Guia Ovelha para a recém-desempregada

Colagem digital feita com exclusividade por Bárbara Malagoli (Baby C)
Se você está desempregada, cai pra dentro e receba esse abraço de empatia e uma tentativa sincera de apoio a partir do que aprendemos na marra

No começo de 2016 – claro que foi nesse ano, por que não seria? – fui demitida.

Emocional e psicologicamente, eu fiquei relativamente aliviada. Já estava naquela empresa há tempo demais e sentia que não tinha mais nada o que aprender e nem o que contribuir, estava passando meus dias arrastados, reclamando de tudo e criando uma nuvem de mal-estar que só piorava com o tempo.

Então, com a demissão, esperava abraçar os freelas e cantar “liberdade liberdade abre as asas sobre nós”. Esperava sair com amigos e ler mil livros arrasadores, ir ao cinema e voltar a escrever resenhas literárias que você sempre gostou – sacou a mea culpa? ata -, ficar menos conectada na rede mundial de computadores e mais em contato direto com as pessoas que você ama. Esperava viajar e ficar boiando naquele mar de gratiluz.

Esperava muito.

 

 

Corta para uma Fabiana assistindo a todos os filmes do Harry Potter, às 4 horas da manhã, comendo biscoito de polvilho.

Talvez eu tenha romantizado demais o significado de uma vida profissional, mas muita coisa em que eu acreditava foi posta em xeque quando fui demitida. Ser demitida não implica só estar desempregada, com medo de não ter grana para continuar pagando seu aluguel, nem estabilidade para fazer quaisquer planos a longo prazo (embora essas preocupações sejam constantes). Implica também em lidar com um certo tipo de rejeição, com desacreditar na sua competência e ter sua auto-estima duvidada.

As questões de produtividade e finalidade se tornaram centrais nas minhas pirações e crises de ansiedade. Não me sentir produtiva, tanto no aspecto macro da abelhinha que contribui para colmeia  funcionar, (sei que é lance bem 1984 mas Bela e a Fera já cantava: “sentimentos são….”) como no micro, na dinâmica da casa – de não conseguir pagar todos os aluguéis e supermercados – tornou-se incapacitante para mim e, com o tempo, era só o que conseguia pensar.

Entre os envios frenéticos de currículo, emails para os contatinhos da área, alguns freelas que salvaram as contas no final do mês e algumas eventuais entrevistas de emprego, eu passei por algumas etapas bem loucas, instáveis, eufóricas e deprês, listadas abaixo. Se você também está desempregada, cai pra dentro e receba esse abraço de empatia e uma tentativa sincera de apoio a partir dos meus aprendizados.

 

  1. Ah, (a ilusão do) tempo livre!


 
No primeiro momento, você pode até se sentir feliz e aliviada com a demissão, capaz até de abraçar um poste no meio da rua, no estilo do filme “Cantando na Chuva”. Aquela euforia inicial tão, tão ingênua de pensar “que bom, pelo menos você vai conseguir descansar um tempinho, restabelecer, redefinir suas prioridades e voltar ao mercado de trabalho 100 por cento”.

Então se joga, pelo menos de início. Viva alguns dias ou semanas dançando como uma otariana nas ruas alagadas pela chuva porque não demora a surgir aqueles pensamentos ansiosos que começam com “E AGORA?”. A água ainda vai bater na sua bunda.
 
 

  1. Falta de rotina não é bem uma liberdade


 
É neste período que você vai descobrir (ou reafirmar) que a 6a. temporada da “Buffy – a caça vampiros” é a melhor. Você vai começar a perder o controle do tempo. Vai acordar mais tarde todo dia não porque você curte, mas porque você não tem mais motivo para acordar cedo. E isso não é libertador, na real é meio deprimente. Sem rotina, ansiosa e deprimida, a insônia vem para fazer bagunça e coroar a sensação de estar num vortex de procrastinação total. Mesmo com todo o tempo livre durante o dia, é nas madrugadas que você consegue rever suas séries favoritas.

[caption id="attachment_13540" align="alignnone" width="700"] Keep calm and Buffy on[/caption]  
 

  1. Vá arejar a cabeça em outro lugar


 
Não dá para ficar se sentindo uma merda para sempre, certo? Então você pode viajar, ir para a praia, campo, acampar. Sair um pouquinho da rotina, sair um pouco da espiral de pensamentos loucos que é a sua cabeça.

Porém, saiba que, às vezes, a ansiedade tem disso: independentemente do lugar que você vá, ela te segue – como naqueles filmes de terror sobre assombrações: às vezes não é a casa que está assombrada, então por mais que você saia da casa, a assombração te acompanhará (eita, ficou pesado).

Então nada de achar que uma viagem será a resposta para todos seus problemas. Segura essa ppk.

 

  1. Foco e organização serão seus melhores amigos


 
Pratique o ritual de invocação da sua virginiana interior. O que pode ajudar muito é o velho ditado: um passo de cada vez. Assim, uma rotina mais regrada pode ajudar a estruturar melhor seus pensamentos: acordar cedo, fazer exercícios, voltar a cozinhar (se você curte cozinhar), ler aqueles livros que estão na pilha de pendências há alguns meses… Tem que pôr a cabeça para distrair, mas com foco. Então, a euforia da produtividade pode tomar conta da sua alma: você vai voltar a ter vontade, energia e iniciativa para começar uns mil projetos que sempre quis fazer. YAY!
 
[caption id="attachment_13618" align="alignnone" width="700"] YOU CAN DO IT![/caption]  

  1. Agora deixe seu lado virginiana tomar conta!


 
Depois de por em prática o passo 4, a consequência disso é querer experimentar coisas novas que possam ajudar na sua terapia anti-ansiedade. Alguma das coisas que eu fui atrás e que podem ser incríveis nesse período:

Aprender a plantar e cuidar de suculentas
Aprender a fazer pão (e aqui vai uma dica maravilhosa: leia o blog da Neide Rigo)
Aprender a tricotar
Aprender a usar óleo de coco em tudo
 
 

  1. Não se frustre com o loop emocional


 
Você provavelmente vai viver um loop das etapas 2 e 4 porque, na minha experiência pessoal, a euforia e empolgação é sempre seguida por uma fase mais depressiva e melancólica. É difícil manter a empolgação e tocar tantos projetos em uma tacada só, se dê um desconto.

Pense como se fosse uma crise hipoglicêmica vinda de um efeito rebote depois de um diabético comer uma barra de chocolate.

É difícil.
 
 

  1. Respire


 
Muita gente que conheço não passou por nenhuma dessas etapas e são perfeitamente felizes e satisfeitas pegando alguns freelas e conseguindo tocar seus projetos pessoais no meio tempo.

Não tive essa benção e, às vezes, é muito difícil colocar as coisas em perspectiva e sair um pouco do olho do furacão para entender que o retorno de saturno para cancerianos é cruel demais.

A cobrança e a comparação são constantes e é só o que você consegue fazer. Soma-se isso com a culpa de não ser forte o bastante para transformar essa situação em uma oportunidade. O resultado disso é uma bagunça, pura bagunça.

Porém, é preciso lembrar: é ok se sentir uma merda numa situação bosta. Entender essa fossa é mais importante do que ficar desesperadamente tentando sair dela.

Respira. E força!


 
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Colagem digital feita com exclusividade por Bárbara Malagoli (Baby C).
 

Escrito por
Mais de Fabi Oda

Murakami, querido, continue com o que sabe

O eterno candidato ao prêmio Nobel de Literatura Haruki Murakami rompeu os limites geográficos do círculo literário japonês quando sua obra invadiu livrarias internacionais na década de 1980. Queridinho do público xófen e descolado japonês, ele conquistou o nível de best-seller ao conseguir discutir com profundidade temas filosóficos e tão frequentes na sociedade atual: a solidão e o âmago das relações humanas.

Murakami é um mestre em criar ambientes sutilmente surreais, aqueles que você só percebe a incompatibilidade com a realidade muito tempo depois (alguém lembrou imediatamente do combo menina-em-cima-de-um-cavalo-pintando-a-parede-com-sangue do filme “Durval Discos”?). Seus romances conseguem conciliar a ambientação da sociedade e a dinâmica japonesa moderna com inserções pontuais non-sense, como a maravilhosa aparição de Coronel Sanders, da rede de fastfood KFC, e Johnnie Walker-keep-walking, em Kafka à beira mar.

Dentre as muitas tropes [figuras de linguagem] utilizadas pelo autor – as inúmeras referências musicais de jazz e rock ocidental, suas meticulosas descrições de receitas culinárias e a constante presença de gatos como um elemento introdutório para o surreal – está a presença de personagens marcadas por seu isolamento, pela sua inadequação social e pelos seus cotidianos meticulosos e ponderados.

No entanto, no meio de narrativas maravilhosas como Caçando carneiros e Kafka à Beira-Mar, que exploram com maestria o surrealismo moderno na literatura, temos 1Q84 com tooodos seus problemas:

cover-1Q84No livro, o escritor nos apresenta duas personagens principais cujas histórias caminham em aparente paralelo: Tengo é um aspirante a escritor e professor de matemática enquanto Aomame (Vagens verdes em japonês, não me pergunte porque) é uma professora de ginástica que, por acaso, também é uma assassina profissional nas horas vagas e trabalha para uma viúva que tem um abrigo para mulheres que sofreram agressão e abuso sexual. Os personagens se conhecem brevemente durante a infância, após um episódio que marca profundamente ambos, criando uma conexão que nunca conseguiram se livrar, mas tomam caminhos diferentes e nunca mais se cruzam.

No melhor estilo Alice através do espelho, os dois personagens se veem em uma realidade sutilmente alternativa após Aomame utilizar um atalho em uma congestionada via expressa para conseguir chegar ao seu destino. A primeira dica são as duas luas que aparecem estateladas no céu. A partir desse ponto, as histórias se tangenciam, Tengo é convidado para reescrever um romance peculiar chamado A Crisálida de Ar, escrito por Fuka-Eri, uma garota de 17 anos, filha do líder da seita fanático-religiosa Sakigake. Do outro lado da narrativa, Aomame recebe o job de matar esse mesmo líder e o cenário está posto para altas trapalhadas e confusões!  ~apagr~

O revezamento entre capítulos de suas personagens chega a criar uma espiral de monotonia, mas é compensada pela complementariedade das duas personalidades tão opostas. Enquanto Tengo é uma pessoa frustrada, passiva e medíocre dentro de seu cotidiano, Aomame é ativa, com uma autoconsciência assustadora e uma frieza e racionalidade marcante, porém o tom quase cartunesco deixa a trajetória principal das personagens inverossímil. De fato, Tengo e Aomame parecem sair de um anime dos anos 1990, suas reações são tão apáticas e automatizadas que fazem Shinji Ikari – de Neon Genesis Evangelion – parecer o capitão ação.

A frustração com o fato de Murakami não saber o que fazer com uma personagem feminina tão forte e empoderada é grande. Afinal, Aomame é uma fucking assassina profissional que tem como alvos agressores sexuais, dentre eles o líder de uma seita pedófilo que utiliza de argumentos holísticos para justificar suas ações. Mas o discurso da personagem é tão incompatível com suas ações que o cenário todo fica forçado. Em nenhum momento ela reflete profundamente sobre suas ações nem assume uma postura realmente confrontadora; sua ocupação parece que surgiu mais por conveniência (uma habilidade inata de passar despercebida e de ter um rosto completamente esquecível) e não por uma militância ou um senso de justiça distorcido.

Pior ainda é a falta de sensibilidade e noção do autor ao utilizar episódios gráficos de violência sexual, como as extensas cenas de estupros e pedofilia, como escada para desenrolar a trama principal. Assim, Murakami aproxima-se demais do clichê Women in Refrigerator (do qual as mulheres sofrem as mais absurdas violências como mero dispositivo na narrativa) e perde uma grande oportunidade de aprofundar suas personagens e criar uma trama mais complexa e profunda.

Embora o romance tenha tido ótimos momentos, personagens secundárias maravilhosas e tenha sido um grande sucesso de vendas, fazendo seus ávidos fãs aguardarem a lenta a tradução de seus 3 volumes, 1Q84 pecou ao criar um ambiente inverossímil, inconsistente e caricato, não conseguindo abordar de uma maneira mais problemática as perversidades de seus antagonistas.

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