“Porque você fez isso no cabelo? Você quer ser negra?”. A pergunta foi feita por um amigo da família, em pleno almoço de Natal, e fez com que as atenções na mesa se voltassem para mim, pois todos realmente esperavam entender meu novo cabelo.
Há dias eu estava respondendo perguntas inconvenientes, uma pessoa até havia cheirado a minha cabeça para tirar uma dúvida crucial: “será que fede?”.
Apesar do constrangimento, me dei o trabalho de responder: “eu sou negra”. É que eu pensei que o assunto se encerraria com esta afirmação, mas, aparentemente, haviam mais argumentos contra isso. “Eu lembro que sua mãe cuidava do seu cabelo quando você era pequena. Depois você alisou e ficou parecendo uma mocinha comportada. E, agora que estávamos nos acostumando com aquele outro cabelo (ele estava se referindo ao meu black power, meu cabelo natural), você vai e faz isso”.
Isso que o colega inconveniente estava apontando eram minhas box braids (ou tranças sintéticas), que eu fiz dias antes do Natal. É possível utilizar as tranças por até três meses e eu fiz em dezembro pensando em aproveitá-las durante o verão para facilitar com os cuidados em época na praia, piscina e em viagens. Depois desse período, voltei a utilizar meu cabelo afro natural, como antes.
As tranças foram popularizadas no Brasil lá pelos anos 90, época em que eram conhecidas como “tranças canecalon” e também se usava muito a trança nagô. Mas na verdade, canecalon é o nome de uma das muitas marcas que fabricam o cabelo sintético utilizado para trançar. No meu caso, escolhi um tipo mais leve, chamado jumbo.
As braids são muito bonitas e estilosas sim, por isso ajudam também a elevar a auto-estima e a tornar o período da transição capilar mais fácil de se lidar. Não é a toa que, com o aumento de mulheres negras aderindo a transição, a técnica voltou a ser procurada em salões especializados.
Mas é claro que as box braids significam muito mais do que um método facilitador de cuidados para o cabelo. Esta técnica para trançar nasceu da cultura africana e foi passada e aperfeiçoada de geração em geração.
Ao trançar o cabelo, uma mulher negra assume ainda mais seus traços, completamente ciente das questões da ancestralidade e da representação de suas raízes. E, para mim particularmente, as box braids me obrigaram a reforçar minha identidade e a reviver a estranheza que as pessoas tiveram quando assumi meu cabelo natural, há pouco mais de um ano.
Percebi que eu mesma havia encontrado conforto quando as pessoas mais próximas de mim, como familiares e amigos, haviam parado de me julgar e questionar minha escolha de assumir uma herança afro que eu passei a vida escondendo.
No primeiros meses pós big chop, ouvi muitas críticas, desencorajamento, xingamentos e até pedidos para voltar a alisar o cabelo. Mas logo tudo isso passou. Não sei se começaram a falar pelas minhas costas, não sei se simplesmente aceitaram o fato de que eu não alisaria mais ou talvez tenha sido o que o cara inconveniente apontou: estavam todos se acostumando com minha “nova” aparência.
Toda vez que eu volto para a cidadezinha onde eu morava, ainda percebo e me incomodo com os olhares de desaprovação pelas ruas (mesmo ainda encontrando gente racista e preconceituosa em São Paulo, por aqui a aceitação das pessoas é bem maior). Mas, uma vez que na casa da minha família os insultos tinham acabado, por mim estava tudo bem. Melhor ainda quando minha mãe pôde se sentir segura para começar a transição dela!
Mas ter colocado as tranças me fez perceber que não, não estava tudo bem. Que as pessoas aceitam sua negritude desde que não as ofenda, desde que lhes sejam agradáveis aos olhos.
As tranças das brancas
Assim como quando assumi meu cabelo, o período em que utilizei as box braids me fez perceber o quanto eu tinha que justificar escolhas que deveriam ser naturais para mim. Eu não estava fazendo nada de errado em mostrar minha negritude e adaptar uma herança cultural à minha aparência para me sentir empoderada e por todos os outros motivos.
Ainda assim, tais motivos tinham que ser listados quando mais de uma pessoa me perguntava porque eu havia escolhido trançar o meu cabelo, assim como já tive que justificar a minha escolha de largar o alisamento.
Eu entendo e vivi na pele a necessidade de alisar, clarear a pele e buscar qualquer alternativa de branqueamento só para me sentir aceita. Por isso, tento compreender, conversar e encorajar outras pessoas negras a se aceitarem, ao mesmo tempo que sempre tento me mostrar forte diante das ofensas e desaprovação vinda dos brancos, mostrando resistência.
Este é um tipo de postura e responsabilidade que eu assumi por escolha própria, afinal, eu não sou obrigada a ficar me justificando. Sei que posso usar meu black, tranças ou alisar o cabelo como e quando eu quiser. Mas devo confessar que as vezes tudo isso cansa, principalmente quando se nota que todo este esforço mal dá resultados e que ainda existem padrões que são mais aceitos e respeitados.
Mas não precisei ir muito longe para sentir essa diferenciação na pele. Uma prima branca que trançou o cabelo dias depois de mim e estava na mesma comemoração da Natal recebeu reações completamente diferentes. Para todos o cabelo dela era “hippie, estiloso, moderno, diferente”, enquanto eu cheguei até a ser perguntada se estava usando drogas para aderir a um penteado tão ~rebelde~.
Sim. Eu e ela estávamos usando o M-E-S-M-O tipo de trança.
Como em toda conversa sobre apropriação cultural, eu sempre explico que não posso proibir ninguém de aderir a nenhum tipo de cultura afro-brasileira ou africana de raiz. Sei também que minha prima entende a importância do penteado e que ela, particularmente, estava passando por momentos difíceis na transição capilar, o que a levou a aderir às braids.
Mas é um fato inegável e difícil de ignorar que, quando mulheres brancas utilizam as braids e outros elementos, elas não têm que se justificar. A sociedade reage como um fator de moda e estética e fica tudo certo.
Acho que, no fundo, toda essa conversa machuca e cansa, pois tudo o que eu queria é poder ser negra em paz, como as mulheres brancas podem ser.
“Porque você fez isso no cabelo? Você quer ser negra?”. A pergunta foi feita por um amigo da família, em pleno almoço de Natal, e fez com que as atenções na mesa se voltassem para mim, pois todos realmente esperavam entender meu novo cabelo.
Há dias eu estava respondendo perguntas inconvenientes, uma pessoa até havia cheirado a minha cabeça para tirar uma dúvida crucial: “será que fede?”.
Apesar do constrangimento, me dei o trabalho de responder: “eu sou negra”. É que eu pensei que o assunto se encerraria com esta afirmação, mas, aparentemente, haviam mais argumentos contra isso. “Eu lembro que sua mãe cuidava do seu cabelo quando você era pequena. Depois você alisou e ficou parecendo uma mocinha comportada. E, agora que estávamos nos acostumando com aquele outro cabelo (ele estava se referindo ao meu black power, meu cabelo natural), você vai e faz isso”.
Isso que o colega inconveniente estava apontando eram minhas box braids (ou tranças sintéticas), que eu fiz dias antes do Natal. É possível utilizar as tranças por até três meses e eu fiz em dezembro pensando em aproveitá-las durante o verão para facilitar com os cuidados em época na praia, piscina e em viagens. Depois desse período, voltei a utilizar meu cabelo afro natural, como antes.
As tranças foram popularizadas no Brasil lá pelos anos 90, época em que eram conhecidas como “tranças canecalon” e também se usava muito a trança nagô. Mas na verdade, canecalon é o nome de uma das muitas marcas que fabricam o cabelo sintético utilizado para trançar. No meu caso, escolhi um tipo mais leve, chamado jumbo.
As braids são muito bonitas e estilosas sim, por isso ajudam também a elevar a auto-estima e a tornar o período da transição capilar mais fácil de se lidar. Não é a toa que, com o aumento de mulheres negras aderindo a transição, a técnica voltou a ser procurada em salões especializados.
Mas é claro que as box braids significam muito mais do que um método facilitador de cuidados para o cabelo. Esta técnica para trançar nasceu da cultura africana e foi passada e aperfeiçoada de geração em geração.
Ao trançar o cabelo, uma mulher negra assume ainda mais seus traços, completamente ciente das questões da ancestralidade e da representação de suas raízes. E, para mim particularmente, as box braids me obrigaram a reforçar minha identidade e a reviver a estranheza que as pessoas tiveram quando assumi meu cabelo natural, há pouco mais de um ano.
Percebi que eu mesma havia encontrado conforto quando as pessoas mais próximas de mim, como familiares e amigos, haviam parado de me julgar e questionar minha escolha de assumir uma herança afro que eu passei a vida escondendo.
No primeiros meses pós big chop, ouvi muitas críticas, desencorajamento, xingamentos e até pedidos para voltar a alisar o cabelo. Mas logo tudo isso passou. Não sei se começaram a falar pelas minhas costas, não sei se simplesmente aceitaram o fato de que eu não alisaria mais ou talvez tenha sido o que o cara inconveniente apontou: estavam todos se acostumando com minha “nova” aparência.
Toda vez que eu volto para a cidadezinha onde eu morava, ainda percebo e me incomodo com os olhares de desaprovação pelas ruas (mesmo ainda encontrando gente racista e preconceituosa em São Paulo, por aqui a aceitação das pessoas é bem maior). Mas, uma vez que na casa da minha família os insultos tinham acabado, por mim estava tudo bem. Melhor ainda quando minha mãe pôde se sentir segura para começar a transição dela!
Mas ter colocado as tranças me fez perceber que não, não estava tudo bem. Que as pessoas aceitam sua negritude desde que não as ofenda, desde que lhes sejam agradáveis aos olhos.
As tranças das brancas
Assim como quando assumi meu cabelo, o período em que utilizei as box braids me fez perceber o quanto eu tinha que justificar escolhas que deveriam ser naturais para mim. Eu não estava fazendo nada de errado em mostrar minha negritude e adaptar uma herança cultural à minha aparência para me sentir empoderada e por todos os outros motivos.
Ainda assim, tais motivos tinham que ser listados quando mais de uma pessoa me perguntava porque eu havia escolhido trançar o meu cabelo, assim como já tive que justificar a minha escolha de largar o alisamento.
Eu entendo e vivi na pele a necessidade de alisar, clarear a pele e buscar qualquer alternativa de branqueamento só para me sentir aceita. Por isso, tento compreender, conversar e encorajar outras pessoas negras a se aceitarem, ao mesmo tempo que sempre tento me mostrar forte diante das ofensas e desaprovação vinda dos brancos, mostrando resistência.
Este é um tipo de postura e responsabilidade que eu assumi por escolha própria, afinal, eu não sou obrigada a ficar me justificando. Sei que posso usar meu black, tranças ou alisar o cabelo como e quando eu quiser. Mas devo confessar que as vezes tudo isso cansa, principalmente quando se nota que todo este esforço mal dá resultados e que ainda existem padrões que são mais aceitos e respeitados.
Mas não precisei ir muito longe para sentir essa diferenciação na pele. Uma prima branca que trançou o cabelo dias depois de mim e estava na mesma comemoração da Natal recebeu reações completamente diferentes. Para todos o cabelo dela era “hippie, estiloso, moderno, diferente”, enquanto eu cheguei até a ser perguntada se estava usando drogas para aderir a um penteado tão ~rebelde~.
Sim. Eu e ela estávamos usando o M-E-S-M-O tipo de trança.
Como em toda conversa sobre apropriação cultural, eu sempre explico que não posso proibir ninguém de aderir a nenhum tipo de cultura afro-brasileira ou africana de raiz. Sei também que minha prima entende a importância do penteado e que ela, particularmente, estava passando por momentos difíceis na transição capilar, o que a levou a aderir às braids.
Mas é um fato inegável e difícil de ignorar que, quando mulheres brancas utilizam as braids e outros elementos, elas não têm que se justificar. A sociedade reage como um fator de moda e estética e fica tudo certo.
Acho que, no fundo, toda essa conversa machuca e cansa, pois tudo o que eu queria é poder ser negra em paz, como as mulheres brancas podem ser.
“Porque você fez isso no cabelo? Você quer ser negra?”. A pergunta foi feita por um amigo da família, em pleno almoço de Natal, e fez com que as atenções na mesa se voltassem para mim, pois todos realmente esperavam entender meu novo cabelo.
Há dias eu estava respondendo perguntas inconvenientes, uma pessoa até havia cheirado a minha cabeça para tirar uma dúvida crucial: “será que fede?”.
Apesar do constrangimento, me dei o trabalho de responder: “eu sou negra”. É que eu pensei que o assunto se encerraria com esta afirmação, mas, aparentemente, haviam mais argumentos contra isso. “Eu lembro que sua mãe cuidava do seu cabelo quando você era pequena. Depois você alisou e ficou parecendo uma mocinha comportada. E, agora que estávamos nos acostumando com aquele outro cabelo (ele estava se referindo ao meu black power, meu cabelo natural), você vai e faz isso”.
Isso que o colega inconveniente estava apontando eram minhas box braids (ou tranças sintéticas), que eu fiz dias antes do Natal. É possível utilizar as tranças por até três meses e eu fiz em dezembro pensando em aproveitá-las durante o verão para facilitar com os cuidados em época na praia, piscina e em viagens. Depois desse período, voltei a utilizar meu cabelo afro natural, como antes.
As tranças foram popularizadas no Brasil lá pelos anos 90, época em que eram conhecidas como “tranças canecalon” e também se usava muito a trança nagô. Mas na verdade, canecalon é o nome de uma das muitas marcas que fabricam o cabelo sintético utilizado para trançar. No meu caso, escolhi um tipo mais leve, chamado jumbo.
As braids são muito bonitas e estilosas sim, por isso ajudam também a elevar a auto-estima e a tornar o período da transição capilar mais fácil de se lidar. Não é a toa que, com o aumento de mulheres negras aderindo a transição, a técnica voltou a ser procurada em salões especializados.
Mas é claro que as box braids significam muito mais do que um método facilitador de cuidados para o cabelo. Esta técnica para trançar nasceu da cultura africana e foi passada e aperfeiçoada de geração em geração.
Ao trançar o cabelo, uma mulher negra assume ainda mais seus traços, completamente ciente das questões da ancestralidade e da representação de suas raízes. E, para mim particularmente, as box braids me obrigaram a reforçar minha identidade e a reviver a estranheza que as pessoas tiveram quando assumi meu cabelo natural, há pouco mais de um ano.
Percebi que eu mesma havia encontrado conforto quando as pessoas mais próximas de mim, como familiares e amigos, haviam parado de me julgar e questionar minha escolha de assumir uma herança afro que eu passei a vida escondendo.
No primeiros meses pós big chop, ouvi muitas críticas, desencorajamento, xingamentos e até pedidos para voltar a alisar o cabelo. Mas logo tudo isso passou. Não sei se começaram a falar pelas minhas costas, não sei se simplesmente aceitaram o fato de que eu não alisaria mais ou talvez tenha sido o que o cara inconveniente apontou: estavam todos se acostumando com minha “nova” aparência.
Toda vez que eu volto para a cidadezinha onde eu morava, ainda percebo e me incomodo com os olhares de desaprovação pelas ruas (mesmo ainda encontrando gente racista e preconceituosa em São Paulo, por aqui a aceitação das pessoas é bem maior). Mas, uma vez que na casa da minha família os insultos tinham acabado, por mim estava tudo bem. Melhor ainda quando minha mãe pôde se sentir segura para começar a transição dela!
Mas ter colocado as tranças me fez perceber que não, não estava tudo bem. Que as pessoas aceitam sua negritude desde que não as ofenda, desde que lhes sejam agradáveis aos olhos.
As tranças das brancas
Assim como quando assumi meu cabelo, o período em que utilizei as box braids me fez perceber o quanto eu tinha que justificar escolhas que deveriam ser naturais para mim. Eu não estava fazendo nada de errado em mostrar minha negritude e adaptar uma herança cultural à minha aparência para me sentir empoderada e por todos os outros motivos.
Ainda assim, tais motivos tinham que ser listados quando mais de uma pessoa me perguntava porque eu havia escolhido trançar o meu cabelo, assim como já tive que justificar a minha escolha de largar o alisamento.
Eu entendo e vivi na pele a necessidade de alisar, clarear a pele e buscar qualquer alternativa de branqueamento só para me sentir aceita. Por isso, tento compreender, conversar e encorajar outras pessoas negras a se aceitarem, ao mesmo tempo que sempre tento me mostrar forte diante das ofensas e desaprovação vinda dos brancos, mostrando resistência.
Este é um tipo de postura e responsabilidade que eu assumi por escolha própria, afinal, eu não sou obrigada a ficar me justificando. Sei que posso usar meu black, tranças ou alisar o cabelo como e quando eu quiser. Mas devo confessar que as vezes tudo isso cansa, principalmente quando se nota que todo este esforço mal dá resultados e que ainda existem padrões que são mais aceitos e respeitados.
[caption id="attachment_10464" align="aligncenter" width="690"] garotas brancas são consideradas estilosas por usarem box braids[/caption]
Mas não precisei ir muito longe para sentir essa diferenciação na pele. Uma prima branca que trançou o cabelo dias depois de mim e estava na mesma comemoração da Natal recebeu reações completamente diferentes. Para todos o cabelo dela era “hippie, estiloso, moderno, diferente”, enquanto eu cheguei até a ser perguntada se estava usando drogas para aderir a um penteado tão ~rebelde~.
Sim. Eu e ela estávamos usando o M-E-S-M-O tipo de trança.
Como em toda conversa sobre apropriação cultural, eu sempre explico que não posso proibir ninguém de aderir a nenhum tipo de cultura afro-brasileira ou africana de raiz. Sei também que minha prima entende a importância do penteado e que ela, particularmente, estava passando por momentos difíceis na transição capilar, o que a levou a aderir às braids.
Mas é um fato inegável e difícil de ignorar que, quando mulheres brancas utilizam as braids e outros elementos, elas não têm que se justificar. A sociedade reage como um fator de moda e estética e fica tudo certo.
Acho que, no fundo, toda essa conversa machuca e cansa, pois tudo o que eu queria é poder ser negra em paz, como as mulheres brancas podem ser.
Muito se sabe sobre o tempo histórico em que o filme Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures) se passa: 1961, os Estados Unidos inicia uma corrida espacial contra União Soviética, que já está “adiantada” na disputa por mandar satélites ao espaço para estudar, como dizia o governo dos EUA na época, “God knows what” e avançam tanto que chegam a mandar seu primeiro astronauta para as estrelas. Tudo isso é reflexo da Guerra Fria que ambas as nações estão envolvidas, iniciada logo após o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Com o tempo, os americanos tomam a dianteira e finalmente começam a mandar seus homens ao espaço: Alan Shepard, John Glenn e, finalmente, Neil Armstrong, que pisou na lua.
Os astronautas viram heróis, o governo de John Kennedy é aclamado, a NASA pode prosseguir com suas pesquisas e avanços e assim a história começa a ser contada. Exceto que detalhes de bastidores muito importantes são ignorados e Estrelas Além do Tempo existe para contar histórias perdidas em meio a documentos e registros históricos dessa época.
Para começar, o filme considera outro fator histórico importante de 1961, um ano marcado pela segregação racial nos Estados Unidos, que também atingia a NASA e provocava protestos por todo o país. Apesar de narrar uma história que se passa no estado de Virgínia, o roteiro também dá uma noção de tempo com a luta de Martin Luther King Jr. no Alabama e outros movimentos raciais no país, simplesmente porque isso também conta a história das protagonistas da história.
Katherine Goble Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), trabalham como “computadores da NASA” para ajudar nos cálculos considerados básicos para os engenheiros que planejavam as missões especiais. Esta era a tarefa para mulheres na instituição, além de secretarias e faxineiras. Mas elas também eram negras e, por isso, ganhavam ainda menos para trabalhar dobrado em ambientes isolados como “computadores negros”, muitas vezes recebendo ordens dos “computadores brancos”. Ou seja: as barreiras de gênero e raciais são as principais vilãs nessa história.
Acontece que, não fosse a resiliência e, principalmente, insistência das três ao lutarem para ultrapassar estas barreiras, as missões espaciais da NASA não teriam sido bem sucedidas. E o roteiro de Estrelas Além do Tempo, que é baseado no livro “Hidden Figures: The Story of the African-American Women Who Helped Win The Space Race”, de Margot Lee Shetterly, mostra isso de maneira realista, deixando bem clara a existência de privilégio branco, sem espaço para nem ao menos uma sugestão de meritocrática.
Tudo isso explorando as capacidades de cada personagem da vida real e sem deixar de lado um drama hollywoodiano poucas vezes direcionado para histórias de pessoas negras, fazendo desse filme belo e emocionante. Katherine é uma gênio dos números e passa a trabalhar diretamente com cálculos de coordenadas para as viagens espaciais da NASA. Dorothy, que é uma mecânica excelente e autodidata, acaba tornando-se uma peça fundamental no funcionamento de uma das primeiras máquinas de cálculo utilizadas usadas na instituição, a IBM, mas ela é também uma grande líder e luta para avançar junto com suas companheiras de trabalho. Já Mary, tem a “ousadia” de trabalhar na engenharia das espaçonaves enviadas nas missões e, para isso, inicia uma luta pelo direito de estudar e conquistar seu diploma.
A mim, mulher negra, esta narrativa me aproximou das personagens, por me identificar com a luta de ocupar espaços que são frequentados majoritariamente por pessoas brancas e também me inspirou a continuar batalhando para que um dia este não seja mais uma opressão. Ao espectador branco (assim espero!), há uma aula sobre a importância de reconhecer seus privilégios e colaborar para esta batalha das formas que lhes cabem.
Reconhecimento merecido
Na vida real, Katherine Johnson, cuja história o filme centraliza, foi homenageada pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em 2015, com a honraria da medalha presidencial da liberdade e pela NASA em 2016, tendo uma instalação de estudos batizada com seu nome. Tudo isso mais de 50 anos depois de sua trajetória na NASA.
Merecidamente, o filme também está sendo reconhecido por críticos de cinema e especialistas da indústria. Depois das indicações ao Golde Globes, Estrelas Além do Tempo também aparece na lista de indicados ao Oscar, nas categorias “Melhor Filme” e “Melhor Roteiro Adaptado”, além da indicação de Octavia Spencer para “Melhor Atriz Coadjuvante”, ajudando a edição de 2017 ser “menos branca”.
E, vale sempre a pena destacar: a representatividade que traz esse filme, seja colocando em destaque as histórias reais de Katherine, Dorothy e Mary ou mesmo destacando e premiando os trabalhos de Taraji, Octavia e Janelle, importa e muito!
Trouxe essa review depois de me emocionar com o filme na pré-estreia promovida pela Fox em São Paulo. Para poder prestigiar Estrelas Além do Tempo, anote na agenda: o filme estará disponível em todo o Brasil no dia 2 de fevereiro.
sua mãe cuidava do seu cabelo quando você era pequena. Depois você alisou e ficou parecendo uma mocinha comportada. E, agora que estávamos nos acostumando com aquele outro cabelo (ele estava se referindo ao meu black power, meu cabelo natural), você vai e faz isso”.
Isso que o colega inconveniente estava apontando eram minhas box braids (ou tranças sintéticas), que eu fiz dias antes do Natal. É possível utilizar as tranças por até três meses e eu fiz em dezembro pensando em aproveitá-las durante o verão para facilitar com os cuidados em época na praia, piscina e em viagens. Depois desse período, voltei a utilizar meu cabelo afro natural, como antes.
As tranças foram popularizadas no Brasil lá pelos anos 90, época em que eram conhecidas como “tranças canecalon” e também se usava muito a trança nagô. Mas na verdade, canecalon é o nome de uma das muitas marcas que fabricam o cabelo sintético utilizado para trançar. No meu caso, escolhi um tipo mais leve, chamado jumbo.
As braids são muito bonitas e estilosas sim, por isso ajudam também a elevar a auto-estima e a tornar o período da transição capilar mais fácil de se lidar. Não é a toa que, com o aumento de mulheres negras aderindo a transição, a técnica voltou a ser procurada em salões especializados.
Mas é claro que as box braids significam muito mais do que um método facilitador de cuidados para o cabelo. Esta técnica para trançar nasceu da cultura africana e foi passada e aperfeiçoada de geração em geração.
Ao trançar o cabelo, uma mulher negra assume ainda mais seus traços, completamente ciente das questões da ancestralidade e da representação de suas raízes. E, para mim particularmente, as box braids me obrigaram a reforçar minha identidade e a reviver a estranheza que as pessoas tiveram quando assumi meu cabelo natural, há pouco mais de um ano.
Percebi que eu mesma havia encontrado conforto quando as pessoas mais próximas de mim, como familiares e amigos, haviam parado de me julgar e questionar minha escolha de assumir uma herança afro que eu passei a vida escondendo.
No primeiros meses pós big chop, ouvi muitas críticas, desencorajamento, xingamentos e até pedidos para voltar a alisar o cabelo. Mas logo tudo isso passou. Não sei se começaram a falar pelas minhas costas, não sei se simplesmente aceitaram o fato de que eu não alisaria mais ou talvez tenha sido o que o cara inconveniente apontou: estavam todos se acostumando com minha “nova” aparência.
Toda vez que eu volto para a cidadezinha onde eu morava, ainda percebo e me incomodo com os olhares de desaprovação pelas ruas (mesmo ainda encontrando gente racista e preconceituosa em São Paulo, por aqui a aceitação das pessoas é bem maior). Mas, uma vez que na casa da minha família os insultos tinham acabado, por mim estava tudo bem. Melhor ainda quando minha mãe pôde se sentir segura para começar a transição dela!
Mas ter colocado as tranças me fez perceber que não, não estava tudo bem. Que as pessoas aceitam sua negritude desde que não as ofenda, desde que lhes sejam agradáveis aos olhos.
As tranças das brancas
Assim como quando assumi meu cabelo, o período em que utilizei as box braids me fez perceber o quanto eu tinha que justificar escolhas que deveriam ser naturais para mim. Eu não estava fazendo nada de errado em mostrar minha negritude e adaptar uma herança cultural à minha aparência para me sentir empoderada e por todos os outros motivos.
Ainda assim, tais motivos tinham que ser listados quando mais de uma pessoa me perguntava porque eu havia escolhido trançar o meu cabelo, assim como já tive que justificar a minha escolha de largar o alisamento.
Eu entendo e vivi na pele a necessidade de alisar, clarear a pele e buscar qualquer alternativa de branqueamento só para me sentir aceita. Por isso, tento compreender, conversar e encorajar outras pessoas negras a se aceitarem, ao mesmo tempo que sempre tento me mostrar forte diante das ofensas e desaprovação vinda dos brancos, mostrando resistência.
Este é um tipo de postura e responsabilidade que eu assumi por escolha própria, afinal, eu não sou obrigada a ficar me justificando. Sei que posso usar meu black, tranças ou alisar o cabelo como e quando eu quiser. Mas devo confessar que as vezes tudo isso cansa, principalmente quando se nota que todo este esforço mal dá resultados e que ainda existem padrões que são mais aceitos e respeitados.
Mas não precisei ir muito longe para sentir essa diferenciação na pele. Uma prima branca que trançou o cabelo dias depois de mim e estava na mesma comemoração da Natal recebeu reações completamente diferentes. Para todos o cabelo dela era “hippie, estiloso, moderno, diferente”, enquanto eu cheguei até a ser perguntada se estava usando drogas para aderir a um penteado tão ~rebelde~.
Sim. Eu e ela estávamos usando o M-E-S-M-O tipo de trança.
Como em toda conversa sobre apropriação cultural, eu sempre explico que não posso proibir ninguém de aderir a nenhum tipo de cultura afro-brasileira ou africana de raiz. Sei também que minha prima entende a importância do penteado e que ela, particularmente, estava passando por momentos difíceis na transição capilar, o que a levou a aderir às braids.
Mas é um fato inegável e difícil de ignorar que, quando mulheres brancas utilizam as braids e outros elementos, elas não têm que se justificar. A sociedade reage como um fator de moda e estética e fica tudo certo.
Acho que, no fundo, toda essa conversa machuca e cansa, pois tudo o que eu queria é poder ser negra em paz, como as mulheres brancas podem ser.