para a economia nacional”. Mas a referência mais importante é quando Roya está em casa e vê no noticiário o desespero das pessoas diante do colapso do Rana Plaza, tragédia que ocorreu no dia 24 de abril de 2013 e matou mais de 1,1 mil pessoas. Rubaiyat pegou cenas de notícias reais que saíram na época nos canais de TV.

Na minha opinião, a diretora quis, além de criticar tantos aspectos machistas de seu país, atingir o Ocidente, que tanto se beneficia do trabalho de milhares de mulheres nessas fábricas. É difícil não sentir um aperto no peito ao ver as personagens trabalhando em máquinas de costura e, logo depois, o Rana Plaza desmoronando com tantos funcionários lá dentro.

“Under Construction” me surpreendeu positivamente. Há tempos não via um filme que quase não me deixasse piscar diante da tela. Os gestos e expressões faciais de Roya revelam uma mulher em conflito e em um processo complexo de  reconstrução. As falas dos personagens, as situações e referências apresentam o machismo de uma cultura oriental que por vezes se assemelha e se afasta do machismo que conhecemos no Ocidente. Finalmente, o filme cumpre seu papel: dar voz às mulheres de Bangladesh.

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