O paraíso feminista não existe (ainda)

Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)

Desde que o mundo era dividido entre metrópoles e colônias o velho continente era visto (ou se apresentava) como “os civilizados”, “os evoluídos”. Enquanto isso, nós, do outro lado do Oceano, éramos “os selvagens”. Essa divisão permaneceu, apesar das guerras de independência e revoluções, não só na mentalidade europeia pós-colonialista, mas também na nossa eterna síndrome de vira-lata. Ainda olhamos para o quintal do vizinho e o vemos como o mais florido, o mais bonito e, nesse caso específico, o mais evoluído em absolutamente tudo.

Durante os meus três anos morando na Alemanha cansei de escutar de brasileiros – moradores daqui ou do Brasil – que as feministas alemãs são “exageradas”, afinal as mulheres por aqui já são completamente emancipadas. Entre os que olham para a Europa como um paraíso, há uma ideia de que machismo, racismo e ódio não existem por aqui. Para essas mentes iludidas, o feminismo já foi vitorioso da Noruega à Grécia, enquanto o machismo assombra apenas países “não civilizados” na América Latina, na África, na Ásia…

Todo esse discurso é muito perigoso. Ele não só é usado para minimizar e desacreditar os movimentos feministas europeus, que ainda lutam por melhorias na legislação de proteção às mulheres, como também criminaliza estrangeiros e refugiados e contribui para um discurso de ódio. Como a Europa sempre foi vista como essa terra maravilhosa em que mulheres, teoricamente, não sofreriam com violência sexual e de gênero, a culpa de qualquer caso recente de abuso tem caído direto na conta dos estrangeiros que chegaram aqui há pouco tempo. Partidos de extrema direita, como a AfD (Alternativa para a Alemanha, na tradução da sigla para o português) tem usado isso como justificativa para conseguir votos e implantar futuramente uma política anti-imigração no país (sim, o mesmo país que por décadas teve políticas cruéis contra estrangeiros parece estar revivendo aos poucos essa história…). A chefe do partido, senhora Frauke Petry, chegou a dizer, em agosto deste ano, que o ideal seria enviar todos refugiados a uma ilha fora da Europa…  A cada caso de violência – sexual ou não – que aparece na mídia e aterroriza cidadãos alemães, a AfD faz questão de se manifestar rapidamente, buscando um jeito de culpar especialmente muçulmanos…

Claro que casos como os abusos na noite do ano novo em Colônia e o estupro da estudante de 19 anos por um refugiado afegão em Freiburg (saiba mais aqui), no Sul da Alemanha, são horríveis e completamente condenáveis. Mas não se pode cair na ilusão de que tudo era perfeito até a chegada dos refugiados e de que crimes como esses são praticados somente por eles.

A Europa nunca esteve livre do machismo e ainda não está! Uma prova disso é o resultado da pesquisa sobre violência de gênero divulgada em novembro deste ano pela União Europeia. De acordo com ela, mais de um quarto dos 30 mil cidadãos europeus entrevistados acreditam que estupro é justificável em certos casos.

Vinte e sete por cento dos entrevistados responderam que forçar alguém a ter relações sexuais seria aceitável em uma das seguintes circunstâncias: se a pessoa estivesse drogada, ou alcoolizada, ou estivesse usando roupas provocantes, ou estivesse caminhando sozinha para casa ou tivesse aceitado ir para casa com o agressor. Mais detalhadamente, 12% disseram que estupro seria aceitável em caso da mulher ter consumido drogas ou álcool; e 10% consideram aceitável se a vítima não demostrou resistência física ou não disse claramente que não.

Os países em que mais se acha que estupro é justificável em certos casos são Romênia e Hungria, enquanto os que tiveram mais repostas negativas para essa pergunta foram Espanha e Suécia. Vale ressaltar que a pesquisa foi feita com cidadãos da União Europeia, e não simplesmente com moradores da União Europeia.

O artigo que li no Independent sobre isso foi bombardeado por comentários incrédulos quanto aos resultados. Os leitores acusavam a pesquisa de falsificação de dados. Essa negação faz parte de uma característica europeia de ver somente o que está errado com o outro e não enxergar os próprios erros. É uma mentalidade pós-colonialista de ver o resto do mundo como os selvagens. Afinal, como assim a Europa não é melhor em tudo? Nem na Europa a igualdade de gênero é perfeita? Não! E é por isso que existe feminismo por aqui.  Pra quem dúvida, os resultados completos da pesquisa estão no site da Comissão Europeia (os apresentados aqui estão na página 5 do relatório em inglês ;-) ).

[caption id="attachment_12644" align="aligncenter" width="507"]Leitores acusam Independent de falsificar dados e de ter feito a pesquisa somente com estrangeiros. Leitores alegam que os dados foram falsificados e que a pesquisa foi feita somente com estrangeiros.[/caption]

A pesquisa também mostrou outros dados que destroem o castelinho do conto de fadas: de uma a cada cinco pessoas concordam que mulheres, muitas vezes, inventam ou exageram em acusações de abuso sexual ou estupro, e 17% acreditam que casos de violência contra mulheres pode ser, muitas vezes, culpa da vítima.

Outro dado importante, que já se sabia, mas foi citado novamente pelo relatório, é que uma a cada três mulheres na União Europeia já viveu uma situação de violência física e/ou sexual desde os seus 15 anos de idade, enquanto uma a cada dez já disseram ter sofrido abuso sexual ou perseguições em plataformas virtuais.

Todos esses novos fatos podem parecer difíceis de acreditar, se olharmos somente para o superficial, ou seja, apenas para o jardim do vizinho e não para o seu porão.

Vou usar a Alemanha como exemplo, que é o caso que mais conheço. Por aqui, até 1997, um estupro que acontecesse dentro de um casamento não era considerado crime. Ou seja, não era considerado estupro, se o marido forçasse sua esposa a ter relações sexuais com ele. A discussão sobre a reforma na lei durou 25 anos (!) até que as mulheres parlamentares conseguiram ser ouvidas. Se pensarmos bem e considerarmos a longa história do feminismo europeu, 1997 não foi há tanto tempo assim…

Outra grande vitória pelos direitos das mulheres na Alemanha aconteceu apenas (mas antes tarde do que nunca!) em julho deste ano. O Parlamento alemão finalmente aprovou uma reforma na lei que pune violência sexual. Com a reforma “Nein heißt nein” (Não significa não), um estupro pode ser considerado estupro legalmente, mesmo se a vítima não reagir ativamente a agressão (tentando se defender fisicamente ou dizendo “não”). Até então, um caso de estupro só era condenável se o agressor tivesse feito uso de ameaças e/ou violência física para forçar uma relação sexual, ou se a vítima pudesse provar ter dito claramente “não”. Acredita-se que, por causa disso, somente 8% dos casos registrados de estupros no país resultam na condenação do agressor.

[caption id="attachment_12646" align="aligncenter" width="428"]Foto: Martin Abegglen (Wikimedia Commons) Foto: Martin Abegglen (Wikimedia Commons)[/caption]

Pode ser sim que aqui as coisas caminhem mais rápido do que no Brasil. Aqui na Alemanha, por exemplo, as mulheres já conquistaram o direito ao aborto até os três meses de gestação há tempos e pegar metrô ou ônibus de roupa curta talvez não seja tão assustador para nós como é no Brasil.

Mas pensar que tudo é perfeito só barra as batalhas ainda lutadas por nossas companheiras. Lembrando que nem na Islândia, considerado melhor país para se ser mulher, as coisas são uma maravilha: lá, as funcionárias mulheres recebem até 14% a menos que os homens. Pois é, nem lá…

Não faço esse texto pra desmotivar vocês. Faço para dizer que o feminismo ainda tem que ser levado a sério EM TODO LUGAR e pra lembrar que não estamos sozinhas. E essa deve ser nossa motivação.
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Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)

Escrito por
Mais de Débora Backes

Refugiadas e violentadas sexualmente

De janeiro a novembro de 2015, mais de 950 mil refugiados e imigrantes chegaram na Europa pelo Mediterrâneo. Aproximadamente 16% desses recém-chegados no continente europeu eram mulheres e 24% crianças. Para esses dois grupos, a jornada para um lugar seguro é mais pesada e perigosa. Além de ter que lidar com a fome, frio, falta de abrigo e condições minimamente humanas de sobrevivência, esses grupos são postos sobre risco de abusos e violências sexuais.

Muitas dessas mulheres e meninas fogem exatamente disso. Em seus países de origem, elas seriam obrigadas a se casarem, ou seriam transformadas em escravas sexuais por algum grupo radical. Fugiram, como qualquer pessoa nessa situação faria. Mas tristemente encontram no seu caminho e em seu destino o mesmo machismo que sempre as transformaram em meros objetos.

Entre 2 e 7 de novembro de 2015, a Agência da ONU para Refugiados (UNHCR, na sigla em inglês), juntamente com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e a Comissão para Mulheres Refugiadas (WRC), realizou uma pesquisa de campo para entender os riscos que mulheres e crianças estavam enfrentando nessa jornada. Os resultados foram divulgados em um longo e chocante relatório com dados, relatos pessoais e recomendações às autoridades responsáveis pela recepção dos refugiados.

Durante o pouco tempo de trabalho, o time da ONU observou que os casos de violência sexual direcionados ao gênero (Sexual and Gender-Based Violence, na expressão em inglês) não se limitam somente a casamentos precoces e forçados, mas também a violência doméstica, estupros, abusos sexuais e psicológicos, e ao uso do sexo como moeda de troca. A SGBV –  sigla em inglês usada no relatório – é reconhecida, ao mesmo tempo, como motivo pelo qual as mulheres deixaram seus países de origem e uma realidade durante sua viagem em busca de asilo.

Farah, por exemplo, uma mulher afegã entrevistada para a pesquisa, deixou seu país para ir com seus oito filhos para a Europa – sendo deles, sete meninas com menos de 17 anos. Eles haviam se refugiado no Irã, onde seu marido e um dos filhos foram mortos. Depois que um tio das crianças ameaçou vender uma das meninas para casamento, Farah decidiu fugir para salvar sua filha. Ao longo da viagem, suas meninas demonstraram ter muito medo dos outros homens que viajavam junto.

O medo não é infundado. Assim que tentam embarcar para a Europa, as mulheres continuam a sofrer investidas agressivas masculinas. Como é o caso de Oumo, que fugiu de um país da África subsaariana devido à perseguição política de sua família: seu cunhado foi assassinado e sua irmã despareceu. Enquanto tentava chegar à Grécia, foi duas vezes obrigada a se relacionar sexualmente com homens para conseguir alcançar seu destino. Na primeira vez, para ganhar um passaporte falso. Na segunda, com outro homem, para entrar em um barco saindo da Turquia.

Eu não tive escolha”, disse ela à entrevistadora, “sinto que vou enlouquecer.

O relatório constatou ainda uma falta de preparo das autoridades em prevenir e lidar com esse tipo de violência. Algumas acomodações que recepcionam os refugiados, como a de Samos na Grécia, não têm separação entre homens e mulheres nos dormitórios e banheiros. Essas condições aumentam os riscos de violências e abusos sexuais. Além disso, são oferecidos poucos (ou nenhum) serviço médico e psicológico adequados para lidar com casos de SGBV (Sexual and Gender Based Violence).

Poucas condições para ajudar mulheres grávidas

Há um número grande de mulheres grávidas que tentam fazer essa viagem por terra e mar para chegar ao continente europeu. Sem escolha e com a esperança de uma terra sem guerra para seus filhos, muitas começam a viagem com a gravidez já bastante avançada. Em um posto da Cruz Vermelha, em Tabanovce na Macedônia, foram registradas 16 grávidas entre 128 pessoas que passaram por ali em um turno de 12 horas. Boa parte delas havia sofrido um estresse psicológico muito grande e, por isso, tinha altos riscos de complicações.

Tehmina atravessava a Grécia já com 9 meses e meio de gravidez quando entrou em trabalho de parto. Ela queria chegar à Alemanha para ter o bebê, mas não podia mais esperar. Tehmina teve o bebê na Grécia. Em apenas algumas horas após o parto, ela e o recém-nascido deixaram o hospital para continuar caminhando.

Fatah, Oumo e Tehmina são apenas três tristes histórias entre milhares que continuam se repetindo, enquanto estamos aqui discutindo se a Europa deve aceitar ou não a entrada de ainda mais refugiados. Elas mostram que a questão é muito maior que isso. Enquanto discutíamos isso, foram esquecidas as mínimas condições para que essas mulheres pudessem chegar em um lugar seguro. Um lugar onde não tivessem que passar por humilhações como estupro, abusos sexuais e nem usar seus corpos como moeda de troca. Elas provam que a discussão sobre os refugiados vai muito além do “abrir ou não as fronteiras”.

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aqui), no Sul da Alemanha, são horríveis e completamente condenáveis. Mas não se pode cair na ilusão de que tudo era perfeito até a chegada dos refugiados e de que crimes como esses são praticados somente por eles.

A Europa nunca esteve livre do machismo e ainda não está! Uma prova disso é o resultado da pesquisa sobre violência de gênero divulgada em novembro deste ano pela União Europeia. De acordo com ela, mais de um quarto dos 30 mil cidadãos europeus entrevistados acreditam que estupro é justificável em certos casos.

Vinte e sete por cento dos entrevistados responderam que forçar alguém a ter relações sexuais seria aceitável em uma das seguintes circunstâncias: se a pessoa estivesse drogada, ou alcoolizada, ou estivesse usando roupas provocantes, ou estivesse caminhando sozinha para casa ou tivesse aceitado ir para casa com o agressor. Mais detalhadamente, 12% disseram que estupro seria aceitável em caso da mulher ter consumido drogas ou álcool; e 10% consideram aceitável se a vítima não demostrou resistência física ou não disse claramente que não.

Os países em que mais se acha que estupro é justificável em certos casos são Romênia e Hungria, enquanto os que tiveram mais repostas negativas para essa pergunta foram Espanha e Suécia. Vale ressaltar que a pesquisa foi feita com cidadãos da União Europeia, e não simplesmente com moradores da União Europeia.

O artigo que li no Independent sobre isso foi bombardeado por comentários incrédulos quanto aos resultados. Os leitores acusavam a pesquisa de falsificação de dados. Essa negação faz parte de uma característica europeia de ver somente o que está errado com o outro e não enxergar os próprios erros. É uma mentalidade pós-colonialista de ver o resto do mundo como os selvagens. Afinal, como assim a Europa não é melhor em tudo? Nem na Europa a igualdade de gênero é perfeita? Não! E é por isso que existe feminismo por aqui.  Pra quem dúvida, os resultados completos da pesquisa estão no site da Comissão Europeia (os apresentados aqui estão na página 5 do relatório em inglês ;-) ).

A pesquisa também mostrou outros dados que destroem o castelinho do conto de fadas: de uma a cada cinco pessoas concordam que mulheres, muitas vezes, inventam ou exageram em acusações de abuso sexual ou estupro, e 17% acreditam que casos de violência contra mulheres pode ser, muitas vezes, culpa da vítima.

Outro dado importante, que já se sabia, mas foi citado novamente pelo relatório, é que uma a cada três mulheres na União Europeia já viveu uma situação de violência física e/ou sexual desde os seus 15 anos de idade, enquanto uma a cada dez já disseram ter sofrido abuso sexual ou perseguições em plataformas virtuais.

Todos esses novos fatos podem parecer difíceis de acreditar, se olharmos somente para o superficial, ou seja, apenas para o jardim do vizinho e não para o seu porão.

Vou usar a Alemanha como exemplo, que é o caso que mais conheço. Por aqui, até 1997, um estupro que acontecesse dentro de um casamento não era considerado crime. Ou seja, não era considerado estupro, se o marido forçasse sua esposa a ter relações sexuais com ele. A discussão sobre a reforma na lei durou 25 anos (!) até que as mulheres parlamentares conseguiram ser ouvidas. Se pensarmos bem e considerarmos a longa história do feminismo europeu, 1997 não foi há tanto tempo assim…

Outra grande vitória pelos direitos das mulheres na Alemanha aconteceu apenas (mas antes tarde do que nunca!) em julho deste ano. O Parlamento alemão finalmente aprovou uma reforma na lei que pune violência sexual. Com a reforma “Nein heißt nein” (Não significa não), um estupro pode ser considerado estupro legalmente, mesmo se a vítima não reagir ativamente a agressão (tentando se defender fisicamente ou dizendo “não”). Até então, um caso de estupro só era condenável se o agressor tivesse feito uso de ameaças e/ou violência física para forçar uma relação sexual, ou se a vítima pudesse provar ter dito claramente “não”. Acredita-se que, por causa disso, somente 8% dos casos registrados de estupros no país resultam na condenação do agressor.

Pode ser sim que aqui as coisas caminhem mais rápido do que no Brasil. Aqui na Alemanha, por exemplo, as mulheres já conquistaram o direito ao aborto até os três meses de gestação há tempos e pegar metrô ou ônibus de roupa curta talvez não seja tão assustador para nós como é no Brasil.

Mas pensar que tudo é perfeito só barra as batalhas ainda lutadas por nossas companheiras. Lembrando que nem na Islândia, considerado melhor país para se ser mulher, as coisas são uma maravilha: lá, as funcionárias mulheres recebem até 14% a menos que os homens. Pois é, nem lá…

Não faço esse texto pra desmotivar vocês. Faço para dizer que o feminismo ainda tem que ser levado a sério EM TODO LUGAR e pra lembrar que não estamos sozinhas. E essa deve ser nossa motivação.

Ilustração feita com exclusividade por Fernanda Garcia (a.k.a. Kissy)

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