Elza Soares: a deusa do samba em Berlim

Colagem digital por Bárbara Malagoli (Baby C)

Ontem paguei uma passagem de 1 Euro e 90 cents e fui de Berlim ao Brasil. Pelo menos foi essa a sensação ao entrar na casa de shows Huxleys Neue Welt, no bairro descolado de Kreuzberg. Foi ali que a deusa Elza Soares dominou o palco.

Antes do show já se ouvia só português na pista. Mesmo assim, o pessoal se atrapalhava na hora de usar palavras como “com licença” e “desculpa” para passar. Afinal, não é toda noite que se chega assim tão rápido ao Brasil. Mas entre o público majoritariamente brasileiro, claro que havia alguns estrangeiros.

Elza entrou de fininho. Confesso que nem percebi. Foi tudo muito discreto. Quando vi, Elza já estava ali sentada em uma cadeira prateada, segurando um microfone, com sua roupa toda preta, uma saia longa prateada que descia as escadas até a beira do palco, parecendo raízes. Aquele era o seu trono.

 

Foto do Instagram @elzasoaresoficial do show em Berlim
Foto do Instagram @elzasoaresoficial do show em Berlim
 
“A Mulher do Fim do Mundo” está sendo divulgado em sua turnê pela Europa. Primeiro cantou “Coração do Mar” e, em seguida, a música que dá nome ao seu novo álbum. Seguiu com o “Canal” e “Luz Vermelha” e depois dessas o público já estava bem aquecido. Já estávamos preparados para a força com que Elza nos atingiu ao cantar “a carne mais barata do mercado é a carne neeeegra”. Uma de suas antigas canções com letra muito atual. A cantora com mais de 50 anos de carreira finalizou a música com um “Sou Elza, sou negra, negra, negra!” .

 

Fotografia de Marcos Hermes/Divulgação
Fotografia de Marcos Hermes/Divulgação
 
“Dança” e “Firmeza”, também do novo álbum, foram as próximas e ao final da última, já se ouvia um “Fora Temer” vindo o público. O coro ficou forte por alguns segundos, mas logo passou quando Elza pediu silêncio para falar de um assunto muito sério. “Presta atenção, mulherada”, foi o que disse para emendar com a mais marcante de suas novas canções, a “Maria da Vila Matilde”. O subtítulo dessa música fala muito sobre ela: “Porque se a da Penha é brava, imagina a da Vila Matilde”.

Pra quem ainda não escutou, vou citar Elza e dizer “presta atenção, mulherada”. A letra é o enfrentamento corajoso de uma mulher com seu parceiro, em que ela diz o que vai fazer se ele a agredir. O refrão “Cê vai se arrepender, se levantar a mão pra mim” é a marca desse último álbum da musa do samba. Elza sabe disso e parece se orgulhar, pois fez o público cantar essa parte em alto e bom tom com ela. O coro de tantas mulheres dizendo isso passou um sentimento empoderador. E para completar esse momento, veio o conselho da Dona Elza a todas nós: “Mulheres, se liguem! Denunciem! Mulher tem que falar, tem que gritar, gritar, gritar. E gemer só se for de prazer”. Risadas, aplausos e gritos se espalharam pela pista.

Era o efeito Elza Soares no público, que tão longe de casa, se sentia de novo perto daquela brasilidade malandra e corajosa.

A próxima música trouxe uma surpresa. No palco entrou um homem de calça preta e uma camiseta marrom, caminhando, se contorcendo e parecendo confuso. Era o ator e cantor Rubi que acompanha a rainha na interpretação de “Benedita”, uma fera ferida que traz o cartucho na teta, abre a navalha na boca e tem uma dupla caceta. Rubi fazia caras e bocas para o público e ficava sério ao olhar para Elza, como se olhasse para um ser superior.

Depois dos agradecimentos de Elza por sua performance, Rubi deitou a cabeça no colo da cantora. Ela passou a mão em sua cabeça e disse “deixa eu te secar que você está todo molhadinho”, arrancando mais risadas dos brasileiros, únicos que entenderam a piada. Quando a explosão de risos terminou, Elza olhou para Rubi: “Vou te contar uma história…”.

Veio o sambinha “Malandro”, mais uma de suas antigas músicas. Nisso, já estava arriscando uns passinhos de samba. Eu e o pessoal ao meu redor.

Rubi se levantou ao final da música e beijou a mão de Elza. Com ele, todos os músicos se levantaram e se colocaram em volta da cantora. Em postos, de pernas semiabertas e braços ao lado do corpo, pareciam ser seus seguidores. Seus súditos. Elza no meio cantou à capela “Comigo”, em que fala de sua mãe. Para completar o momento que deixou muitos calados na plateia, foi recitado o poema de Murilo Mendes, “Metade Pássaro”, de 1941:

 
A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas. (…)

 

Alguns achavam que esse seria o grand finale de uma noite cheia de emoções. Mas ela não poderia sair antes de dizer o que muitos de nós precisavam ouvir em meio a tanta desesperança com a intolerância que se espalha no mundo (com Temer, Trump e partidos de direita radical que crescem na Alemanha)… “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

 
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Após um bis de “Maria da Vila Matilde”, em que todo mundo cantou junto de novo o refrão, a cantora deixou o palco com onda de aplausos e gritos de “Elza maravilhosa!”.

 

Fotografia: Paolo Giron
Fotografia: Paolo Giron
 
No dia anterior ao show, tive a oportunidade de ver Elza de pertinho depois da exibição do filme “My Name is Now”, um documentário da diretora Elisabete Campos. O longa não se baseia tanto na vida de Elza – sofrida depois de se casar aos 12 anos, ser chamada nacionalmente de “vadia” por seu relacionamento com Garrincha e perder cinco filhos –, mas na personalidade e música. Elza diz no filme que comeu o pão que o diabo amassou com os pés e, mesmo assim, está aqui, vivendo o agora.

Na Embaixada Brasileira em Berlim, a cantora de 78 anos se dispôs a tirar fotos com os espectadores depois do filme. Sentadinha em uma cadeira, sem se mexer muito e falando até meio baixo, Elza parecia uma senhora tranquila. Não parecia aquele furacão de mulher que vi no documentário. Mas no palco, Elza Soares é outra coisa. Me surpreendeu. Ali, ela estava onde deveria estar. A voz rouca entoada no microfone desperta o furacão. Mesmo fazendo o show sentada, Elza domina o palco, a pista, o público. É uma verdadeira deusa.

 

 

Escrito por
Mais de Débora Backes

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