Imagine esta cena: você está andando na rua quando um estranho passa, estica a perna e faz você tropeçar. O que você está fazendo, você pergunta. Não é certo fazer as pessoas tropeçarem no meio da rua. Nossa, responde o estranho, percebo que as minhas ações fizeram parecer que sou uma pessoa que tropeça os outros na rua, mas prometo que essa nunca foi minha intenção. Eu sinto muito. Vou refletir a respeito disso, diz o estranho. E então ele vira e vai embora, deixando você estatelada no meio da rua.
Imagine esta cena: uma atriz brasileira extremamente conhecida escreve um texto a respeito de feminismo. Nesse texto, ela põe que a mulher só estará verdadeiramente livre do machismo quando ela mesma chegar ao glorioso nível conhecido como “ser homem”. Além dessa asneira grotesca, ela ainda por cima descreve sua babá negra como uma “mulata mineira que causava furor por onde passasse”, sendo ‘elevada’ pelos homens “uivando, ganindo, gemendo nas obras”. Alguns dias depois a atriz brasileira extremamente conhecida publica um “Mea culpa”, assumindo, mas não explicando, o racismo e machismo de seu texto. Meses antes desse acontecimento, uma campanha de homens assumindo a culpa do machismo deles intitulada “Mea culpa” ganhou espaço na mídia e nas redes sociais.
Imagine esta cena: uma produtora que trabalha para um museu de grande relevância cultural em São Paulo tem seu corpo violado por parte de um dos integrantes do coletivo de fotografia que irá expor no dito museu. Enquanto ela pousava para uma foto, o agressor se sentiu no direito de passar a mão no peito dela. Depois da agressão, o coletivo, o museu e a produtora se reúnem para deliberar a respeito do ocorrido, e chegam ao acordo de que o agressor não poderá atender à abertura da exposição, mas, honrando seu nome de agressor, ele aparece mesmo assim. O coletivo então (só então) publica uma carta aberta onde dizem rechaçar “qualquer atitude preconceituosa, racista, homofóbica e machista”. Não se pronunciam a respeito de terem escolhido manter o fotógrafo no coletivo.
Esse texto não tem como objetivo criticar ainda mais o texto que a Fernanda Torres publicou no espaço #AgoraÉQueSãoElas ou o acontecido com o coletivo de fotografia SelvaSP na ocasião de sua exposição no MIS, ou falar sobre os inúmeros casos públicos de machismo no nosso dia a dia. Alguém percebeu uma semelhança entre os três exemplos acima? Em todos eles, vemos uma situação onde o agressor poderia ter ajudado a vítima, mas escolhe em vez disso “assumir a culpa” e seguir em frente, feliz e satisfeito com o fato de que deixou claro para tudo e todos que rechaça atitudes machistas, racistas e homofóbicas (insira aqui os seus aplausos). A diferença? O primeiro exemplo é inventado, os outros podem ser encontrados facinho facinho a um clique de distância. São só dois exemplos, mas eu poderia ter enchido a tela.
Tenho ficado um pouco preocupada ultimamente. Quando li a respeito do ocorrido entre o coletivo SelvaSP e a produtora do MIS, corri para a página deles para ver se eles tinham se pronunciado. Haviam sim, mas honestamente? Grandes bostas. Somos contra o machismo e homofobia? Que ótimo queridos, fico muito grata. Agora, vocês estão conscientemente escolhendo manter o seu nome afiliado a um fotógrafo acusado de assédio sexual. Vocês têm todo o direito de fazer essa escolha, mas se vocês de fato estão comprometidos a refletir, como dizem em sua carta aberta, convêm explicar o raciocínio por trás dessa escolha. A mesma coisa vale para a carta da Fernanda Torres. Fico muitíssimo feliz que ela se prontificou em colocar o quanto lhe foi elucidado que ela de fato estava sendo machista e racista. Porém. Porém. Não convêm agora usar o amplo espaço de fala dela, não para explicar que ela nunca teve a intenção de ser machista, mas sim para explicar o porquê de sua fala ser considerada machista e racista? De explicar porque você não pode sensualizar o assédio da sua babá negra? Explicar que mulheres negras têm sido sujeitas a objetificação e sexualização em um nível infinitamente maior que mulheres brancas, e que isso data desde a época da colonização quando as mulheres negras eram estupradas pelos colonizadores? O ideal não seria usar esse espaço de fala para ensinar, educar, ajudar aqueles que você expôs ao seu racismo e machismo naturalizado? Usar esse espaço, não para garantir a todos que foi sem querer, mas para mostrar o que você aprendeu quando aprendeu que o que você falou foi errado, e contribuir para que outros não cometam o mesmo erro que você?
Eu escolhi usar esses dois exemplos mas tenho uma lista infinita de escolhas na ponta dos dedos. Com a popularização e aceitação midiática maior dos movimentos sociais temos observado uma movimentação interessante do mercado, a do abraçar a causa. Temos propagandas abraçando o feminismo, programas de televisão, revistas. Temos pessoas que cobram, e por conta dessas pessoas temos grandes artistas de televisão que se sentem pressionados o suficiente a escrever uma carta de retratação. E é ai que entra a segunda parte do que tem me incomodado.
Ninguém nasceu desconstruído, nem eu nem você, e precisamos ajudar os outros a desconstruir também. Mas isso não significa se contentar com migalhas e bater palmas quando alguém assume o óbvio.
Nos dois casos que eu citei, o que mais me surpreendeu, a razão por eu ter escolhido eles como exemplos, foi a resposta do público após a divulgação dos pedidos de desculpas. Qual foi a minha surpresa em ver comentários na página do coletivo de fotografia exaltando a coragem deles de terem publicado uma retratação. O alívio no suspiro coletivo das pessoas ao lerem a carta de “Mea Culpa” da Fernanda Torres. Ufa, pensamos coletivamente, acho que no fim das contas ela não era racista. Que sorte. Eu gostava tanto dela.
Precisamos exigir mais de nossos ofensores acidentais. Sim, que bom que a Fernanda Torres pediu desculpas. Mas, honestamente? É o mínimo do mínimo. E fazer uma carta falando que sente muito e não parar para levantar a pessoa que derrubou no chão – isso é inaceitável. E está na hora de tomarmos isso como inaceitável. Como preguiçoso, como trabalho dúbio. Sim, precisamos ter flexibilidade, ter paciência, dedicação, vontade de educar. Ninguém nasceu desconstruído, nem eu nem você, e precisamos ajudar os outros a desconstruir também. Mas isso não significa se contentar com migalhas e bater palmas quando alguém assume o óbvio. Significa cobrar mais, significa exigir aquilo que nos é devido: não pedidos-de-desculpas-panos-quentes pra livrar sua barra com as feministas, mas sim ações engajadas, que de fato promovam mudanças nos danos causados pelas suas ações. Não é impossível, tivemos um exemplo muito bom disso com a carta aberta da sorveteria Me Gusta, depois de um caso de homofobia praticado por um funcionário no ano passado. A sorveteria não só assumiu responsabilidade pelo ocorrido, como se responsabilizou por educar os funcionários a respeito de homofobia e promoveu um beijaço LGBT na própria sorveteria. Uma curiosidade importante: o gerente de comunicação da sorveteria é gay. Não é a toa que estavam preparados para remediar o mal que foi causado em seu estabelecimento.
Chega de pedidos meia-boca de desculpa. Chega de falta de comprometimento na hora de remediar o que o seu “acidente” causou. Somos muitas. É não é de migalhas que uma multidão sobrevive.
Imagine esta cena: você está andando na rua quando um estranho passa, estica a perna e faz você tropeçar. O que você está fazendo, você pergunta. Não é certo fazer as pessoas tropeçarem no meio da rua. Nossa, responde o estranho, percebo que as minhas ações fizeram parecer que sou uma pessoa que tropeça os outros na rua, mas prometo que essa nunca foi minha intenção. Eu sinto muito. Vou refletir a respeito disso, diz o estranho. E então ele vira e vai embora, deixando você estatelada no meio da rua.
Imagine esta cena: uma atriz brasileira extremamente conhecida escreve um texto a respeito de feminismo. Nesse texto, ela põe que a mulher só estará verdadeiramente livre do machismo quando ela mesma chegar ao glorioso nível conhecido como “ser homem”. Além dessa asneira grotesca, ela ainda por cima descreve sua babá negra como uma “mulata mineira que causava furor por onde passasse”, sendo ‘elevada’ pelos homens “uivando, ganindo, gemendo nas obras”. Alguns dias depois a atriz brasileira extremamente conhecida publica um “Mea culpa”, assumindo, mas não explicando, o racismo e machismo de seu texto. Meses antes desse acontecimento, uma campanha de homens assumindo a culpa do machismo deles intitulada “Mea culpa” ganhou espaço na mídia e nas redes sociais.
Imagine esta cena: uma produtora que trabalha para um museu de grande relevância cultural em São Paulo tem seu corpo violado por parte de um dos integrantes do coletivo de fotografia que irá expor no dito museu. Enquanto ela pousava para uma foto, o agressor se sentiu no direito de passar a mão no peito dela. Depois da agressão, o coletivo, o museu e a produtora se reúnem para deliberar a respeito do ocorrido, e chegam ao acordo de que o agressor não poderá atender à abertura da exposição, mas, honrando seu nome de agressor, ele aparece mesmo assim. O coletivo então (só então) publica uma carta aberta onde dizem rechaçar “qualquer atitude preconceituosa, racista, homofóbica e machista”. Não se pronunciam a respeito de terem escolhido manter o fotógrafo no coletivo.
Esse texto não tem como objetivo criticar ainda mais o texto que a Fernanda Torres publicou no espaço #AgoraÉQueSãoElas ou o acontecido com o coletivo de fotografia SelvaSP na ocasião de sua exposição no MIS, ou falar sobre os inúmeros casos públicos de machismo no nosso dia a dia. Alguém percebeu uma semelhança entre os três exemplos acima? Em todos eles, vemos uma situação onde o agressor poderia ter ajudado a vítima, mas escolhe em vez disso “assumir a culpa” e seguir em frente, feliz e satisfeito com o fato de que deixou claro para tudo e todos que rechaça atitudes machistas, racistas e homofóbicas (insira aqui os seus aplausos). A diferença? O primeiro exemplo é inventado, os outros podem ser encontrados facinho facinho a um clique de distância. São só dois exemplos, mas eu poderia ter enchido a tela.
Tenho ficado um pouco preocupada ultimamente. Quando li a respeito do ocorrido entre o coletivo SelvaSP e a produtora do MIS, corri para a página deles para ver se eles tinham se pronunciado. Haviam sim, mas honestamente? Grandes bostas. Somos contra o machismo e homofobia? Que ótimo queridos, fico muito grata. Agora, vocês estão conscientemente escolhendo manter o seu nome afiliado a um fotógrafo acusado de assédio sexual. Vocês têm todo o direito de fazer essa escolha, mas se vocês de fato estão comprometidos a refletir, como dizem em sua carta aberta, convêm explicar o raciocínio por trás dessa escolha. A mesma coisa vale para a carta da Fernanda Torres. Fico muitíssimo feliz que ela se prontificou em colocar o quanto lhe foi elucidado que ela de fato estava sendo machista e racista. Porém. Porém. Não convêm agora usar o amplo espaço de fala dela, não para explicar que ela nunca teve a intenção de ser machista, mas sim para explicar o porquê de sua fala ser considerada machista e racista? De explicar porque você não pode sensualizar o assédio da sua babá negra? Explicar que mulheres negras têm sido sujeitas a objetificação e sexualização em um nível infinitamente maior que mulheres brancas, e que isso data desde a época da colonização quando as mulheres negras eram estupradas pelos colonizadores? O ideal não seria usar esse espaço de fala para ensinar, educar, ajudar aqueles que você expôs ao seu racismo e machismo naturalizado? Usar esse espaço, não para garantir a todos que foi sem querer, mas para mostrar o que você aprendeu quando aprendeu que o que você falou foi errado, e contribuir para que outros não cometam o mesmo erro que você?
Eu escolhi usar esses dois exemplos mas tenho uma lista infinita de escolhas na ponta dos dedos. Com a popularização e aceitação midiática maior dos movimentos sociais temos observado uma movimentação interessante do mercado, a do abraçar a causa. Temos propagandas abraçando o feminismo, programas de televisão, revistas. Temos pessoas que cobram, e por conta dessas pessoas temos grandes artistas de televisão que se sentem pressionados o suficiente a escrever uma carta de retratação. E é ai que entra a segunda parte do que tem me incomodado.
Ninguém nasceu desconstruído, nem eu nem você, e precisamos ajudar os outros a desconstruir também. Mas isso não significa se contentar com migalhas e bater palmas quando alguém assume o óbvio.
Nos dois casos que eu citei, o que mais me surpreendeu, a razão por eu ter escolhido eles como exemplos, foi a resposta do público após a divulgação dos pedidos de desculpas. Qual foi a minha surpresa em ver comentários na página do coletivo de fotografia exaltando a coragem deles de terem publicado uma retratação. O alívio no suspiro coletivo das pessoas ao lerem a carta de “Mea Culpa” da Fernanda Torres. Ufa, pensamos coletivamente, acho que no fim das contas ela não era racista. Que sorte. Eu gostava tanto dela.
Precisamos exigir mais de nossos ofensores acidentais. Sim, que bom que a Fernanda Torres pediu desculpas. Mas, honestamente? É o mínimo do mínimo. E fazer uma carta falando que sente muito e não parar para levantar a pessoa que derrubou no chão – isso é inaceitável. E está na hora de tomarmos isso como inaceitável. Como preguiçoso, como trabalho dúbio. Sim, precisamos ter flexibilidade, ter paciência, dedicação, vontade de educar. Ninguém nasceu desconstruído, nem eu nem você, e precisamos ajudar os outros a desconstruir também. Mas isso não significa se contentar com migalhas e bater palmas quando alguém assume o óbvio. Significa cobrar mais, significa exigir aquilo que nos é devido: não pedidos-de-desculpas-panos-quentes pra livrar sua barra com as feministas, mas sim ações engajadas, que de fato promovam mudanças nos danos causados pelas suas ações. Não é impossível, tivemos um exemplo muito bom disso com a carta aberta da sorveteria Me Gusta, depois de um caso de homofobia praticado por um funcionário no ano passado. A sorveteria não só assumiu responsabilidade pelo ocorrido, como se responsabilizou por educar os funcionários a respeito de homofobia e promoveu um beijaço LGBT na própria sorveteria. Uma curiosidade importante: o gerente de comunicação da sorveteria é gay. Não é a toa que estavam preparados para remediar o mal que foi causado em seu estabelecimento.
Chega de pedidos meia-boca de desculpa. Chega de falta de comprometimento na hora de remediar o que o seu “acidente” causou. Somos muitas. É não é de migalhas que uma multidão sobrevive.
Ilustração feita com exclusividade por Natália Schiavon
Imagine esta cena: você está andando na rua quando um estranho passa, estica a perna e faz você tropeçar. O que você está fazendo, você pergunta. Não é certo fazer as pessoas tropeçarem no meio da rua. Nossa, responde o estranho, percebo que as minhas ações fizeram parecer que sou uma pessoa que tropeça os outros na rua, mas prometo que essa nunca foi minha intenção. Eu sinto muito. Vou refletir a respeito disso, diz o estranho. E então ele vira e vai embora, deixando você estatelada no meio da rua.
Imagine esta cena: uma atriz brasileira extremamente conhecida escreve um texto a respeito de feminismo. Nesse texto, ela põe que a mulher só estará verdadeiramente livre do machismo quando ela mesma chegar ao glorioso nível conhecido como “ser homem”. Além dessa asneira grotesca, ela ainda por cima descreve sua babá negra como uma “mulata mineira que causava furor por onde passasse”, sendo ‘elevada’ pelos homens “uivando, ganindo, gemendo nas obras”. Alguns dias depois a atriz brasileira extremamente conhecida publica um “Mea culpa”, assumindo, mas não explicando, o racismo e machismo de seu texto. Meses antes desse acontecimento, uma campanha de homens assumindo a culpa do machismo deles intitulada “Mea culpa” ganhou espaço na mídia e nas redes sociais.
Imagine esta cena: uma produtora que trabalha para um museu de grande relevância cultural em São Paulo tem seu corpo violado por parte de um dos integrantes do coletivo de fotografia que irá expor no dito museu. Enquanto ela pousava para uma foto, o agressor se sentiu no direito de passar a mão no peito dela. Depois da agressão, o coletivo, o museu e a produtora se reúnem para deliberar a respeito do ocorrido, e chegam ao acordo de que o agressor não poderá atender à abertura da exposição, mas, honrando seu nome de agressor, ele aparece mesmo assim. O coletivo então (só então) publica uma carta aberta onde dizem rechaçar “qualquer atitude preconceituosa, racista, homofóbica e machista”. Não se pronunciam a respeito de terem escolhido manter o fotógrafo no coletivo.
Esse texto não tem como objetivo criticar ainda mais o texto que a Fernanda Torres publicou no espaço #AgoraÉQueSãoElas ou o acontecido com o coletivo de fotografia SelvaSP na ocasião de sua exposição no MIS, ou falar sobre os inúmeros casos públicos de machismo no nosso dia a dia. Alguém percebeu uma semelhança entre os três exemplos acima? Em todos eles, vemos uma situação onde o agressor poderia ter ajudado a vítima, mas escolhe em vez disso “assumir a culpa” e seguir em frente, feliz e satisfeito com o fato de que deixou claro para tudo e todos que rechaça atitudes machistas, racistas e homofóbicas (insira aqui os seus aplausos). A diferença? O primeiro exemplo é inventado, os outros podem ser encontrados facinho facinho a um clique de distância. São só dois exemplos, mas eu poderia ter enchido a tela.
Tenho ficado um pouco preocupada ultimamente. Quando li a respeito do ocorrido entre o coletivo SelvaSP e a produtora do MIS, corri para a página deles para ver se eles tinham se pronunciado. Haviam sim, mas honestamente? Grandes bostas. Somos contra o machismo e homofobia? Que ótimo queridos, fico muito grata. Agora, vocês estão conscientemente escolhendo manter o seu nome afiliado a um fotógrafo acusado de assédio sexual. Vocês têm todo o direito de fazer essa escolha, mas se vocês de fato estão comprometidos a refletir, como dizem em sua carta aberta, convêm explicar o raciocínio por trás dessa escolha. A mesma coisa vale para a carta da Fernanda Torres. Fico muitíssimo feliz que ela se prontificou em colocar o quanto lhe foi elucidado que ela de fato estava sendo machista e racista. Porém. Porém. Não convêm agora usar o amplo espaço de fala dela, não para explicar que ela nunca teve a intenção de ser machista, mas sim para explicar o porquê de sua fala ser considerada machista e racista? De explicar porque você não pode sensualizar o assédio da sua babá negra? Explicar que mulheres negras têm sido sujeitas a objetificação e sexualização em um nível infinitamente maior que mulheres brancas, e que isso data desde a época da colonização quando as mulheres negras eram estupradas pelos colonizadores? O ideal não seria usar esse espaço de fala para ensinar, educar, ajudar aqueles que você expôs ao seu racismo e machismo naturalizado? Usar esse espaço, não para garantir a todos que foi sem querer, mas para mostrar o que você aprendeu quando aprendeu que o que você falou foi errado, e contribuir para que outros não cometam o mesmo erro que você?
Eu escolhi usar esses dois exemplos mas tenho uma lista infinita de escolhas na ponta dos dedos. Com a popularização e aceitação midiática maior dos movimentos sociais temos observado uma movimentação interessante do mercado, a do abraçar a causa. Temos propagandas abraçando o feminismo, programas de televisão, revistas. Temos pessoas que cobram, e por conta dessas pessoas temos grandes artistas de televisão que se sentem pressionados o suficiente a escrever uma carta de retratação. E é ai que entra a segunda parte do que tem me incomodado.
Ninguém nasceu desconstruído, nem eu nem você, e precisamos ajudar os outros a desconstruir também. Mas isso não significa se contentar com migalhas e bater palmas quando alguém assume o óbvio.
Nos dois casos que eu citei, o que mais me surpreendeu, a razão por eu ter escolhido eles como exemplos, foi a resposta do público após a divulgação dos pedidos de desculpas. Qual foi a minha surpresa em ver comentários na página do coletivo de fotografia exaltando a coragem deles de terem publicado uma retratação. O alívio no suspiro coletivo das pessoas ao lerem a carta de “Mea Culpa” da Fernanda Torres. Ufa, pensamos coletivamente, acho que no fim das contas ela não era racista. Que sorte. Eu gostava tanto dela.
Precisamos exigir mais de nossos ofensores acidentais. Sim, que bom que a Fernanda Torres pediu desculpas. Mas, honestamente? É o mínimo do mínimo. E fazer uma carta falando que sente muito e não parar para levantar a pessoa que derrubou no chão – isso é inaceitável. E está na hora de tomarmos isso como inaceitável. Como preguiçoso, como trabalho dúbio. Sim, precisamos ter flexibilidade, ter paciência, dedicação, vontade de educar. Ninguém nasceu desconstruído, nem eu nem você, e precisamos ajudar os outros a desconstruir também. Mas isso não significa se contentar com migalhas e bater palmas quando alguém assume o óbvio. Significa cobrar mais, significa exigir aquilo que nos é devido: não pedidos-de-desculpas-panos-quentes pra livrar sua barra com as feministas, mas sim ações engajadas, que de fato promovam mudanças nos danos causados pelas suas ações. Não é impossível, tivemos um exemplo muito bom disso com a carta aberta da sorveteria Me Gusta, depois de um caso de homofobia praticado por um funcionário no ano passado. A sorveteria não só assumiu responsabilidade pelo ocorrido, como se responsabilizou por educar os funcionários a respeito de homofobia e promoveu um beijaço LGBT na própria sorveteria. Uma curiosidade importante: o gerente de comunicação da sorveteria é gay. Não é a toa que estavam preparados para remediar o mal que foi causado em seu estabelecimento.
Chega de pedidos meia-boca de desculpa. Chega de falta de comprometimento na hora de remediar o que o seu “acidente” causou. Somos muitas. É não é de migalhas que uma multidão sobrevive.
Esse texto ia começar como um texto sobre #meuamigosecreto. Eu ainda não participei da campanha, inicialmente porque sei que as pessoas para quem eu mandaria isso nunca iriam ler já que não as tenho na minha timeline faz tempo, mas provavelmente também por receio de abrir a caixinha chamada LEMBRANÇAS REPRIMIDAS QUE EU AINDA NÃO DIGERI que ocupa um espaço bem confortável na prateleira infinita chamada minha memória. Estou achando um movimento lindo, como acho lindos todos os movimentos que mostram que unidasvenceremos. O silêncio não reina mais entre as mulheres.
Lembro quando eu era nova, quando comecei a ser assediada na rua. O que mais me choca, mais do que os assédios terem acontecido, é o silencio que os rodeava/rodeia. Se você tem quatorze anos, passa na rua e um homem te chama de gostosa, você obviamente não é a única pessoa que ouviu. Mas ninguém fala nada. Pelo menos, era assim quando eu era mais nova. E não é só esse silêncio. Era o silêncio na minha casa também. Em casa somos eu e minha irmã, mas ninguém nunca veio falar a respeito de assédio com a gente (tirando um episódio infortúnio onde eu, já com vinte anos, fui censurada por usar um shorts na rua à noite já que “você não é mais criança”. Como se ser criança defendesse alguém de alguma coisa). Minha mãe nunca nos preparou para o que estava vindo da rua, do mesmo jeito que tenho certeza de que ela nunca foi preparada, e a minha vó, antes dela, também não. Eu e minha irmã nunca falamos entre nós sobre o que passamos nas calçadas, nas salas de aula, na aula de violino, no táxi. Eu tinha apenas uma amiga que falava sobre isso, uma menina que eu admiro muito e que era considerada uma vadia por todos ao nosso redor, inclusive pela família dela, por ser a única corajosa o suficiente para encarnar sua sexualidade. O silêncio nos cobre feito um manto, criando um arquipélago de mulheres, separadas por litros e litros de tudo aquilo que não dissemos. Que não dissemos uma para a outra, que não dissemos para o nosso agressor.
A primeira vez que me ocorreu que eu não precisava ficar em silêncio foi quando tinha vinte e dois anos e conheci uma das minhas heroínas da vida real, uma mulher que tenho a honra de chamar de amiga. A gente havia marcado de se encontrar em pinheiros, e quando eu cheguei no lugar marcado telefonei para ela para perguntar se ela estava chegando. Sua voz flutuou para mim do outro lado da linha “To chegan… QUE FOI?? QUE FOI??!!”. Me pediu licença e desligou o telefone. Quando ela chegou, fui correndo ver o que era, achava que ela tinha sido atropelada. Lembro até hoje o sorriso leve que ela me deu, como se estivesse falando sobre qualquer outra coisa, “Ah, nada, era só uns caras que tavam olhando para mim”.
Eu nunca vi uma mulher gritando com um tarado machista na rua – mas sei de muitas que o fazem. Inclusive, atualmente sou uma delas. Toda vez que meu coração pesa na hora de gritar, lembro da Barbara de quatorze anos, e como a vida dela teria sido diferente se um dia, voltando para a casa da escola, ela tivesse ouvindo uma mulher gritando com um tarado, mostrando para ele que quem estava errado era ele, não ela, não ela por estar na rua, por ser mulher e estar na rua. Talvez um dia uma menina de quatorze anos me veja gritando e saiba que ela não precisa ficar em silêncio.
Tenho muito orgulho das meninas de hoje em dia. São meninas de dezenove, quatorze, doze anos que não estão mais aqui para ser saco de pancadas. Elas gritam mesmo, elas apontam mesmo. Vi menina nova questionando imposição da ditadura de beleza branca, restrições de roupa, machismo na sala de aula, tudo. Meninas que gritam mesmo, não só com tarado na rua, mas com o patriarcado. Meninas liderando ocupações nas escolas paulistanas. Meninas cantando que duro é o seu racismo, não o cabelo delas. Meninas que andam na rua de mãos dadas com a namorada. O orgulho é tanto, nem cabe no peito. As coisas estão mudando. Estamos lentamente secando a água a nossa volta, construindo pontes entre nossas ilhas, entendendo que na verdade não somos ilhas porcaria nenhuma, somos é um continente inteiro, os homens que nos aguardem. Somos muitas e viemos armadas, e não vamos mais pedir o que é nosso por direito, vamos tomar das suas mãos com tudo que temos. Antes eu estava sozinha mas agora encontro voz nas minhas irmãs, e espero com todo o meu coração que algumas delas consigam encontrar voz em mim.
Enquanto isso, enquanto ouço as mulheres acordando à minha volta, milhares de pequenas vozes que se juntam e crescem e urram, que hoje começam delatando pelo #meuamigosecreto e amanhã estarão dando nome aos bois e arrastando para praça pública, entendo também que é só com o canto delas que consigo rasgar o silêncio que ainda reina em mim. Porque ele ainda reina, e reina soberbo… Talvez a razão principal pela qual não tenha conseguido participar do #meuamigosecreto seja que eu sei muito bem quem é o meu…
#Meuamigosecreto sou eu.
Sou eu toda vez que me calo perante um agressor.
Sou eu toda vez que deixo o medo do estupro me impedir de lutar pelo que eu acredito.
Sou eu toda vez que deixo o medo de estupro impedir uma amiga corajosa de lutar pelo que ela acredita.
Sou eu toda vez que deixo passar porque estou cansada de lutar.
Sou eu toda vez que esqueço uma irmã, quando me deixo cair nas picuinhas do dia a dia.
Sou eu toda vez que deixo o patriarcado vencer, quando deixo ele me convencer de que eu não tenho força, quando deixo ele me convencer de que eu nunca, nunca, nunca serei o suficiente.
Agora chega de silêncio.
E você, homem, que achou que a gente ia passar o resto das nossas vidas olhando para o chão enquanto você abusa da gente, é pra ficar com medo sim. Somos muitas, e nosso grito vai rasgar a sua carne.
Ilustração feita com exclusividade por Janis Souza.
criticar ainda mais o texto que a Fernanda Torres publicou no espaço #AgoraÉQueSãoElas ou o acontecido com o coletivo de fotografia SelvaSP na ocasião de sua exposição no MIS, ou falar sobre os inúmeros casos públicos de machismo no nosso dia a dia. Alguém percebeu uma semelhança entre os três exemplos acima? Em todos eles, vemos uma situação onde o agressor poderia ter ajudado a vítima, mas escolhe em vez disso “assumir a culpa” e seguir em frente, feliz e satisfeito com o fato de que deixou claro para tudo e todos que rechaça atitudes machistas, racistas e homofóbicas (insira aqui os seus aplausos). A diferença? O primeiro exemplo é inventado, os outros podem ser encontrados facinho facinho a um clique de distância. São só dois exemplos, mas eu poderia ter enchido a tela.
Tenho ficado um pouco preocupada ultimamente. Quando li a respeito do ocorrido entre o coletivo SelvaSP e a produtora do MIS, corri para a página deles para ver se eles tinham se pronunciado. Haviam sim, mas honestamente? Grandes bostas. Somos contra o machismo e homofobia? Que ótimo queridos, fico muito grata. Agora, vocês estão conscientemente escolhendo manter o seu nome afiliado a um fotógrafo acusado de assédio sexual. Vocês têm todo o direito de fazer essa escolha, mas se vocês de fato estão comprometidos a refletir, como dizem em sua carta aberta, convêm explicar o raciocínio por trás dessa escolha. A mesma coisa vale para a carta da Fernanda Torres. Fico muitíssimo feliz que ela se prontificou em colocar o quanto lhe foi elucidado que ela de fato estava sendo machista e racista. Porém. Porém. Não convêm agora usar o amplo espaço de fala dela, não para explicar que ela nunca teve a intenção de ser machista, mas sim para explicar o porquê de sua fala ser considerada machista e racista? De explicar porque você não pode sensualizar o assédio da sua babá negra? Explicar que mulheres negras têm sido sujeitas a objetificação e sexualização em um nível infinitamente maior que mulheres brancas, e que isso data desde a época da colonização quando as mulheres negras eram estupradas pelos colonizadores? O ideal não seria usar esse espaço de fala para ensinar, educar, ajudar aqueles que você expôs ao seu racismo e machismo naturalizado? Usar esse espaço, não para garantir a todos que foi sem querer, mas para mostrar o que você aprendeu quando aprendeu que o que você falou foi errado, e contribuir para que outros não cometam o mesmo erro que você?
Eu escolhi usar esses dois exemplos mas tenho uma lista infinita de escolhas na ponta dos dedos. Com a popularização e aceitação midiática maior dos movimentos sociais temos observado uma movimentação interessante do mercado, a do abraçar a causa. Temos propagandas abraçando o feminismo, programas de televisão, revistas. Temos pessoas que cobram, e por conta dessas pessoas temos grandes artistas de televisão que se sentem pressionados o suficiente a escrever uma carta de retratação. E é ai que entra a segunda parte do que tem me incomodado.
Ninguém nasceu desconstruído, nem eu nem você, e precisamos ajudar os outros a desconstruir também. Mas isso não significa se contentar com migalhas e bater palmas quando alguém assume o óbvio.
Nos dois casos que eu citei, o que mais me surpreendeu, a razão por eu ter escolhido eles como exemplos, foi a resposta do público após a divulgação dos pedidos de desculpas. Qual foi a minha surpresa em ver comentários na página do coletivo de fotografia exaltando a coragem deles de terem publicado uma retratação. O alívio no suspiro coletivo das pessoas ao lerem a carta de “Mea Culpa” da Fernanda Torres. Ufa, pensamos coletivamente, acho que no fim das contas ela não era racista. Que sorte. Eu gostava tanto dela.
Precisamos exigir mais de nossos ofensores acidentais. Sim, que bom que a Fernanda Torres pediu desculpas. Mas, honestamente? É o mínimo do mínimo. E fazer uma carta falando que sente muito e não parar para levantar a pessoa que derrubou no chão – isso é inaceitável. E está na hora de tomarmos isso como inaceitável. Como preguiçoso, como trabalho dúbio. Sim, precisamos ter flexibilidade, ter paciência, dedicação, vontade de educar. Ninguém nasceu desconstruído, nem eu nem você, e precisamos ajudar os outros a desconstruir também. Mas isso não significa se contentar com migalhas e bater palmas quando alguém assume o óbvio. Significa cobrar mais, significa exigir aquilo que nos é devido: não pedidos-de-desculpas-panos-quentes pra livrar sua barra com as feministas, mas sim ações engajadas, que de fato promovam mudanças nos danos causados pelas suas ações. Não é impossível, tivemos um exemplo muito bom disso com a carta aberta da sorveteria Me Gusta, depois de um caso de homofobia praticado por um funcionário no ano passado. A sorveteria não só assumiu responsabilidade pelo ocorrido, como se responsabilizou por educar os funcionários a respeito de homofobia e promoveu um beijaço LGBT na própria sorveteria. Uma curiosidade importante: o gerente de comunicação da sorveteria é gay. Não é a toa que estavam preparados para remediar o mal que foi causado em seu estabelecimento.
Chega de pedidos meia-boca de desculpa. Chega de falta de comprometimento na hora de remediar o que o seu “acidente” causou. Somos muitas. É não é de migalhas que uma multidão sobrevive.