Em meio a discussões sobre programa Escola Sem Partido, cresce também a tentativa de colocar o debate sobre gênero no fundo de uma gaveta e trancá-lo a sete chaves. Exatamente para tirar ele dessas profundezas e mostrar que gênero não é algo associado apenas à comunidade LBGT, mas a todos nós, foi que a Anis – Instituto Bioética lançou a semana especial “Gênero fala de todo mundo”. Na ação, a organização postou em suas redes sociais, entre os dias 18 e 22 de julho, textos e infográficos para esclarecer o que significa, afinal, debater gênero.
Vivemos em um contexto cheio de equívocos e tabus, em que se classifica educação sobre gênero como propaganda. Muito se acredita que uma criança possa se tornar gay, lésbica, bi ou trans só pelo fato de ter conhecimento sobre isso, já que a falta de consciência para diferenciar “o certo do errado” a deixa mais vulnerável a escolher o caminho tido como errado, ou seja, o da não tradição de família. “Percebemos que a população confunde muito o conceito de gênero com questões específicas da comunidade LGBT, quando não muito com perversões sexuais das mais bizarras. Decidimos, portanto, produzir um material bem didático para mostrar que gênero é importante, sim, de se discutir nas escolas porque fala de um regime político de poder, que inclui todos”, explicou a jornalista da Anis, Raisa Pina.
Tendo isso em mente, foram publicados seis infográficos coloridos e didáticos e cinco textos assinados pelas pesquisadoras da Anis, Sinara Gumieri, Raisa Pina, Luciana Brito, Debora Diniz e Gabriela Rondon. Cada dia um texto em um veículo diferente para fazer a mensagem chegar mais longe. O material traz desde questões bastante básicas como o que é, afinal, gênero, até desconstruções da tal “apologia gayzista” ou da ideia de “ideologia de gênero”.
A advogada Sinara Gumiere abriu a série explicando que gênero tem muito mais a ver com política e poder do que com anatomia. “Para nós, o gênero, assim com artigo definido e no singular, é um regime político, isto é, uma forma de organizar a vida, com regras e estruturas de poder. Diferentes formas de entender gênero têm em comum a compreensão de que a forma como habitamos os corpos não gera destinos: não há experiências que sejam obrigatórias ou necessárias por causa de nossas anatomias”, escreve.
Ou seja, ninguém é obrigado a seguir ideias fixas de gênero só por causa do corpo com o qual nasceu. “Não há isso de natureza masculina, a qual condiciona homens com pênis a serem provedores, fortões ou gostar de mulher; ou, então, natureza feminina, que condiciona mulheres com vagina a serem mães, delicadas e boas esposas de homens”, argumenta a psicóloga Luciana Brito.
Ela segue essa linha de raciocínio para dizer que, se há argumentos que ninguém nasce mulher, mas se torna mulher, então pode-se dizer que ninguém nasce homofóbico, transfóbico ou agressor de mulheres, mas são feitos assim por uma sociedade que não aceita diferenças e ignora diversidades. Que melhor lugar para mudar essa base social intolerante do que pelas mentes jovens nas escolas?
Não se trata de ensinar ideologias nas escolas, mas conversar sobre experiências e vivências diferentes daquelas que cada um conhece, como explica a antropóloga Debora Diniz. “Não há livro sagrado que diga como devem viver os homens e as mulheres na intimidade de suas escolhas, e por isso gênero fala de todo mundo.Não é ideologia de gênero, mas vidas vividas no gênero”. Tampouco de fazer uma “apologia gayzista”, como mostra a série com o texto de Raisa Pina. Falar de gênero nada tem a ver com propaganda. Até porque ninguém vai virar gay por achar legal dois caras se beijando na novela ou porque ouviu falar de homossexualismo. “Acreditem: esses são todos comentários reais, “argumentos” em defesa da não discussão sobre gênero nas escolas. Muito me espanta o quanto as pessoas pensam que suas posições são frágeis: falar sobre algo significaria se tornar esse algo”, escreve Pina.
É simples. Discutir gênero é conversar sobre diferenças que existem no mundo. É ensinar respeito. Foi graças a esse tipo de discussão que mulheres conseguiram avançar no processo de igualdade, com direito ao voto, a frequentar universidades, a trabalhar fora de casa, assim como homens ganharam direito à licença-paternidade.
São grandes avanços, mas ainda não são suficientes. A advogada Gabriela Rondon lembra há quem argumente contra a educação sobre gênero nas escolas porque isso já seria desnecessário. Aparentemente para essas pessoas já vivemos em um paraíso, onde todos vivem em harmonia de mãos dadas (mas só entre homem e mulher, obviamente). Claro que as coisas mudaram nos últimos 50 anos, mas a igualdade de direitos é um processo lento. “Não acontece do dia para a noite nem é um processo acabado. Ainda precisamos falar sobre gênero”.
Sim, precisamos! E muito. Casos de violência contra mulher e homossexuais são realidade ainda no Brasil e querer igualdade de direitos para esses grupos não significa estar atrás de privilégios. Significa querer liberdade e respeito, valores que não vão fazer o mundo ficar pior – muito pelo contrário – se ensinados desde cedo, em sala de aula.
As ilustrações foram feitas por Valentina Fraiz e foram feitas exclusivamente para a ação da Anis.
Em meio a discussões sobre programa Escola Sem Partido, cresce também a tentativa de colocar o debate sobre gênero no fundo de uma gaveta e trancá-lo a sete chaves. Exatamente para tirar ele dessas profundezas e mostrar que gênero não é algo associado apenas à comunidade LBGT, mas a todos nós, foi que a Anis – Instituto Bioética lançou a semana especial “Gênero fala de todo mundo”. Na ação, a organização postou em suas redes sociais, entre os dias 18 e 22 de julho, textos e infográficos para esclarecer o que significa, afinal, debater gênero.
Vivemos em um contexto cheio de equívocos e tabus, em que se classifica educação sobre gênero como propaganda. Muito se acredita que uma criança possa se tornar gay, lésbica, bi ou trans só pelo fato de ter conhecimento sobre isso, já que a falta de consciência para diferenciar “o certo do errado” a deixa mais vulnerável a escolher o caminho tido como errado, ou seja, o da não tradição de família. “Percebemos que a população confunde muito o conceito de gênero com questões específicas da comunidade LGBT, quando não muito com perversões sexuais das mais bizarras. Decidimos, portanto, produzir um material bem didático para mostrar que gênero é importante, sim, de se discutir nas escolas porque fala de um regime político de poder, que inclui todos”, explicou a jornalista da Anis, Raisa Pina.
Tendo isso em mente, foram publicados seis infográficos coloridos e didáticos e cinco textos assinados pelas pesquisadoras da Anis, Sinara Gumieri, Raisa Pina, Luciana Brito, Debora Diniz e Gabriela Rondon. Cada dia um texto em um veículo diferente para fazer a mensagem chegar mais longe. O material traz desde questões bastante básicas como o que é, afinal, gênero, até desconstruções da tal “apologia gayzista” ou da ideia de “ideologia de gênero”.
A advogada Sinara Gumiere abriu a série explicando que gênero tem muito mais a ver com política e poder do que com anatomia. “Para nós, o gênero, assim com artigo definido e no singular, é um regime político, isto é, uma forma de organizar a vida, com regras e estruturas de poder. Diferentes formas de entender gênero têm em comum a compreensão de que a forma como habitamos os corpos não gera destinos: não há experiências que sejam obrigatórias ou necessárias por causa de nossas anatomias”, escreve.
Ou seja, ninguém é obrigado a seguir ideias fixas de gênero só por causa do corpo com o qual nasceu. “Não há isso de natureza masculina, a qual condiciona homens com pênis a serem provedores, fortões ou gostar de mulher; ou, então, natureza feminina, que condiciona mulheres com vagina a serem mães, delicadas e boas esposas de homens”, argumenta a psicóloga Luciana Brito.
Ela segue essa linha de raciocínio para dizer que, se há argumentos que ninguém nasce mulher, mas se torna mulher, então pode-se dizer que ninguém nasce homofóbico, transfóbico ou agressor de mulheres, mas são feitos assim por uma sociedade que não aceita diferenças e ignora diversidades. Que melhor lugar para mudar essa base social intolerante do que pelas mentes jovens nas escolas?
Não se trata de ensinar ideologias nas escolas, mas conversar sobre experiências e vivências diferentes daquelas que cada um conhece, como explica a antropóloga Debora Diniz. “Não há livro sagrado que diga como devem viver os homens e as mulheres na intimidade de suas escolhas, e por isso gênero fala de todo mundo.Não é ideologia de gênero, mas vidas vividas no gênero”. Tampouco de fazer uma “apologia gayzista”, como mostra a série com o texto de Raisa Pina. Falar de gênero nada tem a ver com propaganda. Até porque ninguém vai virar gay por achar legal dois caras se beijando na novela ou porque ouviu falar de homossexualismo. “Acreditem: esses são todos comentários reais, “argumentos” em defesa da não discussão sobre gênero nas escolas. Muito me espanta o quanto as pessoas pensam que suas posições são frágeis: falar sobre algo significaria se tornar esse algo”, escreve Pina.
É simples. Discutir gênero é conversar sobre diferenças que existem no mundo. É ensinar respeito. Foi graças a esse tipo de discussão que mulheres conseguiram avançar no processo de igualdade, com direito ao voto, a frequentar universidades, a trabalhar fora de casa, assim como homens ganharam direito à licença-paternidade.
São grandes avanços, mas ainda não são suficientes. A advogada Gabriela Rondon lembra há quem argumente contra a educação sobre gênero nas escolas porque isso já seria desnecessário. Aparentemente para essas pessoas já vivemos em um paraíso, onde todos vivem em harmonia de mãos dadas (mas só entre homem e mulher, obviamente). Claro que as coisas mudaram nos últimos 50 anos, mas a igualdade de direitos é um processo lento. “Não acontece do dia para a noite nem é um processo acabado. Ainda precisamos falar sobre gênero”.
Sim, precisamos! E muito. Casos de violência contra mulher e homossexuais são realidade ainda no Brasil e querer igualdade de direitos para esses grupos não significa estar atrás de privilégios. Significa querer liberdade e respeito, valores que não vão fazer o mundo ficar pior – muito pelo contrário – se ensinados desde cedo, em sala de aula.
As ilustrações foram feitas por Valentina Fraiz e foram feitas exclusivamente para a ação da Anis.
Em meio a discussões sobre programa Escola Sem Partido, cresce também a tentativa de colocar o debate sobre gênero no fundo de uma gaveta e trancá-lo a sete chaves. Exatamente para tirar ele dessas profundezas e mostrar que gênero não é algo associado apenas à comunidade LBGT, mas a todos nós, foi que a Anis – Instituto Bioética lançou a semana especial “Gênero fala de todo mundo”. Na ação, a organização postou em suas redes sociais, entre os dias 18 e 22 de julho, textos e infográficos para esclarecer o que significa, afinal, debater gênero.
Vivemos em um contexto cheio de equívocos e tabus, em que se classifica educação sobre gênero como propaganda. Muito se acredita que uma criança possa se tornar gay, lésbica, bi ou trans só pelo fato de ter conhecimento sobre isso, já que a falta de consciência para diferenciar “o certo do errado” a deixa mais vulnerável a escolher o caminho tido como errado, ou seja, o da não tradição de família. “Percebemos que a população confunde muito o conceito de gênero com questões específicas da comunidade LGBT, quando não muito com perversões sexuais das mais bizarras. Decidimos, portanto, produzir um material bem didático para mostrar que gênero é importante, sim, de se discutir nas escolas porque fala de um regime político de poder, que inclui todos”, explicou a jornalista da Anis, Raisa Pina.
Tendo isso em mente, foram publicados seis infográficos coloridos e didáticos e cinco textos assinados pelas pesquisadoras da Anis, Sinara Gumieri, Raisa Pina, Luciana Brito, Debora Diniz e Gabriela Rondon. Cada dia um texto em um veículo diferente para fazer a mensagem chegar mais longe. O material traz desde questões bastante básicas como o que é, afinal, gênero, até desconstruções da tal “apologia gayzista” ou da ideia de “ideologia de gênero”.
A advogada Sinara Gumiere abriu a série explicando que gênero tem muito mais a ver com política e poder do que com anatomia. “Para nós, o gênero, assim com artigo definido e no singular, é um regime político, isto é, uma forma de organizar a vida, com regras e estruturas de poder. Diferentes formas de entender gênero têm em comum a compreensão de que a forma como habitamos os corpos não gera destinos: não há experiências que sejam obrigatórias ou necessárias por causa de nossas anatomias”, escreve.
Ou seja, ninguém é obrigado a seguir ideias fixas de gênero só por causa do corpo com o qual nasceu. “Não há isso de natureza masculina, a qual condiciona homens com pênis a serem provedores, fortões ou gostar de mulher; ou, então, natureza feminina, que condiciona mulheres com vagina a serem mães, delicadas e boas esposas de homens”, argumenta a psicóloga Luciana Brito.
Ela segue essa linha de raciocínio para dizer que, se há argumentos que ninguém nasce mulher, mas se torna mulher, então pode-se dizer que ninguém nasce homofóbico, transfóbico ou agressor de mulheres, mas são feitos assim por uma sociedade que não aceita diferenças e ignora diversidades. Que melhor lugar para mudar essa base social intolerante do que pelas mentes jovens nas escolas?
Não se trata de ensinar ideologias nas escolas, mas conversar sobre experiências e vivências diferentes daquelas que cada um conhece, como explica a antropóloga Debora Diniz. “Não há livro sagrado que diga como devem viver os homens e as mulheres na intimidade de suas escolhas, e por isso gênero fala de todo mundo.Não é ideologia de gênero, mas vidas vividas no gênero”. Tampouco de fazer uma “apologia gayzista”, como mostra a série com o texto de Raisa Pina. Falar de gênero nada tem a ver com propaganda. Até porque ninguém vai virar gay por achar legal dois caras se beijando na novela ou porque ouviu falar de homossexualismo. “Acreditem: esses são todos comentários reais, “argumentos” em defesa da não discussão sobre gênero nas escolas. Muito me espanta o quanto as pessoas pensam que suas posições são frágeis: falar sobre algo significaria se tornar esse algo”, escreve Pina.
É simples. Discutir gênero é conversar sobre diferenças que existem no mundo. É ensinar respeito. Foi graças a esse tipo de discussão que mulheres conseguiram avançar no processo de igualdade, com direito ao voto, a frequentar universidades, a trabalhar fora de casa, assim como homens ganharam direito à licença-paternidade.
São grandes avanços, mas ainda não são suficientes. A advogada Gabriela Rondon lembra há quem argumente contra a educação sobre gênero nas escolas porque isso já seria desnecessário. Aparentemente para essas pessoas já vivemos em um paraíso, onde todos vivem em harmonia de mãos dadas (mas só entre homem e mulher, obviamente). Claro que as coisas mudaram nos últimos 50 anos, mas a igualdade de direitos é um processo lento. “Não acontece do dia para a noite nem é um processo acabado. Ainda precisamos falar sobre gênero”.
Sim, precisamos! E muito. Casos de violência contra mulher e homossexuais são realidade ainda no Brasil e querer igualdade de direitos para esses grupos não significa estar atrás de privilégios. Significa querer liberdade e respeito, valores que não vão fazer o mundo ficar pior – muito pelo contrário – se ensinados desde cedo, em sala de aula.
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As ilustrações foram feitas por Valentina Fraiz e foram feitas exclusivamente para a ação da Anis.
É véspera de Natal e duas melhores amigas se encontram depois de algum tempo sem se ver. Uma delas acabara de sair de uma temporada de 28 dias na cadeia. Na esquina da Santa Monica Boulevard e Highland Avenue, em Los Angeles, elas sentem de frente uma pra outra em uma loja de Donuts. É nessa esquina vista da janela da Donut Time que a história das duas prostitutas transexuais Sin-Dee e Alexandra tem início. Elas se olham como cúmplices e fofocam. Sin-Dee confessa que tem algo para contar sobre seu namorado, o cafetão Chester, ao que Alexandra interrompe: “Ah, eu já sei! Você vai terminar com ele, né? Graças a Deus! Se é pra ele ficar te traindo assim…”. “Wait, wait, wait, WHAT?!”.
O filme do diretor Sean Baker, Tangerine foi o primeiro longa a ser filmado inteiramente com apenas com um iPhone. Graças a um aplicativo, o FiLMiC Pro, a imagem não perdeu quase nada em qualidade. Além disso, a câmara mais versátil do celular dá uma noção de realidade participante, que talvez um grande aparato cinematográfico não tivesse proporcionado.
A temática LGBTQueer do filme é o que faz dele um “must see” pra quem curte cinema alternativo: Alexandra e Sin-Dee (by the way, o nome é uma abreviação de Sin-Dee-Rella) são duas mulheres transexuais negras que se prostituem nas ruas de Los Angeles, por onde toda a trama acontece. Baker conheceu Kitana Kiki Rodriguez (Sin-Dee) e Mya Taylor (Alexandra) em um centro LGBT, enquanto fazia pesquisas para sua nova produção. O primeiro contato foi com Mya, que recebeu o convite para atuar pouco depois de conhecer Baker. O diretor sabia desde o início que queria contar uma história de dentro da comunidade LGBT de Los Angeles e que o seu elenco seria transgender. Mya o apresentou a seu círculo das ruas e assim Baker conheceu Kiki. Um drama real da vida de Kiki, de quando ela foi traída pelo namorado, foi o que inspirou a trama de Tangerine.
Depois da revelação de Alexandra a Sin-Dee, a história se desenrola de forma desenfreada, como a personalidade da protagonista. Pelas ruas de Los Angeles, a personagem vai atrás da tal amante – uma “white fish, com vagina e tudo”, como descreve Alexandra (pelo que pesquisei, “fish” ou “peixe” parece ser um gíria para se referir pejorativamente a mulheres não transexuais. A linguagem cheia de gírias das duas também é algo marcante no filme). Os passos decididos de Sin-Dee e sua melhor amiga são acompanhados por uma trilha eletrônica, por vezes intercalada com música clássica, que dá um ritmo frenético a narrativa.
Uma das cenas mais maravilindas do longo é quando Sin-Dee senta em um ponto de tram (tipo um bonde), nervosa, sem saber o que fazer. Ela morde os lábios e olha para as pessoas saindo e entrando do tram, embalada por uma música clássica. A trilha vai mudando conforme os pensamentos da personagem parecem ficar mais inquietos. Quando atinge o ápice da agitação, Sin-Dee larga um “fuck it!”. Se levanta e vai em direção à estação de metrô, com beats de música eletrônica ao fundo de seus passos largos.
Outros personagens desse submundo de Los Angeles surgem ao longo da trama para lhe dar sustento. Como a própria amante, que também era uma das prostitutas de Chester, e o taxista armênio Razmik, que esconde da família suas relações com prostitutas transexuais.
A comédia dramática que começa despretensiosa vai ganhando ares de análise social, mesmo que não muito aprofundada. Ao longo do super drama de Sin-Dee-Rella, o espectador enxerga sutilmente atos de preconceito e transfobia. Em uma das cenas, Alexandra está brigando com um cliente que se recusava a pagar depois do serviço feito. Uma policial, que já a conhecia, tenta apartar a briga a chamando pelo nome masculino de Alexander. É sutil, mas percebe-se uma negação da imagem dessas mulheres como de fato mulheres. Em entrevista ao The Guardian, Mya conta que em uma discussão com uma conhecida das ruas, a bitch, como ela mesmo descreve, a chamou de Jeremiah, seu nome antes de fazer a transição. Ouvir o nome a deixou furiosa e frustrada, reação diferente da que Alexandra tem no filme. Ao ouvir o nome Alexander saindo da boca da policial, ela apenas a ignora e continua a brigar com o cliente, como se ouvir aquele nome já fosse algo normal em sua vida como trans.
Em uma cena de preconceito mais explícita, Sin-Dee se aproxima do carro de um suposto cliente. Para sua amarga surpresa, o carro estava cheio de jovens babacas que jogam um copo de xixi em sua cara. Além da humilhação, ela fica abalada em ter que ser vista em público sem sua peruca e outfit feminino, que precisa tirar para se limpar. Mas ela e a amiga tratam tudo de forma normal. Não choram nem demonstram grande indignação. Apenas tentam ajudar uma a outra em uma situação, na qual qualquer outro tipo de reação parece ser perda de tempo….
Não diria que o filme se centra em uma crítica social. Mas é nas sutilidades que ele traz essas temáticas, como a gritante normalidade que esses tipos de preconceitos tomaram. Interessante também é ver outra faceta da vida dessas personagens. Tangerine não é um filme que vai mostrar como é triste ser uma prostituta transexual em LA. Tampouco vai mostrar como é trabalhar nesse meio, lidando com drogas, violência, preconceito etc.
O longa não pretende ser documental, mesmo mantendo a fidelidade às histórias reais. Ele foca nos dramas de relacionamentos, amorosos ou de amizade, que podem ser comuns a nós (o namorado que traí, a amante, a melhor amiga que tenta te dissuadir de causar um grande drama). Essa similaridade e estranhamente com o drama alheio é talvez o que traz para o filme o ar de comédia.
Das ruas pro cinema
Depois que vi o filme fiquei curiosa para saber mais sobre a produção. Descobri que, incrivelmente, muitas das histórias no Tangerine são reais. Não só os preconceitos, a história com o namorado de Kiki que inspirou o filme, mas a vida das personagens.
Mya Taylor contou em entrevista para o The Guardian que, de fato, teve que se prostituir nas ruas de LA para sobreviver. Nascida no Texas e criada como Jeremiah, Mya foi obrigada a sair de casa depois de se declarar gay para a família. Ela se mudou com uma parente que, com problemas financeiros, fez a jovem ir para as ruas trabalhar. Isso a levou à prostituição.
Quando chegou em LA, Mya era moradora de rua e buscou ajuda no centro LGBT, onde conheceu o diretor Sean Baker. Depois de ter vários empregos rejeitados, provavelmente por preconceito a transexuais, o filme Tangerine deu à Mya a vida normal que ela desejava.
A amizade de Alexandra e Sin-Dee também é outra coisa real no longa. Mya e Kiki já eram grandes amigas quando estavam nas ruas de Los Angeles. Por isso, em frente às câmaras, não foi tão difícil fingir cumplicidade de best friends.
Assim como Mya, Kiki também mudou de vida com o sucesso do filme. Mesmo não conseguindo tirar um passaporte para divulgar Tangerine mundo a fora, ela saiu das ruas e já mora em um apartamento próprio. “Não estamos ricas, mas já estamos muito melhor que antes. Antes nós não tínhamos nada e agora sabemos como sobreviver. Mesmo tendo alguma coisa ou nada”, disse Mya ao The Guardian.
Anis – Instituto Bioética lançou a semana especial “Gênero fala de todo mundo”. Na ação, a organização postou em suas redes sociais, entre os dias 18 e 22 de julho, textos e infográficos para esclarecer o que significa, afinal, debater gênero.
Vivemos em um contexto cheio de equívocos e tabus, em que se classifica educação sobre gênero como propaganda. Muito se acredita que uma criança possa se tornar gay, lésbica, bi ou trans só pelo fato de ter conhecimento sobre isso, já que a falta de consciência para diferenciar “o certo do errado” a deixa mais vulnerável a escolher o caminho tido como errado, ou seja, o da não tradição de família. “Percebemos que a população confunde muito o conceito de gênero com questões específicas da comunidade LGBT, quando não muito com perversões sexuais das mais bizarras. Decidimos, portanto, produzir um material bem didático para mostrar que gênero é importante, sim, de se discutir nas escolas porque fala de um regime político de poder, que inclui todos”, explicou a jornalista da Anis, Raisa Pina.
Tendo isso em mente, foram publicados seis infográficos coloridos e didáticos e cinco textos assinados pelas pesquisadoras da Anis, Sinara Gumieri, Raisa Pina, Luciana Brito, Debora Diniz e Gabriela Rondon. Cada dia um texto em um veículo diferente para fazer a mensagem chegar mais longe. O material traz desde questões bastante básicas como o que é, afinal, gênero, até desconstruções da tal “apologia gayzista” ou da ideia de “ideologia de gênero”.
A advogada Sinara Gumiere abriu a série explicando que gênero tem muito mais a ver com política e poder do que com anatomia. “Para nós, o gênero, assim com artigo definido e no singular, é um regime político, isto é, uma forma de organizar a vida, com regras e estruturas de poder. Diferentes formas de entender gênero têm em comum a compreensão de que a forma como habitamos os corpos não gera destinos: não há experiências que sejam obrigatórias ou necessárias por causa de nossas anatomias”, escreve.
Ou seja, ninguém é obrigado a seguir ideias fixas de gênero só por causa do corpo com o qual nasceu. “Não há isso de natureza masculina, a qual condiciona homens com pênis a serem provedores, fortões ou gostar de mulher; ou, então, natureza feminina, que condiciona mulheres com vagina a serem mães, delicadas e boas esposas de homens”, argumenta a psicóloga Luciana Brito.
Ela segue essa linha de raciocínio para dizer que, se há argumentos que ninguém nasce mulher, mas se torna mulher, então pode-se dizer que ninguém nasce homofóbico, transfóbico ou agressor de mulheres, mas são feitos assim por uma sociedade que não aceita diferenças e ignora diversidades. Que melhor lugar para mudar essa base social intolerante do que pelas mentes jovens nas escolas?
Não se trata de ensinar ideologias nas escolas, mas conversar sobre experiências e vivências diferentes daquelas que cada um conhece, como explica a antropóloga Debora Diniz. “Não há livro sagrado que diga como devem viver os homens e as mulheres na intimidade de suas escolhas, e por isso gênero fala de todo mundo.Não é ideologia de gênero, mas vidas vividas no gênero”. Tampouco de fazer uma “apologia gayzista”, como mostra a série com o texto de Raisa Pina. Falar de gênero nada tem a ver com propaganda. Até porque ninguém vai virar gay por achar legal dois caras se beijando na novela ou porque ouviu falar de homossexualismo. “Acreditem: esses são todos comentários reais, “argumentos” em defesa da não discussão sobre gênero nas escolas. Muito me espanta o quanto as pessoas pensam que suas posições são frágeis: falar sobre algo significaria se tornar esse algo”, escreve Pina.
É simples. Discutir gênero é conversar sobre diferenças que existem no mundo. É ensinar respeito. Foi graças a esse tipo de discussão que mulheres conseguiram avançar no processo de igualdade, com direito ao voto, a frequentar universidades, a trabalhar fora de casa, assim como homens ganharam direito à licença-paternidade.
São grandes avanços, mas ainda não são suficientes. A advogada Gabriela Rondon lembra há quem argumente contra a educação sobre gênero nas escolas porque isso já seria desnecessário. Aparentemente para essas pessoas já vivemos em um paraíso, onde todos vivem em harmonia de mãos dadas (mas só entre homem e mulher, obviamente). Claro que as coisas mudaram nos últimos 50 anos, mas a igualdade de direitos é um processo lento. “Não acontece do dia para a noite nem é um processo acabado. Ainda precisamos falar sobre gênero”.
Sim, precisamos! E muito. Casos de violência contra mulher e homossexuais são realidade ainda no Brasil e querer igualdade de direitos para esses grupos não significa estar atrás de privilégios. Significa querer liberdade e respeito, valores que não vão fazer o mundo ficar pior – muito pelo contrário – se ensinados desde cedo, em sala de aula.
As ilustrações foram feitas por Valentina Fraiz e foram feitas exclusivamente para a ação da Anis.