Meu primeiro assédio na Realidade Virtual

Ilustração exclusiva feita por Thais Cortez (a.k.a. Emily)

Tradução do texto em inglês de Jordan Belamire, que sofreu o assédio


Semana passada, eu fui apalpada em um jogo de realidade virtual. Você sabia que isso podia acontecer? Eu não, mas agora já estou bem ciente disso.

Fui visitar meu cunhado e decidimos testar seu HTC Vive, um sistema de realidade virtual. Meu marido e eu estávamos na sua sala de estar da casa em Redwood. Era um dia idílico de 26 graus e nós três nos revezávamos no Vive.

Era minha vez. Eu dei uma última olhada ao redor da sala antes de colocar o enorme equipamento na cabeça. Com ele, entrei em um mundo muito mais bonito do que eu podia imaginar.

Girei o corpo 360 graus para ver tudo. Me empolguei com as fortalezas medievais cobertas de neve do jogo chamado QuiVr, que você joga no papel de um arqueiro que atira em zumbis. Depois de algumas instruções, encontrei o meu ritmo no jogo. Arco e flecha esticados, a postos e eu fiz minha flecha voar e atravessar o crânio de um demônio. Feito!

Nunca tinha visto uma realidade virtual tão real. Eu fiquei tão encantada que não queria mais sair daquele mundo. Para dar mais realidade à minha experiência, meu cunhado me mostrou como chegar ao topo da torre mais alta do jogo. “Agora ande até sair do parapeito”, ele sugeriu. Eu bem que podia tentar… Fui chegando mais perto da beirada, olhando pra aquela convincente queda de centenas de metros. Meu medo de altura começou a bater dentro de mim, e forte. Fechando os olhos, eu dei um passo para fora do parapeito e… nada aconteceu. Eu não cai! Ao invés disso, eu andei pelo ar. Eu era uma deusa. A realidade virtual tinha me ganhado por completo. Ou, pelo menos, era o que eu achava.

ovalha-miniimagem-vrAlguns minutos depois, comecei um novo jogo e escolhi o modo com mais de um jogador, em que outros jogadores aparecem simultaneamente com você no cenário. Cada um deles com uma aparência semelhante a sua: um capacete flutuante segurando um arco em uma mão, enquanto a outra se move livremente. Mantenha essa mão livre em mente…

Enfim, eu estava atirando em zumbis ao lado de outro jogador que tinha o nome de BigBro442. Ele podia me escutar quando eu falava e minha voz era a única coisa que revelava a minha identidade feminina. Fora isso meu avatar era idêntico ao dele.

Entre as ondas de zumbis e demônios, eu ficava esperando o próximo ataque ao lado de BigBro442. De repente, o capacete sem corpo de BigBro442 estava me encarando. Sua mão flutuante se aproximou do meu corpo e ele começou apalpar meu peito virtualmente.

“Para!”, eu gritei. Eu devo ter rido de tão ridícula e vergonhosa era aquela situação. Afinal, mulheres devem ficar de boa e encarar qualquer forma de abuso sexual com uma risadinha. Mas mesmo assim, eu mandei ele parar.
Isso só o atiçou. Mesmo depois que sai de perto, ele me seguiu, fazendo menção de agarrar e beliscar meus peitos. Ele até enfiou a mão na minha vagina virtual e começou a esfrega-la.

E ali estava eu, sendo assediada virtualmente em uma fortaleza medieval, com meu cunhado e meu marido assistindo.

Quando o abuso foi progredindo, minhas piadas ridicularizando BigBro442 se tornaram comentários raivosos, apimentados com obscenidades frustradas. No começo, meu cunhado e marido riram comigo da situação – tudo o que eles podiam ver era o assédio pela tela do computador. Do lado de fora do mundo do QuiVr, o acontecido deve ter parecido engraçado pra eles – e definitivamente irreal.

Lembra quando comentei como aquela queda de centenas de metros parecia ser super real? Pois é. Adivinha só. O assédio virtual pareceu tão real quanto.

Claro que você não está sendo tocada fisicamente, mas é a mesma sensação: você sabe que não está de fato a centenas de metros do chão, mas mesmo assim fica com medo. Meu sentimento de grandeza do início do jogo murchou. Eu passei de uma deusa que caminhava sobre o ar a uma mulher indefesa, perseguida por um avatar chamado BigBro442.

Eu não era uma jogadora tão experiente como BigBro442. Pra todo lugar que eu ia, ele aparecia atrás de mim, pronto pra me tocar assim que a onda de zumbis tivesse terminado. Eu já estava cansada disso! Com um último sinal obsceno, eu tirei o equipamento da minha cabeça e voltei para a sala ensolarada e familiar do meu cunhado. O que foi isso? Eu não durei três minutos no modo com vários jogadores sem ser assediada virtualmente.

O pior é que tudo pareceu muito real, agressivo. Isso pode parecer ridículo para quem nunca esteve na beira de uma queda virtual e olhou pra baixo. Mas se você já esteve, talvez comece entender. A perseguição e o assédio virtual aconteceram há uma semana e eu ainda não consigo parar de pensar nisso.

Agora que o choque passou, tenho me questionado sobre a misoginia incontida criada pelo anonimato no jogo. É fácil desconsiderar as ofensas vulgares de jovens adolescentes, mas eu não acho que isso seja tão raro assim.

Como é possível que meu cunhado tenha jogado com outros jogadores em tempo real, centenas de vezes, sem nenhum incidente do tipo, mas que a minha voz feminina tenha provocado um comportamento tão lascivo em questão de minutos?

Com a Realidade Virtual se tornando cada vez mais real, como podemos decidir qual o limite entre um simples incômodo e um assédio sexual? Eventualmente, vamos precisar de regras para domar o velho oeste dos jogos de RV com jogadores simultâneos. Ou esse vai se tornar mais um lugar em que mulheres não ousam se aventurar?

Mulheres são permitidas, é claro, mas os BigBro442 do mundo vão fazer o possível para que você não queira voltar nunca mais.
 
Ilustrações feitas com exclusividade por Thais Cortez (Emily).
 

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Casadas e grávidas ao mesmo tempo

Ao checar a minha timeline do Facebook em busca de coisas interessantes (o que quase nunca tem), vi a postagem de uma amiga. O título do texto me chamou a atenção logo de cara e o abri para ler: “My Wife and I are (both) Pregnant” (Minha esposa e eu estamos (ambas) grávidas, seria a tradução em português). Pensei: “Que sorte! E que coragem! Ter dois bebês ao mesmo tempo deve ser difícil. Mas deve ser bom por um lado, exatamente porque AS DUAS estão grávidas AO MESMO TEMPO”.

Mas claro que duas mulheres grávidas, casadas, vivendo na mesma casa não é tão simples como possa parecer. Depois de ler a matéria da New York Magazine percebi quantas coisas e diferentes sentimentos isso poderia implicar.

Lendo a história do casal Kate e Emily, vi que a coisa é muito mais complicada do que simplesmente “que bom, finalmente alguém vai entender EXATAMENTE porque estou me sentindo assim ou assim ou assado… E vai me ajudar!” Explico, do começo.

Kate e Emily começaram a tentar a gravidez após se casarem. Na clínica de fertilização, a médica escolheu Emily, por ser a mais jovem do casal, para tentar as inseminações. Mas Kate se viu querendo algo que, até então, não tinha tanta certeza que desejava: ela queria ficar grávida. Ambas concordaram e as tentativas começaram. Depois de seis meses tentando com Kate, a médica sugeriu que era a hora de Emily! “Você tá louca? E se as duas ficarem grávidas?”, perguntou Kate. “Ah, as chances disso acontecer são muito pequenas”, respondeu a médica.

Pronto. Emily engravidou na primeira tentativa, deixando Kate feliz mas meio frustrada. Kate já estava no meio do tratamento, e a gravidez de Emily ainda estava muito no início e qualquer coisa poderia acontecer, então a médica decidiu fazer mais uma inseminação em Kate. E pá! O resultado para Kate também foi positivo!

O relato é contado da perspectiva das duas separadamente. O que é interessante, pois ambas ficam livres para falar de seus sentimentos (algumas vezes de frustração pela gravidez ser mais fácil para uma do que para a outra) e dos esforços para se ajudar mutuamente. No momento do parto, como em alguns outros, ambas tentam não mostrar fraqueza nem pena, apesar de estarem se colocando em um esforço físico e emocional enorme para ajudar a parceira. Isso que é o lindo da história! Elas sabem das dificuldades uma da outra e, por isso mesmo, fazem de tudo para se apoiar da melhor forma possível.

 

 
Acho que uma das falas de Kate define bem a situação do casal durante os nove meses:

Os prós e contras de ter sua esposa, outra mulher, passando pela gravidez, trabalho de parto e maternidade ao mesmo tempo, é que você não consegue evitar comparações. Minha gravidez estava três semanas atrás da de Emily. Ela ia sentir algo que algumas semanas depois eu também iria sentir. Teve coisas muito parecidas, mas outras que eram tipo, ‘uau, espera um minuto, porque seus mamilos estão assim e os meus estão assim?!’

Mais adiante ela fala que o processo só funcionou porque o sentimento de pena estava proibido entre as duas: “Acho que o clichê da gravidez é que a esposa reclama muito. Mas qual é o sentido? Você reclama porque você quer que sintam pena. Você quer que a outra pessoa fale ‘Oh, baby, eu vou cuidar de você’. Nós não podíamos fazer isso. Não tínhamos energia para sentir pena! Os prós é que ambas sentíamos as mesmas coisas e tínhamos alguém que nos compreendia, mas sem sentir pena. Tinha empatia, mas sem pena!”

As duas se organizaram em tudo. Desde as tarefas domésticas, como quem vai cozinhar e lavar roupa na semana, até nas preparações antes do parto – afinal, a mala pro hospital tinha que estar pronta, já que a qualquer momento, uma delas podia entrar em trabalho de parto! Nunca passou pela minha cabeça até ler o texto, mas é claro que nenhuma das duas podia fazer tarefas pesadas! E aí, como faz se a pessoa que mora com você, e deveria te ajudar nesse momento, está tão cansada e com dores quanto você? O casal contou muito com ajuda de parentes e amigos (por sorte!).

A gravidez foi só uma parte do processo que as duas enfrentaram e ainda vão enfrentar juntas. Os meninos Reid e Eddie nasceram saudáveis e lindos! Depois do nascimento, as duas se encontram diante desse mundo novo que é a maternidade, em que não serão somente mães do filho que geraram biologicamente, mas do filho da esposa. E há aí o desafio em se conectar com os dois filhos igualmente, sem escolher o próprio como favorito.

A história me chamou atenção por muitos motivos, mas o principal: pela perspectiva de duas mulheres passando pelo mesmo processo, ao mesmo tempo, e por revelar como, mesmo assim, gravidez e maternidade são coisas complexas. Terminei a leitura com a impressão de que a gravidez não ficou mais fácil ou mais difícil pelas duas estarem, de fato, juntas nessa. Pelos relatos, há certas dificuldades que talvez outros casais (em que só uma delas estivesse grávida) não tivessem, mas outras coisas positivas também. No final, o que importa é que os dois garotos serão criados com muito amor por duas mulheres fortes (e com uma baita história pra contar sobre o seu nascimento).

 


Imagem feita com exclusividade por Bárbara Malagoli (Baby C)

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Jordan Belamire, que sofreu o assédio


Semana passada, eu fui apalpada em um jogo de realidade virtual. Você sabia que isso podia acontecer? Eu não, mas agora já estou bem ciente disso.

Fui visitar meu cunhado e decidimos testar seu HTC Vive, um sistema de realidade virtual. Meu marido e eu estávamos na sua sala de estar da casa em Redwood. Era um dia idílico de 26 graus e nós três nos revezávamos no Vive.

Era minha vez. Eu dei uma última olhada ao redor da sala antes de colocar o enorme equipamento na cabeça. Com ele, entrei em um mundo muito mais bonito do que eu podia imaginar.

Girei o corpo 360 graus para ver tudo. Me empolguei com as fortalezas medievais cobertas de neve do jogo chamado QuiVr, que você joga no papel de um arqueiro que atira em zumbis. Depois de algumas instruções, encontrei o meu ritmo no jogo. Arco e flecha esticados, a postos e eu fiz minha flecha voar e atravessar o crânio de um demônio. Feito!

Nunca tinha visto uma realidade virtual tão real. Eu fiquei tão encantada que não queria mais sair daquele mundo. Para dar mais realidade à minha experiência, meu cunhado me mostrou como chegar ao topo da torre mais alta do jogo. “Agora ande até sair do parapeito”, ele sugeriu. Eu bem que podia tentar… Fui chegando mais perto da beirada, olhando pra aquela convincente queda de centenas de metros. Meu medo de altura começou a bater dentro de mim, e forte. Fechando os olhos, eu dei um passo para fora do parapeito e… nada aconteceu. Eu não cai! Ao invés disso, eu andei pelo ar. Eu era uma deusa. A realidade virtual tinha me ganhado por completo. Ou, pelo menos, era o que eu achava.

ovalha-miniimagem-vrAlguns minutos depois, comecei um novo jogo e escolhi o modo com mais de um jogador, em que outros jogadores aparecem simultaneamente com você no cenário. Cada um deles com uma aparência semelhante a sua: um capacete flutuante segurando um arco em uma mão, enquanto a outra se move livremente. Mantenha essa mão livre em mente…

Enfim, eu estava atirando em zumbis ao lado de outro jogador que tinha o nome de BigBro442. Ele podia me escutar quando eu falava e minha voz era a única coisa que revelava a minha identidade feminina. Fora isso meu avatar era idêntico ao dele.

Entre as ondas de zumbis e demônios, eu ficava esperando o próximo ataque ao lado de BigBro442. De repente, o capacete sem corpo de BigBro442 estava me encarando. Sua mão flutuante se aproximou do meu corpo e ele começou apalpar meu peito virtualmente.

“Para!”, eu gritei. Eu devo ter rido de tão ridícula e vergonhosa era aquela situação. Afinal, mulheres devem ficar de boa e encarar qualquer forma de abuso sexual com uma risadinha. Mas mesmo assim, eu mandei ele parar.
Isso só o atiçou. Mesmo depois que sai de perto, ele me seguiu, fazendo menção de agarrar e beliscar meus peitos. Ele até enfiou a mão na minha vagina virtual e começou a esfrega-la.

E ali estava eu, sendo assediada virtualmente em uma fortaleza medieval, com meu cunhado e meu marido assistindo.

Quando o abuso foi progredindo, minhas piadas ridicularizando BigBro442 se tornaram comentários raivosos, apimentados com obscenidades frustradas. No começo, meu cunhado e marido riram comigo da situação – tudo o que eles podiam ver era o assédio pela tela do computador. Do lado de fora do mundo do QuiVr, o acontecido deve ter parecido engraçado pra eles – e definitivamente irreal.

Lembra quando comentei como aquela queda de centenas de metros parecia ser super real? Pois é. Adivinha só. O assédio virtual pareceu tão real quanto.

Claro que você não está sendo tocada fisicamente, mas é a mesma sensação: você sabe que não está de fato a centenas de metros do chão, mas mesmo assim fica com medo. Meu sentimento de grandeza do início do jogo murchou. Eu passei de uma deusa que caminhava sobre o ar a uma mulher indefesa, perseguida por um avatar chamado BigBro442.

Eu não era uma jogadora tão experiente como BigBro442. Pra todo lugar que eu ia, ele aparecia atrás de mim, pronto pra me tocar assim que a onda de zumbis tivesse terminado. Eu já estava cansada disso! Com um último sinal obsceno, eu tirei o equipamento da minha cabeça e voltei para a sala ensolarada e familiar do meu cunhado. O que foi isso? Eu não durei três minutos no modo com vários jogadores sem ser assediada virtualmente.

O pior é que tudo pareceu muito real, agressivo. Isso pode parecer ridículo para quem nunca esteve na beira de uma queda virtual e olhou pra baixo. Mas se você já esteve, talvez comece entender. A perseguição e o assédio virtual aconteceram há uma semana e eu ainda não consigo parar de pensar nisso.

Agora que o choque passou, tenho me questionado sobre a misoginia incontida criada pelo anonimato no jogo. É fácil desconsiderar as ofensas vulgares de jovens adolescentes, mas eu não acho que isso seja tão raro assim.

Como é possível que meu cunhado tenha jogado com outros jogadores em tempo real, centenas de vezes, sem nenhum incidente do tipo, mas que a minha voz feminina tenha provocado um comportamento tão lascivo em questão de minutos?

Com a Realidade Virtual se tornando cada vez mais real, como podemos decidir qual o limite entre um simples incômodo e um assédio sexual? Eventualmente, vamos precisar de regras para domar o velho oeste dos jogos de RV com jogadores simultâneos. Ou esse vai se tornar mais um lugar em que mulheres não ousam se aventurar?

Mulheres são permitidas, é claro, mas os BigBro442 do mundo vão fazer o possível para que você não queira voltar nunca mais.
 
Ilustrações feitas com exclusividade por Thais Cortez (Emily).
 

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